sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

"Domus Spes"

Este é já o nome que está destinado ao novo projecto que nascerá muito breve na nossa Paróquia de Carcavelos; será a continuação daquele primeiro denominado "Esperança de Recomeçar".
Este é uma importante e derradeira prestação de serviços a muitos "Sem-abrigo" que a nós recorrem em busca de, rigorosamente, tudo!
À partida pensamos e já decidimos - nas nossas cabeças - que os assim "rotulados" "Sem-abrigo" são pessoas (para muitos já nem isso são!!!) com os traços e as marcas da toxicodependência, do alcoolismo, do HIV, dos sub mundos da violência, da delinquência, etc!
Alguns sê-lo-ão, certamente; porém, muitos, muitos mesmo, nada têm a ver com essas realidades "madrastas" da dignidade humana. Muitas dessas vidas são homens e mulheres de coração "gigante" a quem a vida não "sorriu" a determinado momento; são homens e mulheres que, por desgraça, sem família, sem trabalho, sem capacidade de se governarem minimamente, caíram nestas "malhas" tremendas e terríveis da solidão, rejeição, abandono, fome, nudez interior e exterior, incapazes de, sozinhos, reerguerem a esperança e lutarem pela dignidade que têm direito.
Há já vários anos que no Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos, nesse projecto "Esperança de Recomeçar" nos dedicamos ao acolhimento dessas pessoas. O pão de cada dia não lhes é negado; a oportunidade de higiene diária, vestirem-se com dignidade, apoios na busca de emprego e na possível saída dessa situação degradante em que se deixaram envolver, é ajuda que todos os dias procuramos oferecer e partilhar...
Porém, porque não é fácil a resolução dos múltiplos problemas que estas vidas comportam, porque muitos deles há já vários anos que "perseveram" nesta angustiante realidade, torna-se bastante difícil a abertura de uma "porta" que os liberte definitivamente destes grilhões opressores!
No entanto, nestes tempos que nos são dados viver, não é difícil encontrar pessoas que se percebem sem nada, sem trabalho, sem casa, sem tecto, sem pão, de um momento para o outro! Gente que um dia até ajudou outra gente em dificuldades e que hoje, são eles mesmo que nos procuram, mendigando pão, esperança, sonhos, dignidade!
Alguns, sem se aperceberem, engrossam esta lista crescente de "Sem-abrigo" nas ruas, esquinas, praças e vielas das nossas cidades e vilas! Homens e mulheres com rostos ainda não marcados pela indignidade a que se viram caídos mas que, se nada se fizer, atempadamente, depressa se tornarão rostos "cansados", "abatidos", "vazios"!!!
A "Domus Spes" será verdadeiramente uma "Casa da Esperança". Será um espaço, um tecto, uma casa, um acolhimento, um abraço, um carinho que enquanto for preciso, e até serem capazes de se tornarem novamente "livres" e "capazes" retornem à normalidade da vida, os retirarão da vida da rua!
Em muitos casos, esta mesma "vida na rua" é um "parêntesis" horrível e tremendo que lhes acontece na história! Se nada se fizer, se os habituarmos e nos habituarmos a vê-los viver "na rua", depressa esse mesmo "parêntesis" se tornará em algo de definitivo. Terrivelmente definitivo!
É isso que pretendemos travar; é essa exclusão, essa marginalização, essa solidão, definitivas e indignas de cada pessoa humana que ousamos enfrentar na medida das nossas possibilidades...
Breve, muito breve, se Deus quiser, esta "Domus Spes" terá os seus primeiros residentes. E eles, porque somos cristãos, também são Cristo para nós: "tudo o que fizerdes a um dos mais pequeninos dos Meus irmãos é a Mim mesmo que o fazeis" (cf Mt 25).
E esta "Casa da Esperança" será causa de alegria do nosso Deus, da nossa Igreja, desta nossa Comunidade, da Fé que nos alimenta e desafia a ir sempre mais além...

Porque somos responsáveis pela edificação da "Civilização do amor", porque não podemos fechar os olhos à realidade que nos envolve, porque importa saber inovar e crescer na "ousadia da caridade", como lhe chama o Senhor Patriarca, nascerá a "Domus Spes"... Mesmo Casa de Esperança, porque ninguém está, para sempre, condenado à tristeza, ao abandono, à solidão, ao esquecimento, à banalidade dos nossos gestos e das nossas atenções...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

"Igreja de Cátedra/Igreja de bastão peregrino, companheira de cada homem!"

Um tempo difícil este que nos é dado viver!
Uma crise tremenda, a níveis vários, que traz consequências inimagináveis, também elas de variadas formas e manifestações! Desesperos, desalentos, cansaços, medos, derrotismos, dúvidas, "cinzentos" que vão pautando o dia-a-dia de tantos e tantas homens e mulheres desiludidos já da bela aventura da vida!!!
Segundo afirmam quase todos os analistas, comentaristas e demais opinadores, o ano de 2013 não se apresenta com sérios optimismos e credíveis melhorias na vida de enormes multidões de corações!
Que pensar? Que fazer? Como agir e reagir, diante destas realidades?!
Qual o nosso "papel" enquanto cristãos, enquanto Comunidades, enquanto Igreja?
Creio, sinceramente, que, enquanto discípulos de Jesus, enquanto Igreja de Cristo, importa sermos homens e mulheres, Família de Deus, que está bem ao lado, bem no centro, de toda esta realidade, sem evasões, sem medos nem olhares enviesados e deturpadores da história real. Sermos esta Igreja que, como afirma o Concílio, assume com todas as suas forças e capacidades essa verdade bela e ousada que nos ensina que nada do que é humano nos é distante, estranho ou ambíguo.
Nesta "hora" da História, a Igreja que somos, as Paróquias que construímos, tem de ser bem mais Mãe do que Mestra! Havemos de ser uma Igreja que se abeira de cada um dos mais pobres e desesperados deste tempo, mas que oferece bem mais do que palavras "bonitas"; antes com projectos, acções, que sustêm o homem decaído, que lhes cura as feridas com o bálsamo da esperança, da ternura, do afecto, do acolhimento.
Havemos de perceber e entender que este não é o momento da "Cátedra" mas o do "bastão de peregrino" que se faz companheiro e bom samaritano de cada homem.
Esta será sempre a melhor tarefa da evangelização, da "nova evangelização" tanto apregoada por aí... este será sempre o melhor caminho para nos tornarmos credíveis, enquanto Igreja de Cristo. Não o caminho dos discursos, dos sermões, das palavras belas mas ocas e vãs; antes o caminho da proximidade, da fraternidade, da empatia, da presença solidária, do abraço partilhado, da mão aberta, do olhar compreensivo, da ternura compartilhada...
Mais que nunca, esta é a "hora"" do amor, do Mandamento Novo; diante das encruzilhadas que se apresentam diante do homem contemporâneo, "perdido", "sozinho", "vagabundeando" pelas sendas dos desesperos, das incredulidades, do desemprego, dos despedimentos, dos inúmeros momentos de "não sentido", esta é a "hora" de sermos a Igreja ao jeito de Cristo, feito "um" com cada história, cada vida, cada coração... a fim de não nos reduzirmos a uma Igreja de palavras, mas sermos um Povo de amor, de caridade, de Evangelho vivido e partilhado...

domingo, 30 de dezembro de 2012

"Querer e crer..."

