quinta-feira, 11 de agosto de 2011

"Cor de Sangue, cor de vida"

A liturgia presenteou-nos dois dias seguidos com a celebração de dois mártires da Igreja: Sta. Edite Stein e S. Lourenço. Muito distantes historicamente falando, tão próximos nas atitudes do coração. Vidas que não se deixarem intimidar pelas forças dos seus mundos contemporâneos, vidas que ousaram obedecer antes a Deus do que aos homens, vidas que verdadeiramente encontraram em Jesus de Nazaré a sua «pérola preciosa», vidas que se deixaram arrebatar total e incondicionalmente pela «loucura» do Evangelho até por ele derramarem a última gota de sangue...
A celebração de um mártir é, para mim, sempre, um poderoso e incomodativo desafio; é um apelo forte e veemente à coragem, à luta contra todas as formas de comodismo e instalação, é provocação à rotina e habituação em que demasiadas vezes assentamos a nossa fé!
O Verão, este tempo que nos é dado viver, é sempre uma «ameaça» à pureza e à beleza da nossa fé e da nossa paixão por Cristo; com demasiada facilidade O relevamos para um plano secundário, convencidos que temos «direito» a fazer férias de Deus, da radicalidade do Evangelho, da fidelidade a um projecto que custou o Sangue derramado de Jesus Cristo.
Daí que este dom da celebração de Santos Mártires seja algo de profundamente benéfico para o nosso peregrinar. Essas vidas relembram que para Deus não há «férias», «intervalos» ou «pausas» mais ou menos prolongadas! Desafiam à renovação constante da fé, interpelam permanentemente à nossa adesão a Cristo, provocam inércias, apatias, sonolências e preguiças!
Olhar o encarnado dos paramentos com que celebramos as festas ou as memórias dos Mártires deveria ser sempre um poderoso e eficaz meio de recomeçarmos a nossa aventura de amor a Cristo e à Igreja. Independentemente daquilo que já fizemos, já rezámos, já demos, já dedicámos!
Um encarnado que nos desvela sempre mais o Mistério belo e sublime da Cruz, que nos dá a certeza da capacidade de fidelidade ao bem maior que é Cristo e Cristo crucificado. Um encarnado que é símbolo do Amor maior, da generosidade maior, da entrega maior, da vivência maior: o Amor, sempre o Amor, ainda que, não raras vezes, ele comporte essa dimensão humanamente nada apetecível do sangue derramado, da vida partilhada, do coração oferecido! Sempre! Sem regatear.
Diante de nós, pois, uma estrada imensa para caminharmos.
Diante de nós, um caminho infindável para desejarmos percorrer a fim de nos tornarmos autênticos discípulos de um Mestre irresistível.
Quando nos parece que nada há de novo para dizer, fazer ou vivenciar, eis que o sinal da Cruz nos dá essa possibilidade de fazer novas todas as coisas; eis que podemos - e devemos - descobrir e redescobrir - novos trilhos de vivência profunda da fé que dizemos professar na liturgia que celebramos.
Um apelo, um desafio que deixo: guardarmos uns minutos para contemplarmos, como se da primeira vez se tratasse - a Cruz e nela o Senhor da Vida crucificado e morto. E nessa contemplação pedirmos o dom da paz e da verdade aos nossos corações. A Igreja transfigurar-se-ia; o mundo seria, necessariamente, diferente!
Porque a cor do Sangue de Cristo é a cor da vida verdadeira e em abundância.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

"Geração(ões) perversa(s)

