sexta-feira, 21 de outubro de 2011

"Fogo que não arde nem queima"!

É uma certa perplexidade que sinto ao proclamar, meditar e comentar o Evangelho deste dia em que Jesus afirma categoricamente que traz conSigo um Fogo com que pretende incendiar esta nossa terra!
Outra coisa - assim o afirma - não quer Cristo senão que esse mesmo Fogo se pegue, contagie e chegue a toda a terra!
Um Fogo que é o Seu Amor e a Sua Paz, um Fogo que é a Sua Justiça e a Sua Misericórdia, um Fogo que é o Seu Reino, a Sua Pessoa. Realidades que Deus sonha «tocar» cada coração humano, cada homem e mulher peregrinos nesta humanidade a caminho não sabe donde!
Um Fogo que é confiado à Igreja para que seja esta a incendiar o mundo com o seu exemplo, presença, testemunho, experiência... Um Fogo entregue à Igreja para que esta «queime» os corações humanos com a alegria do mandamento Novo; um Fogo deixado à Igreja para que ela faça - como aos discípulos de Emaús - arder o coração do homem, partindo o Pão da Vida e explicando a Palavra que liberta e salva verdadeiramente!
Porém, olhemos a Igreja, olhemos as nossas Comunidades, as suas vidas e exemplos, as suas histórias e realidades, os seus grupos e movimentos! Que vemos? De que nos apercebemos?
De um Fogo que não queima nem arde, pura e simplesmente!
Um Fogo de Amor que escondemos algures no tempo e na vida e teimamos em não reencontrar!
Um Fogo de Verdade que com demasiada facilidade trocamos por falsidades, mentiras (chamando-lhes piedosas!!!)!
Um Fogo de Caridade que deitámos fora tornando-nos muitas vezes em sacerdotes e doutores da lei, apresados em correr para os templos e incapazes de parar diante dos homens caídos à beira dos caminhos!
Um Fogo de Misericórdia que substituímos por críticas mordazes, destrutivas, caluniosas tantas vezes!
Um Fogo de Solidariedade, de Serviço, de Despojamento, de Partilha, de Doação, que se vai extinguindo quando somos apenas cristãos de nome, de fachada, de tradição, de ritualismos desprovidos de coração!...
De facto, a Igreja, novo e definitivo Povo de Deus, guardiã deste «depósito» de salvação, deste Fogo de eternidade, vai oferecendo ao homem deste tempo apenas uma chama que ainda fumega quando tem em si essa capacidade de incendiar o mundo inteiro; deixámos que o Fogo do Amor se transfigurasse em chama sem brilho nem calor carregada de formalismos, de leis e normas pesadas, de gestos inúteis de outrora que a todo o custo queremos «modernizar»!
Em nós um Fogo pronto a «explodir»!
Em nós, Igreja, uma potencialidade imensa que não podemos mais ignorar!
Nas nossas Comunidades, uma vida  ter que pulsar a todo o custo, se não queremos que, definitivamente, se apague a chama que ainda fumega!
Urge descruzar os braços, pormo-nos a caminho, deixar para trás pantufas e sofás atrofiantes e transformarmo-nos em homens e mulheres «incendiários» do Amor de Cristo revelado no cimo de uma Cruz.
Urge sepultar comodismos e egoísmos, indiferenças e avarezas, a fim de que esta terra seja incendiada pela força do Senhor Jesus...
Enquanto é tempo!

sábado, 15 de outubro de 2011

"Comunidade"

