sábado, 17 de setembro de 2011

"O silêncio dos inocentes"

Não me refiro ao título do filme visto eventualmente por muitos de nós;
Falo aqui dos muitos inocentes, das gentes simples e humildes, generosas e confiantes, abnegadas e dóceis, que acreditam na beleza da Igreja, porque fundada sobre a «rocha» que é Cristo e depois são «devorados» por lobos disfarçados de corações espiritualizantes e consciências pietistas!
Falo dos corações traídos, das almas magoadas, dos sonhos aniquilados, das generosidades manietadas, que entregaram e se entregaram à Igreja com tudo quanto eram e são agora escória, ignomínia, «nadas» que são deitados fora como objectos desprezíveis por alguns pedantes cheios de sobranceria que ainda vêm a Igreja e o Povo de Deus como objecto de domínio, oportunidade de protagonismos estéreis, momentos de evidencialismos eunucos e balofos!
Inocentes que no seu silêncio continuam a amar a Cristo e a Sua Igreja ainda que esta esteja tão, mas tão longe da vontade e do sonho do Mestre!
Inocentes que acreditaram e acreditam na radicalidade e exigência do Evangelho e são sujeitos a baralhações, humilhações e dúvidas existenciais diante dos rostos deformados de Cristo e da fé que lhes são oferecidos por oportunismos religiosos e aparência piegas disfarçadas de libertação!
Admiro esse silêncio e esses inocentes! Admiro-os porque «teimosamente» optam pelo essencial, ainda que isso lhes custe lágrimas, isolamento, sejam preteridos e apontados!
Admiro-os e respeito-os e invejo-os até!
Porque dessa forma mais se identificam com o Mestre; porque desse jeito mais e melhor constroem o Reino de Deus, se não dentro das paredes das igrejas, fá-lo-ão no meio do mundo onde, alias, são bem mais precisos. Assim não correm o risco de embrutecer com odores de incenso a mais ou de beatices que atrofiam e paralisam sonhos e projectos de quem quer ser verdadeiramente de Deus.
Peço a Deus que esse «silêncio» desses «inocentes» seja oração, seja prece, oferecida pelos «lobos» disfarçados de cordeiros que invadem ainda a Igreja bela de Jesus Cristo.
Que esses silêncios, esses aniquilamentos forçados a que são sujeitos, sejam força e caminho de fidelidade ao Senhor renegado, cuspido, rejeitado, da Galileia, mas, afinal, Salvador do mundo.
Gritam-se e gritem-se uivos de contentamentos passageiros; serão sepultura de santidade!
Invista-se no «tribalismo» e no «elitismo» paroquial e religioso; será certeza de morte mais ou menos lenta da verdadeira Igreja de Cristo.
Edifiquem-se «grupo» de «iluminados» que acabarão por «cair no poço» da amargura, da angústia e da solidão!
Que o «silêncio dos inocentes» deste tempo, da sociedade e da Igreja, sejam a fecundidade da nossa conversão, de todos nós os que julgamos ser donos da verdade, senhores e donos da Igreja e das Comunidades, únicos merecedores de crédito e de confiança!
Jamais nos esqueçamos: "O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela multidão"!
O Filho do homem não veio silenciar ninguém, rejeitar ninguém, espezinhar ninguém, menosprezar ninguém, ignorar ninguém! O Filho do homem veio mostrar que o caminho da vida verdadeira é o da Cruz, do serviço, do despojamento, da humildade.
Edificar uma Igreja com outros critérios será apenas e somente fazer mais um grupo à imagem e semelhança dos nossos humanismos sempre desvirtuados e a precisar de Deus e de conversão!
Que pena que, mais de dois mil anos depois, ainda se encontre gente disposta a ser abutre do homem seu irmão, a alimentar-se do «sangue» da alma que jorra naquele a quem até é capaz, cinicamente, de cumprimentar, sorrir e abraçar!

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"Madeiro glorioso"!

Dia da exaltação da Santa Cruz!
Árvore nobre, bendita, gloriosa.
Madeiro sublime, inaudito e doce.
Lenho de vida e de eternidade, que sustenta Aquele que nos ama infinitamente.
Cruz Santa, Cruz gloriosa, Cruz abençoada, Cruz Vida da nossa vida.
Nela, um Corpo chagado e glorioso,
nela Aquele de Quem desviam o olhar,
nela suspenso Aquele que não tem aparência nem beleza que atraia o nosso olhar...
Mas nela, nessa Cruz da Vida permanece suspensa a eternidade, permanece aberto o Lado do Senhor que apenas espera a minha paixão, a minha entrega, a minha confiança nesse Madeiro de Morte que me oferece a vida e a vida em abundância.

