sábado, 8 de setembro de 2012

"Rezar com os pés"

Foi uma experiência inesquecível.
Dura, bastante árdua até, mas para sempre gravada no coração de quantos ousaram fazer o Caminho de Santiago a pé...
Muitas palavras, imensos sorrisos, bastantes bolhas e dores musculares, incontáveis orações, celebrações eucarísticas que jamais esqueceremos, silêncios que tocavam o Céu, sorrisos cúmplices que amarravam os corações, desejo infindável de abraçar o Apóstolo...
Mas uma "marca", uma certeza tornou-se comum: rezámos com os pés.
Desde o primeiro segundo da nossa peregrinação, essa "imagem" e essa "ideia" iriam permanecer nos nossos espíritos: iríamos ter uma exigente, permanente e longa semana de oração.
O Terço era "companhia" permanente ao longo de cada etapa, de cada dia de Caminho; porém, todos ao mesmo tempo, mais devagar ou mais depressa, rezávamos com os pés. Tinhamo-nos comprometido a oferecer cada passo da caminhada; havíamos tomado consciência de que seria uma peregrinação onde cada segundo, cada momento, cada passo, fosse uma prece endereçada ao Coração de Deus.
E se algo de bom e memorável aconteceu foi, precisamente, essa constante consciência de que éramos um grupo que caminhava em permanente oração.
Confraternizámos, rimos, sorrimos, sonhámos, chorámos, partilhámos mas, acima de tudo, quisemos que os nossos passos fossem oração, fossem prece, fossem diálogo de amor, fossem oferta ao nosso Deus...
Na verdade, muito mais que repetir fórmulas religiosas, piedosas, orações rotineiras e balbuciadas sem sentido, quisemos rezar com os pés. E conseguimos. Com muitas dificuldades, a começar pelo permanente calor que se fez sentir, cada descida ou subida, feita com mais ou menos, ou até com muito sacrifício nalguns casos, sabíamos que estávamos a rezar... com os nossos pés.
Guiava-nos o desejo daquele abraço ao Apóstolo; seguíamos determinados a entrar naquela catedral de Santiago e, nesse abraço, após o reconhecimento da nossa condição de peregrinos, após cerca de 114 quilómetros palmilhados, no silêncio e na verdade do coração de cada um de nós, abraçar, sentir, entregar, pedir, confiar, e abandonarmo-nos no "colo" do Pai...
Regressámos já com um "plano" determinado, um objectivo a realizar, um sonho que havemos de tornar realidade: a Jornada Mundial da Juventude, em Julho de 2013, no Rio de Janeiro, à volta do Santo Padre e em comunhão com milhões de outros jovens que, decerto, ali se encontrarão.
Não foi um caminhar em vão, uma actividade de Verão, uma peregrinação a juntar a tantas outras; ao contrário, foi este tomar consciência que somos Igreja, responsáveis por uma Comunidade concreta e que nela havemos de mostrar os sonhos que nos guiam e a determinação real de os concretizar.
Falta menos de um ano para a JMJ de 2013; um gigante desafio se ergue diante de nós todos: os jovens, as famílias, a Comunidade paroquial... mas, porque como diz o poeta, "pelo sonho é que vamos", é já amanhã, que teremos a primeira reunião de preparação para a JMJ 2013.
O que rezámos com os pés será, com certeza, já uma alavanca fecunda e gozosa para conseguirmos alcançar os nossos objectivos.
Assim Deus, e a Sua Igreja, nos ajudem a concretizar o bem que já começámos...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

"Recomeçar..."

Gosto da expressão "sinais dos tempos".
Sente-se a urgência da atenção e a necessidade do olhar atento à realidade que nos envolve e que deixamos e decidimos construir...
Hoje, ao recomeçar "oficialmente" mais um ano pastoral, após uns dias de férias onde busquei o silêncio, o fresco e a envolvência reconfortante das montanhas, ladeado pela presença de alguns corações amigos e irmãos, tentei através da Palavra de Deus perscrutar esses mesmos "sinais dos tempos", ou seja, procurei perceber o caminho a seguir ao celebrar a primeira Eucaristia na nossa Comunidade neste mesmo novo ano pastoral.
E a Palavra proclamada hoje é bem "forte", é tremendamente exigente, é difícil de suportar, como diriam os Apóstolos no Sermão do Pão da Vida!
Deparamo-nos com a predilecção de Jesus pela Verdade, pela coerência, pela frontalidade, pela transparência de vida e de fé. Palavras do Mestre, bem duras, ao apelidar de hipócritas e maldosos a quantos preferem e escolhem uma postura "mascarada" diante dos homens, uma vivência fingida ao olhar dos demais, permanecendo com um coração despedaçado pelo egoísmo e pela mentira, pela falsidade e pela duplicidade de vida!
Percebi, acolhi, aceitei e acreditei que essa Verdade maior que é a fidelidade a Deus é o caminho a trilhar...
Evidentemente que já o sabia, já o sentia; porém, não raras vezes "esquecemo-nos" do que vale mais! E interpretei a Palavra de hoje como "mote" a sublinhar na vida da minha fé e na fé da minha vida.
Na verdade, que importará apresentar-me bem, digno, por fora, aos olhos dos homens, se o meu coração estiver desviado do Senhor Jesus?!
Que valerá a beleza dos paramentos, a impecabilidade da liturgia e das suas normas, se a minha alma estiver manchada pelo divórcio entre a fé e a vida concreta?!
De que servirão palavras eloquentes e sermões apelativos se depois a Verdade for uma palavra ou uma realidade que desconheço no meu peregrinar?!
Os "sinais dos tempos" são, por isso mesmo, bem claros: sou chamado, somos desafiados, à fidelidade do Evangelho, à paixão pela verdade, à experiência da frontalidade, à adesão à transparência da nossa vida. Somos convocados a entender e a acreditar que, como também diz a Escritura, que "importa obedecer antes a Deus dos que aos homens" e que, portanto, não importam nem interessam as imagens e as máscaras, os rostos distorcidos e mentirosos, as aparências piedosas e benfeitoras se, na verdade do nosso interior, Deus não tem um lugar de destaque, uma presença proeminente.
E pedi a Deus que me tornasse mais e mais apóstolo desta Verdade; rezei para que cada um de nós optasse, definitivamente, por agradar antes a Deus do que aos homens, sejam eles o Senhor Bispo ou o senhor Prior, o patrão ou o professor, o vizinho, aquele familiar...
Se não houver Verdade na vida, simplesmente somos mentirosos!
As aparências são sempre prejudiciais; os esforços por manter uma imagem determinada estão sempre condenados ao fracasso!
O "carreirismo" social, profissional, religioso, clerical, é sempre um afastamento do Evangelho.
Afinal, somos sempre nós que escolhemos, isto é, que decidimos aquilo que queremos escutar do Coração de Deus: "vinde benditos de Meu Pai" ou, ao invés, "afastai-vos de Mim, vós que praticastes a iniquidade"!
No recomeço de um ano pastoral, "os sinais" são bem explícitos...
Que Deus nos ajude a escolher a Verdade em detrimento da hipocrisia, a Alegria da fé à caducidade do pietismo alienado, a experiência da justiça ao abraço e cumplicidade com os egoísmos tantos que grassam no mundo e na Igreja.
E juntos, em Igreja, em Comunidade, em família de mulheres e de homens que caiem mas que se decidem a erguer-se, sigamos o Mestre, por mais exigente que nos pareça ser... só Ele é Caminho, Verdade e Vida para cada um de nós...

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

"Eu só queria agradecer..."

