sábado, 2 de março de 2013

"Não desço da Cruz"!

Na verdade, a renúncia ao Pontificado, não é um "descer da Cruz" mas, ao contrário, e como então afirmava Bento XVI, é um continuar bem ao lado de Jesus Crucificado.
Não é uma desistência ou um abandono; é antes um forte e poderoso acto de amor para com Deus, a Igreja e os homens.
Quem como eu teve a graça de participar na última audiência geral, no passado dia 27 de Fevereiro, percebeu, obvia e categoricamente, o amor daquele coração naquele homem vestido de branco; por amor à Cruz, por amor à Igreja, por amor ao mundo que urge redenção, decide "apagar-se", "eclipsar-se", para na meditação, na oração, na contemplação, ser o discípulo de hoje que permanece junto do Senhor Crucificado por amor.
É óbvio que quem não vive nem se decide a viver na órbita do amor jamais entenderá a decisão ousada, corajosa, sofrida, do Papa emérito Bento XVI! 
Na verdade, quando todos estamos "mergulhados" num tempo onde quem e o que importa, quem e o que vale, é o poder, on"estrelato", as honras, o centralismo pessoalizado, a vã glória de mandar, ser confrontado com um exemplo único de despojamento, de humildade, de serviço incondicional, de entrega sem medida, é realidade que nos provoca, baralha, confunde e inquieta!
"A Igreja não é minha, não é nossa, é do Senhor"!
Palavras que, amiúde, tendemos a esquecer ou a menosprezar, buscando evidencialismos pessoais, acreditando que a obra de Deus depende de nós, convencendo-nos da nossa singular importância e determinação!
Mas esta "Barca" que percorre a História há mais de dois mil anos, não raras vezes balanceada com ventos e marés contrárias ao próprio Evangelho, permanece segura porque nas mãos do "Divino Timoneiro" que é o Senhor Jesus.
Em pleno Tempo de Quaresma, onde somos, de novo, desafiados à conversão, porque não olhar bem de frente esta atitude de Bento XVI para dela fazer "caminho", "aposta", "horizonte"?!
Ali, naquela Praça de S. Pedro, com milhares e milhares de outros peregrinos, busquei centrar o "olhar do coração" no que significava aquele último abraço ao mundo - visivelmente falando - no que me ensinavam aquelas últimas palavras pronunciadas como Sucessor de Pedro, no testemunho exemplar que me oferecia naquele sorriso e naquela entrega sem medida...
Como permanecer indiferente?
Como não sentir uma vertiginosa interpelação?
Como não valorizar e guardar aquele abraço, aquela presença, aquelas palavras?
Como não agradecer?
Aquele ancião, cansado, desgastado, decide, no silêncio e no "apagamento" da ribalta, ser a companhia de Jesus Crucificado, de Jesus Amor, orando pela Igreja para que esta seja rosto esplendoroso do seu Senhor.
Vio partir... e senti aquela comoção, aquela emoção, de quem está diante de gente "gigante", única, "poderosa", aos olhos de Deus.
Vio acenar uma última vez para mim, para cada "eu", para a Igreja, num gesto de cumplicidade e de paixão, de comunhão e de amor, que jamais esqueceremos aqueles que buscam a Deus e a Sua vontade.
Como então Bento XVI afirmava, servir e amar a Igreja comporta, por vezes, opções dolorosas, difíceis, sofridas...
Não, Bento XVI não desceu da Cruz. Ensinando à Igreja que esta não pode nem deve descer da Cruz; antes, nela permanecer pois que aí se encontra a "Árvore da Vida", a Fonte donde emana aquela paz e aquela felicidade que todos almejamos...
Pela última vez, também eu escrevo: "Obrigado Santo Padre".

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

"Se o grão de trigo não morrer..."

Pensei inicialmente publicar apenas a letra desta mesma canção; ela diz "tudo", ela expressa bem o "pulsar" da minha alma, o sentir do meu "ser"...
Humanamente definiria esta realidade como "Cansaço"! Simplesmente!
Porém, a dimensão da fé ergue e dá necessariamente sentido a esse cansaço e a essa fadiga, às "correrias" e às incontáveis solicitações que, diariamente, intento responder...
Muitas "vozes", muitas "perguntas", muitas "sms", muitos emails, muitas "frentes" em simultâneo, muitos desafios, muitas angústias, muitos "porquês", muitos, tantos, corações, vidas, histórias, a querer "um minuto", "uma conversa", uma "atenção", um "encontro", uma "reunião"...
Por vezes dou comigo a pensar e quase a concluir a minha absoluta impotência e incapacidade de responder ao solicitado e que urge responder categoricamente "não"!
Outras vezes, este cansaço, esta fadiga, este corre-corre, esta panóplia de inquietudes que me absorvem,   quase me convencem que é preciso "parar" - no sentido de colocar um stop - e reservar-me aao mais básico, a relativizar problemas e dificuldades alheias, a secundarizar apelos e vozes dos demais!...
E quando penso que está na "hora" de me convencer que o meu "lugar" não é este, no sentido em que seria preciso um outro alguém mais dinâmico, mais jovem, mais "sossegado", mais capaz?!!!
Mas, e ao mesmo tempo, lembro e relembro, esta mensagem que canta esta canção: sou chamado a ser "grão de trigo" lançado à terra, pisado, calcado, morto, a fim de que os outros tenham vida e a tenham em abundância...
Nas conversas adiadas, nos encontros por marcar, nas presenças não agendadas, nas escutas não realizadas, está por detrás uma simples razão: nalgum lugar, com um outro alguém, diante de outra realidade ou problema, perante determinado projecto ou necessidade premente, intento ser este "grão de trigo"...
Penso no que concluirão aqueles que "esperam" indefinidamente pela "sua vez"!
Como gostava de lhes mostrar, quase provar, que na minha humanidade, no meu ser de pastor, nesta vida concreta que sou e que levo, não desvalorizo ninguém, não menosprezo angústia alguma, não secundarizo "gritos de alerta" ou "corações apertados"; simplesmente não sei mais, não consigo mais...
Não é um "queixume" esta minha "escrita" de hoje; ao contrário, é este feliz partilhar da consciência de que me sinto seguidor de um Mestre que morre na Cruz por amor, e que outro não há-de nem pode ser o meu caminho. E ainda bem que assim é. É este "dizer" por palavras simples que teimo ser "semente" lançada à terra, "grão de trigo" que há-de morrer - cansar-se, gastar-se, desgastar-se - até ao fim, mesmo que não consiga "agarrar" e abraçar a todos.
S. Paulo afirmava que quando se sentia fraco é que era forte; peço a Deus essa fé, essa consciência. Porque me sinto demasiadamente pequenino e fraco para responder ao tanto que me é pedido. Rezo para que, diante da impossibilidade de fazer tudo quando gostava de fazer, diante da impotência de corresponder ao imenso que me é solicitado eu consiga agradecer cada dia, cada noite, por este mistério que me envolve: sou apenas e tão somente um pequenino grão de trigo que há-de morrer cada vezc mais na alegria da fé, na paixão por Jesus de Nazaré...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