Nos dias que vamos vivendo o valor da "Gratidão" já não é algo de habitual!
Por isso mesmo, tentar recentrar e revitalizar essa atitude é algo de importante e determinante. A nível da sociedade e a nível da própria fé.
Esse era o "mote", a "razão" primeira da nossa Peregrinação a pé a Fátima, entre os dia 26 e 29 deste mês. Imediatamente depois das celebrações natalícias, decidimos, de novo, ir junto de Nossa Senhora agradecer o seu "Sim" que nos conseguiu e alcançou o Salvador do mundo.
Sim, poderíamos fazê-lo noutra altura; sim poderíamos tê-lo feito de outra maneira...
Mas decidimos, em grupo, em família, em Comunidade, mesmo que nos custasse - e custou bastante - caminhar a pé rumo ao Altar do mundo e fixarmos o nosso olhar naquele outro tão doce, tão sereno, tão meigo, tão próximo, de Maria...
Basta querer e crer, para sermos capazes de mudar o mundo que nos envolve.
Foi esta a "verdade" que redescobrimos nesta caminhada; basta querer agradecer e crer que nesse agradecimento nos tornamos mais fortes, mais audazes, mais decididos, mais comprometidos, que tornaremos a Igreja que somos, a Comunidade que construímos em Reino de Deus mais visível, atraente, apaixonante...
Com temperaturas a rondar os zero graus, logo pelas manhãs, com os pés doridos, os músculos a contorcer-se, as bolhas a teimar impôr-se, a chuva a intentar travar o avanço dos passos, nada conseguiu roubar os sorrisos, a determinação, a vontade, de dizer "Obrigado" à Mãe de Deus e pedir-lhe que nos ensine, como ela, esse mesmo "Sim" no "querer" e no "crer" que com Jesus a alegria não é efémera, passageira, não é pontual mas, ao contrário, se transforma e, algo de definitivo, de completo, derradeiro...
Poder, podemos todos!
Querer é apenas de alguns!
E querer, crendo simultaneamente, é o caminho a prosseguir nos nossos ambientes, diante de quantos privam connosco, com todos os que nos escutam, vêem e connosco privam...
Mais uma vez experienciámos a força da oração, a importância da Comunidade, a beleza da fé, a importância de nos sabermos e sentirmos responsáveis pela vida da própria Igreja.
"Querer" e "Crer" que o mundo novo, a Igreja mais santa, depende de cada um de nós, da nossa entrega e da nossa corresponsabilidade foi algo que trouxemos guardados nestes nossos corações.
Deus, de facto  não escolhe os capacitados; Deus capacita aqueles que escolhe. E nós acreditamos que mais uma vez o Senhor da Vida, o "fruto bendito" de Maria nos capacita para sermos, mais e melhor, jovens e adultos que "querem" e "crêem" na força da gratidão a Deus diante dos dons, tantos, com que nos presenteia.
"Bendito seja Deus que reuniu no amor de Cristo".

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

"Natal diferente"

Estamos em Tempo de Natal. Tempo de graça e de luz, tempo de paz e de vida. Tempo de bênção e de gratidão.
"Um menino nos foi dado; um filho nasceu para nós": razão indiscritível para louvarmos, adorarmos, agradecermos essa "teimosia" do Céu em abraçar esta nossa humanidade e a desafiar a ir mais longe, mais alto, mais humana e, portanto, mais divina.
Um Deus feito Carne, um Deus feito "História" na nossa própria história, é algo de absolutamente "impensável" e "indizível"...
Mistério que apenas se apreende se ousarmos acreditar e "entrar" na "órbita" do amor; um amor que não é palavra, não é poesia ou romance, não é boa intenção ou mera filosofia interior; antes, é vida, é gesto, é abraço, é sorriso, é cumplicidade, é fraternidade, é comunhão... com cada outro que peregrina connosco neste mundo e nesta hora da história.
Tive a graça de ter vivido intensamente esse mistério de amor concreto, amor feito gesto, amor tornado acção.
A Noite de Consoada, o Dia de Natal, foi vivido de "mãos dadas", de "corações dados" a pessoas que apelidamos - mais uma vez a nossa lógica a prevalecer - de sem-abrigo. Mais novos ou mais velhos, à volta de uma mesa, recheada de "caridade" e de "ternura", celebrámos e vivemos Natal. Mais novos ou mais velhos, com vidas que se recusam a desistir da vida verdadeira e em dignidade, com experiências de amargura e solidão, de abandono e rejeição, perderam medos e suspeitas, timidez e preconceitos, e aquele velho salão paroquial transfigurou-se, verdadeiramente, em "Gruta de Belém". Mais de quarenta corações, irmanados na dor e na dureza do caminho percorrido, porque a vida lhes tem sido madrasta, pusemos para trás toda a "negatividade" que nos pudesse envolver e, em nome do Amor que visitava esta nossa Humanidade e que em Igreja iríamos celebrar, ousámos partilhar as vidas, os corações, os medos, os sonhos...
Foram uns dias diferentes estes; uma celebração do Natal que extravasou em intensidade a liturgia e os votos habituais de boas-festas; estar rodeado destes homens e mulheres, nos dias 24 e 25 de Dezembro, nestas histórias "envoltas em panos", em "mantas", em "cobertores", fazendo-me "um" com cada "um", lembrando, em gestos e atitudes, mais que em palavras, que Deus estava ali, fazia-Se Homem como eu e como eles, como nós, por Amor, é algo que tão depressa - creio que nunca mais mesmo - não esquecerei.
Aquelas noites, deixaram as suas "grutas", as suas "tendas", os seus "barracos", mais ou menos imundos e frios, despidos e chorados, e juntos, naquele salão paroquial aquecidos pela unidade e pelo sentimento de se saberem pessoas, iguais, adormeceram de sorriso estampado nos rostos...
Celebrar a Missa do Nascimento de Jesus, após uma experiência como esta, tem outro "sabor"; falar de amor e de caridade, de fraternidade e de Deus feito Homem como nós, faz outro sentido e oferece muito mais credibilidade.
Naqueles mais "pobres", naquelas vidas habituadas à solidão, à rejeição, naquelas vidas que vão perdendo esperanças, dignidade, sonhos, capacidades, vontade de sorrir e de acreditar, poder acender-lhes uma pequena "chama" de esperança, é sinal imenso do poder de Deus feito Menino, é bênção de um Senhor que nos ensina, de novo, que em cada coração há um pedaço de eternidade, um desejo de Céu, por mais esquecido ou escondido que esteja...
O Menino nasceu no mundo. O Menino nasceu no coração de incontáveis corações certamente... Mas nasceu também nestes homens e mulheres, sofridos, chorados, sujos, mas grandes, mas irmãos, mais companheiros de viagem rumo ao Céu que acreditamos.
Natal é compromisso com a História. De cada outro. E também destes corações.
Natal é teimar em humanizar este tempo, este mundo, esta Igreja.
Natal é ser amor ao jeito do Amor.
Não um dia, ou dois, mais sempre... E o Natal vem reforçar essa possível perseverança de que o "hoje" pode ser mais belo, ter mais dignidade, pulsar mais verdade...
"Sem-abrigo" como nós lhes chamamos, mas muitos deles com um coração bem maior que muitos abrigados das nossas cidades!
Como Jesus Menino, "sem-abrigo", pois que "não havia lugar para Ele na hospedaria"!


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

"É possível o "impossível"..."

