"Natal diferente"
Estamos em Tempo de Natal. Tempo de graça e de luz, tempo de paz e de vida. Tempo de bênção e de gratidão.

"Um menino nos foi dado; um filho nasceu para nós": razão indiscritível para louvarmos, adorarmos, agradecermos essa "teimosia" do Céu em abraçar esta nossa humanidade e a desafiar a ir mais longe, mais alto, mais humana e, portanto, mais divina.
Um Deus feito Carne, um Deus feito "História" na nossa própria história, é algo de absolutamente "impensável" e "indizível"...
Mistério que apenas se apreende se ousarmos acreditar e "entrar" na "órbita" do amor; um amor que não é palavra, não é poesia ou romance, não é boa intenção ou mera filosofia interior; antes, é vida, é gesto, é abraço, é sorriso, é cumplicidade, é fraternidade, é comunhão... com cada outro que peregrina connosco neste mundo e nesta hora da história.
Tive a graça de ter vivido intensamente esse mistério de amor concreto, amor feito gesto, amor tornado acção.
A Noite de Consoada, o Dia de Natal, foi vivido de "mãos dadas", de "corações dados" a pessoas que apelidamos - mais uma vez a nossa lógica a prevalecer - de sem-abrigo. Mais novos ou mais velhos, à volta de uma mesa, recheada de "caridade" e de "ternura", celebrámos e vivemos Natal. Mais novos ou mais velhos, com vidas que se recusam a desistir da vida verdadeira e em dignidade, com experiências de amargura e solidão, de abandono e rejeição, perderam medos e suspeitas, timidez e preconceitos, e aquele velho salão paroquial transfigurou-se, verdadeiramente, em "Gruta de Belém". Mais de quarenta corações, irmanados na dor e na dureza do caminho percorrido, porque a vida lhes tem sido madrasta, pusemos para trás toda a "negatividade" que nos pudesse envolver e, em nome do Amor que visitava esta nossa Humanidade e que em Igreja iríamos celebrar, ousámos partilhar as vidas, os corações, os medos, os sonhos...
Foram uns dias diferentes estes; uma celebração do Natal que extravasou em intensidade a liturgia e os votos habituais de boas-festas; estar rodeado destes homens e mulheres, nos dias 24 e 25 de Dezembro, nestas histórias "envoltas em panos", em "mantas", em "cobertores", fazendo-me "um" com cada "um", lembrando, em gestos e atitudes, mais que em palavras, que Deus estava ali, fazia-Se Homem como eu e como eles, como nós, por Amor, é algo que tão depressa - creio que nunca mais mesmo - não esquecerei.
Aquelas noites, deixaram as suas "grutas", as suas "tendas", os seus "barracos", mais ou menos imundos e frios, despidos e chorados, e juntos, naquele salão paroquial aquecidos pela unidade e pelo sentimento de se saberem pessoas, iguais, adormeceram de sorriso estampado nos rostos...
Celebrar a Missa do Nascimento de Jesus, após uma experiência como esta, tem outro "sabor"; falar de amor e de caridade, de fraternidade e de Deus feito Homem como nós, faz outro sentido e oferece muito mais credibilidade.

Naqueles mais "pobres", naquelas vidas habituadas à solidão, à rejeição, naquelas vidas que vão perdendo esperanças, dignidade, sonhos, capacidades, vontade de sorrir e de acreditar, poder acender-lhes uma pequena "chama" de esperança, é sinal imenso do poder de Deus feito Menino, é bênção de um Senhor que nos ensina, de novo, que em cada coração há um pedaço de eternidade, um desejo de Céu, por mais esquecido ou escondido que esteja...
O Menino nasceu no mundo. O Menino nasceu no coração de incontáveis corações certamente... Mas nasceu também nestes homens e mulheres, sofridos, chorados, sujos, mas grandes, mas irmãos, mais companheiros de viagem rumo ao Céu que acreditamos.
Natal é compromisso com a História. De cada outro. E também destes corações.
Natal é teimar em humanizar este tempo, este mundo, esta Igreja.
Natal é ser amor ao jeito do Amor.
Não um dia, ou dois, mais sempre... E o Natal vem reforçar essa possível perseverança de que o "hoje" pode ser mais belo, ter mais dignidade, pulsar mais verdade...
"Sem-abrigo" como nós lhes chamamos, mas muitos deles com um coração bem maior que muitos abrigados das nossas cidades!
Como Jesus Menino, "sem-abrigo", pois que "não havia lugar para Ele na hospedaria"!