quinta-feira, 8 de março de 2012

"Verdade maior"

É forte o apelo do Evangelho para quem se quer tornar verdadeiro discípulo de Jesus! Diante das "regras" e "propostas" do mundo e dos seus "poderosos", a Palavra do Mestre é muito clara e objectiva: "Entre vós não deve ser assim. Quem quiser ser grande seja vosso servo e quem quiser ser o primeiro seja o escravo e o último de todos"!
Não façamos rodeios nem procuremos significações e "traduções" quando a Palavra é límpida e transparente! A grandeza e o poder na Igreja, a importância e a proeminência dos seguidores de Jesus não podem jamais conformar-se ou adaptar-se aos critérios e às modas de cada tempo ou das modas vigentes! Ser Igreja de Jesus implicará, sempre, a comunhão e a fidelidade aos passos trilhados pelo Mestre que sobe a Jerusalém para ser Servo, a fim de ser condenado, ultrajado, crucificado e morto! Para ressuscitar e nos alcançar a vida verdadeira.
Escolher, enquanto discípulos, enquanto Igreja, os caminhos dos poderes mundanos, optar por viver ao jeito dos "chefes das nações" será sempre adulterar e usurpar o verdadeiro e profundo significado e desafio do Evangelho do Reino de Deus!
Viver em Igreja para "mandar", para "sobressair", para nos evidenciarmos, para dominarmos vidas e consciências, almejando pedestais e pódios, conquistando evidencialismos e destaques meramente humanos, será sempre comportar-se e viver em sentido oposto à proposta da Palavra d'Aquele a Quem chamamos de Senhor!
"O Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir e dar a vida"!
Este é o único caminho. A única estrada que nos é permitida percorrer enquanto seguidores do Mestre da Galileia. Viver para servir. Viver para dar a vida. Viver para ser escravo, lavando os pés aos nossos irmãos. E nunca, mas nunca mesmo, servirmo-nos deles, servirmo-nos da Igreja, servirmo-nos da Comunidade, dos serviços aí prestados, para nos engrandecermos a nós mesmos!
Esse tem sido dos piores testemunhos que oferecemos ao mundo! Essa tem sido a postura que mais corações tem "roubado" à Igreja e tem afastado da fé!
A Quaresma será esta "teimosia" divina em centrar as nossas opções e revelar-nos a verdade maior. A Quaresma é esta proposta de conversão séria, pessoal, comunitária, para que a Páscoa não seja tradução de hinos e glórias ocos e sem vida, não se transforme em rituais de incenso e aleluias solenes desprovidos de verdade e de amor!
Esta é a verdade maior deste tempo favorável que nos é dado viver...
Sem moralismos nem pietismos, sem espiritualismos nem rituais penitencialistas divorciados do coração, sonhemos e vivamos esse caminho outro onde de conquista a paz e a vida porque nos tornamos servos e escravos dos homens nossos irmãos.

sábado, 3 de março de 2012

"Nos passos de Jesus" (2)
 
A falta de internet não permitiu que fosse partilhando como desejava o "pulsar" da nossa peregrinação...
Chegados já após esses dias memoráveis e únicos, podemos agora falar da "lembrança" dos nossos passos e dos nossos sentimentos ao percorremos os caminhos de Jesus...
Em cada um dos nossos corações estão gravadas marcas, emoções, sentimentos, olhares, silêncios e palavras que o tempo jamais apagará. Na verdade, fizemos um verdadeira peregrinação. Procurámos que o nosso olhar sobre cada local fosse visto e entendido não apenas - nem sobretudo - com os olhos do corpo mas com os olhos da alma e do coração.
Nenhum de nós pode afirmar que determinado local, que certa celebração, que aquela passagem concreta, tenha sido mais bela ou mais determinante. Com efeito, cada passo, cada experiência, cada local, são parte de um todo que se torna impossível dissociar. Tudo se torna importante e decisivo quando tentamos fazer nossos os passos e as vivências do próprio Senhor Jesus...
Um antigo ditado hebraico: "No ano que vem em Jerusalém" é facilmente aceite e assumido por quantos têm a graça de pisar a Terra Santa! E todos nós ambicionamos fazer nossas essas mesmas palavras. Mesmo os que de nós já tiveram a oportunidade de peregrinar em Israel mais do que uma vez. "No ano que vem em Jerusalém" é vontade firme na alma de cada um de nós após esta experiência inolvidável.
Cada lugar, cada Eucaristia, cada cântico, cada sorriso, cada emoção, serão sempre entendidas por quem vive esta experiência de peregrinar na Terra Santa. Podemos escrever, partilhar, narrar, todos os momentos vividos pessoal e comunitariamente; porém, jamais conseguiremos expressar a plenitude do que vivemos! É grande demais, é profundo demais, é pleno demais, para expressar por palavras a vivência do coração e da fé!
A caminho da Páscoa, para nós, peregrinos, torna-se mais "fácil", agora, entender o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Já sabemos identificar os locais, já conseguimos entender melhor o "pulsar" do caminho de Jesus, já interiorizamos mais profundamente o amor e a paixão de Cristo por nós e por toda a humanidade...
Somos, agora, embaixadores da Terra Santa nos nossos ambientes. Somos, agora, emissários dessa experiência sempre diferente, sempre única e privilegiada de quem pisa e faz seus os passos de Jesus de Nazaré...
Apetece abrir  agenda e programar a próxima Peregrinação à Terra Santa. Como os discípulos no cimo do Monte Tabor, é fácil para nós repetir as suas palavras: "Como é bom estarmos aqui"!
E partir de novo! E caminhar de novo... fazendo nossos os passos de Jesus, onde nos tornamos e sabemos protagonistas de uma Igreja mais ao jeito do Mestre.
E, quem sabe, se no próximo ano, ou ainda neste, possamos, de novo, com outros peregrinos "subir a Jerusalém"!
O futuro a Deus pertence. Mas nós podemos, com a Sua graça, predispor os nossos corações a sonhar viver essa aventura divina...
Vale bem o esforço, os esforços, a vários níveis, tentar caminhar na Terra Santa. Ficamos diferentes. O nosso coração "entende" mais e melhor o projecto e o ideal chamado Evangelho...

domingo, 26 de fevereiro de 2012

"Nos passos de Jesus"