Mais uma vez fizemos hoje o almoço de Natal do Projecto "Esperança de Recomeçar" - um trabalho de acolhimento e assistência aos sem-abrigo do nosso Concelho de Cascais, no Centro Comunitário da nossa Paróquia de Carcavelos.
Um tempo e um espaço onde tentámos proporcionar a cada um dos presentes algo de novo e de diferente, algo de nobre e de único, para além da sua triste condição de pessoas sem tecto, sem trabalho, sem famílias, grande parte, sem sonhos nem esperanças, muitos deles...
Mas este ano, podemos afirmar, apesar de ter sido um momento fantástico, onde brotaram sorrisos, palmas, alegria, este Almoço de Natal foi apenas um "prelúdio" da iniciativa que vamos levar a cabo na Noite Santa de Natal e no próprio Dia de Natal.
Conseguiu-se que a Consoada este ano, para estes homens e mulheres, fosse uma realidade; não terão que estar sozinhos, chorosos, lembrando outra noites de 24 de Dezembro bem mais festivas e alegres; este ano, nessa Noite e nesse Dia, todos eles terão a Ceia de Natal, pernoitarão no salão paroquial da nossa igreja e terão almoço e jantar no Dia de Natal.
Houve corações que perceberam que aquela rejeição, aquela solidão, aqueles "nãos" à Família de Nazaré não podem mais ser repetidos na vida de ninguém! Houve corações que entenderam que Natal é deixar-se espantar pela "magia" da simplicidade e da humildade e se predispuseram a abdicar das suas ceias pessoais, familiares, para se sentarem à mesa com estes homens e mulheres, enxovalhados da vida e esquecidos por grande parte da sociedade e, não raras vezes, da Igreja!
Aquela Noite Santíssima, antes da celebração da Missa do "Galo", onde nos alegraremos com o Nascimento do Menino Deus, será preenchida com essa comunhão de mesa, de presença, de cumplicidade, de ternura, para com esses corações mais pobres e vazios. E isso é sinal e testemunho de uma grandeza gigante, de uma caridade imensa, de uma fé enorme.
Fazermo-nos "um" com os mais pobres naquela Noite, será preciosa ajuda para a celebração do Mistério de Amor que é o Natal de Jesus Cristo.
Será uma celebração com os traços da verdade e da caridade, da fraternidade e do serviço, da doação e do despojamento... afinal, como naquele primeiro Natal.
Cada um de nós poderá ser "Maria" e "José" ao abraçarmos, ao acolhermos, ao "aquecermos", ao "guardarmos" esses corações sozinhos, frágeis, magoados, sangrados... Uma simples presença que fará toda a diferença...
No meio de demasiados "cinzentos" e "escuridões" que pautam o mundo e obscurecem por vezes a Igreja, é muito bom olhar e sentir e pressentir que um mundo novo e levanta, uma nova civilização se ergue, uma Igreja outra irrompe...
Na verdade, de novo, a certeza dessa "verdade" maior: quando Deus quer e o homem sonha, a obra nasce... mesmo.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

"Bem Aventurados"

Empurrado pela multidão que se juntava

Chegou o Senhor Jesus à sede da ONU!

Tinha o rosto destruído do desempregado,
Os ombros curvados dos mineiros,
Os passos inseguros dos refugiados,
O olhar triste dos perseguidos,
O coração sedento dos adolescentes,
A inquietação própria de qualquer jovem,
As rugas silenciosas e solitárias de incontáveis idosos,
As preocupações sublinhadas dos pais e mães que o são de verdade,
Os desesperos de quantos se tornaram, sem saber como, sem-abrigo das nossas cidades...

Não vinha recomendado por ninguém,
Apenas as lágrimas dos homens O empurrava...
A justiça e a verdade em relação aos mais pobres e fracos era a Sua força.

Diante dos "senhores" e dos "poderosos" das Nações, voltou a repetir:
"Bem aventurados os pobres...";
"Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça...";
"Bem aventurados os construtores da paz...";
"Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça...";
"Bem aventurados os puros de coração...";
"Bem aventurados os que choram...";
"Bem aventurados os que são caluniados..."!

Perguntavam-se entre si: "Quem é este Homem? Que língua fala Ele?"!

E o Homem de Nazaré, respondeu: "falo apenas a linguagem do vosso coração. Apenas a linguagem que conseguirá concretizar as vossas reuniões e os vossos esforços, os vossos anseios e boas vontades, em verdadeira paz e em verdadeira justiça. Falo-vos no idioma universal, aquele a que todos podem aceder e que todos conseguem compreender: a linguagem do amor.

Em Advento, se queremos viver Natal, urge a decisão interior de comunicarmos todos na mesma linguagem: a do amor; se queremos que Natal seja verdade, na Igreja e no mundo, urge que nos decidamos a ultrapassar as nossas "filosofias" da "caridadezinha" e, em gestos e verdade, falarmos a linguagem daquela Gruta de Belém: o Amor.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

"Redes sem conserto"!

Diz-nos o Evangelho deste dia de Sto. André que Jesus passava junto ao lago da Galileia e viu dois irmãos a consertar as redes da faina e a quem segredou: vinde coMigo e farei de vós pescadores de homens...
Eles ergueram-se se seguiram o Mestre que lhes falava; eles acreditaram n'Aquele "estranho" que os desafiava a ir mais longe e mais além; eles perceberam que não fazia mais sentido nas suas vidas a teimosia em tentar consertar redes sem conserto...
Parece-me uma "parábola", um "sinal" para os discípulos de cada tempo; entendo estas palavras como um renovado desafio do Mestre da Galileia a colocarmos também nós um "stop" nessa canseira e nessa teimosia, nesse afã e nessa obsessão de tentar "remediar", "consertar", "aguentar", "preservar", "redes" sem conserto, isto é, em alimentar esforços de teimosia em "verdades" que o não são de facto, em "certezas" e "dogmas" que apenas existem e permanecem nas nossas "cabeças" e "inteligências" demasiadamente enviesadas e incapazes de se abrirem à novidade permanente e espantosa do Evangelho do Reino!
Penso que mesmo no seio da Igreja, das nossas Comunidades cristãs, nos nossos grupos, movimentos, relações, se teima em demasia em consertar "redes sem conserto", ou seja, em gastar energias, forças, entusiasmos, em opções e realidades, em projectos e soluções que não falam do Deus de Jesus Cristo! Que teimamos em "esquemas" velhos e retrógrados porque com medo daquele "novo ardor" próprio de quem ousa a denominada "nova evangelização"!
Decerto é mais fácil e mais cómodo; quiçá mais gratificante pessoalmente; mesmo mais "seguro" que o arriscar em "sair", em "sonhar", em "ousar", "tornar-se "pescador de homens" com outras redes, com outras palavras, com outros gestos, com outros sentimentos, com outros horizontes...
Talvez estes sejam os tempos em que devamos deixar os "odres velhos" da burocratização da fé e da Igreja, da liturgia e da hierarquização sistémica e intocável da vida eclesial! Talvez sejam esta a hora certa para colocar de lado, e definitivamente, o "vinho velho" e "amargo" do preconceito e da marginalização dos diferentes, da presunção de possuidores de verdades absolutas e inalteráveis, da sobranceria diante da vida, da cultura e da história de outros, afinal, peregrinos e caminhantes da eternidade como nós!
Talvez esta seja a oportunidade que nos é dada para a purificação do coração e da mente a fim de acolher, aceitar e abraçar cada outro para lá das suas diferenças e alteridades; seja o momento adequado para acreditarmos que apenas temos para oferecer ao mundo a Pessoa de Cristo e Cristo Crucificado, escândalo e loucura, mas sabemos e acreditamos que força, poder e sabedoria de Deus!
Parar de teimar em "consertar redes sem conserto", como sejam discussões inúteis e petições ridículas acerca do regresso das vestes sacerdotais de forma obrigatória! Teimar no "consertar" o latim como linguagem imprescindível para a vida da Igreja quando quase ninguém percebe ou entende uma única palavra de uma língua literalmente "morta"! Consertar "redes sem conserto" em discussões e debates, em colóquios e embirrações sobre a forma única e exclusiva do acto da comunhão eucarística (de joelhos?!!!) sem nos questionarmos se não será mais indigno comungar com um coração impuro que de pé ou nas mãos!!!
Com efeito, urge repensar com que "redes" intentamos tornarmo-nos "pescadores de homens"! Corremos o risco de não "pescar" rigorosamente ninguém! Porque não falamos a linguagem deste tempo; porque nos afastamos da realidade que nos envolve; porque nos convencemos que os corações de hoje e as suas sedes e fomes são as de ontem...
O mesmo Evangelho, sim, claro, absolutamente! Mas com renovado ardor no seu anúncio, renovada paixão na sua explicitação, a fim de que se entenda e acredite que "o Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir" e que só um Mandamento nos foi deixado como herança: "Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei"!
Demagogias, por mais piedosas que sejam, não vencem nem convencem os corações...

