segunda-feira, 26 de setembro de 2011

"Consagração"

"Óh Senhora nossa
óh nossa Mãe
eu vos ofereço todo a Vós,
e em prova da nossa devoção para conVosco
Vos consagro nesta tarde, e para sempre,
os nossos olhos, os nossos ouvidos, as nossas bocas, os nossos corações
e inteiramente todo o nosso ser;
e porque assim somos Vossos, óh incomparável Mãe,
guardai-nos e defendei-nos como coisa propriedade Vossa.
Lembrai-Vos que Vos pertencemos, terna Mãe e Senhora nossa,
ah, guardai-nos e defendei-nos como coisa própria Vossa".

Foram estas  as palavras que hoje deixei no Santuário de Fátima, naquela Capelinha onde o olhar daquela Senhora «mais brilhante que o sol» se cruza com o nosso próprio olhar!
À Senhora de Fátima, Senhora dos Remédios, fui hoje entregar, consagrar o meu ministério, a minha nova missão pastoral e, particularmente, a Paróquia de Carcavelos.
Naquele Coração puro e imaculado, naquele colo terno, suave e meigo, coloquei todos os homens e mulheres, jovens e crianças desta Comunidade de Carcavelos que, breve, muito breve, se tornará, de novo, a minha «casa», a minha «família», o meu «coração» e o meu «tudo»...
À Mãe de Jesus pedi por toda esta gente que faz a Paróquia de Carcavelos.
Confiei-lhe os crentes e os não crentes; entreguei-lhe os doentes, os idosos, os afastados, os indiferentes à fé, os zangados e feridos pela Igreja, os marginalizados, os pobres, os sem trabalho e sem esperança, os justos e os pecadores, os que servem e os que são servidos, os que riem e sonham e quantos choram e desesperam...
À Mãe de Cristo e nossa Mãe consagrei todos os corações de todos quantos habitam este Carcavelos que Deus ama. Entreguei cada projecto, cada ideia, cada sonho; entreguei cada alegria e dificuldade que iremos viver; confiei os sorrisos e as lágrimas que iremos experimentar...
E pedi, pedi muito a Nossa Senhora que me ensinasse e reensinasse a dizer «Sim» à missão que o Seu Filho me entrega. E pedi por todos quantos se sentirão e saberão mais responsáveis pela tarefa de evangelização. Pedi que nos desse «ganas», «garras», entusiasmo e ousadia para fazer de Carcavelos cada vez mais a morada de Deus e a paz de cada coração de quantos aqui vivem.
Sei bem que é uma árdua e difícil tarefa; por isso mesmo pedi ao Céu a ajuda e a bênção que as nossas forças humanas não comportam, a nossa sabedoria não alcança, os nossos talentos não conseguem!
Ali, diante da Mãe de Deus, Senhora dos Remédios, senti, de novo, a pobreza daquilo que sou e a urgência da ajuda divina. Ali, prostrado diante de Maria, percebi, de novo, que sem uma comunhão forte, indissolúvel ao Céu nada se conseguirá neste pedaço de terra que é Carcavelos!
E segredei-Lhe, pedindo-Lhe que levasse a Jesus algo que me é muito querido, isto é, palavras que vou intentando repetir, dia após dia: "Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade"!
E entrarei na Comunidade rezando baixinho, nesse dia 1 de Outubro, essas mesmas palavras...
Que a Senhora de Fátima, a Senhora dos Remédios, a Senhora do «Sim» me ajude a cumprir fiel e santamente a missão que me foi confiada... Assim Deus me ajude...

sábado, 24 de setembro de 2011

"Palavra versus Vida"

"Há palavras que nos salvam
São palavras especiais
Que nos calam, nos embalam
Que nos tocam por demais.
Há que dize-las baixinho
Há que senti-las na voz
Que escutá-las com carinho
Que deixá-las p'lo beicinho.
As palavras pouco valem
Cada um diz o que quer
Mas que digam ou que calem
Ou que deixem por dizer.
Há palavras suicidas
Outras que calam a dor
Criminosas, compassivas
E as que morrem por amor".