"Geografia do Coração"


Em cada noite, após o jantar, uma pequena reunião entre todos para fazer "balanço" do dia vivido e compartilhado faz parte do "programa" desta nossa "aventura"; hoje fizemos a última...
"Gratidão" foi, de facto, a palavra de ordem! Estes corações perceberam que foi por amor, com dedicação, com fé, que se sonharam, prepararam e viveram cada um destes dias tão intensos e tão cúmplices...
Alguém dizia textualmente: "quero agradecer de forma particular ao "amigo especial" que o Pe. António tem, esta oportunidade que me foi dada"! E sei, e senti, que não foram palavras saídas da razão ou da inteligência; foram a manifestação da verdade daquele coração que sintetizava o pulsar de cada um dos outros corações.
Nestes rostos sorridentes, nestes olhares mais radiosos, nestes corações mais cheios, nestas vidas mais esperançadas e confiantes, como não sentir, ver, acreditar, na presença d'Esse Amigo especial, d'Esse Deus que é Amor, n'Esse companheiro de viagem que é o Senhor Jesus, "escondido", mas presente, nestas mesmas vidas tão "calejadas" por solidões, abandonos, misérias, medos?...
Regressaremos amanhã. Mais ricos. Mais cheios. Mais cúmplices. Mais amigos. Mais decididos. Mais ousados...
E, como escutei um dia, "ninguém é assim tão pobre que não tenha nada para dar"! E apesar da "estrada" enviesada que as suas vidas já deram, na verdade, daquela pobreza dos passos trilhados podemos e conseguimos - pude e consegui - ter e reter tanto, imenso...
Um destes corações dizia-me há pouco: veio como um conhecido e levo-o como um amigo. E isto é muito bom. Muito bom mesmo. Vale mais, vale imensamente mais do que qualquer outro tesouro que possa conter o nosso coração.
Saber que Deus Se serve do pouco que temos e somos, acreditar que Ele nos pede apenas os  pobres pães e peixes que possuímos para que Ele mesmo possa fazer a multiplicação da alegria e da esperança, da amizade e da ternura, da força dos sentimentos e da riqueza do coração... é algo de absolutamente grandioso.
Gente com um passado "negro", "desacreditado" diante de tantos, onde não estão, obviamente isentos de responsabilidades, mas que hoje, agora, não precisam de ser calcados, pisados, julgados, menosprezados, por passos e tempos que já não podem fazer com que não aconteçam!
Agora, hoje, é o tempo, é a hora da esperança.
Porque é de esperança que estes corações precisam; é de "impulsos" de coração, de valorização dos seus dons e talentos, que estas vidas mais precisam.
Porque são pessoas, filhos do Deus em que digo acreditar, irmãos do Senhor Crucificado que afirmo adorar, beneficiários dos frutos da Ressurreição em que teimo professar.
Senti que fui bom samaritano; senti que pude lavar-lhes os pés; senti que "toquei" "chagas", toquei "lepras", toquei "coxos" e "paralíticos"! Sim, mas também senti - e tão bem - que estes corações, conseguem melhor que eu próprios ser exemplos d'Esse Bom Samaritano da Humanidade. Senti e experienciei que me lavaram os pés a mim. Senti e vivi a força dos seus corações, ao seu jeito, trespassados mas capazes e decididos a amar e a servir...
E quem aprendeu fui eu; e quem foi ajudado fui eu; e quem beneficiou fui eu; e quem foi amado  fui eu...
Porque Deus é assim, sabe sempre arrebatar, surpreender, conquistar... Mesmo naqueles que d'Ele não falam desassombradamente, por palavras, consegue estar presente, neles habitar, por eles amar, com eles servir, em cada um deles permanecer para ser servido, amado e glorificado.
Continuarei a rezar para que estes sorrisos não se desvaneçam, para que estas esperanças não se esbatam nem se extingam...
Rezem comigo. Rezem por mim. Rezem por eles...
E um gigante bem haja a todos os que nos "acompanharam" à distância geográfica dos mapas, mas sempre por perto na "geografia do coração".


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