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

"A Mim o fizestes..."


Numa noite bem fria como esta, lembro tantos corações feitos "restolho", feitos "solidão", feitos "nada"...
Quantos gemem, mutilados de sonhos, de horizontes, de dignidade?!!!Há que ousar semear esperança; há que saber ser abraço e vez e voz para tantos e tantos que vagabundeiam pela vida, encarcerados dentro de grades ou mesmo nos seus próprios corações!
Ser Igreja é ser inconformado, inquieto e insatisfeito diante da cruz onde ainda hoje são crucificados irmãos nossos; é ser profeta e arauto de dignidade humana, mesmo que isso nos custe a incompreensão ou a maldição de uns quantos; é preciso "morrer" para comodismos e apatias e "nascer de novo" para abraçar a loucura e ousadia do Mandamento Novo, ao jeito de Jesus de Nazaré...
Uma boa noite a todos, no desejo e no sonho de que todos saibamos e sintamos que podemos mudar o mundo e a Igreja; no desejo e no sonho de que podemos e devemos "arregaçar as mangas" e transformarmo-nos em "fazedores" de sorrisos mais que em sentenciadores de normas e de leis que em nada libertam quem "geme" dos "frios" que lhes enrijece as almas...


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

"Uma partilha diferente..."

Há sensações, sentimentos, que apetecia mesmo nunca ter vivido; há ocasiões e factos, realidades e momentos que não são fáceis de "digerir", de "aceitar" de ânimo leve...
Permitam que partilhe convosco algo que hoje experienciei e que até hoje me era, de todo, desconhecido: um "sentimento" que nem sei mesmo definir...
Há uns dias atrás falava de um "Luís", com rosto, com história, com quem a minha vida se tinha cruzado no final de uma tarde de Domingo... Aquele coração magoado, despedaçado até, com um olhar triste mas ao mesmo tempo espelhando esperança e vontade de mudança... Foi apenas uma hora de encontro, de conversa, de partilha...
Sei esperar, este sábado recebo um telefonema e eis que do outro lado da linha estava o Luís! Recluso, em fim de pena (que leva já vários anos) eis que quis, simplesmente, falar com o Pe. António e se "desse jeito" e "tivesse vontade talvez pudéssemos beber um café"!!!
Sim, claro que na azáfama própria de um sábado numa Paróquia, encontraria tempo para um "café"; e fomos até jantar juntos, e continuar aquela conversa que naquele Domingo havia ficado inacabada...
E tornámos a encontramos ontem ao fim de um Domingo esgotante; senti e pressenti que o Luís - a quem havia concedido três dias de precária - (saída pontual) já estava a pensar que no dia seguinte (hoje, portanto, teria de regressar à sua pequena e isolada cela de prisão com tudo o que isso significa!
Fui buscá-lo a casa e ficámos a conversar, a partilhar, ou melhor fiquei a escutar tanta partilha, tantas histórias, do seu viver em locais tremendos e medonhos como são as prisões!!!
Ouvi histórias inimagináveis, quase inenarráveis! A ponto de me perguntar como seria isso possível?!!! Como seria possível tanta realidade horripilante num local que deveria ser de reinserção social, de ajuda a olhar o futuro com outros horizontes e critérios?!!!
E no meu silêncio e interior tentava imaginar o impossível de imaginar: como seria possível viver assim?!!! Como passaria ali o tempo, como se ocuparia a cabeça, a alma, o coração, num ambiente onde predomina a desconfiança, o tráfico, a insegurança, o medo, a revolta e a raiva?!!!
Era já bem tarde quando a nossa conversa terminou. E eis senão quando ele me pergunta, me pede, se o poderia levar à prisão no dia seguinte!
Fiquei aterrado! Não de medo, óbvio, mas de espanto pois que não queria imaginar qual seria o seu rosto, o seu sentir, quando tivesse de entrar naqueles insuportáveis portões, quando tivesse de cruzar aquelas monstruosas cancelas!
Disse que sim. E adormeci a rezar pedindo a Deus que o ajudasse. A ele e a tantos outros que vivem essa mesma realidade. A rezar por esses corações que um dia se extraviaram dos caminhos a trilhar mas que têm direito a recomeçar, direito a sonhar, direito a sorrir, como qualquer um de nós...
Hoje, após o almoço fui buscá-lo a casa. Sabia que ia fazer uma viagem "pequena" mas enorme.
Aquele Luís sorridente, conversador, sonhador, entusiasta, aparecia de rosto enviesado, parco nas palavras, onde o sorriso se havia desvanecido por absoluto durante as horas anteriores!
Sabíamos bem o que ia no coração de cada um; e sentíamos que tínhamos de nos proteger um ao outro, porque ambos estávamos a sofrer diante daquela separação que estaria eminente em poucos minutos.
Ambos a "fazer-nos" de fortes, de corajosos, como se levar um amigo para o deixar às portas da prisão fosse algo de normal, de natural!
Sairá, se Deus quiser, definitivamente, dia 23 de Fevereiro; ali, naquele degredo, naquela solidão rodeado por mais de 800 homens, naqueles silêncios intermináveis, passará mais três meses. Três infindáveis meses... Ali passará entre quatro paredes o Natal; ali fechado e isolado daqueles poucos que o amam, celebrará o seu aniversário natalício a 30 de Dezembro... Ali permanecerá, para além daqueles altos muros, separado de mim, separado de nós... à sua sorte!!!
Prometi-lhe que nessa manhã de sábado, 23 de Fevereiro de 2013, de manhã bem cedo estaria naqueles mesmos portões para ser o primeiro a recebê-lo e a abraçá-lo. E como sonho já esse abraço...
Correm-me lágrimas de saudades; lágrimas de impotência pois que nada mais posso ou sei fazer...
Lágrimas de saber e sentir algo que jamais havia sentido: deixar um amigo, um irmão, na prisão!!!
E regressei; da estrada olhei a sua cela - ao chegarmos ele disse que via a estrada e os carros que passavam - e desejei estar lá para o receber. Gostava de ser "mágico" para poder entrar antes dele naquela cela húmida, fria e vazia, para quando ele chegasse poder ser recebido por um abraço mais que por aquele silêncio e solidão certamente desesperantes.
Da estrada olhei a sua cela... e imaginei e imagino ali o Luís, à espera que o tempo passe depressa...
Diz-se agnóstico e por isso pedia mil vezes desculpa. (Tonto! Como se precisasse de pedir desculpa)! Quem dera acreditasse em Deus; sentiria mais força, mais coragem, sentiria que o tempo voaria mais depressa...
Um agnóstico fantástico, um agnóstico que nos prende o coração, um agnóstico que tem um enorme coração...
Um agnóstico que quando sai três dias de "precária" quer passar horas a fio com um Padre! Um agnóstico que sabe e sente que o amor lhe fala do que vale mais e do que ele (e todos nós) mais precisa...
Quem dera fosse amanhã aquele sábado ainda tão longínquo para mim...

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

"Alegria no Céu..."

