quinta-feira, 8 de novembro de 2012

"Alegria no Céu..."

A parábola da ovelha perdida foi, de novo, proclamada no Evangelho da Missa de hoje; história do Amor de Deus, da Sua ternura e misericórdia, da Sua paz e do Seu carinho por esta nossa humanidade que se faz e constrói com a vida de cada um de nós...
Parábola da minha vida, da tua vida...
História do Amor de Deus por mim, por ti...
Verdade de um Senhor que não descansa até nos encontrar, nos colocar aos ombros, nos ver e sentir nesse redil de vida em abundância que Ele nos conquistou com o preço indizível do Seu Sangue!
Saber que Deus "não poupa esforços" para me encontrar; sentir que a Sua alegria é ter-me aos Seus ombros, é uma força que nos sossega, serena, pacifica, enternece...
Saber que Deus não desiste de me encontrar, sempre que me "escondo" d'Ele mesmo, da Sua Palavra, do Seu Reino, da Sua vida; sentir que o Seu sorriso acontece sempre que me atrevo a erguer, a mostrar-me, a confiar, a entregar-me...
Parábola de Amor por cada coração que hoje permanece longe da "casa do Pai" e à qual eu tenho de encaminhar cada um desses "desviados" dos caminhos da alegria de Deus.
Hoje, também eu, como discípulo de Jesus, do Bom Pastor que dá a vida pelas Suas ovelhas, não posso nem devo poupar esforços para buscar a(s) ovelha(s) perdida(s) que ainda não saboreiam a alegria de estar aos ombros de Jesus.
Como Igreja, não posso nem devo sossegar enquanto, um só coração que seja, não estiver apaixonado e  embevecido por ser e querer ser mais de Deus.
Mesmo que isso implique deixar as outras noventa e nove; mesmo que isso implique não estar sempre trancado nas igrejas; mesmo que isso implique "misturarmo-nos" no coração do mundo; mesmo que isso implique a crítica e a insatisfação de quem nos quer encarcerar na esfera das sacristias e dos rituais!
Esta manhã, por graça do Céu, pude experienciar essa aventura de ir ao encontro da "ovelha perdida"...
Um rapaz - inicialmente - que não conhecia e que iria visitar a um Centro de Tratamento e Reabilitação, transformou-se, depois, num encontro com mais 16 vidas despedaçadas, algumas mesmo desesperadas, outras sem sonhos nem anseios ou horizontes!
Um encontro onde depois brotaram sorrisos porque sentiram amor, sentiram compreensão, sentiram cumplicidade nessa vontade de ser feliz, sentiram fraternidade na legitimidade de recuperarem dignidade e beleza de existir, sentiram que Deus os olhava com ternura, com carinho, muito mais que para os seus passados mais ou menos "calamitosos"!
Que espanto, que graça, que dom, puder abraçar rapazes, homens, mulheres, fugindo de si próprios mas que, por dom do Céu, sorriem e querem aprender a ajoelhar, a rezar, a pedir perdão, a ser mais fortes, a amar mais...
Que comoção imensa ao perceber que naqueles corações "sangrados", "apontados" e "proscritos" faz sentido, todo o sentido, falar-lhes de carinho, de compaixão, de abraços, de ternura, de afecto, de amor, ou seja, de Deus.
Ovelhas perdidas que Deus sonha em ter no Seu redil... e saber e sentir que Esse mesmo Deus Se quer servir da nossa pobreza e fragilidade para chegar a essas mesmas vidas.
Escreveria um "testamento" sobre o que hoje vivi... e não conseguiria dizer isso mesmo que vivi...
Apenas mais um gesto: o Zé, no fim, quando eu já vinha embora, o Zé, sisudo, triste, apático, distante, frio e "emigrante" da vida, dizia-me, sorrindo mesmo a sério: "Obrigado"!
Perguntei: isso vem da boca ou do coração?
Ele, continuando a sorrir, dizia: "do meu coração gigante como você disse que eu tinha"!
Lançou-me uma pergunta: "volta cá a visitar-nos?"!
Talvez seja agora presunçoso: mas acredito que Jesus sorriu. Acredito que houve alegria no Céu...

segunda-feira, 29 de outubro de 2012


"Luís... é o teu nome, a tua história..."