Mais do que um texto "temático" esta noite queria deixar por escrito uma palavra: Gratidão.
Porque é o sentimento que neste momento mais palpita no meu coração. Gratidão, obviamente, e acima de todos e de tudo, a Deus, Senhor da vida que me concedeu esse dom inestimável e único.
Gratidão aos meus Pais que com Deus colaboraram nesse milagre sempre novo da transmissão dessa vida e que ao longo desta têm sido os alicerces, as colunas, as referências, o "colo", que mais ninguém consegue oferecer daquela forma que apenas eles o sabem e fazem...
Agradecer aos muitos que comigo partilharam e partilham este dom que trago e experiencio há já 46 anos.
Gratidão pelo dom da amizade e da presença, da lembrança e da cumplicidade, da paz e do perdão, da paciência e da ternura, do silêncio e das palavras, dos abraços e dos sorrisos, das lágrimas e dos afectos, com que me presenteiam sobremaneira.
Gratidão por saber e sentir que o coração fica mais cheio, mais são, mais fecundo, pela presença física e/ou afectiva que com permanência me fazem sentir. Gratidão por tantos gestos e sinais que vão sendo "farol" e incentivo, força e amparo no meu próprio caminhar...
Celebrar o nosso aniversário e senti-lo como data, como tempo, como ocasião, de presença amiga e generosa, de comunhão e fraternidade genuínas, é dom que eu não saberei agradecer bem nem suficientemente...
"Há gente que fica na história, da história da gente"! Palavras de um fado que falam verdade profunda na experiência e no dom que é a vida. Sentimento forte e genuíno de quem percebeu que a vida não se vive se não se convive; por isso mesmo há gente que pauta, marca e fica na história da gente que é cada um de nós...
Quanta gente na minha vida!...
Quanta gente que fica na história da gente que também sou!...
E a cada um gostaria de "segredar" bem no íntimo do coração. bem-haja.
Bem hajas tu, tu em concreto, quer leias ou não estas letras, bem hajas tu em concreto que dás "sabor", dás "alento", dás "sentido" à minha vida...
A vida que vem de Deus apenas faz sentido quando partilhada, quando feita "entrega" àqueles que em cada momento enchem e preenchem cada segundo do nosso ser.
Por isso mesmo, agradecer a Deus é agradecer a todos e a cada um dos que já "escreveram" este "livro" de quarenta e seis anos de história e de "estórias"...
Obrigado...

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

"A Caminho..."

Percorro os caminhos de Santiago nesta preparação mais próxima para a Peregrinação que os Jovens da nossa Paróquia irão realizar entre os próximos dias 1 a 7 de Setembro; palmilhando estradas e caminhos, procurando sombras e lugares de descanso, reservando locais para a celebração da Eucaristia diária e espaços para pernoitar, esta é já uma forma bem real e concreta de "fazer" e de "viver" o Caminho de Santiago...
Na verdade, ser-se ou tornar-se peregrino não é questão de dar fisicamente um primeiro passo, seguido de muitos outros; revestir-se desta "condição" de itinerante, de caminhante, é predispor-se, desde o primeiro momento dessa vontade de ir mais além, mais longe, mais alto, rumo a experiências desconhecidas, certo de dificuldades a ultrapassar, ciente de barreiras a contornar, consciente de que a meta é possível na medida da entrega, da confiança, do abandono Àquele que Se faz Companheiro de viagem dos "discípulos de Emaús" de todos os tempos...
"Se fordes o que haveis de ser, pegareis fogo ao mundo inteiro"!
Estas palavras memoráveis e inesquecíveis do Papa João Paulo II serão o lema da Peregrinação.
Buscar-se-ão todas as formas para que em cada coração fique ainda mais gravado e marcado essa vocação comum: sermos "fogo", sermos "lume", sermos "luz", de um Espírito que intenta incendiar da Sua paz e do Seu amor toda a nossa humanidade, começando pelos nossos próprios corações, as nossas casas, a nossa Comunidade...
Em cada contacto, em cada conversa, em cada paragem, nesta preparação, há já este "espírito" eclesial, esta certeza de que não se caminha sozinho, esta alegria de permanecer ao serviço da Igreja na disponibilidade de servir cada outro.
No "segredo" e no "silêncio" de cada momento da preparação, há já esta certeza de que se está a Caminho, pois que a meta a alcançar, mais que um lugar geográfico - também com certeza - é a experiência da relação, do ser Comunidade, do crescer na consciência de que na vida somos verdadeiramente peregrinos rumo a uma "Meta" eterna e sem fim.
A simplicidade das condições, a sobriedade do que traremos nas mochilas ensinar-nos-ão, certamente, a valorizar o essencial, a reconhecer o "tanto" e o "muito" que nos é concedido e que a rotina já ajudou a menosprezar e a banalizar; a certeza de precisarmos de cada outro, das suas forças e entusiasmos, dos seus silêncios e das suas palavras, do seu testemunho, dificuldades e sonhos, serão o "bordão" que ajudará cada passo que fizermos.
Assim o creio. Por isso rezo desde já. Por essa intenção ofereço cada momento e minuto desta preparação...
A fim de que quando vivermos e celebrarmos o "Abraço" ao Senhor Santiago percebamos que a vida é Caminho, a fé é "cajado" nessa caminhada, a Comunidade é a "estrada" que nos faz perseverar no rumo certo sem a possibilidade de nos perdermos nos nossos próprios horizontes...

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

"Senhora do 'Sim' na nossa vida"

Hoje somos, de novo, convidados a olhar para a figura de Maria, envolta no mistério da sua Assunção ao Céu; desafiados a relembrar aquela palavra tão simples e, simultaneamente, tão extraordinária, que transfiguraria a história de toda a Humanidade. "Sim"!
Esse "Sim" que necessitamos, enquanto Igreja, enquanto Comunidades, enquanto cristãos, "lembrar", "actualizar" e "incarnar" nas nossas próprias vidas.
Maria será sempre sinal eloquente da possibilidade real de fidelidade a Deus e ao Seu projecto; Maria será sempre a certeza de que não estamos condenados à mediocridade da fé e à banalização do discipulado; Maria é a "prova" clara e inequívoca que todo o nosso ser pode ser de Deus, pode ser do amor, pode ser do Evangelho...
A devoção mariana, o nosso carinho e ternura por Nossa Senhora será sempre demasiadamente pobre se se reduzir à repetição de "Avé-Marias" sem consequências na vida quotidiana. A pureza do Coração de Maria é apelo à pureza dos nossos corações; a sua docilidade à Palavra é desafio à escuta da Palavra que aponta os caminhos a seguir neste tempo e nesta sociedade; o seu silêncio e descrição é chamamento à humildade de gestos, de horizontes e de desejos para cada um de nós; o seu desejo de permanecer sempre junto de Jesus é "pista" para entendermos e nos decidirmos a acompanhá-l'O neste nosso peregrinar.
A devoção a Maria, as solenidades celebradas em sua memória e honra, não podem ser preenchidas com a esterilidade da nossa vida! Esta, para ser fecunda, para ser hoje "memória" e "actualização" da majestade existencial de Maria tem de ser desejo de imitação da sua própria vida.
A simplicidade e a verdade, a entrega e a humildade, a disponibilidade e a pureza de desejos e sentimentos, a fé abandonada à Palavra e ao projecto de Deus, são elementos permanentes de conversão na nossa adesão à fé e à Igreja que dizemos ter e assumir.
Em período de férias para muitos de nós, cristãos, eis mais um "sinal", mais um "apelo" a repensar a firmeza da nossa paixão por Cristo e da nossa missão de apóstolos deste tempo.
O sol, o calor, a praia ou o campo, o lazer e o descanso merecido para todos nós tem de ser, também, acompanhado deste retemperar de forças e de vontades para a assunção em nós desta vocação de construtores de um nova civilização, de trabalhadores decididos à edificação de uma Igreja mais ao jeito do Mestre, mais humana e, por isso mesmo, mais divina.
É tão triste e devastador o divórcio entre a fé e a vida! Mas é tão gratificante este desejo que podemos ter e viver de sermos "cúmplices" com Maria e como Maria, para erguermos uma nova "História" onde a lei do caminho a percorrer está proclamada há já tanto tempo: "Fazei o que Ele vos disser"!
Sermos todos de Deus, onde Ele permanece como o "centro" de cada momento do nosso existir, onde Ele pode e consegue entrar em todos os nossos "mundos", onde nada Lhe é escondido ou proibido permanecer...
Como Maria, a "cheia de graça", a "cheia de Deus", a Senhora do "Sim"...

