quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

"Caminho de Vida"

A liturgia da palavra de hoje pedia-nos categoricamente. "Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor"!
Escutei estas palavras como um "pedido do Céu" à minha pobre humanidade, à minha fraca fé, à minha imensa pobreza. E não estou a escrever com falsas modéstias; antes com a consciência clara do que sou, de como sou, diante do apelo que a Palavra me dirige!
Na verdade, é demasiadas vezes difícil incarnar na nossa vida essa mesma palavra; custa e, não raras vezes dói profundamente, esse desejo de fidelidade, de intimidade, de comunhão, com Nosso Senhor.
Não nos envergonharmos, é não desistirmos, é não relativizarmos, é não menosprezarmos, a verdade e a justiça, a caridade e a ternura, a transparência e a docilidade. Não nos envergonharmos de Nosso Senhor é aceitar que o caminho da Cruz, a estrada do amor sem limites, os trilhos do coração oferecido e partilhado, é o derradeiro caminho de fecundidade espiritual e de liberdade religiosa e cristã.
Por isso, ao mesmo tempo que o Apóstolos dos gentios pedia que não nos envergonhássemos de Nosso Senhor, apelava: "Sofre comigo pelo Evangelho"!
Não é um chamamento ao masoquismo; ao contrário, é esse desafio a que completemos na nossa vida quanto falta à Paixão de Jesus e, consequentemente, nos tornarmos "co-redentores" do homem nosso irmão.
Sofrer pelo Evangelho, sofrer por Jesus Cristo, sofrer pela santificação da Igreja, sofrer pela refulgência da Igreja, é tarefa de quantos se dizem e afirmam discípulos do Reino de Deus. Sofrer no sentido de amar até doer, de amar até à exaustão, até ao extremo. Sofrer porque acreditamos que o bem maior é a glória de Deus e esta acontece na vida verdadeira e em abundância do Homem. Esta acontece quando não nos envergonhamos, não nos demitimos, não nos conformamos, se não com o amor ao jeito de Jesus, Nosso Senhor.
Testemunhar Nosso Senhor torna-se impossível para quem desiste de amar. De incarnar o amor na sua vida, de abraçar a experiência de deserto, de "tocar" o Madeiro da Vida! Torna-se impossível para quem fala, escreve, prega, declama, a palavra "amor" mas depois dela se divorcia categoricamente!
"Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor"  foi desafio que escutei como caminho a seguir no "já" e no "agora" do meu peregrinar! Que apenas conseguirei na medida em que souber "olhar" bem para dentro de mim mesmo, de reescutar as minhas próprias palavras, de ler as minhas "letras" e de me decidir a recomeçar uma aventura de amor e de fidelidade diária...
Ser intrépido arauto do Evangelho, implica essa predisposição para o sofrimento por amor do Reino e de Nosso Senhor. Repito, um sofrimento redentor, amoroso, generoso, entregue, oferecido, oblativo. Que tenha em nós os traços, as marcas, da Paixão de Cristo. Aquele que é o Amor, anunciado, dito, vivido, incarnado, morto e ressuscitado.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"Saudade..."
Esse mar que não tenho
o poder de abrir
ainda é o mesmo…
o tom de verde profundo.
Ainda é o mesmo…
O cheiro de maresia,
Que se mistura ao perfume da pele.
Ainda é o mesmo…
O abraço morno e
envolvente das águas.
Ainda é mesmo…
O horizonte tingido de dourado
pela doçura do sol no poente
ainda é o mesmo…
o som das ondas quebando na praia,
que parecem sussurrar teu nome
ainda é o mesmo…
O sopro da brisa que desarruma
cabelos e sentimentos
ainda é o mesmo…
até a saudade, que grita aqui de dentro
ainda é a mesma…
nada mudou”.

