segunda-feira, 3 de outubro de 2011

"Semente a lançar..."

Entregue  a uma nova porção da «vinha do Senhor».
Enviado para ser presença do «Dono da vinha» e, com outros braços, decidir-me à edificação dessa «vinha» de Deus. 
Um terreno, demasiadas vezes devastado - como nos dizia ontem o profeta - que em vez de uvas e fruto bom apenas produz agraços; uma terra sonhada para ser sagrada, mas que demasiadas vezes se deixa profanar!
Porção do Povo de Deus, cada Comunidade, que apenas deveria ser «regada» com o Sangue Precioso do Redentor, feito vida nas nossas vidas mas que, não raras vezes, é apenas aspergida com a «água» das nossas misérias, dos nossos endeusamentos, auto-suficiências, pecados!
Desafiado a semear de novo a semente do Reino, sabendo clara e categoricamente que há-de cair em diversos «terrenos»; chamado a lançar as redes, estando consciente que muitos são aqueles que se negarão a entrar nas redes que poderiam conduzir ao colo do Pai.
Compete-me semear! Simplesmente! Jamais ver os efeitos dessa sementeira, os frutos de qualquer esforço, entrega ou dedicação.
Chamado a nem sequer julgar - valorizar ou menosprezar - o terreno onde devo lançar a semente do amor de Deus; apenas e somente não me poupar a esforços para que esse amor seja anunciado, dilatado, proposto, «gritado»...
«Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade», não podem ser palavras vãs ou ocas que profiro no silêncio da igreja ou do cimo do ambão! Terão de ser vida na minha vida, encarnação no meu ministério, «programa» existencial para onde o Mestre me envia.
E, agora aqui, no coração destas gentes, intentarei, como sei e como posso, a propósito e a despropósito, falar da Paixão de Jesus e da paixão que tenho por Jesus. No meio das dificuldades, dos agraços da vinha, das pedras do caminho, das barreiras que se erguem, importa - só isso me pode importar - falar, anunciar, melhor, viver, Jesus.
E oxalá eu consiga um dia «escrever» com o meu viver como o Apóstolo: "Para mim, viver é Cristo"!
Confio-me, Carcavelos, à tua oração; entrego-me aos teus cuidados, para que possa, de verdade, cuidar de ti.
Juntos, na órbita única de Deus, a do amor, atrairemos muitos outros para o Reino, tantos daqueles muitos que aqui peregrinam na vida e para quem o Evangelho, a fé e Cristo Jesus são algo absolutamente indiferente, desprezível, insignificante!
Na unidade, na comunhão, na verdade, da nossa pertença à Igreja, a esta Comunidade, porção da «vinha do Senhor» hão-de dizer de nós: "Vêde como eles se amam"!
Lancemos a semente... a do Reino de Deus e jamais, e nunca, a nossa!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

"Consagração"

"Óh Senhora nossa
óh nossa Mãe
eu vos ofereço todo a Vós,
e em prova da nossa devoção para conVosco
Vos consagro nesta tarde, e para sempre,
os nossos olhos, os nossos ouvidos, as nossas bocas, os nossos corações
e inteiramente todo o nosso ser;
e porque assim somos Vossos, óh incomparável Mãe,
guardai-nos e defendei-nos como coisa propriedade Vossa.
Lembrai-Vos que Vos pertencemos, terna Mãe e Senhora nossa,
ah, guardai-nos e defendei-nos como coisa própria Vossa".