Uma música que fala de «palavras», esse «vício» terrível a que sucumbimos todos nós! «Palavras» que sufocam a nossa existência, que asfixiam o nosso caminhar, que pesam sobremaneira sobre o nosso ser!
Falamos de quase tudo; escrevemos sobre quase tudo! Palavras, de facto, não faltam nesta «hora» da História; palavras super-abundam, alias, neste momento da peregrinação humana!
Todavia, pergunto-me se serão «palavras», "compassivas" ou "criminosas", aquilo que precisa o homem contemporâneo. Particularmente todo o homem que se sabe e sente inquieto em questões de fé, em matéria religiosa, em porquês existenciais...
Pessoalmente, assumo que gosto de «palavras», de «textos», de «frases», de «letras»; mas gosto muito mais da vida acontecida, encarnada, na vida dos homens que falam, cantam, escrevem ou dizem essas mesmas palavras.
Pessoalmente, prefiro um silêncio que «fale», que «grite» vida, amor, serviço, entrega, fé, àquelas palavras delicodoces, àqueles sermões espiritualiantes, àquelas homilias piegas ou hiper-piedosas, mas que permanecem desprovidas dessa «veia» existencial daquilo mesmo que é proclamado por palavras.
De facto, "há palavras suicidas" na medida em que «matam» esperanças e procuras, desejos e sonhos! Palavras suicidas que, inicialmente, até embriagam os espíritos, até conquistam corações, até fazem pulular almas e vidas mas que, depois, precisamente porque não enxertadas no quotidiano, porque se tornam «poemas», «literatura» simples, monótona, rotineira, atraiçoam esses sonhos, esses corações, essas vidas, essas inquietações.
Há já muitos anos, o Papa Paulo VI afirmava que o mundo estava cansado de palavras; que o mundo estava carente de testemunhos!
Eis um sentir perfeitamente actual; um ajuizar da fé e da Igreja que parece dita aos crentes deste tempo!
Não faço crítica à palavra ou às palavras; peço que estas se transfigurem em vida, em acção, em testemunho, em história, que move e comove o  mundo que nos envolve e nos olha como cristãos. Peço valentia, ousadia, coragem e sonho para todos nós que nos alimentamos da Palavra que Se fez Carne e nos desafia, permanentemente, a essa aventura divina e excelente de sermos palavra encarnada no nosso dia a dia...
Palavras que «falem» da fé que nos anima porque vivemos aquilo que dizemos, cantamos ou escrevemos. Palavras feitas e transformadas em história a fim de que também hoje de nós, como Igreja, possa o mundo afirmar: "Vejam como eles se amam"!
E nós sabemos bem que não são estas as palavras que os homens afirmam a nosso respeito; talvez até mesmo o contrário! Porque falamos muito; porque amamos e servimos insuficientemente!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

"O Amor: o nosso destino"

"Amar é o verbo revelado
Pela boca da divindade
Só deve ser invocado

Em caso de necessidade
Esse verbo não se explica
Á luz crua da razão
Ele é a jóia mais rica
Da arca da criação
Podem-no pôr no altar
frívolo duma canção
Praticá-lo até gastar
Mas não o invoquem em vão

Não invoquem o amor em vão
Não invoquem o amor em vão

Podem-no usar com rendas
Ou enfeites de algodão
Para tapar bem as fendas
Por onde sopra a solidão
Podem dá-lo ao desbarato
Podem-no até vender
Metê-lo no guarda-fato
E dá-lo à traça a comer
Podem-no usar no chão
Como capacho dos pés
Mas não o invoquem em vão
Não o sujem com clichés

Não invoquem o amor em vão
É pecado como deitar fora o pão
Não invoquem o amor em vão
É pecado como deitar fora o pão".

Sobre o amor, todos o sabemos, muito já se escreveu, cantou, disse, filmou, apresentou...
Esta é apenas mais uma letra de uma canção que nos desvela o pensar do seu autor sobre este tema sempre inadequadamente tratado ou vivido; palavras que pretendem, assim o penso, ajudarem-nos a interiorizar mais e melhor essa realidade solene e sublime que é o amor...
Mas, precisamente, porque somo cristãos, essa mesma realidade tem de ter para nós um «peso», um «significado» e uma «marca» que o não terá para outro coração qualquer.
Dizer «Amor», para nós, discípulos de Cristo é dizer o próprio Deus.
Mais, é mesmo a nossa vocação, o nosso destino, a nossa tarefa: sermos o amor, ou seja, sermos rostos visíveis no meio do mundo do Amor que Deus é.
As nossas palavras e desejos, os nossos sonhos e projectos, os nossos pensamentos e atitudes, deveriam ter sempre esse «traço» invisível mas perceptível de Deus em nós, do Amor que nos invade, nos inunda, nos enche e preenche: Jesus Cristo.
Ao ver-nos, ao escutar-nos, ao sentir-nos, o mundo deveria perceber algo de «novo», de «diferente», de «único» em cada um de nós: o amor, o Amor que Deus é.
De todo, a nossa missão não se extingue na pregação sobre o amor, nas palavras proferidas ou escritas, nas dissertações mais ou menos profundas ou espirituais sobre essa realidade; somos chamados a encarnar o amor naquilo que temos e somos. Nada mais do que isso; porém, nada menos do que isso. E, como diz S. Paulo, o amor é exigente, é radical... Daí a necessidade do nosso compromisso com Cristo, com o Amor, no nosso quotidiano. Para que o mundo não se convença de que o amor é canção, é filme ou é romance mas, ao invés, perceba e creia que o Amor é uma Pessoa, com história e com rosto: Jesus.
E quantas oportunidades não foram já por nós desperdiçadas nesse anúncio ao mundo de Quem é o Amor?
Quantas vezes não fizemos nós do amor apenas palavra, boa intenção, idealismo, filosofia?!
Quantos momentos concretos foram perdidos por medo, vergonha, inércia, apatia, em apresentar ao mundo o autêntico rosto e nome do Amor?
Olhar o futuro sem medos, sem receios, sem dramas; perceber e acreditar que no meio do «joio» que sempre há-de existir e crescer, nós podemos e devemos ser «trigo» de Deus, moído, é verdade, para sermos a verdadeira vida do mundo, a sua luz, a sua paz, a referência para algo de maior, de melhor...
Web Analytics