"Uma semana..."
Uma semana, sensivelmente, nos separa daquela Noite que se tornaria mais brilhante que o sol; nove dias são a distância que importa percorrer de coração ousado, de alma decidida, de vida confiada, a fim de nos deixarmos envolver pelo mistério que percorre a História há tantos e tantos séculos...
Natal é sempre a possibilidade de um encontro; é a oportunidade de repensar a vida que vivemos, as opções que nos movem, os sonhos que nos comandam, os valores em que acreditamos, os horizontes em que nos envolvemos. Natal é essa novidade permanente e dinâmica que emerge em cada tempo, para cada homem, a fim de nos predispormos, ou não, a ser protagonistas desse dom e mistério que será sempre a Encarnação de Deus.
Na verdade, podemos ser «parte» do Presépio; podemos ser intervenientes activos desse acontecimento inolvidável que marca o ritmo do tempo e da História. Podemos, se quisermos, ultrapassar essa postura passiva, acomodada, deprimente até, de olharmos o Natal como uma realidade exterior a nós, sem a decisão do compromisso de o fazer nosso, de o tornar parte de nós, de o assumirmos como realidade pessoal, com os traços e as marcas da nossa própria existência!
Sim, posso ser Presépio. Posso ser parte desse todo imenso e infinito que é o Presépio. Posso ser «figura» derradeira e insubstituível dessa graça divina que é o Natal de Jesus.
Diante da semana que havemos de viver até à celebração do Natal, temos de optar, de decidir, de escolher, se queremos, ou não, ser Natal, ser Presépio, ser Paz, ser Glória, ser Bênção, para demasiados corações distraídos e enganados sobre o que significa verdadeiramente Natal!
Jamais conseguirei encarnar em mim a simplicidade e a fé, a disponibilidade e a confiança de Maria ou de José!
Nunca imitarei a ousadia e a coragem, a predisposição e a firmeza dos Magos do Oriente que, deixando as suas «terras», as suas certezas e verdades, avançam destemidos por caminhos desconhecidos guiados por uma estrela!
Ser-me-á sempre impossível a humildade e a entrega, o abandono e a despojamento dos Pastores que acolhem o desafio que o Céu lhe envia!
Então, diante deste «cenário», que figura, que protagonismo, que relevância, posso experienciar como vivente do mistério do Presépio?
Posso ser «peça» única e derradeira. Posso ser uma palha seca onde O menino repousa. Posso ser esse pano, mesmo velho, ainda que roto, talvez sujo, onde o Emanuel é envolto, acolhido e aquecido, no colo de Sua Mãe.
Sim, posso ser essa «palhinha» discreta e quase invisível, esse pano envelhecido e gasto, mas que foram precisos para que o Natao fosse a mais feliz das realidades, a mais bela Boa Nova alguma vez anunciada à Humanidade.
Diante de nós, uma semana para nos despojarmos dos imensos «lixos» que impedem o meu coração de ser gruta do Nascimento; uma semana para me desfazer de orgulhos e vaidades, de mentiras e hipocrisias, de intolerâncias e mesquinhez, de avarezas e presunções, de cinismos e de auto-suficiências, de invejas e ciúmes doentios...
Uma semana para, diante de um recolhimento urgente, de uma intimidade libertadora, de uma oração verdadeira, de um silêncio purificador, de um seguimento abnegado, de uma postura transparente, de palavras proferidas com a marcas da ternura, me transfigurar em «palha» e «pano» onde o Menino pode repousar, onde Deus encontra lugar, onde a Vida consegue irromper com o esplendor da verdade que foge ao coração do homem, ao seio da Igreja...
Uma semana... tempo suficiente para ser protagonista do Natal mais belo do mundo e da Igreja que sou, que somos...