Continuamos a fazer nossos os passos de Jesus. Ou melhor, tentamos. Porque essa é uma tarefa e uma aventura deveras exigente, radical, ousada... mas, como cantava o poeta, "pelo sonho é que vamos..."!
E é, precisamente, acalentando esse sonho que vivemos, com imensa intensidade, esse mesmo sonho de conseguir que os nossos passos se identifiquem e cruzem, sempre mais, com os passos d'Esse Homem único e fascinante que é Jesus de Nazaré.
Iniciámos o caminho com um "olhar" sobre o mistério da Anunciação. Em Nazaré o "sim" de Maria iluminou o caminhos que nos predispusemos a fazer; um "sim" que transformaria a História da humanidade e que precisamos, urgentemente, de reaprender para que esta avance nessa "órbita" da transformação ao jeito do Evangelho...
Hoje após a travessia de barco do mar da Galileia, subimos ao Monte das Bem Aventuranças. Lugar "mágico" que a nenhum de nós deixou indiferente. Pela beleza do espaço mas, sobretudo, pela beleza da palavra e da mensagem endereçada a cada um dos nossos corações. Na verdade, escutar naquele monte o "Sermão" da vida verdadeira é realidade que "mexe" e remexe" com as nossas verdades e certezas, com as nossas apatias e comodismos, com as nossas inércias e rotinas!
Ali, naquele monte, escutar aquele "hino" de paz e de gozo iniciado sempre com a expressão "Bem Aventurados" é impossível permanecer imóvel e apático; ali, naquele monte os nossos corações brilharam com um renovado fulgor. E como que nos decidimos a fazer em nós essa proposta de humanidade e civilização novas...
Tocar o Mar da Galileia, viajar no tempo e "espreitar" o chamamento dos primeiros Apóstolos, "olhar" aquelas redes e aqueles barcos deixados na praia, é apelo a uma entrega verdadeira e profunda, fecunda e libertadora.
Passámos o Jordão. E conseguimos ouvir a voz do Céu que a nós nos segredava: "Eis o meu filho muito amado em quem pus todo o Meu enlevo"! E conseguimos, por momentos que seja, de que somos morada do Espírito, de que somos portadores do enlevo e da graça do próprio Deus, chamados a viver ao jeito de Jesus Cristo...
E avançámos. Dirigimo-nos ao deserto da Judeia, onde me encontro neste momento...
O deserto, local privilegiado para escutar a Deus. Para nos olharmos bem por dentro e conseguirmos verdadeira intimidade com o Senhor da Vida em abundância. O lugar escolhido para, após nos levantarmos às 04h 30, irmos rezar no silêncio e contemplarmos o nascer do sol, novo dia, dádiva de Deus para aprendermos a ser santos e ganharmos a coragem para escutar o apelo do Mestre: "Subamos a Jerusalém"!
Uma subida que, como no tempo histórico de Jesus, implicará uma decisão a abraçar o mistério da Cruz, a aprender a beleza da doação, a decidirmo-nos pelo Mandamento Novo...
Fazer nossos os passos de Jesus!
Missão ambiciosa mas real em cada um dos nossos corações. Que será, progressivamente, alcançada, com a nossa oração e com a vossa oração de "peregrinos" do coração e da comunhão...
Estarão deitados, a descansar, e eu estarei (em Portugal serão 02h 30) no deserto da Judeia num silêncio exterior que se traduzirá, também, em oração e prece, agradecimento e louvor, por quantos estão unidos a nós através da "geografia do coração".

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"Subir a Jerusalém"

Estou já a caminho da Terra Santa. Juntamente com mais 36 peregrinos, decidimos, no início da quaresma deste ano, fazer nossos os passos de Jesus.
Na Palavra de Deus encontrámos o "lema" para a caminhada: "Chamei-te pelo teu nome" (Is 43, 1).
É, portanto, claro o desafio, ou seja, escutar esta voz de Alto que nos chama pelo nosso próprio nome, com a nossa história de vida concreta, com os nossos defeitos e virtudes, com as nossas dores e os nossos sonhos...
Chamados a abraçar, sempre de novo, o projecto do Evangelho trilhando os caminhos e lugares que um dia na História, fora percorridos pelo Senhor da Galileia...
Chamados com o que temos e somos para incarnar nas nossas próprias vidas a beleza de um projecto salvífico, de uma experiência que liberta bem por dentro, que eterniza, se deixarmos e quisermos, o "agora" do nosso ser e estar.
Chamados pelo nosso nome a "subir a Jerusalém" com tudo quanto esse caminho implica. Subir a Jerusalém, com Jesus e a Sua Igreja, para aprendermos e reaprendermos, que apenas na vida doada e partilhada encontramos a vida verdadeira e em abundância. Subir a Jerusalém, porque chamados pelo nosso nome, a fim de "morrermos" para o homem velho que teima comandar a nossa existência e nos transfigurarmos e revestirmos com as vestes da paz e da vida, da misericórdia e da verdade. Subir a Jerusalém, para olhar de novo o gesto do lava-pés, para centrarmos o coração no Jardim das Oliveiras, nos espantarmos na beleza e na radicalidade do Cenáculo, nos maravilharmos com a "derrota" tornada vitória do Calvário e da Cruz de Jesus de Nazaré.
Partimos de Carcavelos com esse sonho e esse desejo de fazermos a experiência de peregrinar bem a sério. Com a vontade de absorver cada momento como se este fosse único e definitivo. Lendo e meditando as Escrituras, entender no coração, mais que na inteligência, a força de um ideal que transfigura a História e a Vida para sempre.
Partimos da nossa Comunidade para intentar encher a alma de beleza e de sonho, de pureza e de simplicidade, aquelas que guiaram o Senhor Jesus e que conseguiram arrebatar incontáveis corações...
Queremos abrir, escancarar, os nossos... para sermos mais de Deus, mais da Igreja e, no meio do mundo, sermos reconhecidos por aqueles que amam sempre mais e mais.
Sabendo-nos privilegiados porque chamados pelo nosso nome a caminhar na Terra Santa, estamos dispostos a deixarmo-nos encher do Espírito de Deus. Dispostos a escutar a exigência do desafio, a radicalidade da proposta, a ousadia da aventura divina em que nos deixámos envolver...
Aprender a ser "pescador de homens" ali, naquele lago de Tiberíades, onde outrora se iniciou uma história sem fim e onde, agora, podemos ser verdadeiros protagonistas dessa mesma aventura de Deus.
Unidos na oração, podemos ser todos, aqueles que pisam a Terra Santa.
Trago-vos comigo. E por cada um rezarei naqueles lugares sagrados.
Sei que rezarão por mim, por nós... E assim seremos um "Corpo", uma Comunidade, que na "geografia do coração" permanece unida no essencial... Deus.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

"Tempo Novo"

Iniciamos amanhã o Tempo da Quaresma.
Poderemos pensar que é apenas mais uma; que nada traz de novidade ou, pior ainda, nada acontecerá de diferente!
Quaresma é sinónimo de vida, de encontro, de intimidade, de relação, de verdade, de "morte" que gera eternidade no já e no agora do nosso caminhar.
Assim, esta Quaresma pode ser - tem de ser - necessariamente, algo de único e de derradeiro, algo de essencial e insubstituível. Esta Quaresma é uma oportunidade para que cada um de nós reaprenda a grandeza do coração que comporta em si mesmo, na medida em que este é desafiado a uma abertura, ao escancarar deste "santuário" que nos habita e que, demasiadas vezes, ignoramos e menosprezamos!
A Quaresma de 2012 é este "tempo favorável" para acreditarmos que podemos ser morada e templo do próprio Deus; é esta possibilidade de reiniciarmos um caminho, do qual nos desviamos com facilidade, onde nos encontramos e deixamos encontrar por Deus na vida daqueles de quem nos fazemos próximos.
Palavras como "conversão", "penitência", "jejum", "abstinência", etc., e que habitualmente associamos ao Tempo da Quaresma, fazem sentido e tornam-se importante apenas na medida em que ousarmos a aventura do coração, ou seja, na medida em que nos decidirmos à "lógica" do amor.
Amor sincero, amor autêntico, amor serviço, amor abraço, amor misericórdia, amor compaixão, amor generosidade, amor partilha, amor ao jeito de Cruz.
A Quaresma verdadeira e com sabor a Evangelho não será nunca um coleccionar actos piedosos, místicos, ritualistas, para "aplacar" a dor de Jesus Cristo; ao contrário, é vida de fé e de quotidiano transformada em amor e doação ao "estilo" d'Aquele que Se oferece, por amor, no cimo duma Cruz e ressuscita para nos mostrar que só esse é o caminho da vida em abundância.
Haveremos de jejuar e de fazer abstinência, sim, de tudo quanto magoa o nosso próximo. Abster-se de egoísmos e murmurações, de mentiras e egoísmos, de duplicidade de vida e de hipocrisias espiritualistas que nada contêm de cristão, de religioso, de evangélico.
Sim, podemos fazer "via-sacra" nas nossas igrejas desde que não desviemos o olhar das vias-sacras de tantos homens e mulheres que hoje choram e desesperam no "Getsemani" do nosso tempo e que os nossos comportamentos e as nossas vidas não sejam um "crucificar" o nosso irmão pela nossa indiferença, apatia ou comodismo!
Quaresma é, portanto, esse caminho de festa e de luz que havemos de abraçar porque nos decidimos à construção de um coração renovado e, por isso mesmo, de uma nova civilização e de uma renovada Igreja.
Quaresma é, então, esse período de graça onde podemos assemelhar-nos, mais e mais, ao Mandamento Novo, pois que assumimos como vocação própria de cada um o encarnar da figura do bom samaritano do nosso tempo, da nossa comunidade...
As cinzas que amanhã impusermos sobre as nossas cabeças representem e signifiquem esse desejo interior de aniquilar a "pedra" fria em que muitas vezes deixamos transformar o coração. E, corajosos e confiantes no poder de Deus, avancemos rumo à Páscoa de Jesus, sempre uma ressurreição das "mortes" que afligem o homem nosso irmão.
Sem pieguismos sentimentalistas, façamos desta Quaresma de 2012 um tempo de coração, um tempo de amor, um tempo de vida verdadeira.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

