domingo, 14 de agosto de 2011

"Aventura divina"

Estamos muito perto de iniciar, objectivamente, esta aventura divina denominada JMJ 2011. Daqui a algumas horas, cerca de 300 jovens desta Paróquia pôr-se-ão a caminho rumo a Madrid para se encontrarem com milhares de outros jovens, provenientes de todas as partes do mundo, para em comunhão com Pedro, com Bento XVI, testemunharem a alegria da fé, a força da Igreja, a beleza da juventude, a ousadia da irreverência, a esperança num mundo e numa Igreja mais ao jeito de Cristo Jesus.
É claro que toda esta «azáfama» poderá redundar num simples e mero encontro de pessoas, num super evento juvenil; mas é mais claro, mais certo e mais seguro que, também esta JMJ 2011, a exemplo das anteriores, será um poderoso e inesquecível encontro com Deus vivo, presente na Sua Igreja; será um tremendo testemunho para o secularismo que grassa nas nossas cidades; será uma gota de esperança valiosíssima neste mar marcado com os traços dos múltiplos desesperos que dominam incontáveis corações.
Levar cerca de 300 jovens a viver uma experiência singular como esta não é tarefa fácil; a alguns dos jovens da Paróquia foram dadas grandes responsabilidades. A alguns deles foram confiadas grandes missões. São os «Responsáveis» de Equipas e da Organização enquanto tal. E a entrega destes mesmos jovens, o seu testemunho de serviço, de entrega, de abnegação, de compromisso, são verdadeiramente invejáveis num tempo e num mundo - e tantas vezes numa Igreja - marcados pelo egoísmo, pelo facilitismo, pelo endeusamento de si mesmos.
Só Deus e o Seu Coração de Amor conseguirão saber as horas, o tempo, a caridade, o esforço, que foram fazendo no silêncio e na discrição, ao longo destes muitos meses de preparação.
Para mim ficarão sempre como testemunho credível de serviço e de amor à Igreja na entrega de si próprios que me foi dada ver, viver, presenciar, acompanhar, incentivar.
Acredito que para já, para estes jovens a quem foram dadas tamanhas responsabilidades não esquecerão tão depressa o qu significa «serviço», «entrega», «oblação», «cruz», «lava-pés»...
Acredito que no final das JMJ muitos outros regressarão entusiasmados de tal forma que «pegarão fogo» a este Estoril, às suas famílias, à Paróquia enquanto tal... o Fogo do amor, o Fogo da entre-ajuda, o Fogo da caridade, o Fogo da verdade, o Fogo da alegria, o Fogo da Fé genuína e profunda, que demasiadas vezes desaparecem do nosso quotidiano.
Um pedido a quem ler estas palavras: a fecundidade e o êxito da Jornada Mundial da Juventude depende apenas da intensidade da nossa oração e dos nossos sacrifícios. E aí, aí, todos somos poucos para nos deixarmos envolver nesta aventura divina que é de toda a Igreja.
Peço a vossa oração, os vossos sacrifícios, a participação da Eucaristia, as vossas Comunhões, pelos frutos evangélicos desta experiência irrepetível.
Todos sairemos a «ganhar» com o entusiasmo, a vitalidade, a santidade, com que os nossos jovens regressarem; por isso mesmo, queridos amigos leitores, rezemos. Rezemos muito. Que esta seja uma semana forte e profundamente marcada pela oração. Oração pessoal, oração familiar, oração comunitária...
Em Madrid ter-vos-emos a todos presentes. Pessoalmente oferecerei cada oração, cada momento, cada passo, cada Eucaristia, pelo Estoril e para que todos possam beneficiar da eficácia e fecundiade espiritual da Jornada Mundial da Juventude.
Vou com os jovens. Será a minha última actividade como Pároco do Estoril. Mas levo-os a todos bem cá dentro do coração. Sabem bem disso...
Se puder, desde Madrid, irei partilhando o que vão sendo estes dias de Graça e de Bênção...

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

"Cor de Sangue, cor de vida"

