"Fogo que não arde nem queima"!
É uma certa perplexidade que sinto ao proclamar, meditar e comentar o Evangelho deste dia em que Jesus afirma categoricamente que traz conSigo um Fogo com que pretende incendiar esta nossa terra!
Outra coisa - assim o afirma - não quer Cristo senão que esse mesmo Fogo se pegue, contagie e chegue a toda a terra!
Um Fogo que é o Seu Amor e a Sua Paz, um Fogo que é a Sua Justiça e a Sua Misericórdia, um Fogo que é o Seu Reino, a Sua Pessoa. Realidades que Deus sonha «tocar» cada coração humano, cada homem e mulher peregrinos nesta humanidade a caminho não sabe donde!Um Fogo que é confiado à Igreja para que seja esta a incendiar o mundo com o seu exemplo, presença, testemunho, experiência... Um Fogo entregue à Igreja para que esta «queime» os corações humanos com a alegria do mandamento Novo; um Fogo deixado à Igreja para que ela faça - como aos discípulos de Emaús - arder o coração do homem, partindo o Pão da Vida e explicando a Palavra que liberta e salva verdadeiramente!
Porém, olhemos a Igreja, olhemos as nossas Comunidades, as suas vidas e exemplos, as suas histórias e realidades, os seus grupos e movimentos! Que vemos? De que nos apercebemos?
De um Fogo que não queima nem arde, pura e simplesmente!
Um Fogo de Amor que escondemos algures no tempo e na vida e teimamos em não reencontrar!
Um Fogo de Verdade que com demasiada facilidade trocamos por falsidades, mentiras (chamando-lhes piedosas!!!)!
Um Fogo de Caridade que deitámos fora tornando-nos muitas vezes em sacerdotes e doutores da lei, apresados em correr para os templos e incapazes de parar diante dos homens caídos à beira dos caminhos!
Um Fogo de Misericórdia que substituímos por críticas mordazes, destrutivas, caluniosas tantas vezes!
Um Fogo de Solidariedade, de Serviço, de Despojamento, de Partilha, de Doação, que se vai extinguindo quando somos apenas cristãos de nome, de fachada, de tradição, de ritualismos desprovidos de coração!...
De facto, a Igreja, novo e definitivo Povo de Deus, guardiã deste «depósito» de salvação, deste Fogo de eternidade, vai oferecendo ao homem deste tempo apenas uma chama que ainda fumega quando tem em si essa capacidade de incendiar o mundo inteiro; deixámos que o Fogo do Amor se transfigurasse em chama sem brilho nem calor carregada de formalismos, de leis e normas pesadas, de gestos inúteis de outrora que a todo o custo queremos «modernizar»!
Em nós um Fogo pronto a «explodir»!
Em nós, Igreja, uma potencialidade imensa que não podemos mais ignorar!
Nas nossas Comunidades, uma vida ter que pulsar a todo o custo, se não queremos que, definitivamente, se apague a chama que ainda fumega!
Urge descruzar os braços, pormo-nos a caminho, deixar para trás pantufas e sofás atrofiantes e transformarmo-nos em homens e mulheres «incendiários» do Amor de Cristo revelado no cimo de uma Cruz.
Urge sepultar comodismos e egoísmos, indiferenças e avarezas, a fim de que esta terra seja incendiada pela força do Senhor Jesus...
Enquanto é tempo!
Enquanto é tempo!
