quinta-feira, 7 de julho de 2011

"Tanto tempo, e tão pouco"!

Vinte anos já é muito tempo. Talvez «mais ainda» na vida de um sacerdote, na medida em que cada dia é vivido com uma intensidade especial, num apelo constante a uma entrega sem medida, a um chamamento que implica fidelidade absoluta, a uma vocação que não se compadece com «intervalos» ou «pausas no caminho» percorrido...
Relembro, de forma emocionada, esse dia 7 de Julho de 1991. Aquela entrada entusiasta e vacilante, ousada e frágil, confiante e arriscada, no Mosteiro dos Jerónimos... Relembro aquela prostração no chão enquanto se cantavam as ladainhas e me convencia da minha pequenez e do meu nada diante da Graça que sobre mim seria derramada daí a pouco. Relembro a imposição das mãos do meu Bispo, dos sacerdotes, nesse «abraço» espiritual e amigo de quem se regozija por acolher um irmão mais novo na família sempre pequena dos pastores da Igreja. Relembro a entrega da patena, do cálice... relembro os meus braços abertos já diante do Altar, na concelebração com todos os presentes... aquela «dúvida» existencial: «já sou mesmo padre?» que permanecia ao ritmo da liturgia...
Vinte anos é mesmo muito tempo, e particularmente quando se tem a graça de ter já vivido o ministério sacerdotal em quatro Comunidades concretas. Vinte anos carregados de histórias, de encontros e desencontros, de perdas e ganhos, de lágrimas e sorrisos, de corações seduzidos para Cristo e de outros afastados d'Ele; vinte anos de mãos estendidas sobre o pão e o vinho, Corpo e Sangue do Senhor, que são o mais belo tesouro que possuo e que posso partilhar com os meus irmãos...
É tempo de acção de graças e de exame de consciência; tempo de louvor e de pedir perdão; tempo de gratidão pela fidelidade constante do Bom Pastor e de penitência por tantas e tantas vezes O ter magoado, traído, esquecido, ultrajado!
Tempo para relembrar e tempo para sonhar; tempo para olhar para trás e tempo para erguer o olhar sobre o futuro sempre incerto que temos como herança e testamento existencial. Tempo para, sobretudo, acreditar e me convencer sempre mais que sou tão simplesmente um vaso de barro nas mãos de Deus. Oportunidade para me consciencializar que tudo é dom de Deus, é bênção do Céu, é milagre de Jesus Cristo que Se dignou, um dia, passar por aquela minha «praia» sem história e sem nome e me segredar «vem coMigo e farei de ti pescador de homens»!
Há, nesta noite, sem dúvida alguma, duas palavras a sublinhar: gratidão e perdão!
Gratidão a Deus e perdão aos homens!
Gratidão por me ter escolhido e perdão por demasiadas vezes não ser capaz nem ter correspondido a esse mesmo chamamento, desiludindo, frustrando, magoando, ferindo, abandonando, os homens meus irmãos que Ele me deu para lavar os pés, lhes oferecer a outra face, e por eles ser coroado de espinhos e crucificado ajudando-os a serem mais de Deus e do Céu!
A quantos se cruzaram comigo, com o meu ministério, ao longo destes vinte anos, e que por causa do meu pecado e da minha miséria não conseguiram ver nem encontrar-se com Deus, peço-vos desculpa do fundo da alma!
"Talvez pudesse o tempo parar" e vos garanto que arrepiava caminho e seria diferente, e seria rosto do Bom Pastor, bem aí, nessas situações, palavras, encontros, ausências, etc., em que vos falhei e neguei, dessa forma, o meu Senhor!
Mas o tempo não volta para trás; importa olhar para diante, com o peso suave e duro destes vinte anos e voltar a dizer «Sim, quero», «Sim, quero, com a graça de Deus»!
Quero continuar a combater o bom combate até que Deus dessa aventura me ache digno; quero continuar a amar a Igreja, a servi-la com paixão, até que o Bom Pastor o permita.
Ao entrar nesta nova etapa do ministério, com as «novidades» que se apresentam no horizonte, no meio de incertezas e de dúvidas, com receios, sonhos e esperanças, há uma verdade que teimosamente continuarei a segredar a Jesus: «Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade».
Que isso me baste, me console, me encha e preencha a existência...
Vinte anos: tanto tempo e tão pouco ao mesmo tempo...

domingo, 3 de julho de 2011

"Vinde a Mim..."!