A liturgia presenteou-nos dois dias seguidos com a celebração de dois mártires da Igreja: Sta. Edite Stein e S. Lourenço. Muito distantes historicamente falando, tão próximos nas atitudes do coração. Vidas que não se deixarem intimidar pelas forças dos seus mundos contemporâneos, vidas que ousaram obedecer antes a Deus do que aos homens, vidas que verdadeiramente encontraram em Jesus de Nazaré a sua «pérola preciosa», vidas que se deixaram arrebatar total e incondicionalmente pela «loucura» do Evangelho até por ele derramarem a última gota de sangue...
A celebração de um mártir é, para mim, sempre, um poderoso e incomodativo desafio; é um apelo forte e veemente à coragem, à luta contra todas as formas de comodismo e instalação, é provocação à rotina e habituação em que demasiadas vezes assentamos a nossa fé!
O Verão, este tempo que nos é dado viver, é sempre uma «ameaça» à pureza e à beleza da nossa fé e da nossa paixão por Cristo; com demasiada facilidade O relevamos para um plano secundário, convencidos que temos «direito» a fazer férias de Deus, da radicalidade do Evangelho, da fidelidade a um projecto que custou o Sangue derramado de Jesus Cristo.
Daí que este dom da celebração de Santos Mártires seja algo de profundamente benéfico para o nosso peregrinar. Essas vidas relembram que para Deus não há «férias», «intervalos» ou «pausas» mais ou menos prolongadas! Desafiam à renovação constante da fé, interpelam permanentemente à nossa adesão a Cristo, provocam inércias, apatias, sonolências e preguiças!
Olhar o encarnado dos paramentos com que celebramos as festas ou as memórias dos Mártires deveria ser sempre um poderoso e eficaz meio de recomeçarmos a nossa aventura de amor a Cristo e à Igreja. Independentemente daquilo que já fizemos, já rezámos, já demos, já dedicámos!
Um encarnado que nos desvela sempre mais o Mistério belo e sublime da Cruz, que nos dá a certeza da capacidade de fidelidade ao bem maior que é Cristo e Cristo crucificado. Um encarnado que é símbolo do Amor maior, da generosidade maior, da entrega maior, da vivência maior: o Amor, sempre o Amor, ainda que, não raras vezes, ele comporte essa dimensão humanamente nada apetecível do sangue derramado, da vida partilhada, do coração oferecido! Sempre! Sem regatear.
Diante de nós, pois, uma estrada imensa para caminharmos.
Diante de nós, um caminho infindável para desejarmos percorrer a fim de nos tornarmos autênticos discípulos de um Mestre irresistível.
Quando nos parece que nada há de novo para dizer, fazer ou vivenciar, eis que o sinal da Cruz nos dá essa possibilidade de fazer novas todas as coisas; eis que podemos - e devemos - descobrir e redescobrir - novos trilhos de vivência profunda da fé que dizemos professar na liturgia que celebramos.
Um apelo, um desafio que deixo: guardarmos uns minutos para contemplarmos, como se da primeira vez se tratasse - a Cruz e nela o Senhor da Vida crucificado e morto. E nessa contemplação pedirmos o dom da paz e da verdade aos nossos corações. A Igreja transfigurar-se-ia; o mundo seria, necessariamente, diferente!
Porque a cor do Sangue de Cristo é a cor da vida verdadeira e em abundância.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

"Geração(ões) perversa(s)

"Nenhum sinal nos será dado senão o do profeta Jonas". Palavras retiradas do Evangelho de hoje que apelida de "perversa" esta geração que pede sinais a Jesus! Perversa pois que exige ao Mestre a «espectacularidade» das Suas acções, das Suas manifestações; perversa porque não aceita a postura simples e humilde com que Ele Se apresenta diante dos homens e da História; perversa porque no mais íntimo do seu coração aquela (e esta geração) busca a satisfação própria em termos religiosos e espirituais fora de Deus, bem dentro de si mesmos, dos seus limites, das suas verdades, das suas imagens distorcidas de Deus, da verdade, do bem, da vida verdadeira!
O único sinal que será dado aos homens de todos os tempos será o do profeta Jonas, que estando três dias no ventre da baleia simboliza e significa o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, Ele mesmo no seio da terra, Crucificado e Morto e Ressuscitado ao terceiro dia.
E o «sinal de Jonas» em Jesus é o sinal eloquente do Amor sem limites, sem condições, gratuito e incondicional.
E quando o mundo nos exige, como Igreja, «sinais» espectaculares, estrondosos, nós não podemos nem conseguimos oferecer outro que não o «sinal de Jonas», isto é, o sinal maior do amor. Só o amor temos para oferecer e partilhar; só o amor autêntico, generoso, profundo, radical, consegue ser «sinal», «prova», «certeza» da fé que nos anima e do Senhor que nos apaixona e seduz.
Com efeito, os homens deste tempo, creio cada vez mais, estão cansados de palavras e de sermões, de eloquência teológica e sabedoria racional religiosa; o coração humano palpita, exige, precisa, anseia, pelo amor que os cristãos, ao jeito de Jesus de Nazaré, conseguem e podem entregar a cada tempo.
É certo que nos é mais fácil reduzir o apostolado às palavras, às boas intenções; é verdade que não é tão exigente a verborreia espiritual quanto a vida marcada e pautada pela radicalidade do Evangelho! Apetece bem mais exercitar um cristianismo de «sofá» e de «pantufas», de mentalidade vigente com a do mundo - poder, glória, aplausos, pódios, importância, domínio - que a incarnação nas nossas próprias vidas do «sinal de Jonas», das «marcas da Paixão»! Mas enquanto teimarmos, como Igreja, como cristãos, nessas atitudes redutoras de «escrever» um evangelho segundo os nossos apetites e vontades, apenas continuaremos a ser esta geração perversa que se escolhe mais a si mesma que aos desígnios d'Aquele que permanece de braços abertos no cimo de uma Cruz, de Coração trespassado!
Urge uma Igreja do amor, cristãos do amor, comunidades onde o amor não seja palavra bonita mas vida acontecida, onde serviço e entrega, generosidade e partilha, verdade e transparência, são os «trunfos» que temos para apresentar aos descrentes deste nosso tempo.
Havemos, rapidamente, de passar de «geração perversa» a geração crente, serva, pobre, aberta aos dons do Espírito, se pretendemos que a fé seja realidade nesta nossa sociedade...
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