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

"Falar de ti..."


"Sabe bem voltar-te a ver
Sabe bem quando estás ao meu lado
Quando o tempo me esvazia
Sabe bem o teu abraço fechado
E tudo o que me dás quando és
Guarida junto à tempestade
Os rumos para caminhar
No lado quente da saudade"...

Não, de todo que não é uma "fase" ou um tempo de "nostalgia" este que experiencio nestes dias de férias; não é uma "lamechiche" do coração...
Mas ao tornar a escutar esta música ontem à noite no rádio, o pensamento viajou sem pedir permissão, unindo-se ao coração e à sua força imensa e nunca suficientemente reconhecida, e lembrou histórias, e vislumbrou rostos, e "tocou" momentos que fazem a história da nossa própria história...
Estando bem ao lado de corações gigantes, estes dias, sabe bem cada "abraço fechado" recebido de mil formas e maneiras, partilhado em sorrisos e sentimentos puros e genuínos; que fazem lembrar outros corações entrecruzados ao longo dos tempos já vividos...
Na verdade, nas férias temos mais tempo para pensar, olhar por dentro, relembrar e sonhar, desligando-nos de amarras e grilhões que, muitas vezes inconscientemente, nos vão aprisionando a alma e nos fazem padecer da audácia do que vale mais: a força do coração. A ausência das "rotinas" conseguem a valorização da beleza e da força da amizade; conseguem reconhecer "os rumos para caminhar no lado quente da saudade..."
E sabe bem. Na verdade, sabe bem. Olhar e reconhecer pessoas extraordinárias que nos enriqueceram com as suas vidas e os seus abraços; que nos transformaram com as suas verdades e as suas visões outras de enfrentar a vida; que nos moldaram com as "mãos" dos seus corações únicos e nos fizeram acreditar, mais e mais, no valor da amizade e da cumplicidade, da fidelidade e do sonho em comum, rumo ao "destino" que se vai edificando...
Por estes dias, tento escutar a "voz sonante" de cada sorriso, intento acolher e "guardar o que é bom de guardar" dos que comigo vão partilhando este período de férias, agradecer Àquele que fez entrecruzar as nossas histórias e os nossos "destinos".

Com estes amigos construo, sempre de novo, um contexto diferente para a palavra "saudade"; ela pode ser rica, positiva, libertadora , dinâmica, sedutora... ao invés daquele outro sentido que demasiadas vezes lhe outorgamos, como seja algo de depressivo, nostálgico, triste, amargurado! "Saudade" pode - e tem de ser - um sentimento que nos ajuda a caminhar, nos lembra e relembra a cada instante a beleza e riqueza daqueles muitos que "escreveram" a nossa própria história, nos alimenta o sonho de perpetuar a riqueza dos corações unidos e envoltos em lágrimas e sonhos, em amarguras e esperanças, que sabem e sentem que tudo se torna mais belo e fácil quando se ousa a entrega  e partilha da própria alma...

Com estes corações que deixo envolvam o meu próprio coração, com as nossas diferenças e semelhanças, os nossos defeitos e virtudes pessoais, percebo sempre melhor o quão a vida se pode enriquecer, valorizando a força destes nossos corações...

Agradecer é a palavra de "ordem" que se impõe quando se tem mais tempo para olhar com os olhos da alma. Agradecer aqueles tantos e tantos que vislumbro neste momento e que são parte inquebrável do meu próprio ser e existir... Agradecer os incontáveis "abraços" manifestados em sorrisos e histórias, em confidências e sonhos partilhados, em silêncios que falam também tanto do que nos vai na alma... 

Sim, "aquele abraço fechado" é algo de que nenhum de nós pode prescindir. É virtude a alimentar, é dom a apreciar, é maravilha a agradecer... Porque nos falam do eterno, porque nos relembram a nossa humanidade, porque sustentam a nossa própria debilidade, porque perpetuam a nossa condição de peregrinos precisados das mãos de cada outro...

É esse mesmo abraço que aqui deixo a cada um... Àqueles que em cada dia vão partilhando o meu caminho; a todos os que a força dos "ventos da história" afastaram da geografia física mas jamais apagarão da "geografia do coração"...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

"A caminho de Santiago..."

Por estes dias aproveito para uma "pausa" nas "lides" naturais, "normais" dos múltiplos serviços pastorais...
"Férias" são quase uma palavra mágica neste momento do caminhar...
Mas, simultaneamente, há uma Peregrinação de jovens a pé pelos caminhos de Santiago a preparar com tudo o que isso implica; há um projecto "gigante" diante de nós que urge organizar a fim deste ser algo de sério, profundo e marcante para quantos se inscreveram nesta aventura que se vislumbra já no horizonte...


Significa isto que as "férias" serão sobretudo este tempo de preparação do Caminho a Santiago. Uma peregrinação, que como se percebe, implica esforços de organização, tempo e dedicação a fim de que o "abraço" ao Apóstolo, na catedral de Compostela, seja um gesto sentido, vivido, desejado, amado, marcado pela fé...
Uma preparação que tem de estar, desde já, assente - e bem - nos alicerces da oração e da entrega abandonada; uma preparação que, desde o primeiro momento, implica acolher e viver como acto de amor e de louvor, como vivência de paixão e de oblação Àquele que é o Senhor de todas as coisas.
Porquê uma peregrinação a Santiago de Compostela logo na primeira semana de Setembro?
Simplesmente porque essa bem pode ser uma experiência que pautará o início do Ano Pastoral no trabalho a desenvolver com os jovens da Paróquia.
Porque a "porta da fé" que a Igreja é desafiada a celebrar no próximo Ano Pastoral pode e deve ser ultrapassada com a dinâmica do "caminho", do "desafio", da "aventura", do "esforço", da "novidade", num combate assumido contra a letargia e a rotina, numa luta consciente contra a habituação e esse perigosíssimo "slogan" que é o "sempre foi assim"!!!
Serão, portanto, umas férias diferentes as minhas este ano; com alguns jovens, dedicaremos o nosso tempo a preparar esse Caminho a percorrer entre os dias 1 e 7 de Setembro.
Serão férias com os traços do serviço, as marcas da dedicação.
Férias onde se alteram a "geografia do espaço" mas permanece aquela outra bem maior, como afirma o Santo Padre: "a geografia do coração", que não se altera nem transforma quando é a fé, o amor, a guiar cada passo, cada momento, cada dia, do nosso próprio viver.
Quero pedir a quantos lêem estas palavras que façam vossa esta Peregrinação. Que a tenham na vossa oração, na vossa Eucaristia, na vossa Comunhão.
Que esta preparação seja solidificada com a força da vossa intercessão, das vossas preces erguidas ao Céu...

sábado, 28 de julho de 2012

"É imitar-Te a Ti..."