"Nenhum sinal nos será dado senão o do profeta Jonas". Palavras retiradas do Evangelho de hoje que apelida de "perversa" esta geração que pede sinais a Jesus! Perversa pois que exige ao Mestre a «espectacularidade» das Suas acções, das Suas manifestações; perversa porque não aceita a postura simples e humilde com que Ele Se apresenta diante dos homens e da História; perversa porque no mais íntimo do seu coração aquela (e esta geração) busca a satisfação própria em termos religiosos e espirituais fora de Deus, bem dentro de si mesmos, dos seus limites, das suas verdades, das suas imagens distorcidas de Deus, da verdade, do bem, da vida verdadeira!
O único sinal que será dado aos homens de todos os tempos será o do profeta Jonas, que estando três dias no ventre da baleia simboliza e significa o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, Ele mesmo no seio da terra, Crucificado e Morto e Ressuscitado ao terceiro dia.
E o «sinal de Jonas» em Jesus é o sinal eloquente do Amor sem limites, sem condições, gratuito e incondicional.
E quando o mundo nos exige, como Igreja, «sinais» espectaculares, estrondosos, nós não podemos nem conseguimos oferecer outro que não o «sinal de Jonas», isto é, o sinal maior do amor. Só o amor temos para oferecer e partilhar; só o amor autêntico, generoso, profundo, radical, consegue ser «sinal», «prova», «certeza» da fé que nos anima e do Senhor que nos apaixona e seduz.
Com efeito, os homens deste tempo, creio cada vez mais, estão cansados de palavras e de sermões, de eloquência teológica e sabedoria racional religiosa; o coração humano palpita, exige, precisa, anseia, pelo amor que os cristãos, ao jeito de Jesus de Nazaré, conseguem e podem entregar a cada tempo.
É certo que nos é mais fácil reduzir o apostolado às palavras, às boas intenções; é verdade que não é tão exigente a verborreia espiritual quanto a vida marcada e pautada pela radicalidade do Evangelho! Apetece bem mais exercitar um cristianismo de «sofá» e de «pantufas», de mentalidade vigente com a do mundo - poder, glória, aplausos, pódios, importância, domínio - que a incarnação nas nossas próprias vidas do «sinal de Jonas», das «marcas da Paixão»! Mas enquanto teimarmos, como Igreja, como cristãos, nessas atitudes redutoras de «escrever» um evangelho segundo os nossos apetites e vontades, apenas continuaremos a ser esta geração perversa que se escolhe mais a si mesma que aos desígnios d'Aquele que permanece de braços abertos no cimo de uma Cruz, de Coração trespassado!
Urge uma Igreja do amor, cristãos do amor, comunidades onde o amor não seja palavra bonita mas vida acontecida, onde serviço e entrega, generosidade e partilha, verdade e transparência, são os «trunfos» que temos para apresentar aos descrentes deste nosso tempo.
Havemos, rapidamente, de passar de «geração perversa» a geração crente, serva, pobre, aberta aos dons do Espírito, se pretendemos que a fé seja realidade nesta nossa sociedade...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

"Olhar-te (sempre) mais um pouco"

"Olhar-te um pouco
Enquanto acaba a noite
Enquanto ainda nenhum gesto te magoa
E o mundo for aquilo que sonhares
Nesse lugar só teu

Olhar-te um pouco
Como se fosse sempre
Até ao fim do tempo, até amanhecer
E a luz deixar entrar o mundo inteiro
E o sonho se esconder

Nalgum lugar perdido
Vou procurar sempre por ti
Há sempre no escuro um brilho
Um luar
Nalgum lugar esquecido
Eu vou esperar sempre por ti

Enquanto dormes
Por um momento à noite
É um tempo ausente que te deixa demorar
Sem guerras nem batalhas pra vencer
Nem dias pra rasgar

Nalgum lugar perdido
Vou procurar sempre por ti
Há sempre no escuro um brilho
Um luar
Nalgum lugar esquecido
Eu vou esperar sempre por ti".


"Eu vou esperar por ti"; eu vou querer estar sempre contigo; eu vou ter-te sempre presente; eu vou para sempre ter-te bem dentro, guardado como um tesouro, no meu coração...
Foste importante demais, decisivo sobremaneira, marcante quanto baste, amor que me preencheu profundamente, tempo e espaço que me envolveu absolutamente...
Foste sonho e foste festa, foste angústia e foste medo, foste anseio e foste paz, foste alegria e foste extase, foste lágrima e foste gargalhada... foste vida da minha vida. E agora "sem guerras nem batalhas", num olhar para trás, num repensar tudo quanto se viveu, esta sensação, melhor, esta certeza, que vou procurar sempre por ti...
Estoril, homem e mulher, criança e jovem que foste a razão do meu ser e do meu viver, vou pensar sempre em ti. Esperar sempre por ti, ou seja, desejar que nunca te esqueça, jamais te menorizar...
Foram horas, foram dias, foram meses, foram anos... de caminho, mais devagar ou mais rápido, de mãos e corações dados, com mais ou menos intensidade, mas foram ,afinal, a tua e a minha vida entrelaçadas e unidas por Deus e pela paixão que por Ele temos.
Assim, esteja onde estiver, em qualquer um lugar esquecido, vou lembrar-me sempre de ti. Sei bem, sinto-o desde já, a saudade que me invade, que me domina, quase me vence! Assim, esteja onde estiver, com quem estiver, sei e sinto que jamais te apagarás desta minha alma e deste meu coração...
Estoril, Estoril, mais das gentes que das praias ou do mar, mais das pessoas que das ruas ou avenidas, mais dos corações que dos edifícios e da história, nalgum lugar, estarás sempre comigo. Porque tu és eu e eu sou tu...
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