Conheci-te ontem mesmo, homem com nome, com história, com vida, com passado, tristes, magoados, receosos, tímidos, marcados negativamente...
Passaste o fim-de-semana fora desses muros da prisão que têm sido a tua casa, o teu lar, o teu mundo, nos últimos anos!
Mas disseste-me que o passaste dentro de casa, fechado, com medo do mundo, medo dos homens, dos seus juízos, dos seus pensamentos, dos seus dedos apontados... Com um sorriso temeroso segredaste que sairias em liberdade "já daqui a três meses"! (Nem consigo imaginar o que seja um dia numa prisão, quanto mais um mês, três meses, anos)!!!
E percebi-te super ansioso, reparei depressa nas tuas inseguranças, "palpei" rápido os teus medos incontáveis... mas, sobretudo, senti e "toquei" esse teu coração gigante, sedento, faminto, de sorrisos sinceros, de amizades verdadeiras, de cumplicidades e de sonhos renovados...
Conheci-te apenas ontem, no ápice de uma hora que passou tão depressa, mas parece, meu querido amigo, que te conheço desde sempre. Foi tão fácil entrar "na onda" do teu coração, na "órbita" dos teus medos e anseios, da tua solidão e das tuas inseguranças; foi tão fácil, ó homem meu irmão, sem nunca te ver visto, sem jamais ter partilhado a minha vida com a tua, sentir que ambos estamos nesta aventura solene e sublime que é a vida e o desejo de ser feliz.
Como vai ser quando sair da prisão? Onde irei morar? Encontrarei trabalho? Como sobreviverei? Que fazer para ajudar a minha família?... Estas e outras questões enchem e preenchem as horas do teu viver quotidiano quanto "apenas" te faltam três meses para recuperares a liberdade.
Pensas sobremaneira nessas questões quando, e ao mesmo tempo, te inquietas e chicoteias interiormente ao saber categoricamente que hoje regressarias à tua cela, à tua prisão, ao teu mundo, escondido do meu...
Sabes que te abracei; sabes que te disse que apenas via diante de mim um homem como eu que busca a forma de ser feliz, sabes que te disse onde morava e que aqui terias um tecto, uma cama, um espaço, um lugar. Não, não serás como Aquele Menino que um dia não teve lugar na hospedaria! Já bastou que essa história tivesse acontecido naquela primeira noite de Natal. Não pode perpetuar-se contigo. Jamais...
Achas estranho; dizes que não és homem de fé, de missas, de religião... que se te conhecesse mais talvez retrocedesse na oferta e no sorriso que te ofereci!
Mas eu disse-te que para lá da religião, das missas, dos rituais, importam os corações irmanados, entrelaçados, cúmplices, no desejo de ser mais feliz tornando cada outro também ele mais feliz...
E depressa, bem depressa passou aquela hora... e partiste. E hoje entrarias de novo naquele "deserto" esperando que passem esses três longos meses...
Telefonei-te hoje, quis de novo escutar a tua voz, escutar o pulsar desse teu coração, minutos antes de entrares nessas masmorras tremendas e inimagináveis... Guarda, meu irmão, essa certeza: no dia em que saíres, se tudo e todos te falharem, aqui tens um lugar. Mesmo que te não conheça. Precisamente porque te não conheço. Precisamente porque não vais poder agradecer-me. Precisamente porque em ti descubro e redescubro Aquele que em ensinou a tentar ser bom samaritano de cada coração... E o teu foi aquele que ontem me apareceu para amar, para acolher, para abraçar...
Homem sem rosto e sem história para o mundo, homem caído à beira do caminho, sabe e crê que tens nome, tens colo, tens um sorriso à tua espera... o de Deus na vida daqueles que perderem o medo da compaixão, da ternura, da caridade...
Luís, aí onde estiveres, acredita que tens um pedaço deste meu pobre coração.
E aí estará a Igreja que sou, a Igreja em que acredito, a Igreja de Jesus de Nazaré...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

"Alegria e entusiasmo que contagiam..."

Foi com muita alegria, emoção e fé compartilhada que foi vivido este último Domingo, dedicado nesta paróquia de Carcavelos à Festa da nossa Padroeira, Nossa Senhora dos Remédios.
Numa solene Eucaristia, às 11h 30, presidida pelo Senhor Cardeal Patriarca, onde se apresentou diante da Comunidade e, particularmente aos crismandos, com um sorriso bonito, simples, paternal, com uma multidão que enchia a igreja e o próprio adro, escutámos o apelo a ser mais Igreja, mais Comunidade, mais discípulos d'Esse Mestre de Nazaré.
Uma celebração carregada de significado, de entusiasmo, de fé, sabendo-nos abraçados pela Senhora dos Remédios que, como naquele primeiro Pentecostes, estava ali, naquela igreja, naquela manhã, tão presente, tão real, tão sentida...
O sorriso, o carinho, do nosso Bispo ao confirmar na fé cada um daqueles jovens e adultos ficarão gravados nos nossos corações; a alegria daqueles cristãos, conscientes, ao acolherem o Dom do Espírito, será também uma imagem que permanecerão bem no funda das nossas almas...
De tarde, também com uma pequena multidão, celebrámos a Procissão com a imagem de Nossa Senhora.
Percorrendo algumas das ruas de Carcavelos, quisemos consagrar esta nossa terra ao amor maternal da Mãe de Deus e nossa Mãe. Num ambiente festivo, respeitador, orante, sentido, foi bonito ir percebendo que a multidão crescia à medida que a imagem da Padroeira de Carcavelos "caminhava" por estas vielas, no meio das suas gentes...
Se agradecemos o facto de não ter chovido, agradecemos a "chuva" de bênçãos e de graças que a Senhora dos Remédios decerto presenteou esta terra, esta gente, estes sonhos, que somos todos e cada um de nós.
No final do dia, já tão cansado, mas também tão feliz, a igreja tornava a encher-se para a celebração da Eucaristia. Onde tornaram a participar vários dos jovens que naquela manhã haviam sido crismados. percebia-se a alegria estampada nos seus rostos; saboreava-se a paz celebrada naqueles corações; via-se tão bem a fé manifestada naquele entusiasmo com que celebravam o encontro com o Senhor, Pão vivo descido do do Céu.
Por fim, de joelhos, com todos os crismados, bem diante da imagem de Nossa Senhora, segredámos-lhe o "Recado". Um cântico único, nunca suficientemente cantado, repetido, proclamado, onde entregámos à Mãe do Céu esses mesmos corações, esses sentimentos, numa atitude de verdadeira consagração...
E como não sentir um "santo orgulho" em ser pastor de uma Comunidade que vive momentos tão intensos e tão profundos como estes?
E como não agradecer a Deus esta experiência maravilhosa de ser e tentar ser sempre mais polo de comunhão e de unidade entre todos estes corações que se dizem e afirmam corajosamente cristãos?
Assim Deus nos ajude a permanecer nesta alegria de ser apóstolo, neste entusiasmo de ousar ser arauto da Boa Nova, nesta paixão de desejar ser sempre mais de Deus e da Sua Igreja que também aqui peregrina rumo ao Céu...
De facto, esta é uma alegria e um entusiasmo que contagiam...
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