"Eu sou jovem,
Eu sou novo,
Eu sou filho,
De Nosso Senhor.
Sou Paróquia,
Sou Carcavelos,
Sou diferente,
Quero ser melhor,
Caminhamos em frente,
Com um coração que sente
O peso de ser jovem,
Ser santo no presente,
Nós somos Carcavelos,
Ser Paróquia é imitar-Te a Ti.
Nós somos Carcavelos,
Ser Paróquia é imitar-Te a Ti.
Eu sou a diferença
De Nosso Senhor,
Irmão de Cristo, o melhor amigo,
O Salvador que trouxe a paz,
Eu sou o que sou,
Ninguém me mudará,
Filho do Senhor, cresço com os irmãos,
Da nossa Paróquia, até ao fim.
Eu sou Carcavelos, e digo sim,
Ao Amor de Deus,
Que encontro em Ti.
Nós somos Carcavelos,
Ser Paróquia é imitar-Te a Ti.
Nós somos Carcavelos,
Ser Paróquia é imitar-Te a Ti".

Um hino? Palavras? Uma simples canção?
Imensamente mais do que isso; são o sentir e o pulsar destes corações que no final desta "aventura divina" que foi o Kandandu 2012 expressaram desta forma a experiência que palavra alguma consegue transmitir ou explicar...
Uma música que consegue apenas balbuciar o indizível do coração.
Mas um hino que nos "orgulha" do caminho percorrido, dos corações entrelaçados, dos esforços entregues, dos suores derramados, dos cansaços feitos oblação.
Na verdade, creio que este "orgulho" é legítimo e é são; é positivo e derradeiro até...
Olhar esta juventude que se sabe e sente pertença da Igreja, de uma Comunidade, de Deus, desejosa de contagiar esta "Semana" a cada outro consegue maravilhar e preencher o coração de qualquer pastor.
Olhar cada olhar, do mais pequeno ao mais velho e perceber, e sentir, e pressentir, a paz e o sonho, a vontade e o desejo de irem mais além, inquieta e desassossega pois nos desinstala e faz erguer o olhar ao Céu para agradecer, embevecido, as maravilhas que Deus teima em fazer no meio de nós, dentro de nós...
Ser Paróquia, ser Igreja, ser discípulo é, simplesmente, e afinal, imitá-l'O a Ele, O Caminho, a Verdade e a Vida das nossas próprias vidas.
Perfumados da paixão por Jesus, saibamos ser dignos das graças derramadas sobre nós e, através de nós, e apesar de nós, seja Jesus a Karidade que desejamos viver e ser a cada instante...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

"A Audácia de sonhar..."

Avançamos neste Caminho a que nos propusemos; os dias vão passando, o cansaço torna-se a cada instante mais visível, seja nos monitores seja em cada um dos monitendos...
É até já "palpável" o fim deste "Kandandu 2012" pois que as forças se vão esgotando, apesar de sentirmos o coração bem cheio, num "bater" diferente, numa ânsia "arritmada" e numa alegria deveras contagiante...
Teimamos nesta proposta aos outros e a nós de acreditar que o Caminho se faz caminhando e, nesse sentido, há valores e traços, marcas e desafios diante dos quais não podemos nem queremos ignorar mas, ao contrário, abraçar, viver para os poder partilhar e propor a cada outro.
A "Mansidão" de coração, no dia de ontem; a "Audácia" como lema do nosso dia de hoje, continuam a ser "ideais" a potenciar em cada um de nós a fim de percorrermos um Caminho que nos dignifique enquanto pessoas, enquanto cristãos, enquanto Comunidade, enquanto Igreja...
Esta "coragem", esta "ousadia" esta "audácia" de voar mais longe e mais alto; esta audácia de perceber que urge combater um "refrão existencial" como o "sempre foi assim" que paralisa os sonhos, ameaça a sobrevivência de projectos, corrói a rebeldia fecunda de quem percebe que o desassossego é o trilho a seguir para a renovação de todas as coisas...
Na verdade, não é raro vislumbrar na vida dos menos novos mas, infelizmente, também já nos corações mais novos, este "slogan" "castrador" de novos horizontes, de renovados projectos, de fecundas propostas que nos retirem dessa postura de anestesia, comodismo, medo e inércia em que nos deixamos cair simplesmente porque as coisas, a vida, a Igreja, o mundo, "sempre foi assim"!
Como seria a nossa vida, que sentimentos brotariam dos nossos corações se a "Audácia" de sonhar, a vontade de acreditar na força e no deslumbramento do "novo" nos arrebatasse as forças, as energias, o coração e a fé?
Porque persos e atolados nessas areias movediças do "sempre foi assim" quisemos que fosse a "Audácia" a proposta das nossas acções deste penúltimo dia de Acampamento de Verão dos jovens da nossa Paróquia.
Eles são novos demais para serem já "vítimas" e "consequências" dos imobilismos da nossa sociedade e da nossa Igreja; eles são grandes demais para se deixarem intimidar pela inércia e pelos mausoléus da ignorância e do medo com que são presenteados demasiadas vezes por aqueles que ocupam "serviços" e "cargos", por quantos mesmo na sua maior boa vontade se deixaram prender a um passado que já não volta e deixaram de olhar novos horizontes...
Intentar que cada um destes corações deixe de ter medo de se saber e sentir protagonista de um mundo, uma escola, uma sociedade, uma comunidade cristã, uma Igreja é o cainho a percorrer. Desafiar ao compromisso com o "novo", o "diferente", o "inseguro", a capacidade de sonhar, é a nossa aposta neste dia.
A História e a Igreja, as suas vidas, não precisam de gente - muito menos destes corações jovens - "aprisionados" a "sistemas", a "esquemas", a trilhos" e a "propostas" que não enchem nem preenchem o coração! O futuro é o nosso caminho. O Amanhã é o nosso horizonte. E avançar sem as "muletas" que até nos podem sustentar e assegurar que não caímos mas que nos impedem de correr, é decisão que havemos de fazer se acreditarmos que a "Audácia" não significa falsa ou prejudicial rebeldia mas, ao contrário, fecunda a nobre capacitação de talentos, assunção de responsabilidades geradoras de liberdade, ensina a beleza do inconformismo fora e dentro da Igreja, bem ao jeito do Evangelho...
Ser "Audaz", eis a proposta de hoje...
Para que o mundo e a Igreja creiam que não estão condenados ao imobilismo, ao situacionismo, mas são chamados à força e à libertação dos sonhos que pautam o nosso peregrinar.

terça-feira, 24 de julho de 2012

"Nobreza de coração"

                                       "Ó Deus, nosso Companheiro de viagem:
Um novo alvorecer aparece diante de nós.
Pedimos-Te que faças deste dia um dia de paz e de amor.
Que seja um dia onde Te fazemos
sorrir com o nosso trabalho,
a nossa dedicação e a nossa entrega.
Que os nossos passos sejam os Teus próprios passos.
Que o pulsar do nosso coração seja o palpitar do Teu Coração aberto por amor.
E que à noite,
o mundo se tenha transformado 
em algo de mais belo e de mais nobre".

