sexta-feira, 20 de julho de 2012

"Kandandu 2012: o Caminho"

É já amanhã que iniciarei aquilo que denominei como "aventura divina". Kandandu 2012. É o Campo de Fé(rias) da Paróquia das Crianças, Adolescentes e Jovens da Paróquia. Durante uma semana inteira, saímos do nosso "habitat" natural e habitual para vivermos momentos únicos, diferentes, determinantes, na vida de cada um dos participantes.
Seremos cerca de 140 corações. Entre monitendos, monitores, casais, seremos uma imensa família que cruzará vidas, sonhos, ideais, medos, horizontes, dúvidas, alegrias e esperanças, entre todos...
Este ano teremos como "Tema" orientador do Campo de Fé(rias) o Caminho.
O nosso desejo e objectivo é o de fazer nascer e renascer em cada coração essa certeza maior de que Jesus é, verdadeiramente, o Caminho a trilhar nos nossos próprios caminhos da vida.
Como responsáveis, sabemos que são imensos e diversificados os "caminhos"que hoje são propostos aos nossos jovens, àqueles que garantirão - ou não - um amanhã diferente para a sociedade, o mundo, a Igreja. E que muitas dessas propostas são enganosas, falaciosas, portadoras de uma alegria e uma felicidade provisórias, carregadas de "êxitos" e "grandezas" passageiras, ilusórias...
Por essas razões, é nosso desejo passar uma semana das nossas vidas oferecendo uma "alternativa" outra onde, por mais encruzilhadas que a vida nos proporcione, apenas um Caminho, não defrauda, não engana, não frustra, não desilude: Aquele que Se denomina a Si mesmo como "Caminho, Verdade e Vida" das nossas próprias vidas: Jesus de Nazaré.
Uma "aventura divina", porém, que não pode nem deve ser vivida exclusivamente por aqueles que vão estar em "Campo"!
Uma "aventura divina" que há-de ter como suporte, como retaguarda de "êxito" e de "eficácia" a Comunidade cristã. Sim, o Kandandu 2012 é projecto e trabalho, é sonho e desafio, é acção e desenvolvimento de toda uma Paróquia que sabe e crê na força dos seus "mais novos" e a eles se associam em comunhão, em solidariedade e, sobretudo, em oração fervorosa, intensa, confiante, abandonada.
O Campo de Fé(rias) será "bom", será "espectacular" na medida em que todos nós como paroquianos, como cristãos, empenhados na missão da evangelização, nos tornarmos suporte de oração desta semana de vida intensa entre todos os participantes.
"Kandandu" é uma palavra de um dialecto africano que significa "Abraço".
É isso mesmo que se supõe viver em cada Campo de Fé(rias): a experiência de um Abraço. Um abraço de Deus a cada um dos jovens; um Abraço da Igreja a cada um daqueles corações rebeldes e sonhadores; um Abraço da Paróquia a cada um dos seus "mais novos" que precisam dessa mesma Paróquia para encontrarem testemunhos, exemplos, modelos de vida, que lhes mostrem continuamente a Pessoa de Jesus como "Caminho" dos nossos caminhos...
Confio este "Kandandu 2012" a cada um de vós, meus amigos; entrego-vos a missão de serdes "braços levantados", "erguidos" ao Alto, para que cada um de nós, participantes, saiamos com a consciência enriquecida, com o coração a arder, com a fé esclarecida, com a vontade transfigurada, desejosos de trilhar, até ao fim das nossas vidas, o Caminho que Deus é...
Se puder, sem promessas, tentarei ir partilhando o nosso dia-a-dia no Campo...
Será uma forma de mais e melhor nos sentirmos "Kandandus", ou seja, "Abraçados", como cúmplices, como família, como Igreja, como Peregrinos que somos...
Lá, como é óbvio, rezaremos por quem por nós reza; rezaremos pelos que não rezam; rezaremos pelos que mais precisam de rezar; rezaremos pelos que se convenceram que não precisam de o fazer...
Unidos n'Aquele que nos desafia a "passar para a outra margem do lago"...

segunda-feira, 16 de julho de 2012

"Ouvi, vós todos..."!


