"O silêncio dos inocentes"
Não me refiro ao título do filme visto eventualmente por muitos de nós;
Falo aqui dos muitos inocentes, das gentes simples e humildes, generosas e confiantes, abnegadas e dóceis, que acreditam na beleza da Igreja, porque fundada sobre a «rocha» que é Cristo e depois são «devorados» por lobos disfarçados de corações espiritualizantes e consciências pietistas!
Falo dos corações traídos, das almas magoadas, dos sonhos aniquilados, das generosidades manietadas, que entregaram e se entregaram à Igreja com tudo quanto eram e são agora escória, ignomínia, «nadas» que são deitados fora como objectos desprezíveis por alguns pedantes cheios de sobranceria que ainda vêm a Igreja e o Povo de Deus como objecto de domínio, oportunidade de protagonismos estéreis, momentos de evidencialismos eunucos e balofos!Inocentes que no seu silêncio continuam a amar a Cristo e a Sua Igreja ainda que esta esteja tão, mas tão longe da vontade e do sonho do Mestre!
Inocentes que acreditaram e acreditam na radicalidade e exigência do Evangelho e são sujeitos a baralhações, humilhações e dúvidas existenciais diante dos rostos deformados de Cristo e da fé que lhes são oferecidos por oportunismos religiosos e aparência piegas disfarçadas de libertação!
Admiro esse silêncio e esses inocentes! Admiro-os porque «teimosamente» optam pelo essencial, ainda que isso lhes custe lágrimas, isolamento, sejam preteridos e apontados!
Admiro-os e respeito-os e invejo-os até!
Porque dessa forma mais se identificam com o Mestre; porque desse jeito mais e melhor constroem o Reino de Deus, se não dentro das paredes das igrejas, fá-lo-ão no meio do mundo onde, alias, são bem mais precisos. Assim não correm o risco de embrutecer com odores de incenso a mais ou de beatices que atrofiam e paralisam sonhos e projectos de quem quer ser verdadeiramente de Deus.
Peço a Deus que esse «silêncio» desses «inocentes» seja oração, seja prece, oferecida pelos «lobos» disfarçados de cordeiros que invadem ainda a Igreja bela de Jesus Cristo.
Que esses silêncios, esses aniquilamentos forçados a que são sujeitos, sejam força e caminho de fidelidade ao Senhor renegado, cuspido, rejeitado, da Galileia, mas, afinal, Salvador do mundo.
Gritam-se e gritem-se uivos de contentamentos passageiros; serão sepultura de santidade!
Invista-se no «tribalismo» e no «elitismo» paroquial e religioso; será certeza de morte mais ou menos lenta da verdadeira Igreja de Cristo.
Edifiquem-se «grupo» de «iluminados» que acabarão por «cair no poço» da amargura, da angústia e da solidão!
Que o «silêncio dos inocentes» deste tempo, da sociedade e da Igreja, sejam a fecundidade da nossa conversão, de todos nós os que julgamos ser donos da verdade, senhores e donos da Igreja e das Comunidades, únicos merecedores de crédito e de confiança!
Jamais nos esqueçamos: "O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela multidão"!
O Filho do homem não veio silenciar ninguém, rejeitar ninguém, espezinhar ninguém, menosprezar ninguém, ignorar ninguém! O Filho do homem veio mostrar que o caminho da vida verdadeira é o da Cruz, do serviço, do despojamento, da humildade.
Edificar uma Igreja com outros critérios será apenas e somente fazer mais um grupo à imagem e semelhança dos nossos humanismos sempre desvirtuados e a precisar de Deus e de conversão!
Que pena que, mais de dois mil anos depois, ainda se encontre gente disposta a ser abutre do homem seu irmão, a alimentar-se do «sangue» da alma que jorra naquele a quem até é capaz, cinicamente, de cumprimentar, sorrir e abraçar!