"Santa loucura" (4)

Obrigado São. Obrigado Rita. Obrigado Filipa. 
Obrigado Luís. Obrigado Tomás.
Obrigado "General". Obrigado Zé e Ricardo. 
Obrigado Pedro e Nuno. Obrigado Gabriel, Euclides e Rickie. 
Obrigado Zé Carlos, Vitalli e Marco. 
Obrigado João, Orlindo e Carlos. 
Obrigado Paulo e Luís Pinto.
Pode até parecer-vos uma "lista" exaustiva de nomes! Porém, é imensamente mais do que isso. É a gratidão pura e sincera deste meu coração a esses outros corações que quiserem e ousaram oferecer-se e partilhar o que tinham de mais nobre e mais valioso: as suas próprias vidas. Com o seu tempo e a sua história. Os seus passados e os seus sorrisos. Os seus medos e anseios como os seus sonhos e vontades de lutar...
"Obrigado" pela experiência que me proporcionaram, pelos momentos que vivi, pelos sorrisos que recebi, o alento que me ofereceram, o sonho que alimentaram...
Mais do que "nomes", são almas que ficam na minha história, são vidas que marcaram a minha vida. São razão de caminhar, razão de combater, razão de acreditar que, dia após dia, o mundo pode, verdadeiramente, ser bem mais bonito.
Obrigado a vidas que, evidentemente, não são perfeitas. Como o não é a minha nem a de nenhum de nós. Mas um "obrigado" porque nessas imperfeições pode sempre sobressair a riqueza da verdade e da simplicidade. Porque podemos sempre maravilhar-nos e aprender com a humildade e a ternura de que são capazes todos os outros, para além de estigmas, dores, abandonos ou rejeições. Um "obrigado" porque sublinharam a minha "fé" no poder da cumplicidade, da amizade, dos laços do coração. Um "obrigado" a cada um porque, para além das nossas diferenças e imperfeições, podemos e conseguimos olhar e fixar-nos naquilo que nos é comum e nos ajuda a caminhar sempre mais além: o poder do coração.
Regressados agora à "normalidade" das nossas vidas, aos quotidianos do nosso caminho, há que relembrar que há momentos e encontros, há episódios e vontades, bem mais fortes que os "encontrões" que a vida nos possa já ter proporcionado.
"Só por hoje", e dia após dia, em cada vinte e quatro horas de caminho, podemos ser todos homens e mulheres que transformam o mundo e a Igreja em algo belo e grandioso. Simplesmente porque acreditamos no poder da humildade, na força da verdade, no esplendor da simplicidade, na grandiosidade de ousarmos sonhar...
"Tomás, passo a passo foi entrando
e os "jubileus" conquistando
com pena nos deixou,
mas a sua marca ficou".
Um "verso", umas palavras, escritas pelo e com o coração daqueles que se sentiram e souberam iguais e únicos a cada um de nós porque nos "atrevemos" a ser irmãos. Dirigidas a alguém que incarnou a aventura que todos fizemos nossa... Palavras confiadas, afinal, a todos nós... que merecem que digamos aos "jubileus" pelo menos "obrigado".
Para o fim deste texto, o "Obrigado" maior a Carcavelos e a quantos proporcionaram estes dias únicos. A todos os que generosamente colaboraram neste projecto.
A quantos na "retaguarda" da oração sustentaram cada um dos nossos passos.
Aos muitos e muitos que, no segredo e na discrição, estiveram e quiseram estar presentes nesta "santa loucura"...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012


"Santa loucura" (3)

"Depois de hesitar

Peguei no telefone e liguei

Para conversar

Estou?!
Está?!

Tu não estás bem, não enganas ninguém

Conta lá o que é que a vida te fez agora

Aparece por cá, bebemos um chá
e o frio fica lá fora...
Ah, tu tens sempre uma cura

Ah, nenhum mal perdura

Para lá do tempo, tudo leva o vento

Só fica um amigo, um sexto sentido

E um lamento...
Sabes eu não tenho andado nada bem

Sentir que alguma coisa molha os teus olhos

Molha os meus também

Eu sofro por ti, eu sofro contigo

Há quem diga que esta dor é telepatia

Mas eu juro que é amor".

Uma música que relembro e entoo esta noite...
Fizemos um balanço, uma avaliação destes dias diferentes vividos em grupo, em família, em comunidade...
E com o coração escancarado, liberto de muitos dos medos e ansiedades, entrelaçados por sentimentos de fecunda amizade e cúmplice comunhão, há sorrisos belos e rostos emocionados. Há uma gratidão generalizada, unânime, humilde, simples, serena.
Deixámos, por estes dias "o frio lá fora" e ousámos acender o "lume" próprio de quem crê na força do coração e na vontade da mudança. Pouco a pouco, fomos derrubando barreiras de "gelo" e de "neve" e construímos harmonias e fraternidades "aquecidas" pelo fogo da alma partilhada, da história tornada comum, de pessoas reconhecidas pelo nome...
E percebemos que nenhum mal perdura ou se torna definitivo; que um passado pode nunca mais ser realidade negra ou destrutiva mas, ao contrário, lição de vida que nos faz sonhar e querer um sorriso e uma vontade que saem do mais fundo de nós mesmos...
E se alguma coisa, muitas coisas, demasiadas coisas, molharam os olhos, há sempre a certeza que resta o abraço do amigo, a presença que recebe e que acolhe, o silêncio que escuta e a palavra que fala sem medos de juízos ou condenações.
Sim, "eu sofro por ti, eu sofro contigo".
E isso não é telepatia, magia pontual, boa vontade episódica... isso é amor.
Sim, "eu juro que é amor".
Que apenas te pede seja feliz para eu me sentir em paz. Que apenas te exige gostes de ti para eu mesmo ser capaz de gostar, de amar, aquilo que és: pessoa, gente, filho, irmão, companheiro de viagem, peregrino ao meu lado para um Abraço outro sonhado para ti e para mim desde toda a eternidade.
E nunca, nunca te esqueças: "sentir que alguma coisa molha os teus olhos, molha os meus também"! E saber que o amor te enche e te preenche, que o sonho te guia e te conduz, faz-me caminhar decididamente ao teu lado... para sempre.
Obrigado por me ensinares que a dor se pode transformar em amor. Por me ensinares que a solidão se transfigura em comunhão. Que as lágrimas que molharam o teu rosto foram o "caminho" para nos encontrarmos. E nos abraçarmos...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

"Santa loucura" (2)

