sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

"Sentir..."


Demorei-me a recordar e a agradecer.
Viajar no tempo, mais recente ou mais antigo, pode ser um excelente exercício de aprendizagem do valor inigualável da gratidão. Pode ser uma razão mais que forte e fundamentada para nos deixarmos maravilhar sempre mais pelo dom da cumplicidade e dos sonhos que fortalecem os laços do coração...
Demorei-me a tentar visualizar espaços, palavras, silêncios, mensagens, sorrisos, lágrimas, sonhos, desejos, medos, esperanças, expectativas, abraços, encontros, desencontros, olhares...
Demorei-me, por isso, a louvar e a agradecer tamanho dom que é "tocar", "pulsar", "sentir", "viver", o amor que pode existir e coexistir naqueles que se cruzam connosco e escrevem, connosco, a história da nossa própria vida.
E o coração fica cheio. E a alma enobrece-se. E a vontade de sonhar e de nos tornarmos sempre mais cúmplices dessa "aventura" do amor cresce desmesuradamente. Porque nos apercebemos, com facilidade, da beleza e da pureza capazes de moldar, progressivamente, o coração de cada outro.
Sabe bem sentirmo-nos responsáveis pela felicidade dos outros. Tornamo-nos história e vida da vida e da história desse outro. E ele da nossa. Sem deixarmos de ser nós mesmos. Mas enriquecidos, sobremaneira, da riqueza desse outro. E a riqueza maior é partilhar do sentir do coração...
O brilho nos olhos de quem ama de verdade, torna-se luz no nosso próprio caminhar.
Os sonhos de quem se deixa guiar pela força do coração, transformam-se em rotas do nosso próprio peregrinar.
Os sorrisos espontâneos e puros de quem se sente e se sabe apaixonado, alimentam a nossa vontade de nos entregarmos à cumplicidade dos corações.
Na verdade, como um "simples" olhar pode significar tanto?!
Como umas mãos dadas nos revelam a união dos sonhos e dos corações!
Como uns sorrisos sinceros nos apontam tão claramente que o nosso destino é o amor!
Como um abraço verdadeiro nos garante a força e a eternidade de um sentimento!
Como um silêncio pode dizer muito, tanto, tudo!
Como uma palavra, uma só palavra, pode conter um dicionário inteiro!
Demorei-me a recordar momentos que fazem a vossa história e, por isso, a minha história.
Demorei-me a viajar na memória porque sabia que o coração palpitaria com outro pulsar.
E quero, dia após dia, ser discreto companheiro de viagem, mão que se pode e quer oferecer, coração que saiba acolher e sonhar, alma e vida que se completam porque entrecruzadas com as vossas...
Porque o vosso sorriso me faz sorrir.
Porque o vosso amor me faz acreditar que caminho na direcção certa e o destino que busco é o Coração de Deus, ou seja, o Amor definitivo que se vai traduzindo e revelando na fragilidade e beleza do amor humano.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

"Caminho de Vida"