Assim rezámos nós, os Monitores, enquanto os monitendos ainda bocejavam diante do dia que amanhecia; assim entregámos, como se da primeira vez se tratasse, mais um dia de acampamento, mais esta oportunidade de, na entrega de corações, trabalharmos a "palavra-chave" que guiaria o nosso dia: Nobreza.
Aquela Nobreza que não depende do "sangue azul" que corre ou não (claro que não) nas nossas veias; aquela Nobreza que não é gerada espontaneamente por causa do nome ou do apelido que herdamos; aquela Nobreza que não se conquista pela conta bancária que possamos ter, pela casa onde possamos morar ou pela marca das roupas que possamos usar, aquela Nobreza que não está presa ao sotaque ou ao timbre da nossa voz nem ao vocabulário mais ou menos elaborado que usemos na nossa linguagem!...
Somos desafiados a conquistar aquela Nobreza que é sinónimo de grandeza de coração, de profundidade de carácter, de assimilação consciente de valores que não dependem das modas, das culturas, das políticas ou das imagens e máscaras com que demasiadas vezes exigem nos apresentemos diante dos outros.
Chamados à Nobreza de vida interior, onde aquilo que importa e verdadeiramente conta é aquilo que somos e não aquilo que aparentamos ser!
Nobreza de sentimentos, apreendidos na beleza e na força do Evangelho, verdadeiro e definitivo Caminho para nos transformarmos em Homens Novos, capazes de "colorir" esta humanidade e esta Igreja com "cores" outras onde os homens se sintam atraídos e seduzidos a pertencer-lhe de alma e coração.
Nobreza de atitudes, onde revelamos uma postura e uma existência distinta de muitas que são pautadas pela mediocridade de critérios, de horizontes e de opções!
Nobreza nos sonhos e nas vontades, porque crentes que é no coração que se "joga" a felicidade humana, mais que na racionalidade que aprisiona, emudece, paralisa e desvia do essencial.
Hoje, pelas ruas e vielas de Belver, num jogo de vila, na passagem de variados postos, escutaremos os apelos à Nobreza das nossas vidas, que assentam na liberdade da obediência consciente e responsável, na escolha da humildade como riqueza do nosso peregrinar...
Terminaremos o dia - naturalmente já exaustos - após esta exigente caminhada marcada sempre por um calor indiscritível, com a celebração da Eucaristia. Aí louvaremos, agradeceremos e pediremos para que a Nobreza seja algo que não se reduz a uma "palavra" mas é um traço do "mapa" dos nossos corações...

segunda-feira, 23 de julho de 2012


"Humildes..."

"O orgulho divide os homens; a humildade une-os" (Henri Lacordaire).

A Humildade será a "palavra-chave" deste dia que amanhece diante de nós; um sentimento que vai sendo banido do "dicionário" das nossas vidas e dos nossos corações; um tesouro que tende a ser desvalorizado neste tempo em que o nosso olhar se vai fixando mais nas "pérolas" nada preciosas da "posse", do "poder", do "endeusamento", da "auto-suficiência"!...
Porém, nesta "teimosia" que nos preenche, ousamos incarnar a Humildade como passo decisivo e determinante para encontrar o verdadeiro Caminho que conduz à Vida; nesta "aposta" aparentemente desvalorizada sabemos e acreditamos que encontraremos a força capaz de mover as "montanhas" de orgulho que perseguem as relações humanas e apenas conseguem alcançar a desarmonia e a desigualdade, a frustração e a mediocridade do próprio coração!
Escolhemos "trabalhar" a Humildade no preenchimento deste nosso terceiro dia de Kandandu 2012. Decidimos olhar para o Mestre e essa sua "característica" tão Sua, tão própria, de fazer de cada outro o "santuário" de cada encontro, de cada palavra, de cada gesto, de cada segundo da existência.
Mais novos e mais velhos, monitendos e monitores, intentaremos trazer e preencher o coração com as palavras de S. João Baptista: "É preciso que eu diminua e Ele cresça"! É preciso que eu diminua, eu me apague, e eles, cada outro que se cruzar hoje connosco, cresça, seja mais importante, deixando de olhar exclusivamente para os nossos umbigos e acreditar na beleza, na riqueza, que comporta e existe no coração do outro, dos outros...
Não será uma "batalha" fácil, tal o "vício" que nos controla na medida em que vamos sendo contra educados" procurando convencer-nos de que valemos pelo que "temos" e não pelo que "somos"!
Nas relações inter-pessoais deste dia que nos é dado como dom do Alto, buscaremos a Humildade como "estrela" que guia e aponta os trilhos a seguir a fim de acertarmos os passos rumo ao verdadeiro Caminho.
Em cada actividade, em cada proposta, cada jogo, cada palavra, intentaremos fazer autêntico e profundo diálogo e relação, onde o outro se sente e sabe "grande", "forte", "rico", porque amado por cada um de nós...
Sim, porque a Humildade aprende-se, começa, vive-se no mais elementar da nossa existência: saber dialogar, saber escutar, saber aceitar a diferença de cada outro.
"É preciso dialogar com os que nos rodeiam: é muito triste não conhecer mais que o monólogo. Dialogar é saber escutar e pôr-se na disposição de comungar com o outro. Falar e escutar são dois actos de valor humano idêntico; na realidade são um mesmo acto.
Quem não sabe escutar, nem sequer pode falar em sentido pleno: brada, grita, monologa. Quando não se sabe deixar falar o outro, acaba-se por escutar os próprios gritos. Só os humildes são capazes  de dialogar; sem um sincero espírito de acolhimento, o diálogo não é possível.
É preciso acolher o próximo, chame-se ele marido, filhos, subordinados, amigos, etc., para se poder dialogar.
Há silêncios e monólogos que cheiram a morte: morreu o amor. Se há amor, surge o diálogo, pois o amor faz milagres"
A humildade faz milagres...
E isso nos basta...

domingo, 22 de julho de 2012

"Novo dia..."

Amanheceu bem cedo para cada um de nós; o cansaço - ainda que estejamos a iniciar o segundo dia - é visível!

Toda a "excitação", todo o "nervosismo" próprios de quem se aventura numa "viagem", num "CAMINHO" como este, cansa externa e interiormente...

É Domingo; em grupo, em pequena Comunidade, em Igreja, unidos ao mundo, rezámos.Entregámos o nosso dia, cada momento, cada palavra, cada sentimento, pedindo a Deus nos ajude a compreender a "palavra" que guiará este nosso segundo dia de "Kandandu": Obediência.
Aprender a obedecer, para entender que é neste princípio que nos tornamos grandes e fortes; que é alicerçados nesta "força" que seremos "gigantes" para saber escolher, optar, diante da multiplicidade de propostas o verdadeiro Caminho da Vida verdadeira.
Pequeninos e grandes, de mãos e corações dados, de olhos ainda semi-cerrados, entregámos o que temos e o que somos ao Céu...
Seguiremos para a Comunidade paroquial de Ortiga para com esses irmãos na fé, celebrarmos a Eucaristia, esse momento único e irrepetível de cada dia onde pela força da Palavra e pela profundidade da Comunhão redescobrimos sempre de novo "pistas" novas para reentrar nos "trilhos" de Deus.
Rezámos por aqueles que nos têm em oração; lembrámos, desde cedo, as nossas famílias e as nossa Comunidade que sabemos e sentimos nos tem a todos presentes...
É bom, sabe bem, sentir bem no fundo da alma e do coração que não estamos aqui sozinhos; que somos parte de um "todo" chamado Paróquia de Carcavelos, Igreja de Jesus Cristo.
Fortificados com a certeza e a consciência de que somos "ungidos" (ontem bem à noite isso mesmo nos foi lembrado a todos com a "unção" na fronte em forma de "K" - de kandandu, de kaminho, de Kristo-) queremos hoje, em espírito de obediência, aprender o Caminho que é Deus para o podermos ensinar e partilhar com todos quantos connosco se cruzarem...
De momento o espírito é de entusiasmo, de cumplicidade, de desejo de caminhar...
O cansaço trará as suas "armadilhas" e "barreiras"; porém, porque unidos no essencial, lutaremos com todas as forças a fim de que aquele não nos vença e consigamos ser os vitoriosos nesta descoberta do Caminho da Vida: Jesus Cristo...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

"Kandandu 2012: o Caminho"

