sábado, 27 de agosto de 2011

"O caminho faz-se caminhando"

Aprendi esta expressão há já muito tempo: "O caminho faz-se caminhando"!
Na verdade, mais que profundas reflexões, mais ou menos filosóficas, mais ou menos teorizadas, mais ou menos espiritualizantes, o nosso caminho vai-se descobrindo e trilhando na medida em que nos predispomos a caminhar e o fazemos de facto!
Uma grande tentação e um forte impedimento ao nosso crescimento interior, à nossa libertação interior é, precisamente, esse deixarmo-nos cair na mera teorização da vida, na simples conjectura intelectual da existência, no filosofar inconsequente sobre questões mais ou menos essenciais, na verborreia pseudo-intelectual em que não raras vezes somos peritos e mestres, sem jamais ousarmos a aventura concreta de nos pormos a caminho...
Ainda que tantas vezes se não saiba o destino; mesmo que nos pareça, simplesmente, estarmos a vaguear sem sentido, mesmo quando cada passo é para nós um avanço "gigante" e quase não saímos do mesmo lugar!
"O caminho faz-se caminhando"!
O medo de arriscar, as inseguranças próprias de quem se põe em marcha, são próprias de quem não se contenta com a ligeireza de um viver sem objectivos ou de um caminhar sem paixão nem determinação.
Para onde vou?
Como vou?
Com quem vou?
Será que chego ao fim?
Que obstáculos terei de ultrapassar?
Conseguirei?
Estas e muitas outras questões erguem-se sempre diante, dentro de nós. Muitas vezes autênticos travões que nos impedem de avançar destemidos na longa estrada da vida; porém, porque o caminho se faz caminhando, tendo como algo próprio do caminhante a possibilidade das quedas, dos enganos, dos desvios, dos atalhos que julgamos valerem a pena, importa avançar sempre...
Uma - e a maior de todas as seguranças e certezas - é que jamais caminhamos sozinhos. Há sempre, sempre, um divino Caminheiro que se faz peregrino da vida connosco; há sempre, sempre, um divino desconhecido que, bem ao nosso lado, é companheiro de viagem e permanece como força, como estímulo, como segurança, como resposta, para as tantas questões que põe o nosso próprio caminhar...
Hoje mais um dia se levanta diante de nós. E com ele o desafio de nos "fazermos à estrada", ou seja, de nos colocarmos em caminho. A caminho para irmos ao encontro de Deus indo ao encontro de cada outro. Mas desafio claro a que nos ponhamos em marcha... Mesmo que não saibamos que trilhos iremos percorrer; mesmo que em alguns momentos da caminhada nos assuste o percurso a seguir; mesmo até que experienciemos a amargura de nos sentirmos perdidos! Importa caminhar. Decididos a chegar... Porque "o caminho faz-se caminhando" e jamais permanecendo quieto, parado, medroso, impávido, petrificado, no mesmo lugar!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

"Avé Maria, Senhora Nossa..."

