sábado, 15 de outubro de 2011

"Comunidade"

A cada dia que passa, sinto esta necessidade, esta urgência, de sermos Comunidade. Que significa comum-unidade. Distinto, absolutamente diferente de «unicidade»! Comunidade é realidade onde todos se sabem e sentem irmãos, cúmplices em projectos comuns, irmanados nas dificuldades e nas alegrias, nos desesperos e nos sonhos de cada outro. Comunidade não é um somatório de pessoas; ao contrário, é o conjunto, maior ou menor, de pessoas que vivem em família, em grupo, realidades comuns.
Comunidade é o contrário de massificação, de anonimato, de egoísmo, de indiferença, de alheamento, de fuga à história de cada outro!
Por isso mesmo, urge acreditarmos no valor, no tesouro, que é Comunidade e tudo fazermos - e será sempre pouco - para a edificar mais e mais, melhor e melhor.
Como se consegue?
Com perseverança, com entusiasmo, com determinação, com ousadia, com entrega, com dedicação, com abnegação... Constrói-se com essa capacidade, cada vez mais rara, de sonhar, de lutar, combater, por aquilo em que acreditamos profunda e verdadeiramente. Edifica-se Comunidade na medida em que desistimos de olhar em exclusivo para as nossas verdades adquiridas, tornando-as dogmáticas - sem nunca o serem -, quando travamos essa tentação crescente de nos julgarmos donos do mundo e dos outros, quando aceitamos que temos defeitos, cometemos erros, desviamo-nos do caminho! Quando isto se torna verdade e realidade na nossa vida, os outros deixam de ser inimigos, seres inferiores, pessoas a evitar, alvos a abater porque, afinal, simplesmente, são iguais a nós.
Comunidade é a «palavra-chave» para se ser Igreja, para se ser discípulo, para se ser cristão, de verdade e não de nome, de tradição, de rotina, de habituação. «Palavra-chave» para combater egoísmos e endeusamentos que abanam e demasiadas vezes conseguem abater algo de belo já construído e experienciado. Comunidade é a razão de sermos Igreja, de nos considerarmos cristãos, de celebrarmos a fé, de nos congregarmos cada dia ou cada Domingo.
Comunidade não é ficar obcecado pelo nosso «umbigo» e paralizado diante do nosso «eu» em detrimento do «outro», do «tu»!
Em Igreja, caminhar sozinho, demitindo-se dessa aventura divina de saber dar a mão a cada outro, e ainda mais o coração, é avançar rumo a um abismo interminável, a um fim desastroso, a uma traição evangélica sem retorno!
Perceber que o «nós» vale mais, imensamente mais que o «eu», eis o caminho a percorrer nesta hora da nossa História e da nossa Igreja. Aceitar que somos pessoas que pensam, reflectem, ao contrário de animais com palas diante dos olhos que os impede de ver aquilo que os envolve, é caminho de renovação das próprias Comunidades. Tarefa que urge concretizar. Humildade que importa encarnar na vida de cada um de nós. Missão a que não podemos dizer «Não» sem consequências desastrosas para a vida da Igreja e do Reino de Deus que dizemos querer edificar e acreditar.
Penso que é tempo de arrepiar caminhos individualistas e acertar trilhos de unidade, de cumplicidade, de fidelidade a bens maiores. Se queremos ser uma Igreja evangelizada e evangelizadora. Se não queremos ser gente que em vez de atrair, afasta! Em vez de apaixonar, marginaliza!
Comunidade, comum-unidade, é o rosto mais belo da Igreja. Mais: o único rosto credível da Igreja.
E apenas nós a podemos contsruir! Nunca os outros! Apenas nós!...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

 "Quem aqui chegou..."

"Quem aqui chegou
Quem aqui chegar
Traz sempre um sonho
De algum lugar
Vem de peito aberto
Sem saber o que será
Com coragem de se aventurar"...


