"Iguais... mas diferentes"
"Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes.
Nem, em
parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem
vivem uma vida de natureza singular.
Nem uma
doutrina desta natureza deve a sua descoberta à invenção ou conjectura de
homens de espírito irrequieto, nem defendem, como alguns, uma doutrina humana.
Habitando
cidades Gregas e Bárbaras, conforme coube em sorte a cada um, e seguindo os
usos e costumes das regiões, no vestuário, no regime alimentar e no resto da
vida, revelam unanimemente uma maravilhosa e paradoxal constituição no seu
regime de vida político-social.
Habitam
pátrias próprias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidadãos, e
tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria
e toda a pátria uma terra estrangeira.
Casam
como todos e geram filhos, mas não abandonam à violência os neonatos.
Servem-se
da mesma mesa, mas não do mesmo leito.
Encontram-se na carne, mas não vivem segundo
a carne.
Moram na
terra e são regidos pelo céu.
Obedecem
às leis estabelecidas e superam as leis com as próprias vidas.
Amam
todos e por todos são perseguidos.
Não são
reconhecidos, mas são condenados à morte; são condenados à morte e ganham a
vida.
São
pobres, mas enriquecem muita gente; de tudo carecem, mas em tudo abundam.
São
desonrados, e nas desonras são glorificados; injuriados, são também
justificados.
Insultados,
bendizem; ultrajados, prestam as devidas honras.
Fazendo o
bem, são punidos como maus; fustigados, alegram-se, como se recebessem a vida.
São
hostilizados pelos Judeus como estrangeiros; são perseguidos pelos Gregos,
e os
que os odeiam não sabem dizer a causa do ódio".
Um texto do século I do Cristianismo que define muitíssimo bem a dignidade e a beleza, a profundidade e a diferença daqueles que se dizem de Jesus de Nazaré.
Palavras assertivas, simples, directas e objectivas, que revelam uma opção de vida, uma escolha de comportamentos, um estilo de existência que irrompe naqueles que se deixam atrair pelo Evangelho do Reino de Deus que incarna definitivamente em Jesus Cristo.
Num dia em que a Palavra de Deus nos lembra e relembra que estamos no mundo mas não somos do mundo, eis o "segredo", a "explicitação", a "tradução" dessas palavras de Jesus dirigidas ao Pai e "guardadas" pelo evangelista para que "atravesse" os séculos e milénios e nos encante sempre mais pela nossa ousadia da fé transfigurada em vida real e concreta.
Quando nos questionamos tantas vezes sobre como ser de Deus, como viver a santidade, como permanecer fiel a Jesus Cristo, esta "Carta a Diogneto" escrita nos primórdios da fé da Igreja é - poderá ser - uma "pista" de ouro a quantos, de verdade, buscam a incarnação do Evangelho na vida quotidiana.
Na verdade, Deus não nos pede "milagres" estrondosos ou "estrambólicos"; o Senhor pede a aventura da fidelidade ao Amor, esse Mandamento Novo que aceite como caminho, verdade e vida da nossa vida nos transfigura em apóstolos e discípulos de cada tempo...
Nesta "hora" da história da Igreja, nesta urgência da "nova evangelização", porque não assumir e acreditar que esta "Carta" é endereçada a cada um de nós e é poderoso apelo e desafio a uma renovação da fé, ao renovado ardor que nos falta, à sensibilidade interior que teima em não nos conquistar bem pior dentro?!
É simplesmente uma "pista" que relembro e busco seja "consciência" do meu peregrinar; é simplesmente uma "Carta" que dirijo ao teu coração peregrino...


