domingo, 26 de fevereiro de 2012

"Nos passos de Jesus"

Continuamos a fazer nossos os passos de Jesus. Ou melhor, tentamos. Porque essa é uma tarefa e uma aventura deveras exigente, radical, ousada... mas, como cantava o poeta, "pelo sonho é que vamos..."!
E é, precisamente, acalentando esse sonho que vivemos, com imensa intensidade, esse mesmo sonho de conseguir que os nossos passos se identifiquem e cruzem, sempre mais, com os passos d'Esse Homem único e fascinante que é Jesus de Nazaré.
Iniciámos o caminho com um "olhar" sobre o mistério da Anunciação. Em Nazaré o "sim" de Maria iluminou o caminhos que nos predispusemos a fazer; um "sim" que transformaria a História da humanidade e que precisamos, urgentemente, de reaprender para que esta avance nessa "órbita" da transformação ao jeito do Evangelho...
Hoje após a travessia de barco do mar da Galileia, subimos ao Monte das Bem Aventuranças. Lugar "mágico" que a nenhum de nós deixou indiferente. Pela beleza do espaço mas, sobretudo, pela beleza da palavra e da mensagem endereçada a cada um dos nossos corações. Na verdade, escutar naquele monte o "Sermão" da vida verdadeira é realidade que "mexe" e remexe" com as nossas verdades e certezas, com as nossas apatias e comodismos, com as nossas inércias e rotinas!
Ali, naquele monte, escutar aquele "hino" de paz e de gozo iniciado sempre com a expressão "Bem Aventurados" é impossível permanecer imóvel e apático; ali, naquele monte os nossos corações brilharam com um renovado fulgor. E como que nos decidimos a fazer em nós essa proposta de humanidade e civilização novas...
Tocar o Mar da Galileia, viajar no tempo e "espreitar" o chamamento dos primeiros Apóstolos, "olhar" aquelas redes e aqueles barcos deixados na praia, é apelo a uma entrega verdadeira e profunda, fecunda e libertadora.
Passámos o Jordão. E conseguimos ouvir a voz do Céu que a nós nos segredava: "Eis o meu filho muito amado em quem pus todo o Meu enlevo"! E conseguimos, por momentos que seja, de que somos morada do Espírito, de que somos portadores do enlevo e da graça do próprio Deus, chamados a viver ao jeito de Jesus Cristo...
E avançámos. Dirigimo-nos ao deserto da Judeia, onde me encontro neste momento...
O deserto, local privilegiado para escutar a Deus. Para nos olharmos bem por dentro e conseguirmos verdadeira intimidade com o Senhor da Vida em abundância. O lugar escolhido para, após nos levantarmos às 04h 30, irmos rezar no silêncio e contemplarmos o nascer do sol, novo dia, dádiva de Deus para aprendermos a ser santos e ganharmos a coragem para escutar o apelo do Mestre: "Subamos a Jerusalém"!
Uma subida que, como no tempo histórico de Jesus, implicará uma decisão a abraçar o mistério da Cruz, a aprender a beleza da doação, a decidirmo-nos pelo Mandamento Novo...
Fazer nossos os passos de Jesus!
Missão ambiciosa mas real em cada um dos nossos corações. Que será, progressivamente, alcançada, com a nossa oração e com a vossa oração de "peregrinos" do coração e da comunhão...
Estarão deitados, a descansar, e eu estarei (em Portugal serão 02h 30) no deserto da Judeia num silêncio exterior que se traduzirá, também, em oração e prece, agradecimento e louvor, por quantos estão unidos a nós através da "geografia do coração".

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"Subir a Jerusalém"

