"Gritos de verdade e de vida"
"Haverá luz
Sugada no escuro?Será calor
O murmúrio do frio?
Terá amor
O avesso da vida?
Haverá sonhos
No fundo da dor?
Serão gritos
Os cais do silêncio?
Será coragem
A tremura do medo?
Haverá chuva
Que lave este sangue
E deixe que a terra acalme
Devagar
Esquece o medo
Sai do escuro
Abre comportas
Deixa gritar
Vai mais fundo
Persegue o mar
Persegue o mar"...
Palavras que despertam anestesias do coração; palavras que nos "atiram" para longe dos nossos "eus" idolatrados e escondidos, fingidos e camuflados; palavras que desafiam a ir permanentemente mais longe do que os medos que nos amarram, das mentiras que nos asfixiam e iludem, dos fingimentos que nos cegam e matam antes do tempo!!!
Sair do escuro, dos escuros em que nos deixámos cair, por teimosia, arrogância, endeusamento pessoais! Sair do escuro que não nos deixa ver a beleza do mar que haveríamos de perseguir como horizonte de paz e de serenidade quotidianas!
Deixar gritar a verdade que, com medos e vergonhas, abafamos e fingimos não conhecer, não deixando que "a terra acalme"!
Deixar gritar a humildade que nos escapa porque ensinados às grandezas e às aparências que levam a nadas e a vazios constantes e permanentes; deixar gritar a justiça da qual desviamos o olhar e a acção com medo de retaliações de "statuos" adquiridos, de posições sociais conquistadas, de aparências enganosas tornadas verdades definitivas!
Com efeito, diante da história do nosso mundo e da Igreja que somos, haverá luz, haverá calor, haverá esperança? Diante da realidade que nos envolve, seremos muitos, seremos os suficientes para ousarmos esse "grito" que pode transformar, de verdade, a história, a dos outros e a minha em particular?
Em tantos gritos abafados, em incontáveis gritos sufocados pela força das falsas tradições e das falsas modéstias, nos gritos perdidos e sem efeito porque agrilhoados pela nossa falta de confiança no outro, porque temos medo da partilha e da cumplicidade, haverá ainda tempo e oportunidade para um novo "sol" e um novo "calor"?
Haverá sonhos que nos comandem?
Haverá capacidade de os partilhar e viver com o outro, com os demais, ou fechámo-nos em egoísmos atrozes que nos transformam em ilhas isoladas, que se encontram no "mar da vida" ocasionalmente e "quando dá jeito"?!
Que a chuva da nossa vontade lave este "sangue" que escorre nesta página da história do mundo, da nossa história; que esta chuva da nossa humildade e da nossa verdade, levada a sério, consiga em nós um coração novo, um coração puro, um coração de Deus e para Deus, no qual Ele Se orgulhe de verdade.
Teimosamente continuarei a "gritar"!
Quem se juntará?
Teimosamente continuarei a sonhar!
Quem ousará ser cúmplice?

