"Se o grão de trigo não morrer..."
Pensei inicialmente publicar apenas a letra desta mesma canção; ela diz "tudo", ela expressa bem o "pulsar" da minha alma, o sentir do meu "ser"...
Humanamente definiria esta realidade como "Cansaço"! Simplesmente!
Porém, a dimensão da fé ergue e dá necessariamente sentido a esse cansaço e a essa fadiga, às "correrias" e às incontáveis solicitações que, diariamente, intento responder...
Muitas "vozes", muitas "perguntas", muitas "sms", muitos emails, muitas "frentes" em simultâneo, muitos desafios, muitas angústias, muitos "porquês", muitos, tantos, corações, vidas, histórias, a querer "um minuto", "uma conversa", uma "atenção", um "encontro", uma "reunião"...
Por vezes dou comigo a pensar e quase a concluir a minha absoluta impotência e incapacidade de responder ao solicitado e que urge responder categoricamente "não"!
Outras vezes, este cansaço, esta fadiga, este corre-corre, esta panóplia de inquietudes que me absorvem, quase me convencem que é preciso "parar" - no sentido de colocar um stop - e reservar-me aao mais básico, a relativizar problemas e dificuldades alheias, a secundarizar apelos e vozes dos demais!...
E quando penso que está na "hora" de me convencer que o meu "lugar" não é este, no sentido em que seria preciso um outro alguém mais dinâmico, mais jovem, mais "sossegado", mais capaz?!!!
Mas, e ao mesmo tempo, lembro e relembro, esta mensagem que canta esta canção: sou chamado a ser "grão de trigo" lançado à terra, pisado, calcado, morto, a fim de que os outros tenham vida e a tenham em abundância...
Nas conversas adiadas, nos encontros por marcar, nas presenças não agendadas, nas escutas não realizadas, está por detrás uma simples razão: nalgum lugar, com um outro alguém, diante de outra realidade ou problema, perante determinado projecto ou necessidade premente, intento ser este "grão de trigo"...
Penso no que concluirão aqueles que "esperam" indefinidamente pela "sua vez"!
Como gostava de lhes mostrar, quase provar, que na minha humanidade, no meu ser de pastor, nesta vida concreta que sou e que levo, não desvalorizo ninguém, não menosprezo angústia alguma, não secundarizo "gritos de alerta" ou "corações apertados"; simplesmente não sei mais, não consigo mais...
Não é um "queixume" esta minha "escrita" de hoje; ao contrário, é este feliz partilhar da consciência de que me sinto seguidor de um Mestre que morre na Cruz por amor, e que outro não há-de nem pode ser o meu caminho. E ainda bem que assim é. É este "dizer" por palavras simples que teimo ser "semente" lançada à terra, "grão de trigo" que há-de morrer - cansar-se, gastar-se, desgastar-se - até ao fim, mesmo que não consiga "agarrar" e abraçar a todos.
S. Paulo afirmava que quando se sentia fraco é que era forte; peço a Deus essa fé, essa consciência. Porque me sinto demasiadamente pequenino e fraco para responder ao tanto que me é pedido. Rezo para que, diante da impossibilidade de fazer tudo quando gostava de fazer, diante da impotência de corresponder ao imenso que me é solicitado eu consiga agradecer cada dia, cada noite, por este mistério que me envolve: sou apenas e tão somente um pequenino grão de trigo que há-de morrer cada vezc mais na alegria da fé, na paixão por Jesus de Nazaré...