Estou já a caminho da Terra Santa. Juntamente com mais 36 peregrinos, decidimos, no início da quaresma deste ano, fazer nossos os passos de Jesus.
Na Palavra de Deus encontrámos o "lema" para a caminhada: "Chamei-te pelo teu nome" (Is 43, 1).
É, portanto, claro o desafio, ou seja, escutar esta voz de Alto que nos chama pelo nosso próprio nome, com a nossa história de vida concreta, com os nossos defeitos e virtudes, com as nossas dores e os nossos sonhos...
Chamados a abraçar, sempre de novo, o projecto do Evangelho trilhando os caminhos e lugares que um dia na História, fora percorridos pelo Senhor da Galileia...
Chamados com o que temos e somos para incarnar nas nossas próprias vidas a beleza de um projecto salvífico, de uma experiência que liberta bem por dentro, que eterniza, se deixarmos e quisermos, o "agora" do nosso ser e estar.
Chamados pelo nosso nome a "subir a Jerusalém" com tudo quanto esse caminho implica. Subir a Jerusalém, com Jesus e a Sua Igreja, para aprendermos e reaprendermos, que apenas na vida doada e partilhada encontramos a vida verdadeira e em abundância. Subir a Jerusalém, porque chamados pelo nosso nome, a fim de "morrermos" para o homem velho que teima comandar a nossa existência e nos transfigurarmos e revestirmos com as vestes da paz e da vida, da misericórdia e da verdade. Subir a Jerusalém, para olhar de novo o gesto do lava-pés, para centrarmos o coração no Jardim das Oliveiras, nos espantarmos na beleza e na radicalidade do Cenáculo, nos maravilharmos com a "derrota" tornada vitória do Calvário e da Cruz de Jesus de Nazaré.
Partimos de Carcavelos com esse sonho e esse desejo de fazermos a experiência de peregrinar bem a sério. Com a vontade de absorver cada momento como se este fosse único e definitivo. Lendo e meditando as Escrituras, entender no coração, mais que na inteligência, a força de um ideal que transfigura a História e a Vida para sempre.
Partimos da nossa Comunidade para intentar encher a alma de beleza e de sonho, de pureza e de simplicidade, aquelas que guiaram o Senhor Jesus e que conseguiram arrebatar incontáveis corações...
Queremos abrir, escancarar, os nossos... para sermos mais de Deus, mais da Igreja e, no meio do mundo, sermos reconhecidos por aqueles que amam sempre mais e mais.
Sabendo-nos privilegiados porque chamados pelo nosso nome a caminhar na Terra Santa, estamos dispostos a deixarmo-nos encher do Espírito de Deus. Dispostos a escutar a exigência do desafio, a radicalidade da proposta, a ousadia da aventura divina em que nos deixámos envolver...
Aprender a ser "pescador de homens" ali, naquele lago de Tiberíades, onde outrora se iniciou uma história sem fim e onde, agora, podemos ser verdadeiros protagonistas dessa mesma aventura de Deus.
Unidos na oração, podemos ser todos, aqueles que pisam a Terra Santa.
Trago-vos comigo. E por cada um rezarei naqueles lugares sagrados.
Sei que rezarão por mim, por nós... E assim seremos um "Corpo", uma Comunidade, que na "geografia do coração" permanece unida no essencial... Deus.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

"Tempo Novo"

Iniciamos amanhã o Tempo da Quaresma.
Poderemos pensar que é apenas mais uma; que nada traz de novidade ou, pior ainda, nada acontecerá de diferente!
Quaresma é sinónimo de vida, de encontro, de intimidade, de relação, de verdade, de "morte" que gera eternidade no já e no agora do nosso caminhar.
Assim, esta Quaresma pode ser - tem de ser - necessariamente, algo de único e de derradeiro, algo de essencial e insubstituível. Esta Quaresma é uma oportunidade para que cada um de nós reaprenda a grandeza do coração que comporta em si mesmo, na medida em que este é desafiado a uma abertura, ao escancarar deste "santuário" que nos habita e que, demasiadas vezes, ignoramos e menosprezamos!
A Quaresma de 2012 é este "tempo favorável" para acreditarmos que podemos ser morada e templo do próprio Deus; é esta possibilidade de reiniciarmos um caminho, do qual nos desviamos com facilidade, onde nos encontramos e deixamos encontrar por Deus na vida daqueles de quem nos fazemos próximos.
Palavras como "conversão", "penitência", "jejum", "abstinência", etc., e que habitualmente associamos ao Tempo da Quaresma, fazem sentido e tornam-se importante apenas na medida em que ousarmos a aventura do coração, ou seja, na medida em que nos decidirmos à "lógica" do amor.
Amor sincero, amor autêntico, amor serviço, amor abraço, amor misericórdia, amor compaixão, amor generosidade, amor partilha, amor ao jeito de Cruz.
A Quaresma verdadeira e com sabor a Evangelho não será nunca um coleccionar actos piedosos, místicos, ritualistas, para "aplacar" a dor de Jesus Cristo; ao contrário, é vida de fé e de quotidiano transformada em amor e doação ao "estilo" d'Aquele que Se oferece, por amor, no cimo duma Cruz e ressuscita para nos mostrar que só esse é o caminho da vida em abundância.
Haveremos de jejuar e de fazer abstinência, sim, de tudo quanto magoa o nosso próximo. Abster-se de egoísmos e murmurações, de mentiras e egoísmos, de duplicidade de vida e de hipocrisias espiritualistas que nada contêm de cristão, de religioso, de evangélico.
Sim, podemos fazer "via-sacra" nas nossas igrejas desde que não desviemos o olhar das vias-sacras de tantos homens e mulheres que hoje choram e desesperam no "Getsemani" do nosso tempo e que os nossos comportamentos e as nossas vidas não sejam um "crucificar" o nosso irmão pela nossa indiferença, apatia ou comodismo!
Quaresma é, portanto, esse caminho de festa e de luz que havemos de abraçar porque nos decidimos à construção de um coração renovado e, por isso mesmo, de uma nova civilização e de uma renovada Igreja.
Quaresma é, então, esse período de graça onde podemos assemelhar-nos, mais e mais, ao Mandamento Novo, pois que assumimos como vocação própria de cada um o encarnar da figura do bom samaritano do nosso tempo, da nossa comunidade...
As cinzas que amanhã impusermos sobre as nossas cabeças representem e signifiquem esse desejo interior de aniquilar a "pedra" fria em que muitas vezes deixamos transformar o coração. E, corajosos e confiantes no poder de Deus, avancemos rumo à Páscoa de Jesus, sempre uma ressurreição das "mortes" que afligem o homem nosso irmão.
Sem pieguismos sentimentalistas, façamos desta Quaresma de 2012 um tempo de coração, um tempo de amor, um tempo de vida verdadeira.
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