sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

"É possível o "impossível"..."

Mais uma vez fizemos hoje o almoço de Natal do Projecto "Esperança de Recomeçar" - um trabalho de acolhimento e assistência aos sem-abrigo do nosso Concelho de Cascais, no Centro Comunitário da nossa Paróquia de Carcavelos.
Um tempo e um espaço onde tentámos proporcionar a cada um dos presentes algo de novo e de diferente, algo de nobre e de único, para além da sua triste condição de pessoas sem tecto, sem trabalho, sem famílias, grande parte, sem sonhos nem esperanças, muitos deles...
Mas este ano, podemos afirmar, apesar de ter sido um momento fantástico, onde brotaram sorrisos, palmas, alegria, este Almoço de Natal foi apenas um "prelúdio" da iniciativa que vamos levar a cabo na Noite Santa de Natal e no próprio Dia de Natal.
Conseguiu-se que a Consoada este ano, para estes homens e mulheres, fosse uma realidade; não terão que estar sozinhos, chorosos, lembrando outra noites de 24 de Dezembro bem mais festivas e alegres; este ano, nessa Noite e nesse Dia, todos eles terão a Ceia de Natal, pernoitarão no salão paroquial da nossa igreja e terão almoço e jantar no Dia de Natal.
Houve corações que perceberam que aquela rejeição, aquela solidão, aqueles "nãos" à Família de Nazaré não podem mais ser repetidos na vida de ninguém! Houve corações que entenderam que Natal é deixar-se espantar pela "magia" da simplicidade e da humildade e se predispuseram a abdicar das suas ceias pessoais, familiares, para se sentarem à mesa com estes homens e mulheres, enxovalhados da vida e esquecidos por grande parte da sociedade e, não raras vezes, da Igreja!
Aquela Noite Santíssima, antes da celebração da Missa do "Galo", onde nos alegraremos com o Nascimento do Menino Deus, será preenchida com essa comunhão de mesa, de presença, de cumplicidade, de ternura, para com esses corações mais pobres e vazios. E isso é sinal e testemunho de uma grandeza gigante, de uma caridade imensa, de uma fé enorme.
Fazermo-nos "um" com os mais pobres naquela Noite, será preciosa ajuda para a celebração do Mistério de Amor que é o Natal de Jesus Cristo.
Será uma celebração com os traços da verdade e da caridade, da fraternidade e do serviço, da doação e do despojamento... afinal, como naquele primeiro Natal.
Cada um de nós poderá ser "Maria" e "José" ao abraçarmos, ao acolhermos, ao "aquecermos", ao "guardarmos" esses corações sozinhos, frágeis, magoados, sangrados... Uma simples presença que fará toda a diferença...
No meio de demasiados "cinzentos" e "escuridões" que pautam o mundo e obscurecem por vezes a Igreja, é muito bom olhar e sentir e pressentir que um mundo novo e levanta, uma nova civilização se ergue, uma Igreja outra irrompe...
Na verdade, de novo, a certeza dessa "verdade" maior: quando Deus quer e o homem sonha, a obra nasce... mesmo.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

"Bem Aventurados"

Empurrado pela multidão que se juntava

Chegou o Senhor Jesus à sede da ONU!

Tinha o rosto destruído do desempregado,
Os ombros curvados dos mineiros,
Os passos inseguros dos refugiados,
O olhar triste dos perseguidos,
O coração sedento dos adolescentes,
A inquietação própria de qualquer jovem,
As rugas silenciosas e solitárias de incontáveis idosos,
As preocupações sublinhadas dos pais e mães que o são de verdade,
Os desesperos de quantos se tornaram, sem saber como, sem-abrigo das nossas cidades...

Não vinha recomendado por ninguém,
Apenas as lágrimas dos homens O empurrava...
A justiça e a verdade em relação aos mais pobres e fracos era a Sua força.

Diante dos "senhores" e dos "poderosos" das Nações, voltou a repetir:
"Bem aventurados os pobres...";
"Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça...";
"Bem aventurados os construtores da paz...";
"Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça...";
"Bem aventurados os puros de coração...";
"Bem aventurados os que choram...";
"Bem aventurados os que são caluniados..."!

Perguntavam-se entre si: "Quem é este Homem? Que língua fala Ele?"!

E o Homem de Nazaré, respondeu: "falo apenas a linguagem do vosso coração. Apenas a linguagem que conseguirá concretizar as vossas reuniões e os vossos esforços, os vossos anseios e boas vontades, em verdadeira paz e em verdadeira justiça. Falo-vos no idioma universal, aquele a que todos podem aceder e que todos conseguem compreender: a linguagem do amor.

