segunda-feira, 20 de agosto de 2012

"A Caminho..."

Percorro os caminhos de Santiago nesta preparação mais próxima para a Peregrinação que os Jovens da nossa Paróquia irão realizar entre os próximos dias 1 a 7 de Setembro; palmilhando estradas e caminhos, procurando sombras e lugares de descanso, reservando locais para a celebração da Eucaristia diária e espaços para pernoitar, esta é já uma forma bem real e concreta de "fazer" e de "viver" o Caminho de Santiago...
Na verdade, ser-se ou tornar-se peregrino não é questão de dar fisicamente um primeiro passo, seguido de muitos outros; revestir-se desta "condição" de itinerante, de caminhante, é predispor-se, desde o primeiro momento dessa vontade de ir mais além, mais longe, mais alto, rumo a experiências desconhecidas, certo de dificuldades a ultrapassar, ciente de barreiras a contornar, consciente de que a meta é possível na medida da entrega, da confiança, do abandono Àquele que Se faz Companheiro de viagem dos "discípulos de Emaús" de todos os tempos...
"Se fordes o que haveis de ser, pegareis fogo ao mundo inteiro"!
Estas palavras memoráveis e inesquecíveis do Papa João Paulo II serão o lema da Peregrinação.
Buscar-se-ão todas as formas para que em cada coração fique ainda mais gravado e marcado essa vocação comum: sermos "fogo", sermos "lume", sermos "luz", de um Espírito que intenta incendiar da Sua paz e do Seu amor toda a nossa humanidade, começando pelos nossos próprios corações, as nossas casas, a nossa Comunidade...
Em cada contacto, em cada conversa, em cada paragem, nesta preparação, há já este "espírito" eclesial, esta certeza de que não se caminha sozinho, esta alegria de permanecer ao serviço da Igreja na disponibilidade de servir cada outro.
No "segredo" e no "silêncio" de cada momento da preparação, há já esta certeza de que se está a Caminho, pois que a meta a alcançar, mais que um lugar geográfico - também com certeza - é a experiência da relação, do ser Comunidade, do crescer na consciência de que na vida somos verdadeiramente peregrinos rumo a uma "Meta" eterna e sem fim.
A simplicidade das condições, a sobriedade do que traremos nas mochilas ensinar-nos-ão, certamente, a valorizar o essencial, a reconhecer o "tanto" e o "muito" que nos é concedido e que a rotina já ajudou a menosprezar e a banalizar; a certeza de precisarmos de cada outro, das suas forças e entusiasmos, dos seus silêncios e das suas palavras, do seu testemunho, dificuldades e sonhos, serão o "bordão" que ajudará cada passo que fizermos.
Assim o creio. Por isso rezo desde já. Por essa intenção ofereço cada momento e minuto desta preparação...
A fim de que quando vivermos e celebrarmos o "Abraço" ao Senhor Santiago percebamos que a vida é Caminho, a fé é "cajado" nessa caminhada, a Comunidade é a "estrada" que nos faz perseverar no rumo certo sem a possibilidade de nos perdermos nos nossos próprios horizontes...

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

"Senhora do 'Sim' na nossa vida"

Hoje somos, de novo, convidados a olhar para a figura de Maria, envolta no mistério da sua Assunção ao Céu; desafiados a relembrar aquela palavra tão simples e, simultaneamente, tão extraordinária, que transfiguraria a história de toda a Humanidade. "Sim"!
Esse "Sim" que necessitamos, enquanto Igreja, enquanto Comunidades, enquanto cristãos, "lembrar", "actualizar" e "incarnar" nas nossas próprias vidas.
Maria será sempre sinal eloquente da possibilidade real de fidelidade a Deus e ao Seu projecto; Maria será sempre a certeza de que não estamos condenados à mediocridade da fé e à banalização do discipulado; Maria é a "prova" clara e inequívoca que todo o nosso ser pode ser de Deus, pode ser do amor, pode ser do Evangelho...
A devoção mariana, o nosso carinho e ternura por Nossa Senhora será sempre demasiadamente pobre se se reduzir à repetição de "Avé-Marias" sem consequências na vida quotidiana. A pureza do Coração de Maria é apelo à pureza dos nossos corações; a sua docilidade à Palavra é desafio à escuta da Palavra que aponta os caminhos a seguir neste tempo e nesta sociedade; o seu silêncio e descrição é chamamento à humildade de gestos, de horizontes e de desejos para cada um de nós; o seu desejo de permanecer sempre junto de Jesus é "pista" para entendermos e nos decidirmos a acompanhá-l'O neste nosso peregrinar.
A devoção a Maria, as solenidades celebradas em sua memória e honra, não podem ser preenchidas com a esterilidade da nossa vida! Esta, para ser fecunda, para ser hoje "memória" e "actualização" da majestade existencial de Maria tem de ser desejo de imitação da sua própria vida.
A simplicidade e a verdade, a entrega e a humildade, a disponibilidade e a pureza de desejos e sentimentos, a fé abandonada à Palavra e ao projecto de Deus, são elementos permanentes de conversão na nossa adesão à fé e à Igreja que dizemos ter e assumir.
Em período de férias para muitos de nós, cristãos, eis mais um "sinal", mais um "apelo" a repensar a firmeza da nossa paixão por Cristo e da nossa missão de apóstolos deste tempo.
O sol, o calor, a praia ou o campo, o lazer e o descanso merecido para todos nós tem de ser, também, acompanhado deste retemperar de forças e de vontades para a assunção em nós desta vocação de construtores de um nova civilização, de trabalhadores decididos à edificação de uma Igreja mais ao jeito do Mestre, mais humana e, por isso mesmo, mais divina.
É tão triste e devastador o divórcio entre a fé e a vida! Mas é tão gratificante este desejo que podemos ter e viver de sermos "cúmplices" com Maria e como Maria, para erguermos uma nova "História" onde a lei do caminho a percorrer está proclamada há já tanto tempo: "Fazei o que Ele vos disser"!
Sermos todos de Deus, onde Ele permanece como o "centro" de cada momento do nosso existir, onde Ele pode e consegue entrar em todos os nossos "mundos", onde nada Lhe é escondido ou proibido permanecer...
Como Maria, a "cheia de graça", a "cheia de Deus", a Senhora do "Sim"...