Gosto muito destas palavras de Jesus direccionadas totalmente aos nossos corações: "Vinde a Mim, vós todos..."; gosto porque a escuto como palavras personalizadas, como apelos nominais, como desafios particulares a estes homens e mulheres que nós somos...
"Vinde a Mim... e encontrareis descanso... o Meu jugo é suave e a Minha carga é leve"! Palavras que, como também afirma o Evangelho de hoje, são apenas entendidas pelos «simples» e pelos «pequeninos»! Os «sábios» e os «inteligentes», isto é, os «cheios de si mesmo», os «auto-suficientes», aqueles que vivem «inchados» nos seus conceitos e preconceitos, quantos vivem, no mundo e na Igreja, em função de si próprios e dos seus «esquemas», jamais entenderão a «lógica» que nos revela o Coração de Deus como fonte de paz, como lugar e espaço de serenidade e de harmonia existencial.
Jesus pede, categoricamente, que vamos a Ele, que sejamos capazes de sair de nós próprios e das nossas certezas e verdades demasiadas vezes enganosas e enviesadas; Ele pretende que ousemos a coragem de deixar de viver obcecados com os nossos «umbigos» para nos abrirmos à novidade que é Ele mesmo, o Seu Reino, a Sua Palavra, a Sua proposta!
Demasiadas vezes prendemo-nos a «evangelhos» de letra pequena, ou seja, a idealismos piedosos que passam e permanecem nas nossas cabeças em detrimento do Evangelho que deveria permanecer nos nossos corações; demasiadas vezes usamos o Santo nome de Deus, da Igreja, da Boa-Nova do Reino para deles nos servirmos em proveito próprio, num esforço de endeusamento da personalidade, numa tentativa de garantir que somos «importantes», «decisivos», «únicos»! Usando-se, se for preciso, a mentira, a calúnia, a mediocridade, a pressão, a imposição, o cinismo!...
E afinal, diz-nos o Evangelho, o Reino é mostrado e revelado aos simples, aos pequeninos, aos humildes!
Que abjecto paradoxo este o de falarmos de Deus e do Seu Reino e, depois, em palavras, comportamentos, atitudes, viver-se contra Deus! Pregar-se e anunciar-se a comunhão e a fraternidade e, depois, exercitamos o desamor e a desconfiança, incarnamos a falsidade e a injúria!
Aquelas palavras do Evangelho "Ai de ti Corazim, ai de ti Cafarnaum..." não foram apagadas pelo «vento» ou pela História; elas permanecem actuais para quantos escutam Jesus de Nazaré e O rejeitam, com mais ou menos diplomacia, com mais ou menos subtileza!
E por essa razão, Ele teima em pedir-nos: "Vinde a Mim"!
Porque só n'Ele a Verdade!
Porque apenas n'Ele a Paz!
Porque só n'Ele a Justiça!
Porque só Ele a Salvação!
Desafiados a aprender de Cristo, manso e humilde de Coração, desafiados a tornarmo-nos simples e humildes, servos e pequeninos... como caminho de vida verdadeira, de seguimento autêntico, de discipulado credível.
"Vinde a Mim vós todos"! Todos, sem excepção! 

segunda-feira, 27 de junho de 2011

"Amigos, irmãos, corações que se dão"

Apetece-me falar da amizade; sinto uma necessidade interior, premente, quase como um fogo que arde bem cá no fundo de mim, desse sentimento nobre e difícil, grande e marcante, se vivido na radicalidade e na exigência, que é a amizade...
Falar daquele pulsar do coração que se sente mais forte, mais palpitante, mais cheio, quando estamos diante de alguém que parece nos complemente, com a sua presença e cumplicidade, com o seu sorriso e a sua simplicidade.
A amizade é sempre um dom de Deus, um bem do Alto. Porque quando existe ela brota e vive-se no santuário mais belo e mais profundo que possuímos: o coração. E se brota do coração puro, desinteressado, genuíno, gratuito, fiel, então só pode vir de Deus...
Agradeço-Lhe esse dom na minha vida, no meu ministério, pois que é factor determinante do que sou e de como sou. Olho e lembro e relembro rostos e histórias, momentos e "horas" irrepetíveis vividos com algumas pessoas que são parte de mim, que são história da minha história...
Como canta o poeta, são "gente que fica na história da gente" pois que os seus nomes permanecem e permanecerão para sempre gravados no meu coração. 
Amigos de "letra grande", corações que sabemos e sentimos poder com eles partilhar a verdade mais funda ou a banalidade mais superficial; amigos que nos aceitam, nos escutam, nos acolhem, como somos, ou seja, com defeitos e fragilidades, com pequenez e pecado, mas que nos dão a mão, nos dão o coração, nos dão a vida mesmo...
E é tão bom gostar de gostar daqueles a quem temos por amigos; é tão gratificante saber que somos cúmplices na vida e no caminho de alguém; é verdadeiramente único aquele momento em que não se precisa pronunciar uma palavra que seja e o outro percebe, entende, capta, em absoluto, aquilo que temos para dizer, para confidenciar, para partilhar...
A Amizade é uma excelente e bela tradução do amor humano. Ela é obra da acção dos corações, da necessidade que estes têm de se saberem e sentirem isolados, de se saberem e sentirem perdidos no mundo.
Um homem sem amigos é, simplesmente, um triste homem!
Porque não consegue experienciar a beleza da cumplicidade, da comunhão, da complementaridade, da unidade que tantas e tantas vezes se alcançam entre corações distintos mas irmãos, diferentes mas irmãos.
Nesta hora avançada da noite entrego a Deus nomes e corações concretos, histórias e vidas que são parte de mim... e bendigo, e agradeço essas vidas que Ele colocou no meu caminho...
Amigos que são irmãos, companheiros de viagem, solidários em sonhos e esperanças, irmanados no essencial: o coração.
E sorrio, e experimento a paz que é saber-se amigo, a alegria que é poder amar dessa forma pura, singela, gratuita, generosa, grande, gigante mesmo...
A cada um permaneça aqui definitivamente um abraço apertado, forte, que signifique gratidão pelo que são para mim...
Amo-vos muito. Muito mesmo, meus amigos, meus irmãos mais velhos ou mais novos...
Amo-vos muito, meus amigos, meus manos mais novos...

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