"Ouvi a palavra do Senhor, ó príncipes de Sodoma; escutai a lição do nosso Deus, povo de Gomorra: «De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas? diz o SENHOR. Estou farto de holocaustos de carneiros, de gordura de bezerros. Não me agrada o sangue de vitelos, de cordeiros nem de bodes. Quando me viestes prestar culto, quem reclamou de vós semelhantes dons, ao pisardes o meu santuário? Não me ofereçais mais dons inúteis: o incenso é-me abominável; as celebrações lunares, os sábados, as reuniões de culto, as festas e as solenidades são-me insuportáveis. Abomino as vossas celebrações lunares, e as vossas festas; estou cansado delas, não as suporto mais. Quando levantais as vossas mãos, afasto de vós os meus olhos; podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas acções. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas".
Escolhi reproduzir toda a primeira leitura da Missa de hoje; escolhi sublinhar uma Palavra que é dirigida ao "Israel" deste tempo, ao Povo de Deus que somos todos e cada um de nós; escolhi esta "advertência" do Alto direccionada ao coração de todos os crentes, escolhi deixar-me provocar, interrogar, questionar, sobre a seriedade da minha fé, da minha religiosidade, do meu ministério, da minha forma de pastorear os meus irmãos que me foram confiados...
Percebo nestas palavras de Isaías uma "mágoa", uma "saturação", um "profundo cansaço" deste "Israel que O louva com os lábios mas O esquece com o coração e com a vida!
Parece um queixume de Deus! Percebe-se um "lacrimejar" divino diante da pobre, fria, hipócrita, oca e vazia religiosidade do Povo que Ele ama e quer salvar!
Queixa-se Deus desse tremendo e clamoroso divórcio em que caímos com demasiada facilidade quando olhamos a fé rezada e a fé vivida! Pede-nos Deus a ousadia e a coragem da verdade e da transparência da nossa fé. Desafia-nos o Senhor à conversão autêntica, real, sincera, a fim de sermos testemunhas credíveis d'Aquilo que Deus é: amor e salvação, verdade e justiça oferecida a cada homem.
Não gosto de "ver" Deus falar assim; não me sossega - talvez nem seja essa a intenção - escutar essas palavras que saem do coração triste de Deus por causa da infidelidade e da superficialidade daqueles que se afirmam crentes e discípulos!
Mas entendo! Percebo a actualidade dessa palavra proclamada há tanto tempo atrás! Aceito essa "indignação" do Senhor ao tentarmos envolve-l'O em nuvens de incenso, em "encanta-l'O" com hinos e salmos melodiosos e, simultaneamente somos este Povo que não cessa de fazer o mal, não ergue as mãos pelo combate pela justiça e pela equidade, não se decide à denúncia dos muitos sistemas opressores e capazes de esmagar depressa a dignidade de homens e mulheres chamados à felicidade e à paz!
Percebo que muitos dos cultos prestados e celebrados por aí sejam abomináveis para Deus, Lhe sejam insuportáveis, quando aqueles não se transfiguram em compromisso com a vida verdadeira de cada outro.
Sim, é verdade que preciso converter o meu culto, as minhas solenidades, em actos de amor, em abraços prolongados, em caridade efectiva, em coração partilhado... porque a alegria de Deus é o Homem vivo!

domingo, 15 de julho de 2012

"Profeta, aqui e agora!"

Como outrora Amós, também nos nossos dias acontece existirem pessoas, vidas, corações, que não estão disponíveis para o acolhimento da palavra sempre incómoda do profeta.
O profeta - se  o é verdadeiramente - não pode senão falar em nome de Deus; não pode apontar caminhos senão os de Deus; não pode propor critérios senão os de Deus... Mesmo que isso lhe custe a rejeição, a negação, a incompreensão, a perseguição, daqueles a quem se dirige... em nome de Deus.
O profeta - que o é de verdade - não pode acomodar-se, instalar-se, acobardar-se, cansar-se ou negar a voz d'Aquele que o envia e acolher as consequências dessa mesma missão e vocação.
No mistério de amor e de salvação de Deus pela Humanidade, Deus sempre quis servir-se do próprio Homem. Quis - e quer - precisar da sua pobreza e fragilidade, usa - e quer usar - a sua miséria e a sua debilidade! Nunca o perceberemos profundamente. Mas a História da Salvação sempre decorreu desta forma. Sabendo bem que Deus não escolhe os capacitados mas que, ao invés, capacita aqueles que escolhe.
E cada um dos homens e mulheres que hoje se dizem crentes e discípulos de Jesus têm de ter a consciência da sua vocação profética. Esse dom, essa tarefa, essa missão, não é exclusiva de uns quantos "iluminados" ou "privilegiados"! É graça e determinação com que somos presenteados ao aceitarmos integrar a Igreja, Povo de Deus desafiado a cada instante a ser voz do Deus que ama, que liberta, que salva...
Havemos de ser uma Igreja que incomoda poderes instalados; uma Igreja que provoca vidas indiferentes; uma Igreja que acorda dos sonos tantos em que os homens se deixaram adormecer; uma Igreja que se transforma em "antídoto" dos venenos e das anestesias que pautam as opções e os horizontes desta nossa sociedade já perfeitamente "domesticada" e "habituada" às desigualdades e às injustiças, às ditaduras e às opressões, às muralhas e barreiras que conseguem segregar os homens entre si.
Temos de ser uma Igreja que anuncia o Evangelho de Cristo denunciando tudo quantos e contrapõe a essa Boa Nova maravilhosa que procura a experiência do "Éden" em cada momento da História.
Uma Igreja, um cristão, um profeta, que se acomoda ao "status quo" das infâmias e das desigualdades, que pactua com os vícios e devaneios de superioridade de alguns em detrimento da verdade e da igualdade, da justiça e da dignidade de cada pessoa humana, é tudo menos a Igreja sonhada e nascida na Cruz do Jesus de Nazaré!
Uma Igreja que se habitue - e pior ainda - que abençoe desumanidades, que alimente poderes e sistemas  potenciadores de exclusão, de solidariedade, de miséria, de sofrimento, é atentado ao Coração trespassado de Jesus!
Uma Igreja que cale e que se torne indiferente perante a violência, seja de que ordem for, que se deixe amordaçar, seja por quem for, para não perder privilégios, honras ou evidencialismos, consegue apenas o descrédito da beleza e da força únicas do Evangelho do Reino.
Estamos perante tempos que urgem a "ressurreição" da nossa consciência de profetas. Diante de nós a hora inadiável de sermos voz de Deus que pretende a paz e a felicidade de cada homem...
"Hoje" é o "tempo favorável" para sermos voz dos "sem voz", força e esperança dos "sem vez", mesmo que isso nos consiga, como a Amós, a incompreensão de quem nos escuta.
Não é aos homens que temos de agradar; é a Deus e apenas a Deus!
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