"Recomeçar..."
Gosto da expressão "sinais dos tempos".
Sente-se a urgência da atenção e a necessidade do olhar atento à realidade que nos envolve e que deixamos e decidimos construir...
Hoje, ao recomeçar "oficialmente" mais um ano pastoral, após uns dias de férias onde busquei o silêncio, o fresco e a envolvência reconfortante das montanhas, ladeado pela presença de alguns corações amigos e irmãos, tentei através da Palavra de Deus perscrutar esses mesmos "sinais dos tempos", ou seja, procurei perceber o caminho a seguir ao celebrar a primeira Eucaristia na nossa Comunidade neste mesmo novo ano pastoral.
E a Palavra proclamada hoje é bem "forte", é tremendamente exigente, é difícil de suportar, como diriam os Apóstolos no Sermão do Pão da Vida!
Deparamo-nos com a predilecção de Jesus pela Verdade, pela coerência, pela frontalidade, pela transparência de vida e de fé. Palavras do Mestre, bem duras, ao apelidar de hipócritas e maldosos a quantos preferem e escolhem uma postura "mascarada" diante dos homens, uma vivência fingida ao olhar dos demais, permanecendo com um coração despedaçado pelo egoísmo e pela mentira, pela falsidade e pela duplicidade de vida!
Percebi, acolhi, aceitei e acreditei que essa Verdade maior que é a fidelidade a Deus é o caminho a trilhar...
Evidentemente que já o sabia, já o sentia; porém, não raras vezes "esquecemo-nos" do que vale mais! E interpretei a Palavra de hoje como "mote" a sublinhar na vida da minha fé e na fé da minha vida.
Na verdade, que importará apresentar-me bem, digno, por fora, aos olhos dos homens, se o meu coração estiver desviado do Senhor Jesus?!
Que valerá a beleza dos paramentos, a impecabilidade da liturgia e das suas normas, se a minha alma estiver manchada pelo divórcio entre a fé e a vida concreta?!
De que servirão palavras eloquentes e sermões apelativos se depois a Verdade for uma palavra ou uma realidade que desconheço no meu peregrinar?!
Os "sinais dos tempos" são, por isso mesmo, bem claros: sou chamado, somos desafiados, à fidelidade do Evangelho, à paixão pela verdade, à experiência da frontalidade, à adesão à transparência da nossa vida. Somos convocados a entender e a acreditar que, como também diz a Escritura, que "importa obedecer antes a Deus dos que aos homens" e que, portanto, não importam nem interessam as imagens e as máscaras, os rostos distorcidos e mentirosos, as aparências piedosas e benfeitoras se, na verdade do nosso interior, Deus não tem um lugar de destaque, uma presença proeminente.
E pedi a Deus que me tornasse mais e mais apóstolo desta Verdade; rezei para que cada um de nós optasse, definitivamente, por agradar antes a Deus do que aos homens, sejam eles o Senhor Bispo ou o senhor Prior, o patrão ou o professor, o vizinho, aquele familiar...
Se não houver Verdade na vida, simplesmente somos mentirosos!
As aparências são sempre prejudiciais; os esforços por manter uma imagem determinada estão sempre condenados ao fracasso!
O "carreirismo" social, profissional, religioso, clerical, é sempre um afastamento do Evangelho.
Afinal, somos sempre nós que escolhemos, isto é, que decidimos aquilo que queremos escutar do Coração de Deus: "vinde benditos de Meu Pai" ou, ao invés, "afastai-vos de Mim, vós que praticastes a iniquidade"!
No recomeço de um ano pastoral, "os sinais" são bem explícitos...
Que Deus nos ajude a escolher a Verdade em detrimento da hipocrisia, a Alegria da fé à caducidade do pietismo alienado, a experiência da justiça ao abraço e cumplicidade com os egoísmos tantos que grassam no mundo e na Igreja.
E juntos, em Igreja, em Comunidade, em família de mulheres e de homens que caiem mas que se decidem a erguer-se, sigamos o Mestre, por mais exigente que nos pareça ser... só Ele é Caminho, Verdade e Vida para cada um de nós...