Parar para contemplar!
Contemplar para agradecer!
Agradecer para confiar!
Confiar para acreditar!
Acreditar para viver!
Viver para morrer!
Morrer para viver de novo e para sempre!

Madeiro único e espantoso, cujas raizes sustentam esta humanidade sem rumo nem sonhos!
Madeiro «desprezível» e «ignominioso» aos olhos das aparências, das ganâncias e dos egoísmos!
Madeiro escandaloso perante as belezas que nos ofuscam, as riquezas que nos cegam, as honras que nos deleitam!
Madeiro do Amor sem limites,
Madeiro onde se encontra O Coração trespassado,
Madeiro donde jorra o Sangue que me redime e me liberta!

Que eu te olhe ó Árvore gloriosa e bendita.
Que eu te adore, ó Cruz redentora e salvadora.
Que eu te busque, ó Madeiro que és verdadeira fonte de paz e de eternidade já na terra...
Que em ti me deleite, Cruz do meu Senhor e do meu Deus.
Que eu encontre em ti ó Lenho sagrado a força e a presença divinas que o mundo sabiamente intenta roubar-me...

E que a minha vida seja testemunho da Exaltação da Cruz. Do Crucificado e Ressuscitado. Por Amor. Que jamais te negue, jamais de ti desvie o olhar, jamais de ti me envergonhe, jamais de ti me separe! Porque seria a minha ruína, o meu desespero, o meu fracasso, a minha morte!

domingo, 11 de setembro de 2011

"Igreja: de Deus ou dos homens?!"

“Sonhei uma Igreja
despojada de poder
que havia abandonado
     os formalismos do passado
e os gestos inúteis de outrora.


Sonhei uma Igreja
                                                            que tudo sabia compreender
                                                      que a todos sabia amar.

                                                        Sonhei uma Igreja
                                                     despida de autoritarismo
                                                    esquecida de gestos supérfluos
                                                       inclusive vénias reverenciais


Sonhei uma Igreja
menos maternalista
e mais capaz
de restituir à mulher
o seu verdadeiro lugar.

Sonhei uma Igreja
que denunciava a injustiça
quando era preciso denunciar.

Sonhei uma Igreja
que nada sabia além de esperar
como alguém que espera no caminho
que alguém lhe diga como é Jesus Cristo.

Sonhei uma Igreja
que não mais se escondia
por detrás de aparências piedosas
mas que oferecia com toda a clareza a sua verdade

Sonhei
que andava à procura de mim próprio
e à descoberta de Deus
numa Igreja feita verdadeiramente de mulheres e homens”.

Este é um sonho e um projecto que me tem acompanhado desde os meus tempos de Seminário; alias, foram estas palavras as utilizadas no convite para a minha Ordenação Sacerdotal; palavras que já foram publicadas algumas vezes nas Comunidades por onde já passei...
Neste dia em que deixei de ser Pároco do Estoril, lembrei-me delas de novo; simplesmente porque penso e repenso a missão em que fui um dia investido, a tarefa que a própria Igreja me confiou ao conferir-me o Sacramento da Ordem, a vida que aceitei, em plena e liberdade, naquele já longínquo dia 7 de Julho de 1991.
Ser Padre, hoje, nesta nossa sociedade e Igreja concretas, exigem, assim o sinto e creio, é sinónimo de um «combate» interior e exterior que consiga, verdadeiramente, concretizar esse mesmo sonho e projecto!
Palavras, sermões, homilias, discursos, posturas, comportamentos, decisões, que não façam acontecer Evangelho, não revelem a Igreja nascida da Cruz de Cristo, que deformem e adulterem a radicalidade do Reino trazido por Cristo, jamais atrairão os corações para Deus!
Importa, sem medos nem vergonhas, sem falsas diplomacias e ridículas palavras, purificarmos a vida própria de cada um de nós para que brilhe em nós mesmos a luz do Evangelho. É tempo, definitivamente, da frontalidade, da verdade, da transparência, da humildade, do serviço, na Igreja, nos cristãos!
O vedetismo que ainda nos devora, a necessidade de pedestais, a sede de protagonismos, a ansia de aplausos e «améns», o apego ao efémero e passageiro, serão sempre negação do Evangelho e renovada traição do Mestre.
Urge sonhar!
Urge agir!
Urge mudar de direcção, de rumo, se queremos estar à altura das responsabilidades do nosso ser cristão! Urge uma postura outra, se queremos que a Igreja seja casa de acolhimento, espaço de e porto de abrigo a tantos e tantos que a deixaram, a ignoram, a perseguem!
E não é com servilismos doentios e espiritualidades doentias e balofas que o conseguiremos.
Assim Deus me ajude a sonhar a Sua Igreja e a edificá-la, nem que para tal seja preciso o sangue das veias, o sangue da alma.
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