"Está a mostrar um mundo que para eles não é alcançável. A seguir à euforia vem a depressão. O mais importante é a revelação superior. E essa não está em Madrid"!
Estas são palavras escritas hoje mesmo num dos comentários feitos ao blog no texto ontem escrito. Não o publico na íntegra propositadamente; apenas estas palavras que revelam e relatam o pensar e o sentir de alguém diante da "santa loucura" que experiencio com estes jovens e estes homens aqui em Espanha durante esta semana...
Cito-as pois que nos mostram a todos como o coração nos pode pregar partidas e em nome do endeusamento pessoal e das verdades adquiridas e tomadas como dogmáticas conseguem desvirtuar a simplicidade e a beleza da realidade!
É evidente que nunca passou na minha mente nem da dos outros responsáveis estarmos convencidos que Madrid - ou outro qualquer lugar do mundo - se poderia tornar substituição dessa dita "revelação superior"! Mas temos e vivemos duma convicção: que essa "revelação superior" se manifesta e apresenta em forma e transfigurada de carinho, de compreensão, de abraço, de sonho, de partilha, de vidas entrecruzadas, de mãos e corações dados. Temos e vivemos duma convicção: que a "revelação superior" não são palavras ocas ou vãs, boas vontades aprisionadas no pensamento sem a coragem de a concretizar na vida! 
Na verdade, estou plenamente convencido que são sentimentos negativos, como ressentimentos não ultrapassados, como invejas estéreis e asfixiantes, que produzem e fazem nascer atitudes destrutivas e maléficas como as reveladas nesse comentário!
A seguir à euforia, à alegria, ao sonho e ao entusiasmo, ao tornar a acreditar na vida, não vem a depressão! Pode vir - e virá - a vontade acrescida de aumentar estes mesmos sentimentos de felicidade e de cumplicidade vivida e partilhada. E isto, precisamente, porque a "revelação superior" está na grandiosidade que pode ter cada coração humano. O contrário é que é preocupante! Ou seja, que continue gente convencida que Deus é "palavra", é "intenção", é "filosofia", é "demagogia" espiritualizante! Deus está em Madrid, em Carcavelos, em toda a parte onde permanecerem corações abertos à verdade e à compaixão, à solidariedade e à amizade, ao serviço e à partilha verdadeiras. Não estará, certamente, em corações fechados ao outro, em vidas egoístas e centradas em si mesmas que apenas conseguem olhar o seu próprio umbigo!
Estou, estamos, categorica e absolutamente convencidos que estamos no caminho certo. Que estamos a mostrar um mundo real, possível, edificável, fecundo, pois que esse brota do coração regenerado, da esperança reconquistada, da dignidade reencontrada, dos sorrisos tornados realidade.
Deixo uma questão para mim mesmo e para quantos lerem estas linhas: porque será que teimamos em incarnar a figura de "velhos do Restelo"?! Porque será que a felicidade dos outros, o sonhos dos demais, é sempre uma ameaça às nossas incertezas tornadas verdades, aos nossos erros traduzidos e assumidos como dogmas de vida, à nossa mesquinhez feita critério de vida?!
Deus sabe e vê a verdade que nos conduz. E não nos deixará desviar do caminho do coração e da força dos sentimentos que acalentamos.
Lamento imenso, mas, teimosamente, abraçarei cada um destes corações que hoje são os meus irmãos, a minha família, aqueles que Deus me pede os sirva e ama como a Ele mesmo. Ainda que isso se torne desconforto para alguns!
A paz e a alegria que vejo e que sinto nestes corações valem mais, imensamente mais, que o pensar desvirtuado e doentio de uns quantos caminhantes sem rumo...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

"Santa loucura"

Não é habitual escrever dias seguidos no blog; porém, porque há uma Comunidade inteira a rezar por um projecto em que estou - estamos - envolvidos, e porque existe a dimensão da distância física, sinto ser importante tornar próxima a "geografia do coração". É nesse sentido que escrevo estas linhas, a fim de que se apercebam da "santa loucura" (como um deles chama a esta aventura) em que nos envolvemos em nome do amor e da vida em que acreditamos...
No final deste dia fizemos um breve encontro entre todos com o intuito de avaliarmos o dia e prepararmos o de amanhã; não há palavras para descrever o pulsar e o sentir do coração de cada um dos participantes! A emoção com que partilhavam o que lhes ia na alma e no coração. A comoção de estarem a viver, como afirmaram, dias e momentos inesquecíveis e únicos! A alegria com que se sentiam gratos e reconhecidos! O brilho naqueles olhos demasiadas vezes marcados pelo desalento e pelo infortúnio falavam mais alto que as próprias palavras!
Tudo tão simples, tão "normal" que se torna imenso, indizível, gigante mesmo...
Deixarmos que a nossa história, o nosso sentir, o nosso sonhar, se cruze com o deles torna-nos, verdadeiramente cúmplices uns dos outros. Na verdade, ninguém ama aquele que não conhece! E para conhecer é preciso dar tempo! E é, precisamente, esse tempo, cada momento, cada segundo, que partilhamos juntos que os torna grandes, intemporais, definitivos..
Saber que por estes rostos passaram incontáveis e terríveis lágrimas, que por estes corações trespassaram solidões e desesperos incontroláveis, que por estas almas advieram sentimentos de amargura e "não sentido" prolongados e insuportáveis, e hoje escutar gargalhadas, perceber sorrisos, vislumbrar a ousadia de novos sonhos e dias diferentes, enche-nos a nós mesmos e acreditamos, sempre mais, que o caminho de Deus é este, o do amor, o da entrega, o da presença, o da aceitação, o do carinho, o do abraço forte e sentido...
Sabe bem à alma olhar e sentir a alma do nosso próximo tão cheia, tão plena. Querer fazer-se próximo é, verdadeiramente, trilho de felicidade que nenhuma outra realidade nos consegue oferecer...
Amanhã, outras experiências nos esperam...
Terminámos a nossa reunião rezando o "Pai-nosso", agradecendo a Deus o dom que é Ele ter-nos posto no caminho uns dos outros...
Foram deitar-se com um sorriso e uma vontade de amanhecer como há muito não viviam. E, cada segundo, assim o creio, terá esse "sabor" da presença de Deus que Se faz Homem na história e na vida destes homens que sou chamado a amar e a servir...
E comigo estão todos quantos, aí, rezam e entregam ao Céu esta "santa loucura"...
E em cada palavra que disser, em cada silêncio que viver, em todos os segundos que passarem, estarão comigo... porque vim em nome de uma Comunidade, em nome de gente que acredita que o amor terá sempre a última palavra...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

"Pelo sonho é que vamos"

