"Redes sem conserto"!
Diz-nos o Evangelho deste dia de Sto. André que Jesus passava junto ao lago da Galileia e viu dois irmãos a consertar as redes da faina e a quem segredou: vinde coMigo e farei de vós pescadores de homens...
Eles ergueram-se se seguiram o Mestre que lhes falava; eles acreditaram n'Aquele "estranho" que os desafiava a ir mais longe e mais além; eles perceberam que não fazia mais sentido nas suas vidas a teimosia em tentar consertar redes sem conserto...

Parece-me uma "parábola", um "sinal" para os discípulos de cada tempo; entendo estas palavras como um renovado desafio do Mestre da Galileia a colocarmos também nós um "stop" nessa canseira e nessa teimosia, nesse afã e nessa obsessão de tentar "remediar", "consertar", "aguentar", "preservar", "redes" sem conserto, isto é, em alimentar esforços de teimosia em "verdades" que o não são de facto, em "certezas" e "dogmas" que apenas existem e permanecem nas nossas "cabeças" e "inteligências" demasiadamente enviesadas e incapazes de se abrirem à novidade permanente e espantosa do Evangelho do Reino!
Penso que mesmo no seio da Igreja, das nossas Comunidades cristãs, nos nossos grupos, movimentos, relações, se teima em demasia em consertar "redes sem conserto", ou seja, em gastar energias, forças, entusiasmos, em opções e realidades, em projectos e soluções que não falam do Deus de Jesus Cristo! Que teimamos em "esquemas" velhos e retrógrados porque com medo daquele "novo ardor" próprio de quem ousa a denominada "nova evangelização"!
Decerto é mais fácil e mais cómodo; quiçá mais gratificante pessoalmente; mesmo mais "seguro" que o arriscar em "sair", em "sonhar", em "ousar", "tornar-se "pescador de homens" com outras redes, com outras palavras, com outros gestos, com outros sentimentos, com outros horizontes...
Talvez estes sejam os tempos em que devamos deixar os "odres velhos" da burocratização da fé e da Igreja, da liturgia e da hierarquização sistémica e intocável da vida eclesial! Talvez sejam esta a hora certa para colocar de lado, e definitivamente, o "vinho velho" e "amargo" do preconceito e da marginalização dos diferentes, da presunção de possuidores de verdades absolutas e inalteráveis, da sobranceria diante da vida, da cultura e da história de outros, afinal, peregrinos e caminhantes da eternidade como nós!
Talvez esta seja a oportunidade que nos é dada para a purificação do coração e da mente a fim de acolher, aceitar e abraçar cada outro para lá das suas diferenças e alteridades; seja o momento adequado para acreditarmos que apenas temos para oferecer ao mundo a Pessoa de Cristo e Cristo Crucificado, escândalo e loucura, mas sabemos e acreditamos que força, poder e sabedoria de Deus!
Parar de teimar em "consertar redes sem conserto", como sejam discussões inúteis e petições ridículas acerca do regresso das vestes sacerdotais de forma obrigatória! Teimar no "consertar" o latim como linguagem imprescindível para a vida da Igreja quando quase ninguém percebe ou entende uma única palavra de uma língua literalmente "morta"! Consertar "redes sem conserto" em discussões e debates, em colóquios e embirrações sobre a forma única e exclusiva do acto da comunhão eucarística (de joelhos?!!!) sem nos questionarmos se não será mais indigno comungar com um coração impuro que de pé ou nas mãos!!!
Com efeito, urge repensar com que "redes" intentamos tornarmo-nos "pescadores de homens"! Corremos o risco de não "pescar" rigorosamente ninguém! Porque não falamos a linguagem deste tempo; porque nos afastamos da realidade que nos envolve; porque nos convencemos que os corações de hoje e as suas sedes e fomes são as de ontem...
O mesmo Evangelho, sim, claro, absolutamente! Mas com renovado ardor no seu anúncio, renovada paixão na sua explicitação, a fim de que se entenda e acredite que "o Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir" e que só um Mandamento nos foi deixado como herança: "Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei"!
Demagogias, por mais piedosas que sejam, não vencem nem convencem os corações...