domingo, 27 de novembro de 2011

"A Caminho"
"Vinde, vinde, ó desejado
nascer em meu coração;
tomais dele inteira posse,
tende-o na Vossa mão".

É o tempo solene e sagrado do Advento.
É este tempo favorável, em que (re)começa uma história de amor inaudita e irrepetível entre Ele e mim próprio. É esta renovada oportunidade de me fazer tenda, fazer morada, fazer casa, onde Ele nasce, Ele vem, Ele permanece...
É o tempo do desejo profundo e sincero de Deus; tempo da vontade forte e derradeira para que o Salvador escolha cada um dos nossos corações para neles habitar, os ter nas Suas mãos...
Abre-se a terra, de novo, e germina o Redentor; as nuvens chovem do alto e ressurgirá, glorioso na simplicidade, rico na pobreza, magnificente no despojamento, omnipotente na omni-impotência, poderoso na fraqueza, Aquele que mudou, muda e mudará definitivamente a História. A minha. A tua. Se quisermos e deixarmos...
Atentos, vigilantes, ousados e audazes, decididos a rumar até ao Presépio, eis o nosso destino.
Sem medos das luzes fortes dos holofotes do mundo, sem receios das «estrelas» enganosas que intentam seduzir o coração, sem vergonha de escolhermos a simplicidade e a verdade como companheiros de «viagem», partamos, desde este primeiro dia de Advento, com a vontade daquele Encontro...
Sim, é de um Encontro que se trata. Nada mais do que um Encontro. Mas nada menos do que esse Encontro... com Deus. Com a Vida. Com a Paz. Com a Eternidade. Envolta em panos e prostrada numa manjedoura! Paradoxo indescritível! Bênção indizível. Abraço definitivo...
A caminho...
A caminho, homens de boa vontade, porque um Deus feito Criança está à nossa espera...
A caminho, porque o mundo precisa que lhe digamos que um Menino nasce para nós, um Filho nos é dado...
A caminho... até Deus.

domingo, 20 de novembro de 2011

"Seremos julgados pelo amor"

"Seremos julgados pelo amor"!
Uma expressão que nos deveria dar que pensar, ou mais ainda, dar que viver uma vida outra, bem transfigurada daquela que temos levado até aqui...
Urge sempre conversão, tanto mais quando escutamos que Jesus Cristo Se faz irmão, Se faz presente na vida de cada outro, muito em particular daquele que está mais fraco, mais débil, mais abandonado... Urge sempre renovação interior e exterior quando acreditamos que só o amor pode salvar o mundo, só o amor consegue vencer barreiras, egoísmos, elitismos, fomes, sedes, lágrimas, solidões!
Porque somos Igreja, porque trazemos em vasos de barro o dom da fé, a presença de Cristo, a possibilidade de sermos sal e luz, fermento e vida nova, não podemos ostracizar o tesouro do amor que nos habita e fingirmos que nada se passa à nossa volta, que ninguém precisa de nós, do que somos e do que temos! Isso é ignorar a fé, é menosprezar a graça de sermos templos do Espírito Santo, é banalizar a eleição divina que Deus já fez de cada um de nós!
"Tive fome... tive sede... estava nu... estive doente... estive na prisão..."!
Tem fome, tem sede, permanece nu, doente, preso... bem ao nosso lado! Situações «gritantes» que não podemos esquecer, diante das quais não podemos desviar o olhar, se queremos um dia escutar as palavras do Rei do Universo: "Vinde benditos de Meu Pai, recebei em herança o Reino, preparado para vós desde o princípio do mundo...".
O mundo, os homens que se cruzam connosco, aqueles que mais sofrem, têm de encontrar na Igreja uma casa, um porto, um abrigo, uma família, e não, e nunca, e jamais, um grupo de gente estranha indiferente às suas lágrimas, aos seus desesperos, aos seus medos!...
Abramos os olhos, simplesmente... não conseguimos ver a fome, a sede, a nudez, a solidão, o abandono de Deus? Porque nos custará tanto reconhecê-l'O nos sem abrigo, nos toxicodependentes, nos rejeitados da sociedade, nos esquecidos da vida?! Porque nos assusta assim tanto os «odores», os trajes, os rostos, as aparências, de uns quantos que se cruzam connosco?! Porque hesitamos no aperto de mão, no abraço, na ternura, na companhia, numa simples conversa?!
"Tudo quando fizestes - e deixastes de fazer - a um destes Meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim mesmo que o fizestes"! Palavras de ordem para quem se afirma cristão...
O mundo podia ser tão diferente! Bastava e querer... Bastava eu acreditar no amor... Bastava saber que no fim, no fim do meu peregrinar, serei julgado pelo amor...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