A parábola da ovelha perdida foi, de novo, proclamada no Evangelho da Missa de hoje; história do Amor de Deus, da Sua ternura e misericórdia, da Sua paz e do Seu carinho por esta nossa humanidade que se faz e constrói com a vida de cada um de nós...
Parábola da minha vida, da tua vida...
História do Amor de Deus por mim, por ti...
Verdade de um Senhor que não descansa até nos encontrar, nos colocar aos ombros, nos ver e sentir nesse redil de vida em abundância que Ele nos conquistou com o preço indizível do Seu Sangue!
Saber que Deus "não poupa esforços" para me encontrar; sentir que a Sua alegria é ter-me aos Seus ombros, é uma força que nos sossega, serena, pacifica, enternece...
Saber que Deus não desiste de me encontrar, sempre que me "escondo" d'Ele mesmo, da Sua Palavra, do Seu Reino, da Sua vida; sentir que o Seu sorriso acontece sempre que me atrevo a erguer, a mostrar-me, a confiar, a entregar-me...
Parábola de Amor por cada coração que hoje permanece longe da "casa do Pai" e à qual eu tenho de encaminhar cada um desses "desviados" dos caminhos da alegria de Deus.
Hoje, também eu, como discípulo de Jesus, do Bom Pastor que dá a vida pelas Suas ovelhas, não posso nem devo poupar esforços para buscar a(s) ovelha(s) perdida(s) que ainda não saboreiam a alegria de estar aos ombros de Jesus.
Como Igreja, não posso nem devo sossegar enquanto, um só coração que seja, não estiver apaixonado e  embevecido por ser e querer ser mais de Deus.
Mesmo que isso implique deixar as outras noventa e nove; mesmo que isso implique não estar sempre trancado nas igrejas; mesmo que isso implique "misturarmo-nos" no coração do mundo; mesmo que isso implique a crítica e a insatisfação de quem nos quer encarcerar na esfera das sacristias e dos rituais!
Esta manhã, por graça do Céu, pude experienciar essa aventura de ir ao encontro da "ovelha perdida"...
Um rapaz - inicialmente - que não conhecia e que iria visitar a um Centro de Tratamento e Reabilitação, transformou-se, depois, num encontro com mais 16 vidas despedaçadas, algumas mesmo desesperadas, outras sem sonhos nem anseios ou horizontes!
Um encontro onde depois brotaram sorrisos porque sentiram amor, sentiram compreensão, sentiram cumplicidade nessa vontade de ser feliz, sentiram fraternidade na legitimidade de recuperarem dignidade e beleza de existir, sentiram que Deus os olhava com ternura, com carinho, muito mais que para os seus passados mais ou menos "calamitosos"!
Que espanto, que graça, que dom, puder abraçar rapazes, homens, mulheres, fugindo de si próprios mas que, por dom do Céu, sorriem e querem aprender a ajoelhar, a rezar, a pedir perdão, a ser mais fortes, a amar mais...
Que comoção imensa ao perceber que naqueles corações "sangrados", "apontados" e "proscritos" faz sentido, todo o sentido, falar-lhes de carinho, de compaixão, de abraços, de ternura, de afecto, de amor, ou seja, de Deus.
Ovelhas perdidas que Deus sonha em ter no Seu redil... e saber e sentir que Esse mesmo Deus Se quer servir da nossa pobreza e fragilidade para chegar a essas mesmas vidas.
Escreveria um "testamento" sobre o que hoje vivi... e não conseguiria dizer isso mesmo que vivi...
Apenas mais um gesto: o Zé, no fim, quando eu já vinha embora, o Zé, sisudo, triste, apático, distante, frio e "emigrante" da vida, dizia-me, sorrindo mesmo a sério: "Obrigado"!
Perguntei: isso vem da boca ou do coração?
Ele, continuando a sorrir, dizia: "do meu coração gigante como você disse que eu tinha"!
Lançou-me uma pergunta: "volta cá a visitar-nos?"!
Talvez seja agora presunçoso: mas acredito que Jesus sorriu. Acredito que houve alegria no Céu...

segunda-feira, 29 de outubro de 2012


"Luís... é o teu nome, a tua história..."

Conheci-te ontem mesmo, homem com nome, com história, com vida, com passado, tristes, magoados, receosos, tímidos, marcados negativamente...
Passaste o fim-de-semana fora desses muros da prisão que têm sido a tua casa, o teu lar, o teu mundo, nos últimos anos!
Mas disseste-me que o passaste dentro de casa, fechado, com medo do mundo, medo dos homens, dos seus juízos, dos seus pensamentos, dos seus dedos apontados... Com um sorriso temeroso segredaste que sairias em liberdade "já daqui a três meses"! (Nem consigo imaginar o que seja um dia numa prisão, quanto mais um mês, três meses, anos)!!!
E percebi-te super ansioso, reparei depressa nas tuas inseguranças, "palpei" rápido os teus medos incontáveis... mas, sobretudo, senti e "toquei" esse teu coração gigante, sedento, faminto, de sorrisos sinceros, de amizades verdadeiras, de cumplicidades e de sonhos renovados...
Conheci-te apenas ontem, no ápice de uma hora que passou tão depressa, mas parece, meu querido amigo, que te conheço desde sempre. Foi tão fácil entrar "na onda" do teu coração, na "órbita" dos teus medos e anseios, da tua solidão e das tuas inseguranças; foi tão fácil, ó homem meu irmão, sem nunca te ver visto, sem jamais ter partilhado a minha vida com a tua, sentir que ambos estamos nesta aventura solene e sublime que é a vida e o desejo de ser feliz.
Como vai ser quando sair da prisão? Onde irei morar? Encontrarei trabalho? Como sobreviverei? Que fazer para ajudar a minha família?... Estas e outras questões enchem e preenchem as horas do teu viver quotidiano quanto "apenas" te faltam três meses para recuperares a liberdade.
Pensas sobremaneira nessas questões quando, e ao mesmo tempo, te inquietas e chicoteias interiormente ao saber categoricamente que hoje regressarias à tua cela, à tua prisão, ao teu mundo, escondido do meu...
Sabes que te abracei; sabes que te disse que apenas via diante de mim um homem como eu que busca a forma de ser feliz, sabes que te disse onde morava e que aqui terias um tecto, uma cama, um espaço, um lugar. Não, não serás como Aquele Menino que um dia não teve lugar na hospedaria! Já bastou que essa história tivesse acontecido naquela primeira noite de Natal. Não pode perpetuar-se contigo. Jamais...
Achas estranho; dizes que não és homem de fé, de missas, de religião... que se te conhecesse mais talvez retrocedesse na oferta e no sorriso que te ofereci!
Mas eu disse-te que para lá da religião, das missas, dos rituais, importam os corações irmanados, entrelaçados, cúmplices, no desejo de ser mais feliz tornando cada outro também ele mais feliz...
E depressa, bem depressa passou aquela hora... e partiste. E hoje entrarias de novo naquele "deserto" esperando que passem esses três longos meses...
Telefonei-te hoje, quis de novo escutar a tua voz, escutar o pulsar desse teu coração, minutos antes de entrares nessas masmorras tremendas e inimagináveis... Guarda, meu irmão, essa certeza: no dia em que saíres, se tudo e todos te falharem, aqui tens um lugar. Mesmo que te não conheça. Precisamente porque te não conheço. Precisamente porque não vais poder agradecer-me. Precisamente porque em ti descubro e redescubro Aquele que em ensinou a tentar ser bom samaritano de cada coração... E o teu foi aquele que ontem me apareceu para amar, para acolher, para abraçar...
Homem sem rosto e sem história para o mundo, homem caído à beira do caminho, sabe e crê que tens nome, tens colo, tens um sorriso à tua espera... o de Deus na vida daqueles que perderem o medo da compaixão, da ternura, da caridade...
Luís, aí onde estiveres, acredita que tens um pedaço deste meu pobre coração.
E aí estará a Igreja que sou, a Igreja em que acredito, a Igreja de Jesus de Nazaré...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

"Alegria e entusiasmo que contagiam..."