"Tudo posso n'Aquele que me conforta; n'Aquele que me conforta... tudo posso"!
Cântico que ontem mesmo, na nossa Comunidade, se elevou ao Céu e se transformou em verdade de fé transmitida uns aos outros; hino de louvor que desafiou a entender, mais e mais, que unidos e enxertados em Cristo nada nem ninguém nos deterá na aventura do Evangelho, no caminho da vida verdadeira, no sonho do amor tornado história, feito abraço, traduzido em comunhão...
A vida da fé, a entrega a Jesus de Nazaré desafia-nos, não raras vezes, a navegar por "águas" desconhecidas, "mares" revoltos e a enfrentar "ventos" fortes. E ainda bem! Porque também dessa forma aprendemos e reaprendemos a beleza da "novidade" do Reino, deixamo-nos espantar pela ousadia própria de quem se sabe e sente em caminho rumo à eternidade, tempo e espaço que se conquista no aqui e agora da História.
Abraçamos projectos, sonhamos caminhos, decidimo-nos a desafios que não sabemos em que cais desaguarão! Sabemos, e sentimos, apenas, que por causa do Evangelho, avançamos destemidos com a certeza de que tudo podemos n'Aquele que nos conforta.
Foi assim que, num "impulso" do coração, se vislumbrou a possibilidade de uns dias diferentes, em comunhão, de mãos e corações entrecruzados, de histórias partilhadas e cúmplices, com dezasseis vidas e histórias marcadas por desalentos e angústias, medos e sofrimentos, solidões e desesperos incalculáveis!
Num "ápice" decidiu-se a vivência comunitária com gente demasiadamente sofrida e humilhada, excluída e marginalizada que, há mais ou menos tempo, ousa erguer-se dos "escombros" da vida e tenta a aventura única da vida em sociedade, em família, em humanidade verdadeiras. Gente, vidas e corações, que tornaram a acreditar que a "vida madrasta" se pode converter em renovada oportunidade, em fecunda humanidade, em dignidade renascida e alimentada...
Porque tudo podemos n'Aquele que nos conforta, não nos assustam os "cinzentos" ou os "negros" do passado, mas valoriza-se e sublinha-se a "luz" do momento presente. Não nos envergonham "páginas da vida" escritas com dor e angústia, sofridas e provocadas, mas intenta-se "reescrever" cada segundo com cores luminosas e brilhantes que sempre esboçam sorrisos e gargalhadas puras e genuínas em rostos desacreditados deles mesmos!
Não nos amedrontam rótulos e preconceitos inventados pelos homens pois que sabemos e acreditamos que, no Coração d'Aquele que nos conforta, existem apenas outros corações, pessoas, gente, vidas...
E hoje, nesta segunda feira 13 de Fevereiro pusemo-nos a caminho...
Como iguais. Como amigos. Como irmãos. Simplesmente porque, de facto, para além das histórias pessoais, mais ou menos difíceis e inimagináveis, somos iguais. Somos amigos. Somos irmãos. Se não uns dos outros (como muitos ainda pensam e vivem, desafortunadamente), pelo menos de Deus, em Jesus, Aquele que nos conforta.
E se nada mais acontecesse, o brilho nos olhos esta manhã ao sair da "Casa Jubileu", o saber que mal dormiram - os que dormiram - tal o desejo e ansiedade que sentiam, os sorrisos quase "infantis" ao entrarem pela primeira vez num avião... se nada mais acontecesse, só por esses segundos... já tinha valido a pena o sonhar esta aventura de fraternidade.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

"Que pastores?"

"Há muitos mercadores da Palavra de Deus"; "No falso profeta não se vê Deus. Vê-se gente enrolada sobre si própria, onde são os interesses pessoais ou de grupos que vêm ao de cima. O profeta verdadeiro não tem interesses. Está colado a Deus e à sua Palavra. É uma transparência de Deus".
Palavras sobre os profetas deste tempo que são autêntica profecia.
É o sentir de D. António Couto, novo Bispo de Lamego, que partilhou com padres e diáconos da nossa Diocese de Lisboa. É a voz de um pastor que alerta outros pastores para o perigo, sempre eminente, de nos anunciarmos a nós mesmos em detrimento da Palavra de Deus, do Reino, do Evangelho de Jesus Cristo.
É a experiência de alguém que anuncia o caminho a trilhar denunciando "estradas" percorridas que desaguam em "nadas", em "mentiras", em "supérfluo" e em "acessório"!
Um partilhar da alma de alguém que entendeu e a cada um de nós, pastores, desafia a entender o cerne da nossa vocação e missão. Somos chamados a ser homens colados a Deus, a ser espelho e transparência do que e do como Deus é! Somos atraídos a essa fascinante tarefa de anunciarmos ao mundo o amor de Deus feito Carne, feito Cruz, e a não nos perdermos em questiúnculas espiritualistas, legalistas ou rituais, que nada dizem de Deus, nada entendem do amor e da paz que é o próprio Deus!
Missão nem sempre "simpática" ou atractiva, pois que, e como também afirma o Bispo de Lamego, "o anúncio comporta uma componente de denúncia" e ainda que "quem denuncia pode ter de pagar esta atitude com a própria vida"!
De facto, não consigo imaginar o anúncio do Evangelho do Reino sem essa dimensão da denúncia corajosa e audaz de tudo quanto é ameaça ao próprio Evangelho! Não me identifico com alguma outra visão de evangelização ou profecia que não comporte essa valentia de acreditar que, como diz a carta de S. Pedro, "é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens".
É uma postura, uma opção, como outra! Mas aquela em que vislumbro a aventura da fidelidade a um chamamento primeiro, a uma missão que não nasce nem termina em nós. Uma opção que terá, cada vez mais, de caminhar por trilhos pedregosos pois que há um "facilitismo" e uma "diplomacia" reinantes que imperam inclusive no nosso coração de pastores. Transformando-nos, portanto, naquilo a que D. António Couto apelida de "mercadores da Palavra"!
O profeta, o pastor, o discípulo, o apóstolo, não pode ter interesses próprios, não pode depender da imagem que dá ou que não dá, não pode ficar preso aquilo que os ouvintes querem ou não querem ouvir, não pode anunciar uma palavra que seja sua para conquistar adeptos seus ou alcançar fins que não os de Deus!
Correremos sempre o risco de ser "mercadores", "pregadores", "microfones" de uma voz que é meramente humana, porque nossa, em vez de sermos "canais" de uma Palavra que vem do Alto e que, apesar de nós, precisa ser proclamada, "gritada" cada vez mais!
Se nos encostamos ao nosso próprio "ego", se nos escutamos a nós mesmos, se nos demitimos da profecia que inquieta, que perturba e que incomoda, então acabaremos por esconder Jesus para evidenciarmos a nossa pessoa, a nossa personalidade, a nossa visão sempre deturpada e frágil, de ver a realidade e a força da mensagem que havemos de proclamar! Então acabaremos por enganar os corações, fragilizar os corações, dominar as consciências, em nome do "deus" em que nos tornámos e/ou que deixássemos nos tornassem!
Fomos sonhados para sermos homens colados a Deus e não a interesses dos homens, das modas, de poderes, de honrarias ou de projecções mais ou menos aplaudidas! Essa será sempre a mais enganosa e falaciosa das opções pastorais! E com que facilidade podemos nela cair!
Que Deus e a oração da Igreja, viva e presente em gente boa, simples, sã, justa, nos ajude a ser pastores de "letra grande"!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

"Sentir..."