 Belas palavras as do poeta que denotam essa força interior que permanece dentro de nós. Certeza de quem crê na força do coração, da alma, da vontade. Convicção assumida de que aquilo que vale, aquilo que importa, aquilo que vence e convence os medos contemporâneos é apenas a ousadia de um «peito aberto», sinal eloquente da vontade de entrega, de doação, de disponibilidade, de amor...
Por vezes, alias, sempre, faz-me - como também diz um outro poeta - «comichão na alma», essa letargia que parece ter embrulhado a Igreja, os cristãos, num sono inextinguível que os impede ter essa atitude de «peito aberto», de disposição para os sentimentos, a ternura, o afecto, a beleza, tornando-os quase «extra-terrestres» mergulhados que estão em espiritualidades, verdades religiosas, sentimentalismos piedosos, que os tira do mundo do coração e os convence que a vida pode ser vivida sem essa dimensão do coração, do amor, da afectividade, da relação!
A «coragem de se aventurar», mesmo quando tudo nos parece «cinzento» ou sem sentido, a «coragem de ousar» mesmo quando aparentemente não se vislumbra luz ou novidade, é algo de essencial para quem diz acreditar em Jesus de Nazaré!
Ser cristão é, como afirma o poeta, é ser alguém que sempre comporta a dimensão do sonho, da esperança...
«Sem saber o que será» o amanhã, o futuro, arriscar na diferença, na ousadia da diferença, no combate pela diferença, pois que ninguém está condenado à tristeza ou às lágrimas, ao desânimo ou ao desespero! É que, na verdade, não há tristeza maior, desespero maior, que desistir de sonhar, de se aventurar, de abrir o peito e sentir que podemos amar e ser amados!
Ter medo dessa «palavra», desse «sentimento», dessa «realidade» é ter medo de viver, pura e simplesmente!
Quem aqui chegou traz sempre um sonho e vem de peito aberto...
Quem aqui está, sem medo que doa ou custe, caminhará de peito aberto, ousando e sonhando, que o mundo e a Igreja não estão condenados a serem como são!
Quem aqui chegou, quem aqui está, deseja simplesmente arriscar ser de Deus, amando a Igreja, que são os homens e as mulheres deste tempo que com este coração se cruzarem.
De peito aberto... sempre.
Como Deus no-lo revelou...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

"Cansado"

"Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.

De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…
(...)
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa".

Um poema de Álvaro de Campos que diz muito, se não quase tudo de quanto sinto, vivo e experimento nesta «hora» da caminhada...
Na verdade, "a certa altura, a gente tem que estar cansado"! Não é possível ser de outra forma diante do ritmo avassalador que nos impomos (erradamente) mas ao qual não conseguimos, afinal, fugir.
Cansado, como afirma o poeta, nem sei bem de quê; ou até sei, mas não importa sabê-lo, pois que pelo facto de o saber não fico menos cansado.
Um mundo de «novidades», um «mar» de «espantos», mesmo, um «oceano» de estupefaccão, que origina cansaço e exaustão no corpo e na alma.

"Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa".


Palavras sábias, de quem tem consciência de que viver é pensar, é idealizar, é sonhar, de olhos bem abertos e alma escancarada. Palavras que sublinho, melhor, que subscrevo hoje incondicionalmente, diante da realidade que me envolve, do mundo que abraço, da missão a que me entrego sem regatear os «cansaços» que daí possam advir.
Mas cansado. Admito. Confesso. Reconheço.
Cansado, mas com um sorriso leve, cúmplice com esses sorrisos que tornaram a desabrochar, com esses sonhos que ousaram florir, mais ou menos timidamente.
E com uma vontade de sono no corpo, mas bem acordado na alma, ergo a cada instante essa vontade de, mãos dadas ao Senhor da História, ao Dono da Messe, semear algo de novo, que possa fazer brotar esperança em algum coração bondoso que ainda acredite que a verdade e a justiça, a frontalidade e o serviço, são a chave do pulsar dos corações...
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