"Alegria no Céu..."
A parábola da ovelha perdida foi, de novo, proclamada no Evangelho da Missa de hoje; história do Amor de Deus, da Sua ternura e misericórdia, da Sua paz e do Seu carinho por esta nossa humanidade que se faz e constrói com a vida de cada um de nós...
Parábola da minha vida, da tua vida...
História do Amor de Deus por mim, por ti...Verdade de um Senhor que não descansa até nos encontrar, nos colocar aos ombros, nos ver e sentir nesse redil de vida em abundância que Ele nos conquistou com o preço indizível do Seu Sangue!
Saber que Deus "não poupa esforços" para me encontrar; sentir que a Sua alegria é ter-me aos Seus ombros, é uma força que nos sossega, serena, pacifica, enternece...
Saber que Deus não desiste de me encontrar, sempre que me "escondo" d'Ele mesmo, da Sua Palavra, do Seu Reino, da Sua vida; sentir que o Seu sorriso acontece sempre que me atrevo a erguer, a mostrar-me, a confiar, a entregar-me...
Parábola de Amor por cada coração que hoje permanece longe da "casa do Pai" e à qual eu tenho de encaminhar cada um desses "desviados" dos caminhos da alegria de Deus.
Hoje, também eu, como discípulo de Jesus, do Bom Pastor que dá a vida pelas Suas ovelhas, não posso nem devo poupar esforços para buscar a(s) ovelha(s) perdida(s) que ainda não saboreiam a alegria de estar aos ombros de Jesus.
Como Igreja, não posso nem devo sossegar enquanto, um só coração que seja, não estiver apaixonado e embevecido por ser e querer ser mais de Deus.
Mesmo que isso implique deixar as outras noventa e nove; mesmo que isso implique não estar sempre trancado nas igrejas; mesmo que isso implique "misturarmo-nos" no coração do mundo; mesmo que isso implique a crítica e a insatisfação de quem nos quer encarcerar na esfera das sacristias e dos rituais!
Esta manhã, por graça do Céu, pude experienciar essa aventura de ir ao encontro da "ovelha perdida"...
Um rapaz - inicialmente - que não conhecia e que iria visitar a um Centro de Tratamento e Reabilitação, transformou-se, depois, num encontro com mais 16 vidas despedaçadas, algumas mesmo desesperadas, outras sem sonhos nem anseios ou horizontes!
Um encontro onde depois brotaram sorrisos porque sentiram amor, sentiram compreensão, sentiram cumplicidade nessa vontade de ser feliz, sentiram fraternidade na legitimidade de recuperarem dignidade e beleza de existir, sentiram que Deus os olhava com ternura, com carinho, muito mais que para os seus passados mais ou menos "calamitosos"!
Que espanto, que graça, que dom, puder abraçar rapazes, homens, mulheres, fugindo de si próprios mas que, por dom do Céu, sorriem e querem aprender a ajoelhar, a rezar, a pedir perdão, a ser mais fortes, a amar mais...
Que comoção imensa ao perceber que naqueles corações "sangrados", "apontados" e "proscritos" faz sentido, todo o sentido, falar-lhes de carinho, de compaixão, de abraços, de ternura, de afecto, de amor, ou seja, de Deus.
Ovelhas perdidas que Deus sonha em ter no Seu redil... e saber e sentir que Esse mesmo Deus Se quer servir da nossa pobreza e fragilidade para chegar a essas mesmas vidas.
Escreveria um "testamento" sobre o que hoje vivi... e não conseguiria dizer isso mesmo que vivi...
Apenas mais um gesto: o Zé, no fim, quando eu já vinha embora, o Zé, sisudo, triste, apático, distante, frio e "emigrante" da vida, dizia-me, sorrindo mesmo a sério: "Obrigado"!
Perguntei: isso vem da boca ou do coração?
Ele, continuando a sorrir, dizia: "do meu coração gigante como você disse que eu tinha"!
Lançou-me uma pergunta: "volta cá a visitar-nos?"!
Talvez seja agora presunçoso: mas acredito que Jesus sorriu. Acredito que houve alegria no Céu...