Demorei-me a recordar e a agradecer.
Viajar no tempo, mais recente ou mais antigo, pode ser um excelente exercício de aprendizagem do valor inigualável da gratidão. Pode ser uma razão mais que forte e fundamentada para nos deixarmos maravilhar sempre mais pelo dom da cumplicidade e dos sonhos que fortalecem os laços do coração...
Demorei-me a tentar visualizar espaços, palavras, silêncios, mensagens, sorrisos, lágrimas, sonhos, desejos, medos, esperanças, expectativas, abraços, encontros, desencontros, olhares...
Demorei-me, por isso, a louvar e a agradecer tamanho dom que é "tocar", "pulsar", "sentir", "viver", o amor que pode existir e coexistir naqueles que se cruzam connosco e escrevem, connosco, a história da nossa própria vida.
E o coração fica cheio. E a alma enobrece-se. E a vontade de sonhar e de nos tornarmos sempre mais cúmplices dessa "aventura" do amor cresce desmesuradamente. Porque nos apercebemos, com facilidade, da beleza e da pureza capazes de moldar, progressivamente, o coração de cada outro.
Sabe bem sentirmo-nos responsáveis pela felicidade dos outros. Tornamo-nos história e vida da vida e da história desse outro. E ele da nossa. Sem deixarmos de ser nós mesmos. Mas enriquecidos, sobremaneira, da riqueza desse outro. E a riqueza maior é partilhar do sentir do coração...
O brilho nos olhos de quem ama de verdade, torna-se luz no nosso próprio caminhar.
Os sonhos de quem se deixa guiar pela força do coração, transformam-se em rotas do nosso próprio peregrinar.
Os sorrisos espontâneos e puros de quem se sente e se sabe apaixonado, alimentam a nossa vontade de nos entregarmos à cumplicidade dos corações.
Na verdade, como um "simples" olhar pode significar tanto?!
Como umas mãos dadas nos revelam a união dos sonhos e dos corações!
Como uns sorrisos sinceros nos apontam tão claramente que o nosso destino é o amor!
Como um abraço verdadeiro nos garante a força e a eternidade de um sentimento!
Como um silêncio pode dizer muito, tanto, tudo!
Como uma palavra, uma só palavra, pode conter um dicionário inteiro!
Demorei-me a recordar momentos que fazem a vossa história e, por isso, a minha história.
Demorei-me a viajar na memória porque sabia que o coração palpitaria com outro pulsar.
E quero, dia após dia, ser discreto companheiro de viagem, mão que se pode e quer oferecer, coração que saiba acolher e sonhar, alma e vida que se completam porque entrecruzadas com as vossas...
Porque o vosso sorriso me faz sorrir.
Porque o vosso amor me faz acreditar que caminho na direcção certa e o destino que busco é o Coração de Deus, ou seja, o Amor definitivo que se vai traduzindo e revelando na fragilidade e beleza do amor humano.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

"Caminho de Vida"

A liturgia da palavra de hoje pedia-nos categoricamente. "Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor"!
Escutei estas palavras como um "pedido do Céu" à minha pobre humanidade, à minha fraca fé, à minha imensa pobreza. E não estou a escrever com falsas modéstias; antes com a consciência clara do que sou, de como sou, diante do apelo que a Palavra me dirige!
Na verdade, é demasiadas vezes difícil incarnar na nossa vida essa mesma palavra; custa e, não raras vezes dói profundamente, esse desejo de fidelidade, de intimidade, de comunhão, com Nosso Senhor.
Não nos envergonharmos, é não desistirmos, é não relativizarmos, é não menosprezarmos, a verdade e a justiça, a caridade e a ternura, a transparência e a docilidade. Não nos envergonharmos de Nosso Senhor é aceitar que o caminho da Cruz, a estrada do amor sem limites, os trilhos do coração oferecido e partilhado, é o derradeiro caminho de fecundidade espiritual e de liberdade religiosa e cristã.
Por isso, ao mesmo tempo que o Apóstolos dos gentios pedia que não nos envergonhássemos de Nosso Senhor, apelava: "Sofre comigo pelo Evangelho"!
Não é um chamamento ao masoquismo; ao contrário, é esse desafio a que completemos na nossa vida quanto falta à Paixão de Jesus e, consequentemente, nos tornarmos "co-redentores" do homem nosso irmão.
Sofrer pelo Evangelho, sofrer por Jesus Cristo, sofrer pela santificação da Igreja, sofrer pela refulgência da Igreja, é tarefa de quantos se dizem e afirmam discípulos do Reino de Deus. Sofrer no sentido de amar até doer, de amar até à exaustão, até ao extremo. Sofrer porque acreditamos que o bem maior é a glória de Deus e esta acontece na vida verdadeira e em abundância do Homem. Esta acontece quando não nos envergonhamos, não nos demitimos, não nos conformamos, se não com o amor ao jeito de Jesus, Nosso Senhor.
Testemunhar Nosso Senhor torna-se impossível para quem desiste de amar. De incarnar o amor na sua vida, de abraçar a experiência de deserto, de "tocar" o Madeiro da Vida! Torna-se impossível para quem fala, escreve, prega, declama, a palavra "amor" mas depois dela se divorcia categoricamente!
"Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor"  foi desafio que escutei como caminho a seguir no "já" e no "agora" do meu peregrinar! Que apenas conseguirei na medida em que souber "olhar" bem para dentro de mim mesmo, de reescutar as minhas próprias palavras, de ler as minhas "letras" e de me decidir a recomeçar uma aventura de amor e de fidelidade diária...
Ser intrépido arauto do Evangelho, implica essa predisposição para o sofrimento por amor do Reino e de Nosso Senhor. Repito, um sofrimento redentor, amoroso, generoso, entregue, oferecido, oblativo. Que tenha em nós os traços, as marcas, da Paixão de Cristo. Aquele que é o Amor, anunciado, dito, vivido, incarnado, morto e ressuscitado.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"Saudade..."
Esse mar que não tenho
o poder de abrir
ainda é o mesmo…
o tom de verde profundo.
Ainda é o mesmo…
O cheiro de maresia,
Que se mistura ao perfume da pele.
Ainda é o mesmo…
O abraço morno e
envolvente das águas.
Ainda é mesmo…
O horizonte tingido de dourado
pela doçura do sol no poente
ainda é o mesmo…
o som das ondas quebando na praia,
que parecem sussurrar teu nome
ainda é o mesmo…
O sopro da brisa que desarruma
cabelos e sentimentos
ainda é o mesmo…
até a saudade, que grita aqui de dentro
ainda é a mesma…
nada mudou”.

Saudade, essa palavra única e indecifrável, exclusiva e determinante, cheia e envolvente...
Saudade, esse sentimento que, mesmo quando não o queremos, nos invade a alma e nos preenche a existência...
Saudade, esse pulsar de vida e de sangue, essa respiração tantas vezes ofegante, esse sobreviver de cada instante...
Saudade é querer bem, é sentir o melhor, é desejar o maior, é lembrar a vida...
Saudade, do teu nome, da tua história, da tua vida, da tua magia...
Saudade, mesmo quando aqui estás, de tantas e variadas formas, mas saudade...
Saudade, de ti, de tantos nomes, de incontáveis corações, de múltiplas cumplicidades, de indizíveis sonhos e palavras feitas não poucas, história, vida, realidade...
"Ainda é o mesmo"...
Acredita que nada mudou; porque na vida e na alma do coração apenas Deus tem poder, apenas Ele comanda esse pulsar e esse sentir.
E gosto de ter saudades. Mesmo que humanamente se saboreie o "fel amargo", divinamente experiencia-se o "mel" do coração que poucos conseguem entender.
Saudade é força de vida, é sopro de caminho, é esperança de recomeçar, é certeza de viver...
Saudade é espanto que delicia, é sentimento que enobrece, é razão descodificada na linguagem do coração...
Saudade.. é o que sinto. É o que tenho. É vida verdadeira. É "sopro da vida que desarruma cabelos e sentimentos" mas que perpetua o que de melhor nós somos...
Saudade, que poderoso sentir, que fulgurante pulsar, que tremendo viver... que nos faz ir sempre mais além..

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

"O que importa é partir..."

"Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revôlta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar".

