"Uma partilha diferente..."
Há sensações, sentimentos, que apetecia mesmo nunca ter vivido; há ocasiões e factos, realidades e momentos que não são fáceis de "digerir", de "aceitar" de ânimo leve...
Permitam que partilhe convosco algo que hoje experienciei e que até hoje me era, de todo, desconhecido: um "sentimento" que nem sei mesmo definir...
Há uns dias atrás falava de um "Luís", com rosto, com história, com quem a minha vida se tinha cruzado no final de uma tarde de Domingo... Aquele coração magoado, despedaçado até, com um olhar triste mas ao mesmo tempo espelhando esperança e vontade de mudança... Foi apenas uma hora de encontro, de conversa, de partilha...
Sei esperar, este sábado recebo um telefonema e eis que do outro lado da linha estava o Luís! Recluso, em fim de pena (que leva já vários anos) eis que quis, simplesmente, falar com o Pe. António e se "desse jeito" e "tivesse vontade talvez pudéssemos beber um café"!!!
Sim, claro que na azáfama própria de um sábado numa Paróquia, encontraria tempo para um "café"; e fomos até jantar juntos, e continuar aquela conversa que naquele Domingo havia ficado inacabada...
E tornámos a encontramos ontem ao fim de um Domingo esgotante; senti e pressenti que o Luís - a quem havia concedido três dias de precária - (saída pontual) já estava a pensar que no dia seguinte (hoje, portanto, teria de regressar à sua pequena e isolada cela de prisão com tudo o que isso significa!
Fui buscá-lo a casa e ficámos a conversar, a partilhar, ou melhor fiquei a escutar tanta partilha, tantas histórias, do seu viver em locais tremendos e medonhos como são as prisões!!!
Ouvi histórias inimagináveis, quase inenarráveis! A ponto de me perguntar como seria isso possível?!!! Como seria possível tanta realidade horripilante num local que deveria ser de reinserção social, de ajuda a olhar o futuro com outros horizontes e critérios?!!!
E no meu silêncio e interior tentava imaginar o impossível de imaginar: como seria possível viver assim?!!! Como passaria ali o tempo, como se ocuparia a cabeça, a alma, o coração, num ambiente onde predomina a desconfiança, o tráfico, a insegurança, o medo, a revolta e a raiva?!!!
Era já bem tarde quando a nossa conversa terminou. E eis senão quando ele me pergunta, me pede, se o poderia levar à prisão no dia seguinte!
Fiquei aterrado! Não de medo, óbvio, mas de espanto pois que não queria imaginar qual seria o seu rosto, o seu sentir, quando tivesse de entrar naqueles insuportáveis portões, quando tivesse de cruzar aquelas monstruosas cancelas!
Disse que sim. E adormeci a rezar pedindo a Deus que o ajudasse. A ele e a tantos outros que vivem essa mesma realidade. A rezar por esses corações que um dia se extraviaram dos caminhos a trilhar mas que têm direito a recomeçar, direito a sonhar, direito a sorrir, como qualquer um de nós...
Hoje, após o almoço fui buscá-lo a casa. Sabia que ia fazer uma viagem "pequena" mas enorme.
Aquele Luís sorridente, conversador, sonhador, entusiasta, aparecia de rosto enviesado, parco nas palavras, onde o sorriso se havia desvanecido por absoluto durante as horas anteriores!
Sabíamos bem o que ia no coração de cada um; e sentíamos que tínhamos de nos proteger um ao outro, porque ambos estávamos a sofrer diante daquela separação que estaria eminente em poucos minutos.
Ambos a "fazer-nos" de fortes, de corajosos, como se levar um amigo para o deixar às portas da prisão fosse algo de normal, de natural!
Sairá, se Deus quiser, definitivamente, dia 23 de Fevereiro; ali, naquele degredo, naquela solidão rodeado por mais de 800 homens, naqueles silêncios intermináveis, passará mais três meses. Três infindáveis meses... Ali passará entre quatro paredes o Natal; ali fechado e isolado daqueles poucos que o amam, celebrará o seu aniversário natalício a 30 de Dezembro... Ali permanecerá, para além daqueles altos muros, separado de mim, separado de nós... à sua sorte!!!
Prometi-lhe que nessa manhã de sábado, 23 de Fevereiro de 2013, de manhã bem cedo estaria naqueles mesmos portões para ser o primeiro a recebê-lo e a abraçá-lo. E como sonho já esse abraço...
Correm-me lágrimas de saudades; lágrimas de impotência pois que nada mais posso ou sei fazer...
Lágrimas de saber e sentir algo que jamais havia sentido: deixar um amigo, um irmão, na prisão!!!
E regressei; da estrada olhei a sua cela - ao chegarmos ele disse que via a estrada e os carros que passavam - e desejei estar lá para o receber. Gostava de ser "mágico" para poder entrar antes dele naquela cela húmida, fria e vazia, para quando ele chegasse poder ser recebido por um abraço mais que por aquele silêncio e solidão certamente desesperantes.
Da estrada olhei a sua cela... e imaginei e imagino ali o Luís, à espera que o tempo passe depressa...
Diz-se agnóstico e por isso pedia mil vezes desculpa. (Tonto! Como se precisasse de pedir desculpa)! Quem dera acreditasse em Deus; sentiria mais força, mais coragem, sentiria que o tempo voaria mais depressa...
Um agnóstico fantástico, um agnóstico que nos prende o coração, um agnóstico que tem um enorme coração...
Um agnóstico que quando sai três dias de "precária" quer passar horas a fio com um Padre! Um agnóstico que sabe e sente que o amor lhe fala do que vale mais e do que ele (e todos nós) mais precisa...
Quem dera fosse amanhã aquele sábado ainda tão longínquo para mim...