Foram estas  as palavras que hoje deixei no Santuário de Fátima, naquela Capelinha onde o olhar daquela Senhora «mais brilhante que o sol» se cruza com o nosso próprio olhar!
À Senhora de Fátima, Senhora dos Remédios, fui hoje entregar, consagrar o meu ministério, a minha nova missão pastoral e, particularmente, a Paróquia de Carcavelos.
Naquele Coração puro e imaculado, naquele colo terno, suave e meigo, coloquei todos os homens e mulheres, jovens e crianças desta Comunidade de Carcavelos que, breve, muito breve, se tornará, de novo, a minha «casa», a minha «família», o meu «coração» e o meu «tudo»...
À Mãe de Jesus pedi por toda esta gente que faz a Paróquia de Carcavelos.
Confiei-lhe os crentes e os não crentes; entreguei-lhe os doentes, os idosos, os afastados, os indiferentes à fé, os zangados e feridos pela Igreja, os marginalizados, os pobres, os sem trabalho e sem esperança, os justos e os pecadores, os que servem e os que são servidos, os que riem e sonham e quantos choram e desesperam...
À Mãe de Cristo e nossa Mãe consagrei todos os corações de todos quantos habitam este Carcavelos que Deus ama. Entreguei cada projecto, cada ideia, cada sonho; entreguei cada alegria e dificuldade que iremos viver; confiei os sorrisos e as lágrimas que iremos experimentar...
E pedi, pedi muito a Nossa Senhora que me ensinasse e reensinasse a dizer «Sim» à missão que o Seu Filho me entrega. E pedi por todos quantos se sentirão e saberão mais responsáveis pela tarefa de evangelização. Pedi que nos desse «ganas», «garras», entusiasmo e ousadia para fazer de Carcavelos cada vez mais a morada de Deus e a paz de cada coração de quantos aqui vivem.
Sei bem que é uma árdua e difícil tarefa; por isso mesmo pedi ao Céu a ajuda e a bênção que as nossas forças humanas não comportam, a nossa sabedoria não alcança, os nossos talentos não conseguem!
Ali, diante da Mãe de Deus, Senhora dos Remédios, senti, de novo, a pobreza daquilo que sou e a urgência da ajuda divina. Ali, prostrado diante de Maria, percebi, de novo, que sem uma comunhão forte, indissolúvel ao Céu nada se conseguirá neste pedaço de terra que é Carcavelos!
E segredei-Lhe, pedindo-Lhe que levasse a Jesus algo que me é muito querido, isto é, palavras que vou intentando repetir, dia após dia: "Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade"!
E entrarei na Comunidade rezando baixinho, nesse dia 1 de Outubro, essas mesmas palavras...
Que a Senhora de Fátima, a Senhora dos Remédios, a Senhora do «Sim» me ajude a cumprir fiel e santamente a missão que me foi confiada... Assim Deus me ajude...

sábado, 24 de setembro de 2011

"Palavra versus Vida"

"Há palavras que nos salvam
São palavras especiais
Que nos calam, nos embalam
Que nos tocam por demais.
Há que dize-las baixinho
Há que senti-las na voz
Que escutá-las com carinho
Que deixá-las p'lo beicinho.
As palavras pouco valem
Cada um diz o que quer
Mas que digam ou que calem
Ou que deixem por dizer.
Há palavras suicidas
Outras que calam a dor
Criminosas, compassivas
E as que morrem por amor".

Uma música que fala de «palavras», esse «vício» terrível a que sucumbimos todos nós! «Palavras» que sufocam a nossa existência, que asfixiam o nosso caminhar, que pesam sobremaneira sobre o nosso ser!
Falamos de quase tudo; escrevemos sobre quase tudo! Palavras, de facto, não faltam nesta «hora» da História; palavras super-abundam, alias, neste momento da peregrinação humana!
Todavia, pergunto-me se serão «palavras», "compassivas" ou "criminosas", aquilo que precisa o homem contemporâneo. Particularmente todo o homem que se sabe e sente inquieto em questões de fé, em matéria religiosa, em porquês existenciais...
Pessoalmente, assumo que gosto de «palavras», de «textos», de «frases», de «letras»; mas gosto muito mais da vida acontecida, encarnada, na vida dos homens que falam, cantam, escrevem ou dizem essas mesmas palavras.
Pessoalmente, prefiro um silêncio que «fale», que «grite» vida, amor, serviço, entrega, fé, àquelas palavras delicodoces, àqueles sermões espiritualiantes, àquelas homilias piegas ou hiper-piedosas, mas que permanecem desprovidas dessa «veia» existencial daquilo mesmo que é proclamado por palavras.
De facto, "há palavras suicidas" na medida em que «matam» esperanças e procuras, desejos e sonhos! Palavras suicidas que, inicialmente, até embriagam os espíritos, até conquistam corações, até fazem pulular almas e vidas mas que, depois, precisamente porque não enxertadas no quotidiano, porque se tornam «poemas», «literatura» simples, monótona, rotineira, atraiçoam esses sonhos, esses corações, essas vidas, essas inquietações.
Há já muitos anos, o Papa Paulo VI afirmava que o mundo estava cansado de palavras; que o mundo estava carente de testemunhos!
Eis um sentir perfeitamente actual; um ajuizar da fé e da Igreja que parece dita aos crentes deste tempo!
Não faço crítica à palavra ou às palavras; peço que estas se transfigurem em vida, em acção, em testemunho, em história, que move e comove o  mundo que nos envolve e nos olha como cristãos. Peço valentia, ousadia, coragem e sonho para todos nós que nos alimentamos da Palavra que Se fez Carne e nos desafia, permanentemente, a essa aventura divina e excelente de sermos palavra encarnada no nosso dia a dia...
Palavras que «falem» da fé que nos anima porque vivemos aquilo que dizemos, cantamos ou escrevemos. Palavras feitas e transformadas em história a fim de que também hoje de nós, como Igreja, possa o mundo afirmar: "Vejam como eles se amam"!
E nós sabemos bem que não são estas as palavras que os homens afirmam a nosso respeito; talvez até mesmo o contrário! Porque falamos muito; porque amamos e servimos insuficientemente!
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