"Ouvi, vós todos..."!
"Ouvi a palavra do Senhor, ó príncipes de Sodoma; escutai a lição do nosso Deus, povo de Gomorra: «De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas? diz o SENHOR. Estou farto de holocaustos de carneiros, de gordura de bezerros. Não me agrada o sangue de vitelos, de cordeiros nem de bodes. Quando me viestes prestar culto, quem reclamou de vós semelhantes dons, ao pisardes o meu santuário? Não me ofereçais mais dons inúteis: o incenso é-me abominável; as celebrações lunares, os sábados, as reuniões de culto, as festas e as solenidades são-me insuportáveis. Abomino as vossas celebrações lunares, e as vossas festas; estou cansado delas, não as suporto mais. Quando levantais as vossas mãos, afasto de vós os meus olhos; podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas acções. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas".
Escolhi reproduzir toda a primeira leitura da Missa de hoje; escolhi sublinhar uma Palavra que é dirigida ao "Israel" deste tempo, ao Povo de Deus que somos todos e cada um de nós; escolhi esta "advertência" do Alto direccionada ao coração de todos os crentes, escolhi deixar-me provocar, interrogar, questionar, sobre a seriedade da minha fé, da minha religiosidade, do meu ministério, da minha forma de pastorear os meus irmãos que me foram confiados...
Percebo nestas palavras de Isaías uma "mágoa", uma "saturação", um "profundo cansaço" deste "Israel que O louva com os lábios mas O esquece com o coração e com a vida!
Parece um queixume de Deus! Percebe-se um "lacrimejar" divino diante da pobre, fria, hipócrita, oca e vazia religiosidade do Povo que Ele ama e quer salvar!
Queixa-se Deus desse tremendo e clamoroso divórcio em que caímos com demasiada facilidade quando olhamos a fé rezada e a fé vivida! Pede-nos Deus a ousadia e a coragem da verdade e da transparência da nossa fé. Desafia-nos o Senhor à conversão autêntica, real, sincera, a fim de sermos testemunhas credíveis d'Aquilo que Deus é: amor e salvação, verdade e justiça oferecida a cada homem.
Não gosto de "ver" Deus falar assim; não me sossega - talvez nem seja essa a intenção - escutar essas palavras que saem do coração triste de Deus por causa da infidelidade e da superficialidade daqueles que se afirmam crentes e discípulos!
Mas entendo! Percebo a actualidade dessa palavra proclamada há tanto tempo atrás! Aceito essa "indignação" do Senhor ao tentarmos envolve-l'O em nuvens de incenso, em "encanta-l'O" com hinos e salmos melodiosos e, simultaneamente somos este Povo que não cessa de fazer o mal, não ergue as mãos pelo combate pela justiça e pela equidade, não se decide à denúncia dos muitos sistemas opressores e capazes de esmagar depressa a dignidade de homens e mulheres chamados à felicidade e à paz!
Percebo que muitos dos cultos prestados e celebrados por aí sejam abomináveis para Deus, Lhe sejam insuportáveis, quando aqueles não se transfiguram em compromisso com a vida verdadeira de cada outro.
Sim, é verdade que preciso converter o meu culto, as minhas solenidades, em actos de amor, em abraços prolongados, em caridade efectiva, em coração partilhado... porque a alegria de Deus é o Homem vivo!

