"Tempo Comum", Tempo de Deus"
Passadas as festas pascais, vislumbramos agora o denominado Tempo Comum.
Período de caminho existencial, eclesial, onde havemos de peregrinar com a certeza de Cristo Ressuscitado como companheiro de viagem...
O nosso olhar não se foca agora em algum mistério particular da vida ou da missão de Jesus Cristo mas, desafiados sempre à aventura da fidelidade e do anúncio da Boa Nova que encontra a sua força e a sua raiz em Cristo Crucificado e Ressuscitado.
Na vida de cada dia, em gestos pequenos ou maiores, em projectos simples ou mais ousados, em desejos e pensamentos, sonhos e anseios, havemos sempre de mostrar as "razões da nossa esperança" a quantos hão-de cruzar as suas vidas com a nossa própria vida.
Tempo Comum que não significa menos audácia, menos coragem, menos entusiasmo ou menor entrega ao Evangelho do Reino!
Tempo Comum é, pois, oportunidade de partilhar agora com o nosso próximo a força extraordinária do mistério da Paixão, da Morte e da Ressurreição de Jesus de Nazaré. É desafio a oferecer os dons do Espírito Santo derramado sobre nós e que em nós quer espelhar a beleza de um Reino que não é deste mundo...
"Ide e fazei discípulos..." teima ser essa palavra que provoca e desassossega interior e exteriormente e nos transfigura a cada instante em missionários da caridade neste mundo concreto que nos é dado viver.
E neste Tempo Comum somos chamados a esse combate da fé que se traduz na luta contra a inércia e a instalação, o comodismo e a apatia diante do Homem que carece de Deus e da Sua paz, da Sua Vida...
A Igreja que somos não pode "abrandar" na sua paixão pelo Mestre e na sua missão de transmitir o Evangelho.
A Igreja que somos impele-nos a cada momento a revelar ao mundo este segredo que nos habita, nos conforta e nos seduz: Ele está connosco tal como na manhã de Páscoa.
Esta Igreja que somos "obriga-nos" à atenção permanente, ao cuidado continuado, ao serviço constante, à fidelidade assumida, à missão sempre inacabada, de sermos rosto de um Deus enamorado pela História e pelo Mundo que somos e que construímos.
Esta Igreja que somos jamais se compadece de "braços cruzados" daqueles que se dizem seus membros e nunca aceitará "desculpas vãs" de que agora chegou o tempo do repouso, do abrandar do amor, do sossegar da alma...
Esta Igreja que somos e que havemos de amar sempre mais impele-nos a prosseguir caminhos de confiança e de abandono, de disponibilidade e generosidade, do que temos e do que somos, a fim de confrontarmos a sociedade, cada homem, oferecendo e propondo sempre o encontro com Jesus Cristo que transfigura certezas, verdades, consciências e adquiridas para as envolver no mistério da vida verdadeira e da alegria completa.
As férias que se avizinham, o terminar de muitas actividades comunitárias, eclesiais, não podem ser sinónimo de menos compromisso ou de menor adesão ao Reino de Deus!
Creio mesmo que é este o "tempo favorável" para nos sabermos enviados, nos sentirmos apóstolos, nos decidirmos à sempre nobre e fecunda tarefa da evangelização.
Ir pelo mundo, pisar os caminhos da História, fazendo nossos os passos do Messias, eis a beleza da nossa condição de discípulos de Jesus.
Encontrá-l'O, abraçá-l'O, segui-l'O, oferece-l'O aos muitos que partilham a nossa vida concreta, eis a missão que não se esgota nos "tempos fortes" da liturgia da Igreja mas que, teimosamente, continua enquanto peregrinarmos pelos caminhos deste tempo e deste mundo.
"Subamos a Jerusalém" é apelo constante do Senhor Jesus. Que sabemos não se reduzir ou resumir a uns períodos determinados da vida mas a cada segundo da nossa existência.
Chamados a olhar a vida toda do Mestre, para que a assumamos e a partilhemos com os demais...
Porque apenas dessa forma somos uma Igreja "inquieta", "enviada", "missionária", que ultrapassa as "balizas" dos calendários" e das "agendas" e faz do seguimento e da fidelidade a Jesus a razão da sua existência.
O "tempo de Deus" é sempre "agora". O seu desejo e o seu sonho de conquistar corações é sempre no "agora" de cada tempo...
E hoje, quem sabe, se um qualquer coração não precisará de se encontrar com o nosso para que a sua vida se transforme definitivamente porque lhes falámos de um Deus que é tudo em nós?!

