terça-feira, 22 de janeiro de 2013

"Viajantes, peregrinos, caminhantes?!!! Apenas Deus sabe...

Chove em Barcelona... o frio teima em permanecer; e também aqui a noite já desceu sobre a terra...
Mas - e há sempre um (ou mais) mas - nestes corações "aventureiros", o frio não assusta, a chuva não nos amedronta e a noite será sempre prenúncio de um novo dia...
Na verdade, como é bom, como sabe bem, ver e rever, sentir e pressentir, sorrisos e sonhos "ressuscitados" pela força da cumplicidade e do carinho, pela "alavanca" da amizade e da relação de proximidade, onde cada um, se esforça, como pode e como sabe, para se tornar "Um" com cada outro...
Cansados da viagem - levantámo-nos pelas 4h da madrugada - mas ainda assim dispostos e desejosos de continuar juntos, unidos, em conversas e partilhas com mais ou menos profundidade, em presenças que sabemos e acreditamos reforçam laços, sublinham sonhos e projectos, alicerçam convicções e vontades de mudança...
Ser Padre, ser Pastor, no meio, no seio, de um grupo assim - os residentes da Casa Jubileu - é bênção de Deus, sem dúvida alguma; sentir e saber ser presença de Deus diante de homens com histórias tão diversas ou distintas, unindo-as apenas o sofrimento, a solidão, a rejeição, frutos, verdade também, de caminhos que livremente trilharam, é algo de grandioso, de gratificante.
Sem falar ou ter de falar explicitamente de Deus, Ele é a grande certeza da nossa presença nestas terras da Catalunha. Deus é sempre a referência implícita e explícita destas nossas "férias", deste tempo passado em conjunto e em comunhão.
Para lá da chuva, do frio ou da noite, há um "sol", uma "luz", um "calor" que nos impele e desafia, que nos chama e até nos convence que o caminho a seguir será sempre o do coração. E das maravilhas que ele é capaz de realizar, dos milagres mesmo que ele consegue operar.
Mais crentes ou mais descrentes, naquele silêncio comum na Catedral que hoje visitámos com tempo, fomos bem mais que turistas; na busca de momentos de "isolamento" individual como não ver e acreditar que são corações que, ao seu jeito, como sabem e como sentem, rezam, pedem, agradecem, imploram, entregam-se?...
Na reunião da noite que fazemos diariamente, creio firmemente que a palavra "obrigado" repetidamente proferida não é um "refrão" sem sentimento é, ao contrário, verdade que pulsa em cada um dos corações...
Amanhã iremos ao Santuário de Nossa Senhora de Monserrate, Padroeira da Catalunha.
Decerto um encontro com a Mãe de Deus e a Mãe de cada um destes homens que, ao seu jeito, experienciaram já a dimensão da Cruz mesmo sem o saber. Decerto um encontro entre uma Mãe que desde sempre olha por estes seus filhos e por eles se alegrará quando os vir e sentir bem mais perto de si...
E lá, prometo, rezaremos todos por todos quantos não desistiram de acreditar que "só o amor pode salvar o mundo"...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

"Vizinhos com Alma"


Queridos Amigos, queridos "Vizinhos com Alma",
como escreve o poeta, "cada vez que o homem sonha, o mundo pula e avança"...
Pois é nesse sentido e com essa certeza e convicção que vos dirijo a todos estas palavras; porque acredito que este nosso mundo, esta nossa sociedade, pode girar, pular, transformar-se, avançar... 
Porque acredito que cada um de vós tem um coração gigante, porque acredito que a cada um não é indiferente a indignidade e a miséria, a pobreza e as angústias de cada outro, porque acredito que não temos de ser uma terra de gente anónima, nasce o projecto "VIZINHOS COM ALMA".
OS "Vizinhos com Alma" são homens e mulheres, jovens e crianças, que não se conformam com as situações de carência e miséria mesmo, a que estão vetadas demasiadas pessoas, como nós! São pessoas com um coração e uma boa vontade que, unidos, solidários, generosos, sonhadores, realistas, percebem, sentem e sabem que podem ajudar a "pular" e a "girar" esta realidade que nos envolve.
Os "Vizinhos com Alma" são corações que atentos às necessidades dos muitos que se cruzam connosco, precisam da nossa ajuda e da nossa solidariedade, da nossa generosidade e da nossa   fraternidade.
Os "Vizinhos com Alma", são pessoas, como cada uma de vós, que apenas uma vez por mês é desafiada a partilhar géneros alimentares, produtos de higiene, artigos para bebés, para depois serem recolhidos e entregues e partilhados com todos aqueles que vivem situações de emergência social.
Os "Vizinhos com Alma" são gente simples que acredita que pode ter uma "palavra", uma "acção", a dizer e a fazer, neste momento da História, na partilha de bens que se tornam depois verdadeiro tesouro a quem deles beneficiar.
Os "Vizinhos com Alma" são pessoas como eu, como tu, que na nossa humildade e na nossa generosidade partilhadas, conseguimos que outros, muitos outros, possam sentir-se ajudados, acolhidos, amados, nesta fase de vida mais difícil em que se encontram.
Uma vez por mês, um "Responsável de Zona" receberá os bens doados por cada um dos "Vizinhos com Alma"; depois esses mesmos bens serão entregues ou recolhidos pelo nosso Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos, que com os seus responsáveis, técnicos e voluntários os farão chegar a famílias, pessoas concretas que sabemos, muito beneficiarão destes nossos gestos de partilha...
Não precisamos de dar "muito"; precisamos de dar o que nos ditar o coração: muitas migalhas unidas transformam-se num enorme pão; assim será o projecto "VIZINHOS COM ALMA". E quantos mais formos, quantos mais corações e mais boas vontades se unirem a esta causa, maior o “pão” conseguido, maior o número e a qualidade de ajuda prestada aos que mais precisam...
Os “Vizinhos com Alma” não têm de ter raça, cultura específica, credo religioso, convicção política definidas; têm somente que ter um coração que sente, um coração que pulsa, uma sensibilidade que entenda que a nossa sociedade, a nossa Comunidade não está condenada à solidão, à fome, à miséria, ao anonimato, ao desespero, às lágrimas derramadas, escondidas, envergonhadas! 
Os “Vizinhos com Alma” sou eu e és tu. Pessoas simples, mas ousadas na certeza de que, juntos, fazemos pular e girar este nosso mundo...
Organizado pelo Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos, este projecto não tem fronteiras, precisamente porque a caridade, a justiça, a fraternidade, não têm igualmente geografias determinadas... 
Com cada um, com todos, podemos – e conseguiremos – fazer com que a realidade FOME seja banida desta nossa terra, seja realidade terrível e tremenda que não “acampa” nesta nossa terra de Carcavelos... 
Vamos a isso?
Dispostos a abrir o coração?
Decididos a tornarmo-nos "Vizinhos com Alma"?
É "Hoje", é "agora", que mudamos o mundo...


