"Tanto tempo, e tão pouco"!
Relembro, de forma emocionada, esse dia 7 de Julho de 1991. Aquela entrada entusiasta e vacilante, ousada e frágil, confiante e arriscada, no Mosteiro dos Jerónimos... Relembro aquela prostração no chão enquanto se cantavam as ladainhas e me convencia da minha pequenez e do meu nada diante da Graça que sobre mim seria derramada daí a pouco. Relembro a imposição das mãos do meu Bispo, dos sacerdotes, nesse «abraço» espiritual e amigo de quem se regozija por acolher um irmão mais novo na família sempre pequena dos pastores da Igreja. Relembro a entrega da patena, do cálice... relembro os meus braços abertos já diante do Altar, na concelebração com todos os presentes... aquela «dúvida» existencial: «já sou mesmo padre?» que permanecia ao ritmo da liturgia...
Vinte anos é mesmo muito tempo, e particularmente quando se tem a graça de ter já vivido o ministério sacerdotal em quatro Comunidades concretas. Vinte anos carregados de histórias, de encontros e desencontros, de perdas e ganhos, de lágrimas e sorrisos, de corações seduzidos para Cristo e de outros afastados d'Ele; vinte anos de mãos estendidas sobre o pão e o vinho, Corpo e Sangue do Senhor, que são o mais belo tesouro que possuo e que posso partilhar com os meus irmãos...
É tempo de acção de graças e de exame de consciência; tempo de louvor e de pedir perdão; tempo de gratidão pela fidelidade constante do Bom Pastor e de penitência por tantas e tantas vezes O ter magoado, traído, esquecido, ultrajado!
Tempo para relembrar e tempo para sonhar; tempo para olhar para trás e tempo para erguer o olhar sobre o futuro sempre incerto que temos como herança e testamento existencial. Tempo para, sobretudo, acreditar e me convencer sempre mais que sou tão simplesmente um vaso de barro nas mãos de Deus. Oportunidade para me consciencializar que tudo é dom de Deus, é bênção do Céu, é milagre de Jesus Cristo que Se dignou, um dia, passar por aquela minha «praia» sem história e sem nome e me segredar «vem coMigo e farei de ti pescador de homens»!
Há, nesta noite, sem dúvida alguma, duas palavras a sublinhar: gratidão e perdão!
Gratidão a Deus e perdão aos homens!
Gratidão por me ter escolhido e perdão por demasiadas vezes não ser capaz nem ter correspondido a esse mesmo chamamento, desiludindo, frustrando, magoando, ferindo, abandonando, os homens meus irmãos que Ele me deu para lavar os pés, lhes oferecer a outra face, e por eles ser coroado de espinhos e crucificado ajudando-os a serem mais de Deus e do Céu!
A quantos se cruzaram comigo, com o meu ministério, ao longo destes vinte anos, e que por causa do meu pecado e da minha miséria não conseguiram ver nem encontrar-se com Deus, peço-vos desculpa do fundo da alma!
"Talvez pudesse o tempo parar" e vos garanto que arrepiava caminho e seria diferente, e seria rosto do Bom Pastor, bem aí, nessas situações, palavras, encontros, ausências, etc., em que vos falhei e neguei, dessa forma, o meu Senhor!
Mas o tempo não volta para trás; importa olhar para diante, com o peso suave e duro destes vinte anos e voltar a dizer «Sim, quero», «Sim, quero, com a graça de Deus»!
Quero continuar a combater o bom combate até que Deus dessa aventura me ache digno; quero continuar a amar a Igreja, a servi-la com paixão, até que o Bom Pastor o permita.
Ao entrar nesta nova etapa do ministério, com as «novidades» que se apresentam no horizonte, no meio de incertezas e de dúvidas, com receios, sonhos e esperanças, há uma verdade que teimosamente continuarei a segredar a Jesus: «Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade».
Que isso me baste, me console, me encha e preencha a existência...
Vinte anos: tanto tempo e tão pouco ao mesmo tempo...