É já amanhã que iniciarei aquilo que denominei como "aventura divina". Kandandu 2012. É o Campo de Fé(rias) da Paróquia das Crianças, Adolescentes e Jovens da Paróquia. Durante uma semana inteira, saímos do nosso "habitat" natural e habitual para vivermos momentos únicos, diferentes, determinantes, na vida de cada um dos participantes.
Seremos cerca de 140 corações. Entre monitendos, monitores, casais, seremos uma imensa família que cruzará vidas, sonhos, ideais, medos, horizontes, dúvidas, alegrias e esperanças, entre todos...
Este ano teremos como "Tema" orientador do Campo de Fé(rias) o Caminho.
O nosso desejo e objectivo é o de fazer nascer e renascer em cada coração essa certeza maior de que Jesus é, verdadeiramente, o Caminho a trilhar nos nossos próprios caminhos da vida.
Como responsáveis, sabemos que são imensos e diversificados os "caminhos"que hoje são propostos aos nossos jovens, àqueles que garantirão - ou não - um amanhã diferente para a sociedade, o mundo, a Igreja. E que muitas dessas propostas são enganosas, falaciosas, portadoras de uma alegria e uma felicidade provisórias, carregadas de "êxitos" e "grandezas" passageiras, ilusórias...
Por essas razões, é nosso desejo passar uma semana das nossas vidas oferecendo uma "alternativa" outra onde, por mais encruzilhadas que a vida nos proporcione, apenas um Caminho, não defrauda, não engana, não frustra, não desilude: Aquele que Se denomina a Si mesmo como "Caminho, Verdade e Vida" das nossas próprias vidas: Jesus de Nazaré.
Uma "aventura divina", porém, que não pode nem deve ser vivida exclusivamente por aqueles que vão estar em "Campo"!
Uma "aventura divina" que há-de ter como suporte, como retaguarda de "êxito" e de "eficácia" a Comunidade cristã. Sim, o Kandandu 2012 é projecto e trabalho, é sonho e desafio, é acção e desenvolvimento de toda uma Paróquia que sabe e crê na força dos seus "mais novos" e a eles se associam em comunhão, em solidariedade e, sobretudo, em oração fervorosa, intensa, confiante, abandonada.
O Campo de Fé(rias) será "bom", será "espectacular" na medida em que todos nós como paroquianos, como cristãos, empenhados na missão da evangelização, nos tornarmos suporte de oração desta semana de vida intensa entre todos os participantes.
"Kandandu" é uma palavra de um dialecto africano que significa "Abraço".
É isso mesmo que se supõe viver em cada Campo de Fé(rias): a experiência de um Abraço. Um abraço de Deus a cada um dos jovens; um Abraço da Igreja a cada um daqueles corações rebeldes e sonhadores; um Abraço da Paróquia a cada um dos seus "mais novos" que precisam dessa mesma Paróquia para encontrarem testemunhos, exemplos, modelos de vida, que lhes mostrem continuamente a Pessoa de Jesus como "Caminho" dos nossos caminhos...
Confio este "Kandandu 2012" a cada um de vós, meus amigos; entrego-vos a missão de serdes "braços levantados", "erguidos" ao Alto, para que cada um de nós, participantes, saiamos com a consciência enriquecida, com o coração a arder, com a fé esclarecida, com a vontade transfigurada, desejosos de trilhar, até ao fim das nossas vidas, o Caminho que Deus é...
Se puder, sem promessas, tentarei ir partilhando o nosso dia-a-dia no Campo...
Será uma forma de mais e melhor nos sentirmos "Kandandus", ou seja, "Abraçados", como cúmplices, como família, como Igreja, como Peregrinos que somos...
Lá, como é óbvio, rezaremos por quem por nós reza; rezaremos pelos que não rezam; rezaremos pelos que mais precisam de rezar; rezaremos pelos que se convenceram que não precisam de o fazer...
Unidos n'Aquele que nos desafia a "passar para a outra margem do lago"...

segunda-feira, 16 de julho de 2012

"Ouvi, vós todos..."!


"Ouvi a palavra do Senhor, ó príncipes de Sodoma; escutai a lição do nosso Deus, povo de Gomorra: «De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas? diz o SENHOR. Estou farto de holocaustos de carneiros, de gordura de bezerros. Não me agrada o sangue de vitelos, de cordeiros nem de bodes. Quando me viestes prestar culto, quem reclamou de vós semelhantes dons, ao pisardes o meu santuário? Não me ofereçais mais dons inúteis: o incenso é-me abominável; as celebrações lunares, os sábados, as reuniões de culto, as festas e as solenidades são-me insuportáveis. Abomino as vossas celebrações lunares, e as vossas festas; estou cansado delas, não as suporto mais. Quando levantais as vossas mãos, afasto de vós os meus olhos; podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas acções. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas".
Escolhi reproduzir toda a primeira leitura da Missa de hoje; escolhi sublinhar uma Palavra que é dirigida ao "Israel" deste tempo, ao Povo de Deus que somos todos e cada um de nós; escolhi esta "advertência" do Alto direccionada ao coração de todos os crentes, escolhi deixar-me provocar, interrogar, questionar, sobre a seriedade da minha fé, da minha religiosidade, do meu ministério, da minha forma de pastorear os meus irmãos que me foram confiados...
Percebo nestas palavras de Isaías uma "mágoa", uma "saturação", um "profundo cansaço" deste "Israel que O louva com os lábios mas O esquece com o coração e com a vida!
Parece um queixume de Deus! Percebe-se um "lacrimejar" divino diante da pobre, fria, hipócrita, oca e vazia religiosidade do Povo que Ele ama e quer salvar!
Queixa-se Deus desse tremendo e clamoroso divórcio em que caímos com demasiada facilidade quando olhamos a fé rezada e a fé vivida! Pede-nos Deus a ousadia e a coragem da verdade e da transparência da nossa fé. Desafia-nos o Senhor à conversão autêntica, real, sincera, a fim de sermos testemunhas credíveis d'Aquilo que Deus é: amor e salvação, verdade e justiça oferecida a cada homem.
Não gosto de "ver" Deus falar assim; não me sossega - talvez nem seja essa a intenção - escutar essas palavras que saem do coração triste de Deus por causa da infidelidade e da superficialidade daqueles que se afirmam crentes e discípulos!
Mas entendo! Percebo a actualidade dessa palavra proclamada há tanto tempo atrás! Aceito essa "indignação" do Senhor ao tentarmos envolve-l'O em nuvens de incenso, em "encanta-l'O" com hinos e salmos melodiosos e, simultaneamente somos este Povo que não cessa de fazer o mal, não ergue as mãos pelo combate pela justiça e pela equidade, não se decide à denúncia dos muitos sistemas opressores e capazes de esmagar depressa a dignidade de homens e mulheres chamados à felicidade e à paz!
Percebo que muitos dos cultos prestados e celebrados por aí sejam abomináveis para Deus, Lhe sejam insuportáveis, quando aqueles não se transfiguram em compromisso com a vida verdadeira de cada outro.
Sim, é verdade que preciso converter o meu culto, as minhas solenidades, em actos de amor, em abraços prolongados, em caridade efectiva, em coração partilhado... porque a alegria de Deus é o Homem vivo!

domingo, 15 de julho de 2012

"Profeta, aqui e agora!"