A cada dia que passa, sinto esta necessidade, esta urgência, de sermos Comunidade. Que significa comum-unidade. Distinto, absolutamente diferente de «unicidade»! Comunidade é realidade onde todos se sabem e sentem irmãos, cúmplices em projectos comuns, irmanados nas dificuldades e nas alegrias, nos desesperos e nos sonhos de cada outro. Comunidade não é um somatório de pessoas; ao contrário, é o conjunto, maior ou menor, de pessoas que vivem em família, em grupo, realidades comuns.
Comunidade é o contrário de massificação, de anonimato, de egoísmo, de indiferença, de alheamento, de fuga à história de cada outro!
Por isso mesmo, urge acreditarmos no valor, no tesouro, que é Comunidade e tudo fazermos - e será sempre pouco - para a edificar mais e mais, melhor e melhor.
Como se consegue?
Com perseverança, com entusiasmo, com determinação, com ousadia, com entrega, com dedicação, com abnegação... Constrói-se com essa capacidade, cada vez mais rara, de sonhar, de lutar, combater, por aquilo em que acreditamos profunda e verdadeiramente. Edifica-se Comunidade na medida em que desistimos de olhar em exclusivo para as nossas verdades adquiridas, tornando-as dogmáticas - sem nunca o serem -, quando travamos essa tentação crescente de nos julgarmos donos do mundo e dos outros, quando aceitamos que temos defeitos, cometemos erros, desviamo-nos do caminho! Quando isto se torna verdade e realidade na nossa vida, os outros deixam de ser inimigos, seres inferiores, pessoas a evitar, alvos a abater porque, afinal, simplesmente, são iguais a nós.
Comunidade é a «palavra-chave» para se ser Igreja, para se ser discípulo, para se ser cristão, de verdade e não de nome, de tradição, de rotina, de habituação. «Palavra-chave» para combater egoísmos e endeusamentos que abanam e demasiadas vezes conseguem abater algo de belo já construído e experienciado. Comunidade é a razão de sermos Igreja, de nos considerarmos cristãos, de celebrarmos a fé, de nos congregarmos cada dia ou cada Domingo.
Comunidade não é ficar obcecado pelo nosso «umbigo» e paralizado diante do nosso «eu» em detrimento do «outro», do «tu»!
Em Igreja, caminhar sozinho, demitindo-se dessa aventura divina de saber dar a mão a cada outro, e ainda mais o coração, é avançar rumo a um abismo interminável, a um fim desastroso, a uma traição evangélica sem retorno!
Perceber que o «nós» vale mais, imensamente mais que o «eu», eis o caminho a percorrer nesta hora da nossa História e da nossa Igreja. Aceitar que somos pessoas que pensam, reflectem, ao contrário de animais com palas diante dos olhos que os impede de ver aquilo que os envolve, é caminho de renovação das próprias Comunidades. Tarefa que urge concretizar. Humildade que importa encarnar na vida de cada um de nós. Missão a que não podemos dizer «Não» sem consequências desastrosas para a vida da Igreja e do Reino de Deus que dizemos querer edificar e acreditar.
Penso que é tempo de arrepiar caminhos individualistas e acertar trilhos de unidade, de cumplicidade, de fidelidade a bens maiores. Se queremos ser uma Igreja evangelizada e evangelizadora. Se não queremos ser gente que em vez de atrair, afasta! Em vez de apaixonar, marginaliza!
Comunidade, comum-unidade, é o rosto mais belo da Igreja. Mais: o único rosto credível da Igreja.
E apenas nós a podemos contsruir! Nunca os outros! Apenas nós!...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

 "Quem aqui chegou..."

"Quem aqui chegou
Quem aqui chegar
Traz sempre um sonho
De algum lugar
Vem de peito aberto
Sem saber o que será
Com coragem de se aventurar"...


 Belas palavras as do poeta que denotam essa força interior que permanece dentro de nós. Certeza de quem crê na força do coração, da alma, da vontade. Convicção assumida de que aquilo que vale, aquilo que importa, aquilo que vence e convence os medos contemporâneos é apenas a ousadia de um «peito aberto», sinal eloquente da vontade de entrega, de doação, de disponibilidade, de amor...
Por vezes, alias, sempre, faz-me - como também diz um outro poeta - «comichão na alma», essa letargia que parece ter embrulhado a Igreja, os cristãos, num sono inextinguível que os impede ter essa atitude de «peito aberto», de disposição para os sentimentos, a ternura, o afecto, a beleza, tornando-os quase «extra-terrestres» mergulhados que estão em espiritualidades, verdades religiosas, sentimentalismos piedosos, que os tira do mundo do coração e os convence que a vida pode ser vivida sem essa dimensão do coração, do amor, da afectividade, da relação!
A «coragem de se aventurar», mesmo quando tudo nos parece «cinzento» ou sem sentido, a «coragem de ousar» mesmo quando aparentemente não se vislumbra luz ou novidade, é algo de essencial para quem diz acreditar em Jesus de Nazaré!
Ser cristão é, como afirma o poeta, é ser alguém que sempre comporta a dimensão do sonho, da esperança...
«Sem saber o que será» o amanhã, o futuro, arriscar na diferença, na ousadia da diferença, no combate pela diferença, pois que ninguém está condenado à tristeza ou às lágrimas, ao desânimo ou ao desespero! É que, na verdade, não há tristeza maior, desespero maior, que desistir de sonhar, de se aventurar, de abrir o peito e sentir que podemos amar e ser amados!
Ter medo dessa «palavra», desse «sentimento», dessa «realidade» é ter medo de viver, pura e simplesmente!
Quem aqui chegou traz sempre um sonho e vem de peito aberto...
Quem aqui está, sem medo que doa ou custe, caminhará de peito aberto, ousando e sonhando, que o mundo e a Igreja não estão condenados a serem como são!
Quem aqui chegou, quem aqui está, deseja simplesmente arriscar ser de Deus, amando a Igreja, que são os homens e as mulheres deste tempo que com este coração se cruzarem.
De peito aberto... sempre.
Como Deus no-lo revelou...
Web Analytics