Descobri este este poema que me parece de uma bela intensidade e de uma clara pertinência. Palavras que assentam em corações inquietos - a fecunda inquietação de quem sabe e quem sente que o mundo e o homem podem ser sempre melhores -, em mentes ousadas e abertas capazes do abraço ao desconhecido e da entrega à novidade que chega e desmonta e desconcertas certezas adquiridas que nunca o são verdadeiramente.
Palavras que soam a "grito" de gesto, a "grito" de vida, a "grito" de "viagem" sem se saber os trilhos a seguir mas apenas o destino traçado desde toda a eternidade: o colo de Deus.
Que suave missão esta a de "reforçar a fé de marinheiro" que nos ensina e sublinha que, de facto, "Em qualquer aventura, o que importa é partir, não é chegar"!
Dia após dia, com essa determinação dos "fortes", dos "crentes", cortando as ondas - sempre tantas - sem  desanimar, busca-se aquela "outra margem" de que nos fala com frequência o Evangelho, sabendo e crendo, sentindo e querendo, essa certeza maior que "o que importa é partir, não é chegar".
Partir, a cada instante, sem medos das ondas ou das vagas mais ou menos vorazes, sem receios de cortar as amarras que nos prendem a cais petrificados, avançando e guiando a "embarcação" da vida e da fé, eis a razão que precisamos para, todos os dias, recomeçar de novo a viagem do que temos e do que somos.
Partir, a cada momento, com a coragem de quem navega em mares desconhecidos mas com a consciência e a sublime convicção de que o timoneiro nunca somos nós mesmos mas Aquele Outro, invisível mas misteriosamente presente e capaz de serenar os lagos e mares por onde a "barca" da vida nos levar...
"Em qualquer aventura, o que importa é partir, não é chegar".
Feliz verdade esquecida demasiadas vezes por estes nossos corações ávidos de protagonismos e de desmesuradas honrarias; feliz verdade escondida nas nossas consciências tantas vezes ocupadas e preocupadas em sobrancerias e superioridades enganosas e redutoras da nossa humanidade mais profunda!
Partir, sempre de novo, com o olhar da alma e do coração fixos n'Aquele horizonte, mais próximo ou mais distante, mas decididos a navegar, dizendo adeus a cada cais, à paz tolhida, podre, comodista, a fim de nos transformarmos, sempre mais, em marinheiros do amor e da verdade, em gente que busca, que procura, sempre mais, o único porto seguro que sossega a embarcação da nossa vida: o Amor que Deus é.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

"Sempre o que vale mais!"

Escrever continuará sempre a ser uma forma privilegiada de comunicar; mais ainda quando essa escrita, por mais pobre, banal ou simples que seja, falar da experiência do coração. Escrever é também essa oportunidade, sempre renovada, de nos expormos, de nos entregarmos, de nos oferecermos e partilharmos o que somos, sentimos e vivemos...
Também é óbvio que podemos "adulterar", pela escrita" a intenção original, ou seja, poderemos sempre afirmar que fazemos, sentimos ou vivemos algo que não corresponda à verdade da vida! Mas isso será sempre fraude existencial!
E não é isso que se pretende quando se fala na primeira pessoa; pelo menos eu jamais o faria. Quando escrevo faço-o a pensar em mim e em cada um daqueles que, porventura, olharem estas letras e ousarem entender o "pulsar" do coração que me habita...
Escrevo, portanto, para reforçar, em mim e em cada outro, aquilo que vale mais, aquilo que importa deveras, aquilo que acredito ser a única verdade que enche e preenche o viver quotidiano de cada um de nós. Escrevo para sublinhar, na razão, na inteligência, no coração, aquele sentimento avassalador e contagiante que consegue transformar o mundo em cada tempo: o Amor.
Bem sei que esta é uma "palavra" demasiado gasta; é até um "sentimento" ambíguo em demasiadas vidas; é realidade desacreditada em outras tantas... Todavia, eu teimo acreditar que "Amor" não é palavra vã, não se reduz a poesia ou a romance, não se traduz apenas em canções ou "grandes metragens" mais ou menos visionadas por espectadores passivos e alheios a esse mesmo sentimento!
Verdadeiramente, creio que o Amor, essa capacidade de nos fazer brilhar os olhos e a alma de forma única e insubstituível, será sempre o que vale mais na nossa vida. O Amor, essa força gigante e poderosa, é a razão do nosso viver a cada instante. Porque apenas o Amor nos faz ser testemunhas da verdade e da justiça. Porque apenas o Amor nos consegue a capacidade de olhar e pensar nos outros antes de nos olharmos e pensarmos em nós mesmos. Porque apenas o Amor nos conquista uma paz e uma serenidade que jamais outra realidade nos alcança. Porque apenas o Amor, essa vontade firme e decidida de fazer o outro feliz, de o tornar a pessoa mais importante do mundo, nos arrebata bem por dentro e nos dá razões para viver autêntica e profundamente do coração. Porque apenas o Amor nos desafia à aventura permanente de surpreender e espantar o outro a cada instante para o tornar "grande", "único", "indispensável" nas nossas próprias vidas.
Quão triste deverá ser uma vida que não crê na "magia" do Amor!
Quão desperdiçada deve estar e sentir-se uma pessoa que não entende que apenas o Amor nos torna profundamente felizes e nos transforma em pessoas determinadas a deixar o mundo melhor do que o encontrámos!
Diante de todas - e são muitas, são incontáveis - as coisas belas que a vida nos proporciona, o Amor, firme, altruísta, puro, transparente, oferecido, será sempre o que vale mais na nossa vida. Vivido de múltiplas formas, apresentado de diversas maneiras, traduzido em indeterminadas "línguas", será sempre o que vale mais em nós e nos outros...
O sorriso de quem se sabe e sente amado é tão grande e tão intenso como o daquele que ama. E como este nosso tempo precisa desses sorrisos que brotam do fundo da alma e do coração!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

"Amar, porque sim..."

A cada dia que passa nada me parece mais importante que a "aventura" do amor.
Sei e sinto, clara e profundamente, que esse é o desafio mais apaixonante a que nos podemos entregar, que nos pode absorver, diante do qual nos podemos - e devemos - gastar e desgastar.
"No coração da Igreja eu serei o amor"! Palavras únicas, sábias, de quem encontrou o tesouro mais fecundo que pode acolher o coração humano. Verdadeiramente, somos diferentes, sentimo-nos outros, olham-nos distintamente, sentem-nos de forma única, quando "no coração da Igreja", cada palavra, cada gesto, cada desejo, cada sonho e cada esperança, apresentam as marcas do amor.
Aquele amor puro, íntegro, servo, disponível, desinteressado, nobre, gigante, porque amor. Porque coração oferecido, porque tempo partilhado, porque abraço aberto e prolongado, porque lágrima enxugada, porque cumplicidade silenciosa e "gritante", porque sonho alimentado e comungado, porque amor, simplesmente amor...
Amor, que não nos tira os problemas nem aniquila as dificuldades do peregrinar; amor que não exclui a dimensão do deserto ou da cruz; amor que não substitui as preocupações nem derruba automaticamente as mágoas ou as ofensas. Mas amor que nos envolve numa paz e numa esperança, melhor, numa certeza que jamais algo ou alguém derrubará as forças da nossa alma ou do nosso coração. Amor que aponta o nosso caminho, que vislumbra a cada instante o trilho a percorrer, que desafia a fazer de cada contrariedade apenas uma "pausa" na grandiosidade a que o nosso coração é chamado a experienciar.
Amar, simplesmente, porque sim.
Porque dessa forma, com essa postura, o mundo brilha de forma diferente. Amar porque apenas com essa determinação encontramos razões para nos erguermos a cada instante e recomeçar, sempre de novo, sempre  que seja preciso, a obra da vida que trazemos em nós mesmos.
Amar, simplesmente porque sim.
Amar porque não há nada neste mundo mais belo e gratificante do que olhar um olhar agradecido pelo simples facto de o termos amado. Amar porque nada se comparará jamais ao "espanto" de um coração que se sente e sabe amado cada vez que o surpreendemos com o nosso próprio amor.
Amar porque conseguimos que no rosto de cada outro caia, teimosa e timidamente, uma lágrima de alegria, de luz, de felicidade. Amar porque nessa opção encontramos a felicidade que buscamos há mais ou menos tempo...
A cada dia que passa, e hoje foi apenas mais um, porque a "aposta" foi no amor - mesmo que humanamente apetecesse a experiência do desamor - encontramos, como se da primeira vez se tratasse, uma paz e uma alegria interiores que preço algum poderá alcançar.
Naquele canto da igreja, no silêncio envolvente, com Deus unicamente como testemunha, sabia que Ele sorriria se "no coração da Igreja", eu fosse o amor.
E vi, e toquei, e limpei, e abracei, umas lágrimas com "sabor" a esperança, com "sabor" a felicidade, com "sabor" a fraternidade...
E nesse amor oferecido fui amado. Porque nessa "aventura" do amor, quando se ama, saímos sempre a "ganhar": somos amados profundamente. Humanamente, racionalmente, podemos até equivocar-nos e não entender! Mas quando deixamos que seja o coração a "falar", quando amamos, somos amados. E isso não se prova, não se diz, não se escreve: sente-se, simplesmente...
Num canto daquela igreja, porque o amor foi mais forte, o silêncio falou mais alto que as nossas vozes. Porque o amor foi mais forte, as próprias lágrimas refulgiam de uma luz que apenas o coração consegue vislumbrar...
Amar, simplesmente porque sim.
Amar, porque continua a ser a mais bela e a mais apaixonante das vivências que possamos ter. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