Como outrora Amós, também nos nossos dias acontece existirem pessoas, vidas, corações, que não estão disponíveis para o acolhimento da palavra sempre incómoda do profeta.
O profeta - se  o é verdadeiramente - não pode senão falar em nome de Deus; não pode apontar caminhos senão os de Deus; não pode propor critérios senão os de Deus... Mesmo que isso lhe custe a rejeição, a negação, a incompreensão, a perseguição, daqueles a quem se dirige... em nome de Deus.
O profeta - que o é de verdade - não pode acomodar-se, instalar-se, acobardar-se, cansar-se ou negar a voz d'Aquele que o envia e acolher as consequências dessa mesma missão e vocação.
No mistério de amor e de salvação de Deus pela Humanidade, Deus sempre quis servir-se do próprio Homem. Quis - e quer - precisar da sua pobreza e fragilidade, usa - e quer usar - a sua miséria e a sua debilidade! Nunca o perceberemos profundamente. Mas a História da Salvação sempre decorreu desta forma. Sabendo bem que Deus não escolhe os capacitados mas que, ao invés, capacita aqueles que escolhe.
E cada um dos homens e mulheres que hoje se dizem crentes e discípulos de Jesus têm de ter a consciência da sua vocação profética. Esse dom, essa tarefa, essa missão, não é exclusiva de uns quantos "iluminados" ou "privilegiados"! É graça e determinação com que somos presenteados ao aceitarmos integrar a Igreja, Povo de Deus desafiado a cada instante a ser voz do Deus que ama, que liberta, que salva...
Havemos de ser uma Igreja que incomoda poderes instalados; uma Igreja que provoca vidas indiferentes; uma Igreja que acorda dos sonos tantos em que os homens se deixaram adormecer; uma Igreja que se transforma em "antídoto" dos venenos e das anestesias que pautam as opções e os horizontes desta nossa sociedade já perfeitamente "domesticada" e "habituada" às desigualdades e às injustiças, às ditaduras e às opressões, às muralhas e barreiras que conseguem segregar os homens entre si.
Temos de ser uma Igreja que anuncia o Evangelho de Cristo denunciando tudo quantos e contrapõe a essa Boa Nova maravilhosa que procura a experiência do "Éden" em cada momento da História.
Uma Igreja, um cristão, um profeta, que se acomoda ao "status quo" das infâmias e das desigualdades, que pactua com os vícios e devaneios de superioridade de alguns em detrimento da verdade e da igualdade, da justiça e da dignidade de cada pessoa humana, é tudo menos a Igreja sonhada e nascida na Cruz do Jesus de Nazaré!
Uma Igreja que se habitue - e pior ainda - que abençoe desumanidades, que alimente poderes e sistemas  potenciadores de exclusão, de solidariedade, de miséria, de sofrimento, é atentado ao Coração trespassado de Jesus!
Uma Igreja que cale e que se torne indiferente perante a violência, seja de que ordem for, que se deixe amordaçar, seja por quem for, para não perder privilégios, honras ou evidencialismos, consegue apenas o descrédito da beleza e da força únicas do Evangelho do Reino.
Estamos perante tempos que urgem a "ressurreição" da nossa consciência de profetas. Diante de nós a hora inadiável de sermos voz de Deus que pretende a paz e a felicidade de cada homem...
"Hoje" é o "tempo favorável" para sermos voz dos "sem voz", força e esperança dos "sem vez", mesmo que isso nos consiga, como a Amós, a incompreensão de quem nos escuta.
Não é aos homens que temos de agradar; é a Deus e apenas a Deus!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

"Estado da Nação"

Ontem, na Assembleia da República, debateu-se, de novo, o "Estado da Nação". Momento sempre importante na medida em que se trocam opiniões, se defrontam visões distintas da realidade humana, política e social que todos havemos de construir, se trocam pontos de vista diversos, se confrontam ideais e horizontes múltiplos mediante valores, ideias, convicções...
Pergunto-me por que razão não poderia a Igreja ser protagonista de um espaço como este, onde se transformava num areópago de questões múltiplas a debater, de dúvidas conjuntas a reflectir, de caminhos comuns a trilhar...
Por que razão não poderia a Igreja ter oportunidade de se congregar em torno do Pastor Diocesano, à volta de cada Pároco, para a partilha de ideias, de sonhos, preocupações, desafios, a ponto de todos e cada um dos cristãos se saberem e sentirem responsáveis e cúmplices, protagonistas e conscientes da missão comum de edificar a Igreja e construir o Reino de Deus - afinal a tarefa que o Mestre confiou aos Seus discípulos de todos os tempos...
Sei bem que a Igreja não é uma democracia; porém nada teria a perder - bem pelo contrário - se usufruísse de tempos e espaços de maior diálogo, de alargada troca de experiências, dificuldades, êxitos, projectos...
A Igreja, enquanto Povo de Deus com uma missão bem definida, apenas teria a ganhar se ousasse distinguir categoricamente a realidade da "unidade" daquela outra sempre pejorativa de "conformismo"!
Ainda temos demasiado medo da complementaridade de opiniões e sensibilidades!
Pensamos ainda ser perigoso o diálogo e a partilha aberta de critérios, de pontos de vista, de sentimentos e de sonhos!
Não são raros aqueles que receiam a "anarquia" na Igreja se se abrissem as portas e as janelas à partilha aberta, fecunda e sincera de sensibilidades, de inquietações, de experiências de vida!
São ainda muitos os que defendem que as "normas", o "direito" e as "directrizes superiores" são o único caminho que traduz a verdade da fé e aponta o caminho certeiro para chegar a Deus!
Proliferam ainda os corações e as consciências que preferem que sejam os outros a pensar, a reflectir, a decidir, mesmo que depois se tornem nos primeiros a discordar, a desviar e a menosprezar essas mesmas propostas provenientes de "cima"!
Discutir - no bom e profundo sentido da palavra - o "Estado da Igreja", eis uma proposta que o mundo nos oferece. Uma discussão que não ficasse encerrada nos denominados "Sínodos dos Bispos" (em Outubro realiza-se mais um acerca da Nova Evangelização), mas onde o "todo" das Dioceses, das Paróquias, dos Movimentos, tinham uma "palavra" a partilhar e a defender.
Uma "palavra" real, espontânea, sincera, bem par lá dos denominados contributos que, oficialmente, são chamados a fazer!
O "Estado da Igreja" na Europa, neste nosso Portugal, na nossa Diocese concreta, debatido com verdade e simplicidade, organizado e realizado com a partilha dos talentos e dons de cada um dos cristãos, porque não?!
Há demasiados temas, múltiplas questões, incontáveis realidades, diversificados problemas, que a todos diz respeito e que, em verdadeiro sentido eclesial, poderiam e deveriam ser debatidos, analisados, estudados, rezados, em comum, ou seja, em Comunidade, em Igreja, que dizemos ser!
As nomeações dos Párocos, as Direcções dos Centros Paroquiais, a eficácia ou ineficácia dos "obrigatórios" Conselhos Económicos e Conselhos Pastorais, as questões inadiáveis das pobrezas tantas que assolam os homens nossos irmãos, as "apostas" e caminhos derradeiros que a Igreja deste tempo deveria escolher como concretização eficaz da sua missão, a fraternidade e equidade que deveria pautar a realidade entre as Comunidades cristãs em vez das indiferenças que as norteiam, etc., etc,...
O Espírito Santo não envelhece, não perde capacidades, não "passa de moda"! Ele continua "disposto" a fazer a Igreja a perder medos e a ultrapassar preconceitos; Ele permanece decidido a ser invocado e a descer sobre quantos sabem e crêem que a vida da Igreja não depende do "politicamente" ou do "religiosamente" correcto, das ideias pessoais e decisivas, dogmáticas e inalteráveis de uns quantos iluminados!
A Igreja, unida à volta do Sucessor de Pedro, em comunhão com os Sucessores dos Apóstolos, pode ir bem mais longe e mais alto no que respeita à tarefa da unidade, da comunhão, do respeito pelas diferenças, no abraçar a misericórdia mais que a construção de muralhas e barreiras que separam os homens entre si e estes do próprio Deus!
O "Ano da Fé" que se avizinha bem poderia ser uma oportunidade de rezar, como fecunda e harmoniosa melodia: "Mandai, Senhor, o Vosso Espírito, e renovai a terra e a Igreja"...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

"Dom do Alto" que se implora...