A liturgia da palavra de hoje pedia-nos categoricamente. "Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor"!
Escutei estas palavras como um "pedido do Céu" à minha pobre humanidade, à minha fraca fé, à minha imensa pobreza. E não estou a escrever com falsas modéstias; antes com a consciência clara do que sou, de como sou, diante do apelo que a Palavra me dirige!
Na verdade, é demasiadas vezes difícil incarnar na nossa vida essa mesma palavra; custa e, não raras vezes dói profundamente, esse desejo de fidelidade, de intimidade, de comunhão, com Nosso Senhor.
Não nos envergonharmos, é não desistirmos, é não relativizarmos, é não menosprezarmos, a verdade e a justiça, a caridade e a ternura, a transparência e a docilidade. Não nos envergonharmos de Nosso Senhor é aceitar que o caminho da Cruz, a estrada do amor sem limites, os trilhos do coração oferecido e partilhado, é o derradeiro caminho de fecundidade espiritual e de liberdade religiosa e cristã.
Por isso, ao mesmo tempo que o Apóstolos dos gentios pedia que não nos envergonhássemos de Nosso Senhor, apelava: "Sofre comigo pelo Evangelho"!
Não é um chamamento ao masoquismo; ao contrário, é esse desafio a que completemos na nossa vida quanto falta à Paixão de Jesus e, consequentemente, nos tornarmos "co-redentores" do homem nosso irmão.
Sofrer pelo Evangelho, sofrer por Jesus Cristo, sofrer pela santificação da Igreja, sofrer pela refulgência da Igreja, é tarefa de quantos se dizem e afirmam discípulos do Reino de Deus. Sofrer no sentido de amar até doer, de amar até à exaustão, até ao extremo. Sofrer porque acreditamos que o bem maior é a glória de Deus e esta acontece na vida verdadeira e em abundância do Homem. Esta acontece quando não nos envergonhamos, não nos demitimos, não nos conformamos, se não com o amor ao jeito de Jesus, Nosso Senhor.
Testemunhar Nosso Senhor torna-se impossível para quem desiste de amar. De incarnar o amor na sua vida, de abraçar a experiência de deserto, de "tocar" o Madeiro da Vida! Torna-se impossível para quem fala, escreve, prega, declama, a palavra "amor" mas depois dela se divorcia categoricamente!
"Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor"  foi desafio que escutei como caminho a seguir no "já" e no "agora" do meu peregrinar! Que apenas conseguirei na medida em que souber "olhar" bem para dentro de mim mesmo, de reescutar as minhas próprias palavras, de ler as minhas "letras" e de me decidir a recomeçar uma aventura de amor e de fidelidade diária...
Ser intrépido arauto do Evangelho, implica essa predisposição para o sofrimento por amor do Reino e de Nosso Senhor. Repito, um sofrimento redentor, amoroso, generoso, entregue, oferecido, oblativo. Que tenha em nós os traços, as marcas, da Paixão de Cristo. Aquele que é o Amor, anunciado, dito, vivido, incarnado, morto e ressuscitado.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"Saudade..."
Esse mar que não tenho
o poder de abrir
ainda é o mesmo…
o tom de verde profundo.
Ainda é o mesmo…
O cheiro de maresia,
Que se mistura ao perfume da pele.
Ainda é o mesmo…
O abraço morno e
envolvente das águas.
Ainda é mesmo…
O horizonte tingido de dourado
pela doçura do sol no poente
ainda é o mesmo…
o som das ondas quebando na praia,
que parecem sussurrar teu nome
ainda é o mesmo…
O sopro da brisa que desarruma
cabelos e sentimentos
ainda é o mesmo…
até a saudade, que grita aqui de dentro
ainda é a mesma…
nada mudou”.

Saudade, essa palavra única e indecifrável, exclusiva e determinante, cheia e envolvente...
Saudade, esse sentimento que, mesmo quando não o queremos, nos invade a alma e nos preenche a existência...
Saudade, esse pulsar de vida e de sangue, essa respiração tantas vezes ofegante, esse sobreviver de cada instante...
Saudade é querer bem, é sentir o melhor, é desejar o maior, é lembrar a vida...
Saudade, do teu nome, da tua história, da tua vida, da tua magia...
Saudade, mesmo quando aqui estás, de tantas e variadas formas, mas saudade...
Saudade, de ti, de tantos nomes, de incontáveis corações, de múltiplas cumplicidades, de indizíveis sonhos e palavras feitas não poucas, história, vida, realidade...
"Ainda é o mesmo"...
Acredita que nada mudou; porque na vida e na alma do coração apenas Deus tem poder, apenas Ele comanda esse pulsar e esse sentir.
E gosto de ter saudades. Mesmo que humanamente se saboreie o "fel amargo", divinamente experiencia-se o "mel" do coração que poucos conseguem entender.
Saudade é força de vida, é sopro de caminho, é esperança de recomeçar, é certeza de viver...
Saudade é espanto que delicia, é sentimento que enobrece, é razão descodificada na linguagem do coração...
Saudade.. é o que sinto. É o que tenho. É vida verdadeira. É "sopro da vida que desarruma cabelos e sentimentos" mas que perpetua o que de melhor nós somos...
Saudade, que poderoso sentir, que fulgurante pulsar, que tremendo viver... que nos faz ir sempre mais além..
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