"Noite de Oração"

"Uma noite de oração era a proposta e à porta daquela igreja, alguns jovens entregavam pequenas velas e pedaços de corda a todos os que chegavam.
Lá dentro sentia-se a agitação própria de quem sonhou e trabalhou para que algo acontecesse. E para os jovens não há limites nem cuidados. Mostraram as imagens mais duras da miséria no mundo e questionaram a nossa capacidade de permanecermos indiferentes ao que se passa à nossa volta.
Pediram-nos que déssemos nós naquelas pequenas cordas e bastaram alguns minutos, para se fazer uma única corda, uma teia, que uniu toda aquela assembleia, num sinal evidente de que só em comunidade faz sentido ser cristão.
Pediram-nos que acendêssemos as pequenas velas e com elas traçaram uma cruz, num sinal evidente da Tua presença. Pediram-nos que ouvíssemos histórias de vidas. Vidas tocadas pela solidão, pela fome, pelo sofrimento.
Eu Te peço Senhor, que nos ajudes a transformar aquelas cordas em olhares atentos, aquelas velas em sorrisos, sem medo de estendermos as nossas mãos e abraçar quem sofre. 
Eu Te peço Senhor, por todos aqueles jovens que numa noite fria e escura conseguiram fazer-nos sentir o calor da Tua presença, a luz luminosa da Tua vida".

Esta foi a oração que alguém, de coração aberto, porque se deixou inquietar e interpelar, dirigiu ao Céu após a Noite de Oração Comunitária vivida ontem na Paróquia de Carcavelos. Uma oração, um sentir, um partilhar, que traduz tão bem a experiência que a cada um dos presentes - e foram muitos, foram tantos - foi facultada através da fé, da generosidade, da disponibilidade, do entusiasmo e do sonho dos jovens da Paróquia...
Desafiaram-me a confiar neles para serem os próprios a preparar e organizar a Noite de Oração deste mês; ousei essa confiança. E o resultado não poderia ser melhor. Aquele "nervoso" inicial ia-se transfigurando em serenidade, em paz interior, em sorriso cúmplice, em serviço oferecido e apreciado. Rezaram os jovens que prepararam a Noite de Oração e ajudaram-nos a rezar. "Provocaram-se" a eles mesmos e conseguiram "provocar-nos" ao "abanar" consciências, ao colocar questões, ao ofertarem-nos interpelações, ao propor-nos a transformação das nossas indiferenças em mãos dadas e unidas na construção de um mundo novo e melhor, de uma Igreja e uma Comunidade que se percebe e entende apenas em comunhão, disponibilidade e serviço.
Não esquecerei, decerto, o apelo a que nos ajoelhássemos e nos "consagrássemos", nos dedicássemos, aos pobres da Paróquia. A que jamais desviemos o olhar de tantos e tantos que permanecem encerrados nas múltiplas pobrezas materiais e espirituais...
Aqui e agora, também eu quero rezar como acima: "Eu Te peço Senhor, por todos aqueles jovens que numa noite fria e escura conseguiram fazer-nos sentir o calor da Tua presença, a luz luminosa da Tua vida".
A igreja estava cheia. Oxalá que cheios, plenos, tivessem ficado os corações de todos. Cheios de vontade de caminhar rumo a essa civilização do amor que, afinal, almejamos todos e cada um de nós; oxalá que nenhum de nós permaneça nas malhas da indiferença e, como os Mago
s, tenhamos regressado a nossas casas "por outro caminho"...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

"Um tesouro"

"Um amigo é um bem,
Um tesouro que se tem,
Sois vós luz das estrelas,
Que nos guiam mais além.
São momentos bons e maus,
Nesta estrada percorrida,
Digo mais, não vos trocava
Por nada desta vida.

Um amigo é um irmão,
Nosso pensar nossa mão.
Meus amigos estais aqui,
Pra vós canto esta canção.
O tempo voa neste instante,
E digo mais, não vos trocava
Por nada desta vida".

Hoje, particularmente, relembro e «canto» com gozo e com alma, com entrega e com o coração esta mesma música. Nem todos entenderão; não importa. Interessa apenas – e sempre isso me interessou – que este espaço seja «voz» do meu sentir, do meu viver, do meu estar e do meu ser…
Entenderá quem ousar a linguagem do coração…
Falo do dom precioso da amizade. Falo da graça imensa de termos no caminho da vida «almas gémeas» que nos ajudam nesta longa estrada que é a nossa vida. Falo da cumplicidade possível de gerar quando a verdade é o alicerce de cada encontro ou de cada palavra. Falo da fraternidade possível, sentida e vivida quando nos basta, por vezes, um olhar, para nos percebermos mutuamente. Falo da comunhão que se experimenta e nos enche bem por dentro quando deixamos a alma escancarar-se e encontrar acolhimento naquela outra que nos escuta e acolhe, simplesmente com o que temos e o que somos…
Hoje «olho» para trás e agradeço esse tesouro da amizade. Que, verdadeiramente, não trocava por nada desta vida. Porque este sentimento, quando experienciado de verdade, é riqueza e é bálsamo, é preciosidade e é bem incapaz de ser suplantado por um outro qualquer por mais nobre que seja.
“São momentos bons e maus nesta estrada percorrida”… são momentos de verdade, de sonho, de beleza, de grandiosidade, de paz, de «combate», de entrega, de doação, de vida, nesta estrada percorrida. São momentos que o tempo jamais apagará, que realidade alguma extinguirá, pois que os traços e as marcas «assinadas» pelo coração são, simplesmente, incorruptíveis. E, por isso, únicas e insubstituíveis. E, por isso, impossíveis de trocar por nada desta vida…
“Um amigo é um irmão”. Onde o coração vale mais que o sangue e onde o sangue se oferece, se for preciso, por causa do que se vive e se sente no coração. Um irmão, um «mano», mais novo ou mais velho, mas numa comunhão e numa «simbiose» tal que se percebe, compreende e aceita, acredita e vive aquela palavra do Evangelho: “Não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15, 13).
Hoje, meu amigo, meu irmão, parte do meu coração, porção da minha vida, posso apenas dizer: obrigado. Por seres assim... Simples e totalmente assim: meu amigo…
Obrigado, porque a minha vida tem outros contornos, tem outro «sabor»; porque o meu coração pulsa de outra forma e com outro «ritmo»… porque “ao encontrar-te, eu encontrei Jesus”
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