"Amar/atacar a Igreja"

"Só o amor pode salvar o mundo", foram palavras que não esqueci; palavras do início do Pontificado de Bento XVI; palavras que nos relembram algo de essenacial e que nós, teimosamente, tentamos menosprezar quando não mesmo esquecer!
Palavras que até gosto de as envolver numa outra expressão: «só o amor pode salvar a Igreja»! Essa é, de facto, uma das minhas maiores convicções nesta «hora» da nossa história, neste momento do nosso peregrinar enquanto Igreja de Cristo.
Hoje mesmo recebi uma carta, de alguém que desconheço, em que afirmava categoricamente que era um revoltado contra a Igreja, precisamente porque aquilo que experienciava era o «desamor» no seio da própria Igreja! Queixava-se, e bem, dos erros, dos desvios, das maldades e maquinações, das superficialidades, da mundaneidade que impera na Igreja, ao invés da verdade e da transparência, da humildade e da simplicidade, do serviço e do despojamento, etc., etc.
Aliás, há uns tempos atrás o próprio Papa Bento XVI clamava eloquente e veementemente que havia mais mundo na Igreja que espiritualidade! Acaba por ser um cruzar de opiniões, um entendimento naquilo que é essencial...
A diferença reside, todavia, em algo de essencial também, isto é, para transfigurar a Igreja, para a converter, para a edificar mais e mais ao jeito de Jesus Cristo, é estando e sendo Igreja que o podemos e conseguimos fazer!
Fora dela, com um olhar meramente crítico exteriorizado, como se da Igreja eu não fizesse parte, como se a essa família eu não pertencesse, apenas conseguiremos alcançar maior revolta, dúvidas mais sublinhadas e acrescidas, desentendimentos mais acentuados, afastamento progressivo e perigoso!
É verdade que havemos de eliminar o mais possível os defeitos - e são tantos - da Igreja; mas não é menos verdade que apenas o conseguimos eliminando os nossos próprios defeitos e, no coração, no seio da Igreja, da Comunidade a que pertencemos, lutarmos por ser testemunhas do Evangelho de Cristo, num combate, duro muitas vezes, contra esses evangelhos de letra pequena, construídos para tranquilizar pagãos baptizados que se dizem muito cristãos e muito devotos!
Apenas o amor pode salvar a Igreja. E essa verdade não podemos olvidar jamais. Somente encarnando em nós o amor, isto é, Jesus Cristo, poderemos oferecer ao mundo contemporâneo um rosto credível da fé e da Igreja.
Aliás, o mundo não nos pede ou exige mais nada!
O mundo, os homens e mulheres deste tempo, pedem à Igreja que lhes mostremos como é e Quem é Jesus Cristo. E a nossa única resposta possível e credível é o amor. Amor traduzido em obras, em gestos, em palavras, em disponibilidade, em justiça, em partilha, em solidariedade, em santidade, numa palavra.
Há um trabalho imenso a fazer; há uma tarefa demasiado dura e agreste a desempenhar. Mas apenas sendo Igreja consciente, sabendo-nos membros de um Corpo, poderemos levar a bom porto essa mesma missão de salvar a Igreja das suas múltiplas mundanidades e desvios à mensagem, ao projecto, ao Reino de Deus realizado em Jesus de Nazaré.
Ficando de fora, «atirando pedras» à Igreja como se a ela não pertencessemos, conseguiremos somente radicalismos, endeusamento de posições, enclausuramento de opiniões e atitudes...
Estando dentro, teremos a possibilidade de mudar. Mudar nós mesmos os nossos defeitos e pecados. E dessa conversão pessoal poderemos chegar à conversão do outro.
É que mesmo nas críticas à Igreja, que bem as merece pois que não pode nem deve afastar-se de Cristo, só com amor se consegue a conversão desejada ou pretendida. Se é o desamor a comandar a nossa atitude frente à Igreja, pois seremos iguais, quiçá, piores, na medida em que nada na Igreja, enquanto Igreja, enquanto baptizados, fazemos segundo o mandamento novo do amor...
Web Analytics