"Oposição silenciosa"
Mesmo que devagar, vão submergindo as vozes daqueles que se
sentem e mostram descontentes, apreensivos e alarmados com o “deficit”
litúrgico e com os “cortes” desnecessários dos gestos tradicionais, do Papa
Francisco.
Vozes que, afinal, apenas sublinham e revelam a sua aposta
na ditadura do rubricismo e no fundamentalismo litúrgico, mais que na
“profecia” que os gestos do Papa vindo “de quase do fim do mundo” denotam e
oferecem à Humanidade!
Parece pecado mortal, nestas consciências presas ao
acessório mais que ao essencial, o facto do Papa não ter celebrado a Missa de
Quinta-Feira Santa na Catedral de Latrão; pecado mortal o Papa ter lavado os
pés a mulheres – quando as normas litúrgicas prescrevem que se deve fazê-lo
apenas a homens – e, espante-se, ousou lavar os pés a uma muçulmana! Como se
esta fosse menos mulher, menos humana, que qualquer outra, ou outro!
Vozes que intentam obrigar o Papa Francisco a escolher outra
“literatura” para meditação mais que o Evangelho, como seja o Código de Direito
Canónico e o Ritual dos Bispos e demais “calhamaços” de regras litúrgicas!
São vozes, que denunciam sintomas, revelam tendências e
forças daquilo a que alguns já apelidaram de “oposição silenciosa”, quando se
opõem aos gestos e opções do Santo Padre, esquecendo e não querendo ver a
beleza e o alcance desses mesmos gestos, “intra” e “extra” Igreja!
O Mandamento Novo de Jesus parece ter menos valor que as
normas, as regras, as tradições!
O Papa parece “valer” apenas quando nos “dá jeito”, quando
afirma aquilo que queremos ouvir, quando sublinha as nossas “verdades”
pessoais... Quando o não faz, já não é “Papa”, já não é “Cabeça da Igreja”, já
não é o verdadeiro “Sucessor de Pedro”!
Aqueles a quem o Papa Francisco lavou os pés na passada
Quinta-Feira Santa serão menos dignos que quaisquer outras pessoas, apenas
porque estavam num estabelecimento prisional e não na Basílica de S. João de
Latrão?!
Tenho a certeza que não; mais: creio firmemente que esses
jovens precisam tanto ou mais desses gestos que revelam uma clarividência do
que é o Evangelho, do que significa Mandamento Novo, do que se entende por
Cristianismo. São pessoas, que têm fome de carinho, de ternura, de vez, de voz,
de oportunidade, como todos aqueles que poderiam estar na catedral de Roma.
Tentar “travar” gestos, magistério, posturas, do Papa
Francisco, isso sim é “heresia”, “cisma”, “devaneio” espiritual.
Deixemos o Papa ser Papa, ou seja, Pastor da Igreja
universal, que usa os gestos, as palavras, que lhe saem do coração. Valerão
mais, imensamente mais, que as rúbricas litúrgicas, cada vez mais
incompreensíveis e distantes do coração dos homens.
Não tenhamos medo da “novidade” que o Espírito nos quer oferecer;
não fechemos o coração à beleza do
magistério desse homem vestido de branco proveniente de “quase do fim do
mundo” que, pelos vistos, tanto tem a ensinar e a recordar a este “centralismo
romano” que nos agrilhoa mais do que pensamos e nos damos conta...

