"Amar/atacar a Igreja"
"Só o amor pode salvar o mundo", foram palavras que não esqueci; palavras do início do Pontificado de Bento XVI; palavras que nos relembram algo de essenacial e que nós, teimosamente, tentamos menosprezar quando não mesmo esquecer!
Palavras que até gosto de as envolver numa outra expressão: «só o amor pode salvar a Igreja»! Essa é, de facto, uma das minhas maiores convicções nesta «hora» da nossa história, neste momento do nosso peregrinar enquanto Igreja de Cristo.Hoje mesmo recebi uma carta, de alguém que desconheço, em que afirmava categoricamente que era um revoltado contra a Igreja, precisamente porque aquilo que experienciava era o «desamor» no seio da própria Igreja! Queixava-se, e bem, dos erros, dos desvios, das maldades e maquinações, das superficialidades, da mundaneidade que impera na Igreja, ao invés da verdade e da transparência, da humildade e da simplicidade, do serviço e do despojamento, etc., etc.
Aliás, há uns tempos atrás o próprio Papa Bento XVI clamava eloquente e veementemente que havia mais mundo na Igreja que espiritualidade! Acaba por ser um cruzar de opiniões, um entendimento naquilo que é essencial...
A diferença reside, todavia, em algo de essencial também, isto é, para transfigurar a Igreja, para a converter, para a edificar mais e mais ao jeito de Jesus Cristo, é estando e sendo Igreja que o podemos e conseguimos fazer!
Fora dela, com um olhar meramente crítico exteriorizado, como se da Igreja eu não fizesse parte, como se a essa família eu não pertencesse, apenas conseguiremos alcançar maior revolta, dúvidas mais sublinhadas e acrescidas, desentendimentos mais acentuados, afastamento progressivo e perigoso!
É verdade que havemos de eliminar o mais possível os defeitos - e são tantos - da Igreja; mas não é menos verdade que apenas o conseguimos eliminando os nossos próprios defeitos e, no coração, no seio da Igreja, da Comunidade a que pertencemos, lutarmos por ser testemunhas do Evangelho de Cristo, num combate, duro muitas vezes, contra esses evangelhos de letra pequena, construídos para tranquilizar pagãos baptizados que se dizem muito cristãos e muito devotos!
Apenas o amor pode salvar a Igreja. E essa verdade não podemos olvidar jamais. Somente encarnando em nós o amor, isto é, Jesus Cristo, poderemos oferecer ao mundo contemporâneo um rosto credível da fé e da Igreja.
Aliás, o mundo não nos pede ou exige mais nada!
O mundo, os homens e mulheres deste tempo, pedem à Igreja que lhes mostremos como é e Quem é Jesus Cristo. E a nossa única resposta possível e credível é o amor. Amor traduzido em obras, em gestos, em palavras, em disponibilidade, em justiça, em partilha, em solidariedade, em santidade, numa palavra.
Há um trabalho imenso a fazer; há uma tarefa demasiado dura e agreste a desempenhar. Mas apenas sendo Igreja consciente, sabendo-nos membros de um Corpo, poderemos levar a bom porto essa mesma missão de salvar a Igreja das suas múltiplas mundanidades e desvios à mensagem, ao projecto, ao Reino de Deus realizado em Jesus de Nazaré.
Ficando de fora, «atirando pedras» à Igreja como se a ela não pertencessemos, conseguiremos somente radicalismos, endeusamento de posições, enclausuramento de opiniões e atitudes...
Estando dentro, teremos a possibilidade de mudar. Mudar nós mesmos os nossos defeitos e pecados. E dessa conversão pessoal poderemos chegar à conversão do outro.
É que mesmo nas críticas à Igreja, que bem as merece pois que não pode nem deve afastar-se de Cristo, só com amor se consegue a conversão desejada ou pretendida. Se é o desamor a comandar a nossa atitude frente à Igreja, pois seremos iguais, quiçá, piores, na medida em que nada na Igreja, enquanto Igreja, enquanto baptizados, fazemos segundo o mandamento novo do amor...
