"Ainda temos tempo..."
A voragem do tempo ajuda à distracção e à banalidade do essencial!
As pressas em que nos deixamos "embrulhar", as "coisas urgentes", os "problemas inadiáveis" a exigirem respostas urgentes, os "stresses" que nos asfixiam - mesmo os das coisas de Deus - conseguem demasiadas vezes a relativização daquilo que vale mais: Jesus!
A Quaresma - também a Quaresma - é oportunidade de repensar e recentrar as nossas prioridades. É tempo propício para a interrogação da fé, da nossa adesão a Cristo e ao Evangelho, da nossa paixão pela Igreja e pelos homens nossos irmãos.Sem nos darmos conta - ou quase - estamos já sensivelmente a meio desta caminhada que poderá desaguar na Páscoa. Andamos tanto, corremos ainda mais, que talvez nem nos apercebamos desse apelo próprio que este Tempo litúrgico nos faz! Estar mais com Jesus, aprender a permanecer n'Ele, a viver d'Ele, a existir para Ele!
O tempo que velozmente nos invade e comanda vai tendo a capacidade e a arte de nos confundir e até convencer de que Jesus, a fé, a Igreja, o amor e o serviço, podem esperar... Em nome das nossas responsabilidades profissionais, sociais, familiares, etc., facilmente vamos, repito, relativizando o essencial: Jesus e a nossa relação com Ele!
Creio que devemos apostar num esforço de conversão das nossas prioridades. Que deveríamos equacionar mais e melhor os caminhos trilhados até aqui e aqueles outros que podemos ainda percorrer...
Sinto a necessidade, a urgência da oração, pessoal e comunitária. Pressinto que, como Igreja, como Comunidade, a ousadia da intimidade com Deus é algo de decisivo nesta "hora" do caminho...
Na verdade, quando a vida se centra e alicerça em Jesus, todas as realidades que a compõem ganham novo impulso, ímpeto e significado. O trabalho, os amigos, a família, os estudos, as relações inter-pessoais, tudo se reforça e enriquece quando embebidos na Graça de Deus, quando centrados na Pessoa e na Palavra de Cristo.
A pressa e as pressas contemporâneas não poderão ser ou ter mais força que a nossa vontade de aprofundar a nossa relação com o Senhor! Estamos ainda a tempo de vencer a força do tempo. E de nos decidirmos a uma Quaresma com as marcas da oração e da interioridade, da generosidade e da partilha, da verdade e da esperança, da paz e da profundidade libertadora da fé.
Ainda estamos a tempo de abraçar a "loucura" de Deus que é mais forte que a sabedoria humana. Ainda podemos escolher a "fraqueza" de Deus que vence todas as forças humanas...
Sim, podemos ainda saborear a beleza do caminho que conduz à Páscoa. Basta ousar privilegiar o tempo que damos ao Senhor do tempo...

