quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"Madeiro glorioso"!

Dia da exaltação da Santa Cruz!
Árvore nobre, bendita, gloriosa.
Madeiro sublime, inaudito e doce.
Lenho de vida e de eternidade, que sustenta Aquele que nos ama infinitamente.
Cruz Santa, Cruz gloriosa, Cruz abençoada, Cruz Vida da nossa vida.
Nela, um Corpo chagado e glorioso,
nela Aquele de Quem desviam o olhar,
nela suspenso Aquele que não tem aparência nem beleza que atraia o nosso olhar...
Mas nela, nessa Cruz da Vida permanece suspensa a eternidade, permanece aberto o Lado do Senhor que apenas espera a minha paixão, a minha entrega, a minha confiança nesse Madeiro de Morte que me oferece a vida e a vida em abundância.

Parar para contemplar!
Contemplar para agradecer!
Agradecer para confiar!
Confiar para acreditar!
Acreditar para viver!
Viver para morrer!
Morrer para viver de novo e para sempre!

Madeiro único e espantoso, cujas raizes sustentam esta humanidade sem rumo nem sonhos!
Madeiro «desprezível» e «ignominioso» aos olhos das aparências, das ganâncias e dos egoísmos!
Madeiro escandaloso perante as belezas que nos ofuscam, as riquezas que nos cegam, as honras que nos deleitam!
Madeiro do Amor sem limites,
Madeiro onde se encontra O Coração trespassado,
Madeiro donde jorra o Sangue que me redime e me liberta!

Que eu te olhe ó Árvore gloriosa e bendita.
Que eu te adore, ó Cruz redentora e salvadora.
Que eu te busque, ó Madeiro que és verdadeira fonte de paz e de eternidade já na terra...
Que em ti me deleite, Cruz do meu Senhor e do meu Deus.
Que eu encontre em ti ó Lenho sagrado a força e a presença divinas que o mundo sabiamente intenta roubar-me...

E que a minha vida seja testemunho da Exaltação da Cruz. Do Crucificado e Ressuscitado. Por Amor. Que jamais te negue, jamais de ti desvie o olhar, jamais de ti me envergonhe, jamais de ti me separe! Porque seria a minha ruína, o meu desespero, o meu fracasso, a minha morte!

domingo, 11 de setembro de 2011

"Igreja: de Deus ou dos homens?!"

“Sonhei uma Igreja
despojada de poder
que havia abandonado
     os formalismos do passado
e os gestos inúteis de outrora.


Sonhei uma Igreja
                                                            que tudo sabia compreender
                                                      que a todos sabia amar.

                                                        Sonhei uma Igreja
                                                     despida de autoritarismo
                                                    esquecida de gestos supérfluos
                                                       inclusive vénias reverenciais


Sonhei uma Igreja
menos maternalista
e mais capaz
de restituir à mulher
o seu verdadeiro lugar.

Sonhei uma Igreja
que denunciava a injustiça
quando era preciso denunciar.

Sonhei uma Igreja
que nada sabia além de esperar
como alguém que espera no caminho
que alguém lhe diga como é Jesus Cristo.

Sonhei uma Igreja
que não mais se escondia
por detrás de aparências piedosas
mas que oferecia com toda a clareza a sua verdade

Sonhei
que andava à procura de mim próprio
e à descoberta de Deus
numa Igreja feita verdadeiramente de mulheres e homens”.

