terça-feira, 20 de setembro de 2011

"O Amor: o nosso destino"

"Amar é o verbo revelado
Pela boca da divindade
Só deve ser invocado

Em caso de necessidade
Esse verbo não se explica
Á luz crua da razão
Ele é a jóia mais rica
Da arca da criação
Podem-no pôr no altar
frívolo duma canção
Praticá-lo até gastar
Mas não o invoquem em vão

Não invoquem o amor em vão
Não invoquem o amor em vão

Podem-no usar com rendas
Ou enfeites de algodão
Para tapar bem as fendas
Por onde sopra a solidão
Podem dá-lo ao desbarato
Podem-no até vender
Metê-lo no guarda-fato
E dá-lo à traça a comer
Podem-no usar no chão
Como capacho dos pés
Mas não o invoquem em vão
Não o sujem com clichés

Não invoquem o amor em vão
É pecado como deitar fora o pão
Não invoquem o amor em vão
É pecado como deitar fora o pão".

Sobre o amor, todos o sabemos, muito já se escreveu, cantou, disse, filmou, apresentou...
Esta é apenas mais uma letra de uma canção que nos desvela o pensar do seu autor sobre este tema sempre inadequadamente tratado ou vivido; palavras que pretendem, assim o penso, ajudarem-nos a interiorizar mais e melhor essa realidade solene e sublime que é o amor...
Mas, precisamente, porque somo cristãos, essa mesma realidade tem de ter para nós um «peso», um «significado» e uma «marca» que o não terá para outro coração qualquer.
Dizer «Amor», para nós, discípulos de Cristo é dizer o próprio Deus.
Mais, é mesmo a nossa vocação, o nosso destino, a nossa tarefa: sermos o amor, ou seja, sermos rostos visíveis no meio do mundo do Amor que Deus é.
As nossas palavras e desejos, os nossos sonhos e projectos, os nossos pensamentos e atitudes, deveriam ter sempre esse «traço» invisível mas perceptível de Deus em nós, do Amor que nos invade, nos inunda, nos enche e preenche: Jesus Cristo.
Ao ver-nos, ao escutar-nos, ao sentir-nos, o mundo deveria perceber algo de «novo», de «diferente», de «único» em cada um de nós: o amor, o Amor que Deus é.
De todo, a nossa missão não se extingue na pregação sobre o amor, nas palavras proferidas ou escritas, nas dissertações mais ou menos profundas ou espirituais sobre essa realidade; somos chamados a encarnar o amor naquilo que temos e somos. Nada mais do que isso; porém, nada menos do que isso. E, como diz S. Paulo, o amor é exigente, é radical... Daí a necessidade do nosso compromisso com Cristo, com o Amor, no nosso quotidiano. Para que o mundo não se convença de que o amor é canção, é filme ou é romance mas, ao invés, perceba e creia que o Amor é uma Pessoa, com história e com rosto: Jesus.
E quantas oportunidades não foram já por nós desperdiçadas nesse anúncio ao mundo de Quem é o Amor?
Quantas vezes não fizemos nós do amor apenas palavra, boa intenção, idealismo, filosofia?!
Quantos momentos concretos foram perdidos por medo, vergonha, inércia, apatia, em apresentar ao mundo o autêntico rosto e nome do Amor?
Olhar o futuro sem medos, sem receios, sem dramas; perceber e acreditar que no meio do «joio» que sempre há-de existir e crescer, nós podemos e devemos ser «trigo» de Deus, moído, é verdade, para sermos a verdadeira vida do mundo, a sua luz, a sua paz, a referência para algo de maior, de melhor...

sábado, 17 de setembro de 2011

"O silêncio dos inocentes"