Em Advento, se queremos viver Natal, urge a decisão interior de comunicarmos todos na mesma linguagem: a do amor; se queremos que Natal seja verdade, na Igreja e no mundo, urge que nos decidamos a ultrapassar as nossas "filosofias" da "caridadezinha" e, em gestos e verdade, falarmos a linguagem daquela Gruta de Belém: o Amor.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

"Redes sem conserto"!

Diz-nos o Evangelho deste dia de Sto. André que Jesus passava junto ao lago da Galileia e viu dois irmãos a consertar as redes da faina e a quem segredou: vinde coMigo e farei de vós pescadores de homens...
Eles ergueram-se se seguiram o Mestre que lhes falava; eles acreditaram n'Aquele "estranho" que os desafiava a ir mais longe e mais além; eles perceberam que não fazia mais sentido nas suas vidas a teimosia em tentar consertar redes sem conserto...
Parece-me uma "parábola", um "sinal" para os discípulos de cada tempo; entendo estas palavras como um renovado desafio do Mestre da Galileia a colocarmos também nós um "stop" nessa canseira e nessa teimosia, nesse afã e nessa obsessão de tentar "remediar", "consertar", "aguentar", "preservar", "redes" sem conserto, isto é, em alimentar esforços de teimosia em "verdades" que o não são de facto, em "certezas" e "dogmas" que apenas existem e permanecem nas nossas "cabeças" e "inteligências" demasiadamente enviesadas e incapazes de se abrirem à novidade permanente e espantosa do Evangelho do Reino!
Penso que mesmo no seio da Igreja, das nossas Comunidades cristãs, nos nossos grupos, movimentos, relações, se teima em demasia em consertar "redes sem conserto", ou seja, em gastar energias, forças, entusiasmos, em opções e realidades, em projectos e soluções que não falam do Deus de Jesus Cristo! Que teimamos em "esquemas" velhos e retrógrados porque com medo daquele "novo ardor" próprio de quem ousa a denominada "nova evangelização"!
Decerto é mais fácil e mais cómodo; quiçá mais gratificante pessoalmente; mesmo mais "seguro" que o arriscar em "sair", em "sonhar", em "ousar", "tornar-se "pescador de homens" com outras redes, com outras palavras, com outros gestos, com outros sentimentos, com outros horizontes...
Talvez estes sejam os tempos em que devamos deixar os "odres velhos" da burocratização da fé e da Igreja, da liturgia e da hierarquização sistémica e intocável da vida eclesial! Talvez sejam esta a hora certa para colocar de lado, e definitivamente, o "vinho velho" e "amargo" do preconceito e da marginalização dos diferentes, da presunção de possuidores de verdades absolutas e inalteráveis, da sobranceria diante da vida, da cultura e da história de outros, afinal, peregrinos e caminhantes da eternidade como nós!
Talvez esta seja a oportunidade que nos é dada para a purificação do coração e da mente a fim de acolher, aceitar e abraçar cada outro para lá das suas diferenças e alteridades; seja o momento adequado para acreditarmos que apenas temos para oferecer ao mundo a Pessoa de Cristo e Cristo Crucificado, escândalo e loucura, mas sabemos e acreditamos que força, poder e sabedoria de Deus!
Parar de teimar em "consertar redes sem conserto", como sejam discussões inúteis e petições ridículas acerca do regresso das vestes sacerdotais de forma obrigatória! Teimar no "consertar" o latim como linguagem imprescindível para a vida da Igreja quando quase ninguém percebe ou entende uma única palavra de uma língua literalmente "morta"! Consertar "redes sem conserto" em discussões e debates, em colóquios e embirrações sobre a forma única e exclusiva do acto da comunhão eucarística (de joelhos?!!!) sem nos questionarmos se não será mais indigno comungar com um coração impuro que de pé ou nas mãos!!!
Com efeito, urge repensar com que "redes" intentamos tornarmo-nos "pescadores de homens"! Corremos o risco de não "pescar" rigorosamente ninguém! Porque não falamos a linguagem deste tempo; porque nos afastamos da realidade que nos envolve; porque nos convencemos que os corações de hoje e as suas sedes e fomes são as de ontem...
O mesmo Evangelho, sim, claro, absolutamente! Mas com renovado ardor no seu anúncio, renovada paixão na sua explicitação, a fim de que se entenda e acredite que "o Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir" e que só um Mandamento nos foi deixado como herança: "Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei"!
Demagogias, por mais piedosas que sejam, não vencem nem convencem os corações...
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