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

"Domus Spes"

Este é já o nome que está destinado ao novo projecto que nascerá muito breve na nossa Paróquia de Carcavelos; será a continuação daquele primeiro denominado "Esperança de Recomeçar".
Este é uma importante e derradeira prestação de serviços a muitos "Sem-abrigo" que a nós recorrem em busca de, rigorosamente, tudo!
À partida pensamos e já decidimos - nas nossas cabeças - que os assim "rotulados" "Sem-abrigo" são pessoas (para muitos já nem isso são!!!) com os traços e as marcas da toxicodependência, do alcoolismo, do HIV, dos sub mundos da violência, da delinquência, etc!
Alguns sê-lo-ão, certamente; porém, muitos, muitos mesmo, nada têm a ver com essas realidades "madrastas" da dignidade humana. Muitas dessas vidas são homens e mulheres de coração "gigante" a quem a vida não "sorriu" a determinado momento; são homens e mulheres que, por desgraça, sem família, sem trabalho, sem capacidade de se governarem minimamente, caíram nestas "malhas" tremendas e terríveis da solidão, rejeição, abandono, fome, nudez interior e exterior, incapazes de, sozinhos, reerguerem a esperança e lutarem pela dignidade que têm direito.
Há já vários anos que no Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos, nesse projecto "Esperança de Recomeçar" nos dedicamos ao acolhimento dessas pessoas. O pão de cada dia não lhes é negado; a oportunidade de higiene diária, vestirem-se com dignidade, apoios na busca de emprego e na possível saída dessa situação degradante em que se deixaram envolver, é ajuda que todos os dias procuramos oferecer e partilhar...
Porém, porque não é fácil a resolução dos múltiplos problemas que estas vidas comportam, porque muitos deles há já vários anos que "perseveram" nesta angustiante realidade, torna-se bastante difícil a abertura de uma "porta" que os liberte definitivamente destes grilhões opressores!
No entanto, nestes tempos que nos são dados viver, não é difícil encontrar pessoas que se percebem sem nada, sem trabalho, sem casa, sem tecto, sem pão, de um momento para o outro! Gente que um dia até ajudou outra gente em dificuldades e que hoje, são eles mesmo que nos procuram, mendigando pão, esperança, sonhos, dignidade!
Alguns, sem se aperceberem, engrossam esta lista crescente de "Sem-abrigo" nas ruas, esquinas, praças e vielas das nossas cidades e vilas! Homens e mulheres com rostos ainda não marcados pela indignidade a que se viram caídos mas que, se nada se fizer, atempadamente, depressa se tornarão rostos "cansados", "abatidos", "vazios"!!!
A "Domus Spes" será verdadeiramente uma "Casa da Esperança". Será um espaço, um tecto, uma casa, um acolhimento, um abraço, um carinho que enquanto for preciso, e até serem capazes de se tornarem novamente "livres" e "capazes" retornem à normalidade da vida, os retirarão da vida da rua!
Em muitos casos, esta mesma "vida na rua" é um "parêntesis" horrível e tremendo que lhes acontece na história! Se nada se fizer, se os habituarmos e nos habituarmos a vê-los viver "na rua", depressa esse mesmo "parêntesis" se tornará em algo de definitivo. Terrivelmente definitivo!
É isso que pretendemos travar; é essa exclusão, essa marginalização, essa solidão, definitivas e indignas de cada pessoa humana que ousamos enfrentar na medida das nossas possibilidades...
Breve, muito breve, se Deus quiser, esta "Domus Spes" terá os seus primeiros residentes. E eles, porque somos cristãos, também são Cristo para nós: "tudo o que fizerdes a um dos mais pequeninos dos Meus irmãos é a Mim mesmo que o fazeis" (cf Mt 25).
E esta "Casa da Esperança" será causa de alegria do nosso Deus, da nossa Igreja, desta nossa Comunidade, da Fé que nos alimenta e desafia a ir sempre mais além...

Porque somos responsáveis pela edificação da "Civilização do amor", porque não podemos fechar os olhos à realidade que nos envolve, porque importa saber inovar e crescer na "ousadia da caridade", como lhe chama o Senhor Patriarca, nascerá a "Domus Spes"... Mesmo Casa de Esperança, porque ninguém está, para sempre, condenado à tristeza, ao abandono, à solidão, ao esquecimento, à banalidade dos nossos gestos e das nossas atenções...
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