Foi com muita alegria, emoção e fé compartilhada que foi vivido este último Domingo, dedicado nesta paróquia de Carcavelos à Festa da nossa Padroeira, Nossa Senhora dos Remédios.
Numa solene Eucaristia, às 11h 30, presidida pelo Senhor Cardeal Patriarca, onde se apresentou diante da Comunidade e, particularmente aos crismandos, com um sorriso bonito, simples, paternal, com uma multidão que enchia a igreja e o próprio adro, escutámos o apelo a ser mais Igreja, mais Comunidade, mais discípulos d'Esse Mestre de Nazaré.
Uma celebração carregada de significado, de entusiasmo, de fé, sabendo-nos abraçados pela Senhora dos Remédios que, como naquele primeiro Pentecostes, estava ali, naquela igreja, naquela manhã, tão presente, tão real, tão sentida...
O sorriso, o carinho, do nosso Bispo ao confirmar na fé cada um daqueles jovens e adultos ficarão gravados nos nossos corações; a alegria daqueles cristãos, conscientes, ao acolherem o Dom do Espírito, será também uma imagem que permanecerão bem no funda das nossas almas...
De tarde, também com uma pequena multidão, celebrámos a Procissão com a imagem de Nossa Senhora.
Percorrendo algumas das ruas de Carcavelos, quisemos consagrar esta nossa terra ao amor maternal da Mãe de Deus e nossa Mãe. Num ambiente festivo, respeitador, orante, sentido, foi bonito ir percebendo que a multidão crescia à medida que a imagem da Padroeira de Carcavelos "caminhava" por estas vielas, no meio das suas gentes...
Se agradecemos o facto de não ter chovido, agradecemos a "chuva" de bênçãos e de graças que a Senhora dos Remédios decerto presenteou esta terra, esta gente, estes sonhos, que somos todos e cada um de nós.
No final do dia, já tão cansado, mas também tão feliz, a igreja tornava a encher-se para a celebração da Eucaristia. Onde tornaram a participar vários dos jovens que naquela manhã haviam sido crismados. percebia-se a alegria estampada nos seus rostos; saboreava-se a paz celebrada naqueles corações; via-se tão bem a fé manifestada naquele entusiasmo com que celebravam o encontro com o Senhor, Pão vivo descido do do Céu.
Por fim, de joelhos, com todos os crismados, bem diante da imagem de Nossa Senhora, segredámos-lhe o "Recado". Um cântico único, nunca suficientemente cantado, repetido, proclamado, onde entregámos à Mãe do Céu esses mesmos corações, esses sentimentos, numa atitude de verdadeira consagração...
E como não sentir um "santo orgulho" em ser pastor de uma Comunidade que vive momentos tão intensos e tão profundos como estes?
E como não agradecer a Deus esta experiência maravilhosa de ser e tentar ser sempre mais polo de comunhão e de unidade entre todos estes corações que se dizem e afirmam corajosamente cristãos?
Assim Deus nos ajude a permanecer nesta alegria de ser apóstolo, neste entusiasmo de ousar ser arauto da Boa Nova, nesta paixão de desejar ser sempre mais de Deus e da Sua Igreja que também aqui peregrina rumo ao Céu...
De facto, esta é uma alegria e um entusiasmo que contagiam...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

"Aquele abraço..."

Hoje queria louvar a Deus, agradecer-Lhe, sorrir-Lhe, de forma particular. Terei, obviamente muitas razões; demasiados motivos sempre para bendizer o nosso Deus...
Porém, hoje gostaria de Lhe agradecer um abraço. Simples, discreto, singelo, mas puro, verdadeiro, cúmplice, de verdadeira comunhão.
Não que ele não existisse, não que jamais se tivesse celebrado... no entanto, o coração lá o saberá, este abraço hoje teve um "sabor" diferente.
Como um filho diante do pai, como um irmão mais novo diante do seu irmão mais velho, como um iniciante diante de um sábio, assim senti hoje aquela conversa, aquelas palavras, aqueles sorrisos, aquelas preocupações, aquelas dores, aqueles sonhos, entre mim e o meu Bispo.
Numa conversa amena, simples, mas tendo como suporte o que vale mais - o amor à Igreja de Jesus Cristo que peregrina nesta Diocese de Lisboa - conversámos, melhor, amámos em conjunto esta Igreja que somos. E isso é belo, é grande, é nobre.
Se o Bispo é o pai e o amigo dos seus padres, como afirma o Concílio, esta tarde senti-o sobremaneira. Aquele rosto com traços de cansaço, mas com um sorriso que acolhe e desarma; aquele homem de cabelos brancos, figura pública e com o "slogan" de distante, mas tão próximo, tão presente, tão "pai"...
Aquele Pastor com, decerto, incontáveis preocupações, mas ali diante de mim, com essa predisposição de escutar o que tinha para partilhar como se eu fosse "único" e os meus problemas e os meus sonhos, as minhas mágoas e as minhas alegrias a ganharem morada naquele coração gigante de quem sabe e quer ser pai de verdade.
Com tempo marcado para aquela conversa, ele prolongou-se consideravelmente para além do "combinado"; afinal quando são os corações a dialogar, as agendas tornam-se acessórias e secundárias. Quando as almas mergulham na mesma órbita, o tempo é efémero e dispensável; o que vale e importa é a unidade e a comunhão que se podem experimentar.
Por isso mesmo quero agradecer a Bom Pastor que hoje, mais uma vez, incarnou no acolhimento, na partilha e na amizade do Bispo com um dos seus Padres. Claro que naturalmente por e com todos os outros. Mas cada um sabe e sente por si mesmo...
Aquele abraço, fim de muitas palavras e muitos silêncios, são um sinal de amor à Igreja, a Jesus Cristo que, todos dizemos querer amar e servir; aquele abraço é bênção, é paz, é alento, é confiança, é Evangelho, na vida. Uma conversa, um partilhar, um acolher, sem pressas, sem defesas, onde se sente e sabe que Cristo reina, impera, comanda, esta Barca que é a Igreja e na qual somos apenas, cada um ao seu jeito, remadores... o Timoneiro será sempre Jesus, por mais que se tente remar para o lado oposto daquela margem a que o Mestre nos desafia a alcançar.
Precisamente porque somos humanos, pregadores do invisível e do divino, precisamos de sinais que fortaleçam e sublinhem o caminho da fé que abraçamos. E aquele abraço foi esse sinal - mais um - de que o Céu é o Caminho certo, é a aposta já conquistada...
Sim, fui um filho, sou um filho, que percebe, sente, compreende e ama - mesmo muito - o pai na fé que o Bom Deus me oferece. E orgulho-me disso. Mesmo que outros me não compreendam, ainda que outros possam desdizer o que escrevo, o coração terá sempre razões que a razão desconhece...
E por isso - mesmo só por isso - agradeço a Deus.
Afinal não há nada mais belo na Igreja que a comunhão, a cumplicidade, a verdade. Afinal, não há nada mais significativo na vida de um Padre que saber e sentir, e a isso estar disposto, que no amor e no amar e dar a vida pelo seu Bispo. Continuo a acreditar que assim se escreve e vive o amor à Igreja.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

"Ano da Fé"