Saudade, essa palavra única e indecifrável, exclusiva e determinante, cheia e envolvente...
Saudade, esse sentimento que, mesmo quando não o queremos, nos invade a alma e nos preenche a existência...
Saudade, esse pulsar de vida e de sangue, essa respiração tantas vezes ofegante, esse sobreviver de cada instante...
Saudade é querer bem, é sentir o melhor, é desejar o maior, é lembrar a vida...
Saudade, do teu nome, da tua história, da tua vida, da tua magia...
Saudade, mesmo quando aqui estás, de tantas e variadas formas, mas saudade...
Saudade, de ti, de tantos nomes, de incontáveis corações, de múltiplas cumplicidades, de indizíveis sonhos e palavras feitas não poucas, história, vida, realidade...
"Ainda é o mesmo"...
Acredita que nada mudou; porque na vida e na alma do coração apenas Deus tem poder, apenas Ele comanda esse pulsar e esse sentir.
E gosto de ter saudades. Mesmo que humanamente se saboreie o "fel amargo", divinamente experiencia-se o "mel" do coração que poucos conseguem entender.
Saudade é força de vida, é sopro de caminho, é esperança de recomeçar, é certeza de viver...
Saudade é espanto que delicia, é sentimento que enobrece, é razão descodificada na linguagem do coração...
Saudade.. é o que sinto. É o que tenho. É vida verdadeira. É "sopro da vida que desarruma cabelos e sentimentos" mas que perpetua o que de melhor nós somos...
Saudade, que poderoso sentir, que fulgurante pulsar, que tremendo viver... que nos faz ir sempre mais além..

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

"O que importa é partir..."

"Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revôlta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar".

Descobri este este poema que me parece de uma bela intensidade e de uma clara pertinência. Palavras que assentam em corações inquietos - a fecunda inquietação de quem sabe e quem sente que o mundo e o homem podem ser sempre melhores -, em mentes ousadas e abertas capazes do abraço ao desconhecido e da entrega à novidade que chega e desmonta e desconcertas certezas adquiridas que nunca o são verdadeiramente.
Palavras que soam a "grito" de gesto, a "grito" de vida, a "grito" de "viagem" sem se saber os trilhos a seguir mas apenas o destino traçado desde toda a eternidade: o colo de Deus.
Que suave missão esta a de "reforçar a fé de marinheiro" que nos ensina e sublinha que, de facto, "Em qualquer aventura, o que importa é partir, não é chegar"!
Dia após dia, com essa determinação dos "fortes", dos "crentes", cortando as ondas - sempre tantas - sem  desanimar, busca-se aquela "outra margem" de que nos fala com frequência o Evangelho, sabendo e crendo, sentindo e querendo, essa certeza maior que "o que importa é partir, não é chegar".
Partir, a cada instante, sem medos das ondas ou das vagas mais ou menos vorazes, sem receios de cortar as amarras que nos prendem a cais petrificados, avançando e guiando a "embarcação" da vida e da fé, eis a razão que precisamos para, todos os dias, recomeçar de novo a viagem do que temos e do que somos.
Partir, a cada momento, com a coragem de quem navega em mares desconhecidos mas com a consciência e a sublime convicção de que o timoneiro nunca somos nós mesmos mas Aquele Outro, invisível mas misteriosamente presente e capaz de serenar os lagos e mares por onde a "barca" da vida nos levar...
"Em qualquer aventura, o que importa é partir, não é chegar".
Feliz verdade esquecida demasiadas vezes por estes nossos corações ávidos de protagonismos e de desmesuradas honrarias; feliz verdade escondida nas nossas consciências tantas vezes ocupadas e preocupadas em sobrancerias e superioridades enganosas e redutoras da nossa humanidade mais profunda!
Partir, sempre de novo, com o olhar da alma e do coração fixos n'Aquele horizonte, mais próximo ou mais distante, mas decididos a navegar, dizendo adeus a cada cais, à paz tolhida, podre, comodista, a fim de nos transformarmos, sempre mais, em marinheiros do amor e da verdade, em gente que busca, que procura, sempre mais, o único porto seguro que sossega a embarcação da nossa vida: o Amor que Deus é.
Web Analytics