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

"Falar de ti..."


"Sabe bem voltar-te a ver
Sabe bem quando estás ao meu lado
Quando o tempo me esvazia
Sabe bem o teu abraço fechado
E tudo o que me dás quando és
Guarida junto à tempestade
Os rumos para caminhar
No lado quente da saudade"...

Não, de todo que não é uma "fase" ou um tempo de "nostalgia" este que experiencio nestes dias de férias; não é uma "lamechiche" do coração...
Mas ao tornar a escutar esta música ontem à noite no rádio, o pensamento viajou sem pedir permissão, unindo-se ao coração e à sua força imensa e nunca suficientemente reconhecida, e lembrou histórias, e vislumbrou rostos, e "tocou" momentos que fazem a história da nossa própria história...
Estando bem ao lado de corações gigantes, estes dias, sabe bem cada "abraço fechado" recebido de mil formas e maneiras, partilhado em sorrisos e sentimentos puros e genuínos; que fazem lembrar outros corações entrecruzados ao longo dos tempos já vividos...
Na verdade, nas férias temos mais tempo para pensar, olhar por dentro, relembrar e sonhar, desligando-nos de amarras e grilhões que, muitas vezes inconscientemente, nos vão aprisionando a alma e nos fazem padecer da audácia do que vale mais: a força do coração. A ausência das "rotinas" conseguem a valorização da beleza e da força da amizade; conseguem reconhecer "os rumos para caminhar no lado quente da saudade..."
E sabe bem. Na verdade, sabe bem. Olhar e reconhecer pessoas extraordinárias que nos enriqueceram com as suas vidas e os seus abraços; que nos transformaram com as suas verdades e as suas visões outras de enfrentar a vida; que nos moldaram com as "mãos" dos seus corações únicos e nos fizeram acreditar, mais e mais, no valor da amizade e da cumplicidade, da fidelidade e do sonho em comum, rumo ao "destino" que se vai edificando...
Por estes dias, tento escutar a "voz sonante" de cada sorriso, intento acolher e "guardar o que é bom de guardar" dos que comigo vão partilhando este período de férias, agradecer Àquele que fez entrecruzar as nossas histórias e os nossos "destinos".

Com estes amigos construo, sempre de novo, um contexto diferente para a palavra "saudade"; ela pode ser rica, positiva, libertadora , dinâmica, sedutora... ao invés daquele outro sentido que demasiadas vezes lhe outorgamos, como seja algo de depressivo, nostálgico, triste, amargurado! "Saudade" pode - e tem de ser - um sentimento que nos ajuda a caminhar, nos lembra e relembra a cada instante a beleza e riqueza daqueles muitos que "escreveram" a nossa própria história, nos alimenta o sonho de perpetuar a riqueza dos corações unidos e envoltos em lágrimas e sonhos, em amarguras e esperanças, que sabem e sentem que tudo se torna mais belo e fácil quando se ousa a entrega  e partilha da própria alma...

Com estes corações que deixo envolvam o meu próprio coração, com as nossas diferenças e semelhanças, os nossos defeitos e virtudes pessoais, percebo sempre melhor o quão a vida se pode enriquecer, valorizando a força destes nossos corações...

Agradecer é a palavra de "ordem" que se impõe quando se tem mais tempo para olhar com os olhos da alma. Agradecer aqueles tantos e tantos que vislumbro neste momento e que são parte inquebrável do meu próprio ser e existir... Agradecer os incontáveis "abraços" manifestados em sorrisos e histórias, em confidências e sonhos partilhados, em silêncios que falam também tanto do que nos vai na alma... 

Sim, "aquele abraço fechado" é algo de que nenhum de nós pode prescindir. É virtude a alimentar, é dom a apreciar, é maravilha a agradecer... Porque nos falam do eterno, porque nos relembram a nossa humanidade, porque sustentam a nossa própria debilidade, porque perpetuam a nossa condição de peregrinos precisados das mãos de cada outro...

É esse mesmo abraço que aqui deixo a cada um... Àqueles que em cada dia vão partilhando o meu caminho; a todos os que a força dos "ventos da história" afastaram da geografia física mas jamais apagarão da "geografia do coração"...

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