Já estamos no "Ano da Fé".
Iniciado oficialmente ontem, em Roma, numa celebração presidida pelo Santo Padre e concelebrada por imensos Bispos, Sacerdotes e milhares e milhares de Fiéis; diante do Altar, diante do Senhor da História e da Vida, eis a Igreja a reconhecer que precisa de revitalizar a sua fé, a sua adesão ao Evangelho, a sua paixão por Jesus Cristo...
O "Ano da Fé", na verdade, bem mais que um tempo para a recitação de fórmulas religiosas, para a repetição sistemática e rotineira de "credos", é esta oportunidade gozosa de fazer uma introspectiva, de ousar uma purificação, da audácia de um encorajamento pessoal, comunitário, eclesial, de olhar a Fé que dizemos possuir e de a viver intensa e genuinamente.
O "Ano da Fé" é esse apelo a "visitar" as raízes da Fé, a beber dessa Fonte sempre nova e inesgotável que é  Evangelho, a fim de nos sentirmos e sabermos continuadores de uma "aventura divina", de uma "corrente de amor" que atravessa os séculos, os milénios já...
Passar a "Porta da Fé" é desejar cruzar essa "porta estreita" que é a Palavra revelada em Jesus de Nazaré e fazer dessa mesma palavra o nosso estilo de vida; é deixarmo-nos interpelar e provocar pelo mundo e pelas suas "estórias" para as transfigurar em História de Salvação, usando como critério de transfiguração o Mandamento Novo.
Viver o "Ano da Fé" significará sempre uma vivência da Igreja do mistério em comunhão, em unidade, em compasso de quem caminha e rejeita a estagnação, a rotina e a banalidade; é erguer o olhar para Aquele que é o"caminho, a verdade e a vida" e se desliga de acesssórios, de superficialidades, de mediocridades, que demasiadas vezes são o grande entrave e empecilho à experiência alegre da Fé em Jesus de Nazaré.
O mundo precisa - todos o sabemos e sentimos - de razões de esperança, de testemunhos credíveis da verdade e da paz, de arautos da justiça e da fraternidade; o mundo ambiciona encontrar nos crentes a alegria própria de quem acredita em Deus, o rosto revelador da esperança que mos anima, a serenidade de quem confia no Alto e sabe e crê que aí, que ali, há uma resposta para as inquietações que perturbam e desesperam os corações contemporâneos...
O "Ano da Fé" não implica a magnificência de grandes celebrações, a majestade de brilhantes encontros nem a eficiência de eloquentes discursos; o "Ano da Fé", assim o creio, é o apelo de Deus a recentrarmos a Pessoa de Jesus Cristo nas nossas vidas e na vida da Igreja enquanto Povo de Deus. É ocasião propícia à experiência da humildade, do serviço, da partilha, do acolhimento, da simplicidade, da comunhão, enquanto Igreja. Mais que mostramos aos homens que estamos reunidos em assembleias litúrgicas, reunidos em encontros de formação, etc., precisamos de mostrar, em nome da Fé, que estamos unidos Àquele que, do cimo do Madeiro, atrai todos a Si.
De joelhos, isto é, alicerçados na oração, na relação intensa e apaixonada por Cristo, na intimidade do Seu Coração com o coração de cada um de nós, supliquemos confiantes como os Apóstolos: "Senhor, aumentai a nossa fé"! Apenas desta forma seremos testemunhos de uma Igreja com Fé...

terça-feira, 2 de outubro de 2012

"Esta Igreja que eu amo"

Já fazia frio, o vento trazia-o com alguma intensidade e, ainda assim, não foram poucos aqueles que se atreveram a secundarizar o aconchego do calor das suas casas e famílias para se reunirem e unirem por uma causa maior, que o coração lhes segredava ser mais nobre, a alma lhes assegurava ser mais mais divina...
De noite já, aqueles corações e aquelas vidas, mais novos e mais velhos, ousaram naquele encontro de Comunidade ouvir falar do amor à Igreja, do amor da Igreja, do amor pela Igreja.
E creio que posso afirmar que foi notável aquele partilhar de desejos, sonhos, projectos, inquietudes, vontades firmes de renovar, de aprender e reaprender o amor à Igreja. A Igreja que também tem rosto, tem história, tem sangue, alma e coração, tem vida, tem eternidade, aqui em Carcavelos...
Esta Igreja que eu amo, é verdade, tem defeitos, tem mancha, tem "rugas" de pecado; esta Igreja não raras vezes pouco tem de Evangelho, de rosto fiel do Seu Senhor, de identificação com o gesto do lava-pés e com o escândalo e a sabedoria da Cruz! Mas, ainda assim, esta é a Igreja que eu amo.
Esta Igreja, é verdade, demasiadas vezes não aponta ao mundo o caminho do Céu nem fala aos homens a linguagem do Coração trespassado de Jesus de Nazaré! Mas, ainda assim, esta é a Igreja que eu amo.
Esta Igreja tem demasiadas vezes os traços do mundano e do terreno, as marcas da ligeireza e da mediocridade! Mas, ainda assim, esta é a Igreja que eu amo.
Poderão perguntar-se porquê então?!
A resposta não é difícil: porque esta é a Igreja de Jesus.
Ela é humana, ela é terrena, ela é mesmo pecadora, para que eu nela tenha lugar.
Ela apresenta-se com mancha e com pecado porque ela é construída por homens como eu, pecadores que não desistem de ser melhores, que não desistem de ser santos.
Ela é frágil e pobre, mas é a Igreja de Jesus.
Que a quer e sonha mais ao jeito do Evangelho, é verdade.
Mas esta Igreja, feita de homens e mulheres crentes na Palavra d'Aquele Homem da Galileia, é a Igreja de Jesus Cristo. É o tempo e é o espaço que Ele escolhe e habita para Se apresentar ao mundo de cada tempo...
Esta Igreja de homens e mulheres pecadores é a mesma Igreja que tem no seu seio, simultaneamente, outros homens e mulheres verdadeiramente fiéis, simples, justos, misericordiosos, puros de coração, lutadores pela justiça, construtores sábios e eficazes da civilização do amor, ou seja, santos.
E é esta a Igreja que eu amo.
Esta Igreja que se edifica no testemunho de incontáveis vidas apaixonadas por Jesus que a História não consegue esconder ou apagar; esta Igreja que acolhe a herança de tanto sangue derramado por amor a Cristo e ao Seu Reino e a catapulta, em cada tempo, para a aventura prodigiosa da imitação do Mestre e a desafia ao sonho viável da fidelidade ao Mandamento Novo.
Diante do frio que vazia na rua, experienciámos o "calor" da fé, o "fogo" do Espírito que teima em soprar nos corações que a Ele se abrem desassombradamente.
Porque esta é a Igreja que amamos e pela qual queremos continuar a viver e a dar a vida.
Porque nela, apesar dela, está e permanece o Senhor do Mundo...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

"Imortais"


"Por mais que a vida nos agarre assim
Nos troque planos sem sequer pedir
Sem perguntar a que é que tem direito
Sem lhe importar o que nos faz sentir
Eu sei que ainda somos imortais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se o meu caminho for para onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes
É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu te sei dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer
Por mais que a vida nos agarre assim
Nos dê em troca do que nos roubou
Às vezes fogo e mar, loucura e chão
Ás vezes só a cinza do que sobrou
Eu sei que ainda somos muito mais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se a minha vida for por onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes
É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu sei te dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer
.
Uma letra de uma canção para muitos conhecida; mas que bem podem ser palavras sentidas no nosso coração, fácil e possível de ser o próprio Deus a segredar-nos essas mesmas palavras... Um Deus que nos quer tanto, que jamais saberia não nos ter, um Deus que espanta e surpreende a cada instante sempre que nos deixamos deslumbrar pela beleza daqueles braços abertos e daquele Coração trespassado. Um Deus que Se manifesta nas coisas belas e boas do nosso quotidiano; mas um Deus que Se revela também em agruras e lágrimas que não esperamos mas que acabam por "regar" o nosso próprio crescimento e nos fazer entender que mesmo nessa experiência de Cruz, n'Ele seremos sempre imortais...
E olhar os outros de frente, olhá-los bem fundo, no mais profundo da sua alma, não é caminho de vida e de amor? E sermos capazes, com a pureza do coração e a transparência da alma, dizermos àqueles a quem verdadeiramente o sentimos: "É que eu quero-te tanto; não saberia não te ter; é que eu quero-te tanto; é sempre mais do que eu sei te dizer"...
Custa reconhecer que somos humanos! Teoricamente "gritamos" essa verdade; porém, porque negamos a força dos afectos, a ousadia do coração, a beleza da ternura, a graça dos sentimentos nobres que nascem e renascem em cada um de nós, perdemos essa oportunidade de fazer esse outro sentir-se e saber-se único, especial, importante, insubstituível. Como nós o somos em relação a Deus. 
Não, não basta partir do pressuposto que o outro "já sabe"! Ele tem de ouvir, ele tem de sentir, ele tem de experienciar, esse afecto, essa amizade, esse amor, que nutres por esse mesmo coração. Como Deus o faz connosco na força da Sua Palavra que não passa e, sobretudo, na Sua presença real e efectiva feita Pão de vIda eterna, caminho que nos transforma em imortais...
Será que não haverá alguém - e serão tantos talvez - aqueles a quem poderíamos segredar a letra desta mesma música... E porque esperamos? E porque teimamos no medo e na vergonha de dizermos que amamos, que sentimos, que somos humanos, que somos divinos, que somos imortais?!...