Salvé, ó Senhora Mãe de Deus e nossa Mãe;
Bendita és tu entre todas as mulheres.
Salvé, ó Mãe de todos os homens e mulheres, corações, vidas e histórias;
Salvé, Senhora do Céu e da Terra,
Senhora de Jasna Gora, Virgem Negra, Mãe e Rainha de quantos de ti se abeiram para deixar uma prece ou uma breve gratidão.
Senhora venerada por toda a humanidade, nesta dia fiz-me teu peregrino de Czestochowa, unindo-me a uma incontável multidão de tantos outros peregrinos que te buscavam, te queriam, te procuravam, te pediam, te agradeciam, te louvavam...
Senti-me pequenino diante da grandiosidade da tua presença;
mas confiadamente balbuciei Avé-Marias pelas intenções que trago no coração.
E ali, ó minha boa e incomparável Mãe, entreguei-te pessoas e corações concretos;
ali confiei medos e sonhos, mágoas e alegrias;
ali soletrei-te nomes e histórias e pedi, pedi, pedi... numa prece que sabes, Mãe, é abandonada e crente, pobre mas confiante...
E agradeci. Tu sabes que agradeci.
E também sabes que razões não me faltavam para o fazer!
Quantas alegrias, quantas realidades, quantos momentos únicos e insubstituíveis, quantas histórias, quantas vidas...
Mãe de Deus, Senhora Virgem Negra, consoladora dos aflitos,
Mãe dos pobres e dos simples, 
Senhora do "Sim" inacabado e perpetuado até ao fim dos tempos:
nesta noite em que escrevo estas palavras
como gostava que relembrasses quanto hoje dirigi filialmente ao teu coração!
Que relembrasses cada prece, cada nome, cada intenção, cada desafio, cada sonho...
Senhora de Jasna Gora
Senhora da Boa-Nova
Senhora de todos os nomes:
eu me ofereço todo a ti, e em prova da minha devoção para contigo
te consagro e entrego tudo quanto tenho e quanto sou.
Que adormeça com a certeza do teu olhar materno
sobre a minha pequenez, a minha miséria e a minha fragilidade.
Que adormeça com a paz que senti ao contemplar hoje o teu rosto negro,
o teu rosto puro, límpido e sereno,
que nos acolhe, simplesmente, como somos: peregrinos a desejar experimentar a paz e a serenidade desse teu colo de Amor indizível e terno.
Ámen.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

"O tempo, esse bem precioso..."

Saber parar o ritmo normal e quotidiano da nossa vida é cada vez mais uma verdadeira "arte". Na verdade, a voragem do tempo consegue demasiadas vezes "cegar-nos" para o essencial, para o que vale mais, consegue anestesiar-nos sobremaneira a ponto de nos transfigurar em gente distraída e apática diante da própria vida verdadeira.
As férias, mais longas ou mais curtas, podem - e devem ser - essa oportunidade real e autêntica de nos encontrarmos connosco próprios, com os outros, com Deus. Ser capaz, de novo, de recentrar o nosso olhar, ser capaz de se aperceber da beleza que nos rodeia, seja a Natureza, seja cada outro que caminha e peregrina bem ao nosso lado.
É maravilhoso descobrir e redescobrir traços novos e antigos que definem a beleza do coração do outro. Beleza que a pressa e o stress quotidianos asfixiam e escondem, banalizam e rotinam! Beleza que a vida corrida de cada dia consegue camuflar e nos deixa, evidentemente, mais pobres, mais cegos...
Ter tempo para escutar cada palavra que o outro tem, de verdade, para dizer; tempo para olhar bem nos olhos quem connosco faz caminho e entender, então mais profundamente esse coração, essa vida, essa história; ter tempo para fazer do nosso tempo o tempo do outro... eis um segredo que enche e preenche bem as férias que possamos ter.
Aqui, pelas estradas, vilas e cidades da Polónia, procuro oferecer esse tempo a quem está comigo. E para além da contemplação da beleza natural, elevar os nossos sentimentos e tentar sermos capazes de "na mesma onda" encontrar Aquele que nos reúne no amor de Cristo, na fé da Igreja, no sonho comum de sermos mais e sempre mais de Deus.
Em cada sorriso, em cada palavra ou em cada silêncio, em cada combinação do que fazer ou visitar, buscar a novidade do outro, respeitá-lo e amá-lo como ele é e ele precisa ser amado e jamais intentar ser objecto e direcção desse mesmo amor; desejar e querer profundamente que o outro seja o mais importante, alegrando-nos com o nosso "apagamento" é caminho seguro e fecundo para conseguirmos a paz de espírito e a harmonia existencial que a "correria" de cada dia nos rouba tão subtilmente!
Continua a ser verdade que nas férias o tempo não pára; todavia ele parece ganhar outro sentido, ele parece prolongar-se indefinidamente, ele parece ser fonte de água cristalina que verdadeiramente nos sacia.
Esta é uma possível postura nas férias que possamos ter. A valorização do tempo porque oferecido, porque doado, ao outro...
Haverá outras formas, sem dúvida. Esta, porém, está a encher-me de gozo interior, de alegria, daquela que não se vê mas se sente bem cá dentro a transbordar...
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