De hoje a três meses a Igreja iniciará aquilo a que o Papa Bento XVI designou de "Ano da Fé".
Pede-nos a todos um renovado vigor, uma sublinhada atenção, uma profundidade maior, um testemunho fecundo, da fé que afirmamos possuir e viver no nosso quotidiano...
Presumo que já muitas ideias, incontáveis projectos, inúmeras acções, intermináveis programas, estarão já delineadas na maioria das paróquias, das dioceses, enfim, da Igreja Universal...
Três meses nos separam desse "passo" que preencherá o peregrinar da vida eclesial e pautará, certamente, o viver quotidiano das comunidades cristãs.
Na Carta Apostólica que o Papa publicou a anunciar e a convocar esse mesmo "Ano da Fé" sublinha veementemente a urgência da "hora" inadiável para que esta nossa fé seja proposta ao mundo quando este, progressivamente, se afasta de Deus, da Igreja, numa indiferença crescente da Pessoa e do Mistério de Jesus de Nazaré.
Uma ideia me "assalta" desde logo: o perigo das "acções", dos "programas", das "iniciativas" pastorais relativamente à "novidade" do "Ano da Fé"!
Recordaremos, decerto, que não há muito tempo vivemos o chamado "Ano Paulino", o "Ano Sacerdotal"... e que restou de toda essa panóplia de gestos, ritos, acções, palestras, encontros, por causa desses mesmos "Anos" especiais?!
É óbvio que tenho a claríssima consciência de que sou "nada" para interrogar ou questionar estas iniciativas do Santo Padre; é óbvio que estarei em comunhão com os projectos que a Diocese, a Vigararia propuserem como caminho a seguir; é ainda óbvio que o "Ano da Fé" será ocasião, motivo e causa de "caminhos" a trilhar nesta minha Comunidade...
Porém, não deixo de recear que o "Ano da Fé" e a "novidade" que ele comporta sejam razões de acção mais que de oração; sejam motivos mais de anúncio de que de denúncia que urge proclamar; sejam causa mais de "entretenimento" pastoral quantificado pelo número de actividades do que de ousadia de fidelidade, de exercício de comunhão, de "fantasia da caridade" (expressão do nosso Patriarca)!
Sabemos todos que ninguém pode dar ou partilhar aquilo que não tem! Donde resulta, no meu entender, que o grande caminho a trilhar neste "Ano da Fé" seja, precisamente, o da decisão pessoal de crescer, de aprender e reaprender, a beleza de Jesus de Nazaré, a fecundidade e radicalidade da Sua Palavra, a força e a exigência do Reino que a cada coração quer ofertar como resultado da Sua entrega no Madeiro da Cruz.
Gostaria que o "Ano da Fé" nos ocupasse e preocupasse na aventura do conhecimento da real Boa Nova que Cristo oferece aos homens de cada tempo.
Gostaria que o "Ano da Fé", mais que uma "colecção" de acções se transformasse num desejo profundo, real e urgente de uma maior comunhão com cada homem nosso irmão, partindo da consciência que a grande prodigiosa tarefa da evangelização consiste na capacidade de nos aventurarmos ao Mandamento Novo tão proclamado e vivido por Aquele a Quem temos por Senhor!
Não gostaria nada que a Igreja, as Dioceses, as Paróquias, nós, Párocos, nos detivéssemos na programação mais ou menos interminável de conferências, catequeses, encontros, em detrimento da consciência de que a Fé é dom do Alto, que se implora, pede, suplica, incansavelmente.
Desejaria que, desde já, a nossa oração, pessoal, familiar, comunitária, fosse a suplicar como os Apóstolos: "Senhor, aumenta a nossa fé"!
E naquele dia de Novembro de 2013, a Igreja estaria bem mais enriquecida, bem mais santificada, porque mais consciente de que apenas "possuindo" pode partilhar aquilo que de mais valioso e nobre possui: a fé em Jesus de Nazaré.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

"Livres para escolher..."

"Eu detesto e rejeito as vossas festas; e não sinto nenhum gosto nas vossas assembleias. 
Se me ofereceis holocaustos e oblações, não as aceito, nem ponho os meus olhos nos sacrifícios das vossas vítimas gordas. 
Afastai de mim o vozear dos vossos cânticos, não quero ouvir mais a música das vossas harpas. 
Antes, jorre a equidade como uma fonte, e a justiça como torrente que não seca".

 
Palavra de Deus hoje proclamada em toda a Terra; palavra que questiona, desassossega, interpela e desafia à reflexão e à conversão!
Sentimos, pressentimos, um Deus "cansado" de liturgias e rituais; percebemos um Senhor "saturado" de "bocas" cheias de "sagrado" e corações vazios de "humano" - portanto - de divino!
Reconhecemos um Deus "magoado" de lábios que vociferam cânticos e salmos, entoam melodias e hinos de louvor mas, simultaneamente, ocos de verdade e de justiça, de equidade e de transparência, de humildade e de serviço!
Deus, o Deus da Sagrada Escritura, o Deus revelado e apresentado em Jesus de Nazaré, é muito mais, é imensamente mais, que um "receptáculo" de sons religiosos, de músicas espiritualistas, de cancioneiros harmoniosos, de cultos, oblações ou holocaustos desprovidos de vida, de coração, de afecto, de paz, de ternura!
Olhar o mundo envolvente, a realidade concreta que nos é dada viver e construir, a Igreja que havemos de enobrecer e santificar, não se compadece com o "estaticismo" da nossa piedade desencarnada, com a indiferença do nosso olhar e do nosso sentir diante dos desesperos e inseguranças de quem peregrina bem ao nosso lado...
A citada infinitamente "civilização do amor" não se conquista nem edifica apenas de "mãos postas"; ao contrário, elas são "cajado", são "alforge", são "pão", são "tenda", dos muitos que anseiam beber dessa "torrente de justiça que não seca" e dessa fonte donde "jorra a equidade".
"A fé sem obras é morta" como bem sabemos!
Então, urge ressuscitar essa mesma fé, urge fazer renascer esse coração "gigante" que existe em quantos acreditam em Jesus Cristo, urge erguer a nossa vida a fim de sermos vez, de sermos voz, a quantos já emudeceram tal a crueza da vida e o "escuro" que os assola e subjuga!
A nossa paixão pelo Mestre exige de nós compromisso, ousadia, inquietação, rebeldia, anúncio e denúncia, fidelidade ao Mandamento Novo, comunhão com o Coração trespassado do Salvador.
A nossa pertença à Igreja pede acção, pede sonho, pede cumplicidade, pede coerência, pede fraternidade.
A nossa participação na Eucaristia, presidida ou participada, implica verdade e testemunho, implica serviço e gratuidade, implica transparência e disponibilidade, implica opção pelos mais pobres e disposição para o Lava-pés.
Simplesmente porque Deus não aceitará jamais as nossas festas e as nossas assembleias, porque Deus não suportará nunca os nossos cânticos e os nossos louvores, "glórias", "incensos" e "credos", se a nossa vida, o nosso culto, a nossa fé, não se transformar, aqui e agora, num rio transbordante de equidade e de de justiça, numa "onda" imensa de caridade e de fraternidade.
Oblações, holocaustos, rituais, celebrações, sem alma nem coração, sem ternura ou misericórdia, sem despojamento e humildade, não chegam ao coração de Deus!
Somos livres para escolher a "vida" ou a "morte"; livres para escolher a verdadeira liberdade ou a escravidão do espiritualismo castrador e viciante; livres para optar pela paz que Deus é ou a liturgia obsoleta e o farisaísmo consolador de quem balbucia orações mas esquece Deus feito Carne e feito História em cada Homem nosso irmão!
O "Ano da Fé" que a Igreja breve iniciará nos ajude a entender verdades esquecidas, gestos adormecidos, testemunhos inebriados!
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