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

"Recomeçar com o Amor..."

O trecho da Carta aos Coríntios hoje proclamada na liturgia da Palavra dá, categoricamente, o "tom" para o recomeçar de um novo ano pastoral, para o iniciar de mais uma semana de caminho, do começo dos trabalhos nas faculdades e nas escolas, do regresso ao trabalho quotidiano após o merecido tempo de férias de cada um...
O "Hino da Caridade" é, verdadeiramente, um "mapa" que indica o caminho a percorrer, que aponta os trilhos a seguir, que marca a vida a tecer em cada momento do nosso viver; com efeito, apenas a caridade, é dizer, o amor, dão plenitude e sentido a um coração e a uma vida que se afirmam ser de fé e de adesão ao Evangelho do Senhor Jesus.
Oferecer o corpo às chamas, transportar montanhas, fazer mil e uma coisas, por mais nobres que estas possam ser, mesmo a nível eclesial, religioso, social, se estas estiverem desprovidas de amor, de nada nos aproveitará!
Diante do proclamado "Ano da Fé", a iniciar já em Outubro, pelo Papa Bento XVI, creio que importaria à Igreja toda - e portanto a cada um de nós - repensar desde a primeira hora se esta mesma Fé que professamos com os lábios e com a boca estará repassada pelo Amor...
Sem o Amor, cada gesto, cada pensamento, cada atitude, cada desejo, tornar-se-ão, simplesmente, atitudes humanas, quiçá bastante nobres até, mas sem os traços do divino que as deveriam caracterizar pelo facto de sermos discípulos de Jesus.
Muitas das actividades da própria Igreja, muitos dos serviços prestados nas nossas Comunidades, tantos dos discursos, das homilias, das catequeses, dos sermões e das conferências, teriam um efeito muito mais catalisador, muito mais evangelizador, muito mais santificante, se tivessem este sentimento e atitude do Amor autêntico, servo, gratuito, verdadeiro, generoso, incondicional, desmedido...
O Amor é paciente, o Amor é gratuito, o Amor é generoso, o Amor não se ensoberbece, o Amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera... o Amor é tudo, verdadeiramente.
E creio que seria bom, fantástico até, se quiséssemos trazer o Amor para a "normalidade" da nossa vida e não o remetêssemos para um lugar recôndito e escondido do nosso ser! Como seria o mundo, como seria a Igreja, como se tornariam as nossas Comunidades cristãs se fosse o Amor a comandar e a conduzir as agendas, os planos, os desafios, pastorais que abraçamos em nome de Jesus Cristo?!
Talvez "loucas", talvez "despercebidas", talvez "incompreensíveis", mas certamente com o sabor do Reino de Deus e, necessariamente, como provocação e proposta aos homens de um novo estilo de vida humana, de uma outra forma de palmilhar os caminhos da vida...
E se experimentássemos ser uma Igreja onde o Amor não é palavra bonita, sermão eloquente, quimera longínqua, mas realidade a acontecer?
Tudo se aproveitaria cem vezes mais neste mundo e nesta  Igreja e no outro, a vida eterna...

terça-feira, 11 de setembro de 2012

JMJ 2013? 
Porque não? 
Claro que sim!

Mais que uma quimera ou uma utopia marcada pelo devaneio, eis que a Jornada Mundial da Juventude de 2013, no Rio de Janeiro, Brasil, como que num "segundo", se torna evento e sonho, ambição e desafio, audácia e vontade firme de concretizar por parte dos jovens da nossa Paróquia.
Na verdade, sabemos todos que serão muitos os obstáculos a ultrapassar, as barreiras a vencer, as dificuldades a deixar para trás; sabemos e sentimos que uma enorme responsabilidade recaiu sobre quantos se decidiram abraçar o apelo do Papa Bento XVI e a de quantos a ele aderirem...
Todavia, precisamente porque "pelo sonho é que vamos" como escreve o poeta, acreditamos que com os esforços e a dedicação, a boa vontade e a entrega de cada um, jovens e adultos, crianças e idosos, numa palavra, a Paróquia, conseguiremos levar a "bom porto" esta mesma aventura e tornar realizável este mesmo sonho.
Será uma caminhada de toda a Comunidade; um trabalho a desenvolver, esforços a congregar, comunhão a edificar, sã ambição que terá de ser compartilhada por todos quantos se sentem e formam parte deste todo maior que é a Paróquia de Carcavelos.
Como afirmou já várias vezes o Santo Padre, os jovens têm de ser a grande aposta e prioridade da Igreja e das Comunidades, dos Pastores e dos esforços pastorais. Eis pois uma oportunidade excelente para vivermos esta convicção do Papa, na medida em que todos abraçarmos este sonho que é "levar" os jovens da Paróquia a viverem essa experiência inolvidável que é uma Jornada Mundial da Juventude.
A JMJ 2013 vai ser a "palavra de ordem" deste ano pastoral. Terá de o ser.
Porque vamos, em comunhão com toda a Igreja, viver o "Ano da Fé", abraçar este projecto comunitário pode bem ser o desejar passar a "porta" da fraternidade, da cumplicidade, da comunhão, do diálogo, da verdade, da caridade, da justiça, da entre-ajuda, do acolhimento, da reciprocidade, afinal, da Fé, que dizemos ter e professar.
Todas as ajudas serão preciosas; todas as ideias serão bem vindas; cada sugestão será acolhida; cada gesto de partilha será um passo dado na construção deste sonho gigante que acalentam os jovens da Paróquia e eu próprio que desde esse primeiro segundo "abençoei" essa ousadia e essa vontade de sonhar...
Como Pastor tenho que agradecer esta oportunidade de me desinstalar, de arriscar, de ir bem mais além e mais alto que estes jovens me proporcionam.
Foram esses corações jovens, positivamente inquietos, decididos e audazes que me fizeram acreditar que seria possível...
Serei apenas e tão somente aquele que os ajudará a alimentar esse sonho e essa chama; aquele que lhes dirá sempre que "o medo, a falta de coragem, mata antes de se morrer"; serei aquele que, de braços erguidos ao Céu e mendigando a generosidade de todos os ajudará a viver essa proposta do Sucessor de Pedro.
A esses que se decidiram sonhar e arriscar, um obrigado gigante.
A quantos se decidiram provocar-me e desafiar-me a acolher essa proposta, um bem haja impagável...
Teremos muito trabalho; "nuvens escuras" intentarão obscurecer os nossos passos; comodismos e apatias serão muros a subir confiadamente... mas o destino está traçado: JMJ no Rio de Janeiro em Julho de 2013.
Deus providenciará. E isso nos basta...
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