"Luís... é o teu nome, a tua história..."
Conheci-te ontem mesmo, homem com nome, com história, com vida, com passado, tristes, magoados, receosos, tímidos, marcados negativamente...
Passaste o fim-de-semana fora desses muros da prisão que têm sido a tua casa, o teu lar, o teu mundo, nos últimos anos!
Mas disseste-me que o passaste dentro de casa, fechado, com medo do mundo, medo dos homens, dos seus juízos, dos seus pensamentos, dos seus dedos apontados... Com um sorriso temeroso segredaste que sairias em liberdade "já daqui a três meses"! (Nem consigo imaginar o que seja um dia numa prisão, quanto mais um mês, três meses, anos)!!!E percebi-te super ansioso, reparei depressa nas tuas inseguranças, "palpei" rápido os teus medos incontáveis... mas, sobretudo, senti e "toquei" esse teu coração gigante, sedento, faminto, de sorrisos sinceros, de amizades verdadeiras, de cumplicidades e de sonhos renovados...
Conheci-te apenas ontem, no ápice de uma hora que passou tão depressa, mas parece, meu querido amigo, que te conheço desde sempre. Foi tão fácil entrar "na onda" do teu coração, na "órbita" dos teus medos e anseios, da tua solidão e das tuas inseguranças; foi tão fácil, ó homem meu irmão, sem nunca te ver visto, sem jamais ter partilhado a minha vida com a tua, sentir que ambos estamos nesta aventura solene e sublime que é a vida e o desejo de ser feliz.
Como vai ser quando sair da prisão? Onde irei morar? Encontrarei trabalho? Como sobreviverei? Que fazer para ajudar a minha família?... Estas e outras questões enchem e preenchem as horas do teu viver quotidiano quanto "apenas" te faltam três meses para recuperares a liberdade.
Pensas sobremaneira nessas questões quando, e ao mesmo tempo, te inquietas e chicoteias interiormente ao saber categoricamente que hoje regressarias à tua cela, à tua prisão, ao teu mundo, escondido do meu...
Sabes que te abracei; sabes que te disse que apenas via diante de mim um homem como eu que busca a forma de ser feliz, sabes que te disse onde morava e que aqui terias um tecto, uma cama, um espaço, um lugar. Não, não serás como Aquele Menino que um dia não teve lugar na hospedaria! Já bastou que essa história tivesse acontecido naquela primeira noite de Natal. Não pode perpetuar-se contigo. Jamais...
Achas estranho; dizes que não és homem de fé, de missas, de religião... que se te conhecesse mais talvez retrocedesse na oferta e no sorriso que te ofereci!
Mas eu disse-te que para lá da religião, das missas, dos rituais, importam os corações irmanados, entrelaçados, cúmplices, no desejo de ser mais feliz tornando cada outro também ele mais feliz...
E depressa, bem depressa passou aquela hora... e partiste. E hoje entrarias de novo naquele "deserto" esperando que passem esses três longos meses...
Telefonei-te hoje, quis de novo escutar a tua voz, escutar o pulsar desse teu coração, minutos antes de entrares nessas masmorras tremendas e inimagináveis... Guarda, meu irmão, essa certeza: no dia em que saíres, se tudo e todos te falharem, aqui tens um lugar. Mesmo que te não conheça. Precisamente porque te não conheço. Precisamente porque não vais poder agradecer-me. Precisamente porque em ti descubro e redescubro Aquele que em ensinou a tentar ser bom samaritano de cada coração... E o teu foi aquele que ontem me apareceu para amar, para acolher, para abraçar...
Homem sem rosto e sem história para o mundo, homem caído à beira do caminho, sabe e crê que tens nome, tens colo, tens um sorriso à tua espera... o de Deus na vida daqueles que perderem o medo da compaixão, da ternura, da caridade...
Luís, aí onde estiveres, acredita que tens um pedaço deste meu pobre coração.
E aí estará a Igreja que sou, a Igreja em que acredito, a Igreja de Jesus de Nazaré...