Não me refiro ao título do filme visto eventualmente por muitos de nós;
Falo aqui dos muitos inocentes, das gentes simples e humildes, generosas e confiantes, abnegadas e dóceis, que acreditam na beleza da Igreja, porque fundada sobre a «rocha» que é Cristo e depois são «devorados» por lobos disfarçados de corações espiritualizantes e consciências pietistas!
Falo dos corações traídos, das almas magoadas, dos sonhos aniquilados, das generosidades manietadas, que entregaram e se entregaram à Igreja com tudo quanto eram e são agora escória, ignomínia, «nadas» que são deitados fora como objectos desprezíveis por alguns pedantes cheios de sobranceria que ainda vêm a Igreja e o Povo de Deus como objecto de domínio, oportunidade de protagonismos estéreis, momentos de evidencialismos eunucos e balofos!
Inocentes que no seu silêncio continuam a amar a Cristo e a Sua Igreja ainda que esta esteja tão, mas tão longe da vontade e do sonho do Mestre!
Inocentes que acreditaram e acreditam na radicalidade e exigência do Evangelho e são sujeitos a baralhações, humilhações e dúvidas existenciais diante dos rostos deformados de Cristo e da fé que lhes são oferecidos por oportunismos religiosos e aparência piegas disfarçadas de libertação!
Admiro esse silêncio e esses inocentes! Admiro-os porque «teimosamente» optam pelo essencial, ainda que isso lhes custe lágrimas, isolamento, sejam preteridos e apontados!
Admiro-os e respeito-os e invejo-os até!
Porque dessa forma mais se identificam com o Mestre; porque desse jeito mais e melhor constroem o Reino de Deus, se não dentro das paredes das igrejas, fá-lo-ão no meio do mundo onde, alias, são bem mais precisos. Assim não correm o risco de embrutecer com odores de incenso a mais ou de beatices que atrofiam e paralisam sonhos e projectos de quem quer ser verdadeiramente de Deus.
Peço a Deus que esse «silêncio» desses «inocentes» seja oração, seja prece, oferecida pelos «lobos» disfarçados de cordeiros que invadem ainda a Igreja bela de Jesus Cristo.
Que esses silêncios, esses aniquilamentos forçados a que são sujeitos, sejam força e caminho de fidelidade ao Senhor renegado, cuspido, rejeitado, da Galileia, mas, afinal, Salvador do mundo.
Gritam-se e gritem-se uivos de contentamentos passageiros; serão sepultura de santidade!
Invista-se no «tribalismo» e no «elitismo» paroquial e religioso; será certeza de morte mais ou menos lenta da verdadeira Igreja de Cristo.
Edifiquem-se «grupo» de «iluminados» que acabarão por «cair no poço» da amargura, da angústia e da solidão!
Que o «silêncio dos inocentes» deste tempo, da sociedade e da Igreja, sejam a fecundidade da nossa conversão, de todos nós os que julgamos ser donos da verdade, senhores e donos da Igreja e das Comunidades, únicos merecedores de crédito e de confiança!
Jamais nos esqueçamos: "O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela multidão"!
O Filho do homem não veio silenciar ninguém, rejeitar ninguém, espezinhar ninguém, menosprezar ninguém, ignorar ninguém! O Filho do homem veio mostrar que o caminho da vida verdadeira é o da Cruz, do serviço, do despojamento, da humildade.
Edificar uma Igreja com outros critérios será apenas e somente fazer mais um grupo à imagem e semelhança dos nossos humanismos sempre desvirtuados e a precisar de Deus e de conversão!
Que pena que, mais de dois mil anos depois, ainda se encontre gente disposta a ser abutre do homem seu irmão, a alimentar-se do «sangue» da alma que jorra naquele a quem até é capaz, cinicamente, de cumprimentar, sorrir e abraçar!

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"Madeiro glorioso"!

Dia da exaltação da Santa Cruz!
Árvore nobre, bendita, gloriosa.
Madeiro sublime, inaudito e doce.
Lenho de vida e de eternidade, que sustenta Aquele que nos ama infinitamente.
Cruz Santa, Cruz gloriosa, Cruz abençoada, Cruz Vida da nossa vida.
Nela, um Corpo chagado e glorioso,
nela Aquele de Quem desviam o olhar,
nela suspenso Aquele que não tem aparência nem beleza que atraia o nosso olhar...
Mas nela, nessa Cruz da Vida permanece suspensa a eternidade, permanece aberto o Lado do Senhor que apenas espera a minha paixão, a minha entrega, a minha confiança nesse Madeiro de Morte que me oferece a vida e a vida em abundância.

Parar para contemplar!
Contemplar para agradecer!
Agradecer para confiar!
Confiar para acreditar!
Acreditar para viver!
Viver para morrer!
Morrer para viver de novo e para sempre!

Madeiro único e espantoso, cujas raizes sustentam esta humanidade sem rumo nem sonhos!
Madeiro «desprezível» e «ignominioso» aos olhos das aparências, das ganâncias e dos egoísmos!
Madeiro escandaloso perante as belezas que nos ofuscam, as riquezas que nos cegam, as honras que nos deleitam!
Madeiro do Amor sem limites,
Madeiro onde se encontra O Coração trespassado,
Madeiro donde jorra o Sangue que me redime e me liberta!

Que eu te olhe ó Árvore gloriosa e bendita.
Que eu te adore, ó Cruz redentora e salvadora.
Que eu te busque, ó Madeiro que és verdadeira fonte de paz e de eternidade já na terra...
Que em ti me deleite, Cruz do meu Senhor e do meu Deus.
Que eu encontre em ti ó Lenho sagrado a força e a presença divinas que o mundo sabiamente intenta roubar-me...

E que a minha vida seja testemunho da Exaltação da Cruz. Do Crucificado e Ressuscitado. Por Amor. Que jamais te negue, jamais de ti desvie o olhar, jamais de ti me envergonhe, jamais de ti me separe! Porque seria a minha ruína, o meu desespero, o meu fracasso, a minha morte!
Web Analytics