Este é um sonho e um projecto que me tem acompanhado desde os meus tempos de Seminário; alias, foram estas palavras as utilizadas no convite para a minha Ordenação Sacerdotal; palavras que já foram publicadas algumas vezes nas Comunidades por onde já passei...
Neste dia em que deixei de ser Pároco do Estoril, lembrei-me delas de novo; simplesmente porque penso e repenso a missão em que fui um dia investido, a tarefa que a própria Igreja me confiou ao conferir-me o Sacramento da Ordem, a vida que aceitei, em plena e liberdade, naquele já longínquo dia 7 de Julho de 1991.
Ser Padre, hoje, nesta nossa sociedade e Igreja concretas, exigem, assim o sinto e creio, é sinónimo de um «combate» interior e exterior que consiga, verdadeiramente, concretizar esse mesmo sonho e projecto!
Palavras, sermões, homilias, discursos, posturas, comportamentos, decisões, que não façam acontecer Evangelho, não revelem a Igreja nascida da Cruz de Cristo, que deformem e adulterem a radicalidade do Reino trazido por Cristo, jamais atrairão os corações para Deus!
Importa, sem medos nem vergonhas, sem falsas diplomacias e ridículas palavras, purificarmos a vida própria de cada um de nós para que brilhe em nós mesmos a luz do Evangelho. É tempo, definitivamente, da frontalidade, da verdade, da transparência, da humildade, do serviço, na Igreja, nos cristãos!
O vedetismo que ainda nos devora, a necessidade de pedestais, a sede de protagonismos, a ansia de aplausos e «améns», o apego ao efémero e passageiro, serão sempre negação do Evangelho e renovada traição do Mestre.
Urge sonhar!
Urge agir!
Urge mudar de direcção, de rumo, se queremos estar à altura das responsabilidades do nosso ser cristão! Urge uma postura outra, se queremos que a Igreja seja casa de acolhimento, espaço de e porto de abrigo a tantos e tantos que a deixaram, a ignoram, a perseguem!
E não é com servilismos doentios e espiritualidades doentias e balofas que o conseguiremos.
Assim Deus me ajude a sonhar a Sua Igreja e a edificá-la, nem que para tal seja preciso o sangue das veias, o sangue da alma.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

"T.P. - Terço no Parque"

Não posso afirmar que tenha sido um Terço «fácil» aquele da passada quarta-feira. no Paredão do Estoril, rezado juntamente com alguns jovens da Paróquia; sabíamos todos, bem cá dentro, que seria o último rezado ali, com intenções pelo Estoril, as suas gentes, as suas preocupações, sonhos, dificuldades, ambições...
Sinceramente, não sei se se «soltaram» mais «Avé-Marias» do que lágrimas! Afinal, foram tantas, tantas as vezes que tantos de nós ali os congregámos em oração, em prece confiante, nessa construção da Igreja, da Comunidade que enchia e preenchia as nossas vidas...
Olhar e escutar aquele mar, sentir bem por dentro a inquietude das ondas, e impossível de não o fazer, aquela viagem pelo tempo, passando pela consciência e pelo coração tantos e tantos rostos, tantas e tantas histórias...
Talvez tenha até sido mesmo dos Terços mais difíceis de rezar; um Terço sofrido, confiante, mas sangrado, entregue, mas angustiado! Sabia bem que a «história» iria mudar, que aquele espaço deixaria de ser quotidiano em mim e em quem me acompanhava!...
«T.P.» assim lhe chamávamos e era conhecido; T.P. «código» que nos congregava no essencial, que nos fazia encontrar e sonhar, pedir e entregar... resta a esperança que a semente tenha caído em boa terra e outros, de quando em vez, por ali ousem essa aventura tão bela de «chutar Avé-Marias para o Céu».

Todavia, o «T.P.» nestes meus passos, neste meu peregrinar, tem de ser realidade a acontecer; ele significa imensamente mais que o passar das «contas» do Rosário por entre os dedos; é, isso sim, tempo de oração pessoal e comunitário, espaço de intimidade e cumplicidade entre todos os que ousam essa oração simples e aparentemente repetitiva...
Assim, o Terço no Paredão transfigurou-se já no «Terço no Parque», este Parque enorme que se encontra bem diante da casa onde agora moro.
E ontem à noite, dia da natividade de Nossa Senhora (nada é por acaso) começámos quatro corações este T.P. (Terço no Parque) aqui em Carcavelos, na Quinta da Alagoa.
Porque no Reino de Deus não há geografia, sabíamos que, ainda que longe do mar e do som da ondas, sob o «olhar» sereno e sossegado das inúmeras árvores envolventes, tendo como companheiros os patos que deambulavam ainda no lago, rezámos. Rezámos por nós, pelo que tínhamos já vivido em comum, por este Carcavelos que Deus ama, pelas paz nos nossos corações, pelas gentes que aqui são a Igreja a servir e a amar...
Diferente? Sem dúvida. Mas apenas na exterioridade do espaço. Afinal para rezar bem, para rezar a sério, basta um coração crente, uma vontade firme de o fazer, uma intenção definida para confiar ao Céu...
E pedimos que este primeiro Terço no Parque se transformasse em muitos outros, em incontáveis, para que Carcavelos fosse mais e mais terra de Deus, e as suas gentes fossem mais e mais corações enamorados de Cristo e da Sua Igreja.
Ontem fomos quatro; hoje podemos ser mais, menos, quem sabe? E que importa?
O que vale mesmo é a verdade e a simplicidade, a pureza e a transparência do coração que reza. Deus fará o resto...
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