"Dom do Alto" que se implora...
Pede-nos a todos um renovado vigor, uma sublinhada atenção, uma profundidade maior, um testemunho fecundo, da fé que afirmamos possuir e viver no nosso quotidiano...
Presumo que já muitas ideias, incontáveis projectos, inúmeras acções, intermináveis programas, estarão já delineadas na maioria das paróquias, das dioceses, enfim, da Igreja Universal...
Três meses nos separam desse "passo" que preencherá o peregrinar da vida eclesial e pautará, certamente, o viver quotidiano das comunidades cristãs.
Na Carta Apostólica que o Papa publicou a anunciar e a convocar esse mesmo "Ano da Fé" sublinha veementemente a urgência da "hora" inadiável para que esta nossa fé seja proposta ao mundo quando este, progressivamente, se afasta de Deus, da Igreja, numa indiferença crescente da Pessoa e do Mistério de Jesus de Nazaré.
Uma ideia me "assalta" desde logo: o perigo das "acções", dos "programas", das "iniciativas" pastorais relativamente à "novidade" do "Ano da Fé"!
Recordaremos, decerto, que não há muito tempo vivemos o chamado "Ano Paulino", o "Ano Sacerdotal"... e que restou de toda essa panóplia de gestos, ritos, acções, palestras, encontros, por causa desses mesmos "Anos" especiais?!
É óbvio que tenho a claríssima consciência de que sou "nada" para interrogar ou questionar estas iniciativas do Santo Padre; é óbvio que estarei em comunhão com os projectos que a Diocese, a Vigararia propuserem como caminho a seguir; é ainda óbvio que o "Ano da Fé" será ocasião, motivo e causa de "caminhos" a trilhar nesta minha Comunidade...
Porém, não deixo de recear que o "Ano da Fé" e a "novidade" que ele comporta sejam razões de acção mais que de oração; sejam motivos mais de anúncio de que de denúncia que urge proclamar; sejam causa mais de "entretenimento" pastoral quantificado pelo número de actividades do que de ousadia de fidelidade, de exercício de comunhão, de "fantasia da caridade" (expressão do nosso Patriarca)!
Sabemos todos que ninguém pode dar ou partilhar aquilo que não tem! Donde resulta, no meu entender, que o grande caminho a trilhar neste "Ano da Fé" seja, precisamente, o da decisão pessoal de crescer, de aprender e reaprender, a beleza de Jesus de Nazaré, a fecundidade e radicalidade da Sua Palavra, a força e a exigência do Reino que a cada coração quer ofertar como resultado da Sua entrega no Madeiro da Cruz.
Gostaria que o "Ano da Fé" nos ocupasse e preocupasse na aventura do conhecimento da real Boa Nova que Cristo oferece aos homens de cada tempo.
Gostaria que o "Ano da Fé", mais que uma "colecção" de acções se transformasse num desejo profundo, real e urgente de uma maior comunhão com cada homem nosso irmão, partindo da consciência que a grande prodigiosa tarefa da evangelização consiste na capacidade de nos aventurarmos ao Mandamento Novo tão proclamado e vivido por Aquele a Quem temos por Senhor!
Não gostaria nada que a Igreja, as Dioceses, as Paróquias, nós, Párocos, nos detivéssemos na programação mais ou menos interminável de conferências, catequeses, encontros, em detrimento da consciência de que a Fé é dom do Alto, que se implora, pede, suplica, incansavelmente.
Desejaria que, desde já, a nossa oração, pessoal, familiar, comunitária, fosse a suplicar como os Apóstolos: "Senhor, aumenta a nossa fé"!
E naquele dia de Novembro de 2013, a Igreja estaria bem mais enriquecida, bem mais santificada, porque mais consciente de que apenas "possuindo" pode partilhar aquilo que de mais valioso e nobre possui: a fé em Jesus de Nazaré.

