segunda-feira, 27 de junho de 2011

"Amigos, irmãos, corações que se dão"

Apetece-me falar da amizade; sinto uma necessidade interior, premente, quase como um fogo que arde bem cá no fundo de mim, desse sentimento nobre e difícil, grande e marcante, se vivido na radicalidade e na exigência, que é a amizade...
Falar daquele pulsar do coração que se sente mais forte, mais palpitante, mais cheio, quando estamos diante de alguém que parece nos complemente, com a sua presença e cumplicidade, com o seu sorriso e a sua simplicidade.
A amizade é sempre um dom de Deus, um bem do Alto. Porque quando existe ela brota e vive-se no santuário mais belo e mais profundo que possuímos: o coração. E se brota do coração puro, desinteressado, genuíno, gratuito, fiel, então só pode vir de Deus...
Agradeço-Lhe esse dom na minha vida, no meu ministério, pois que é factor determinante do que sou e de como sou. Olho e lembro e relembro rostos e histórias, momentos e "horas" irrepetíveis vividos com algumas pessoas que são parte de mim, que são história da minha história...
Como canta o poeta, são "gente que fica na história da gente" pois que os seus nomes permanecem e permanecerão para sempre gravados no meu coração. 
Amigos de "letra grande", corações que sabemos e sentimos poder com eles partilhar a verdade mais funda ou a banalidade mais superficial; amigos que nos aceitam, nos escutam, nos acolhem, como somos, ou seja, com defeitos e fragilidades, com pequenez e pecado, mas que nos dão a mão, nos dão o coração, nos dão a vida mesmo...
E é tão bom gostar de gostar daqueles a quem temos por amigos; é tão gratificante saber que somos cúmplices na vida e no caminho de alguém; é verdadeiramente único aquele momento em que não se precisa pronunciar uma palavra que seja e o outro percebe, entende, capta, em absoluto, aquilo que temos para dizer, para confidenciar, para partilhar...
A Amizade é uma excelente e bela tradução do amor humano. Ela é obra da acção dos corações, da necessidade que estes têm de se saberem e sentirem isolados, de se saberem e sentirem perdidos no mundo.
Um homem sem amigos é, simplesmente, um triste homem!
Porque não consegue experienciar a beleza da cumplicidade, da comunhão, da complementaridade, da unidade que tantas e tantas vezes se alcançam entre corações distintos mas irmãos, diferentes mas irmãos.
Nesta hora avançada da noite entrego a Deus nomes e corações concretos, histórias e vidas que são parte de mim... e bendigo, e agradeço essas vidas que Ele colocou no meu caminho...
Amigos que são irmãos, companheiros de viagem, solidários em sonhos e esperanças, irmanados no essencial: o coração.
E sorrio, e experimento a paz que é saber-se amigo, a alegria que é poder amar dessa forma pura, singela, gratuita, generosa, grande, gigante mesmo...
A cada um permaneça aqui definitivamente um abraço apertado, forte, que signifique gratidão pelo que são para mim...
Amo-vos muito. Muito mesmo, meus amigos, meus irmãos mais velhos ou mais novos...
Amo-vos muito, meus amigos, meus manos mais novos...

domingo, 26 de junho de 2011

"Dignos de Deus..."

É quase impossível de suportar a Palavra hoje proclamada; porque ela rompe com os nossos esquemas mais tradicionais, ela esbarra com conceitos que temos como imutáveis, ela desorienta as certezas que já acumulámos; ela abana construções que temos por terminadas e definitivas!
Descobrimos e redescobrimos um Deus que chama e provoca a segui-l'O com absoluta fidelidade, sem podermos pactuar com «senhores» outros que cobiçam permanentemente o lugar de Deus na vida e no coração!
Na verdade, apenas é de Deus, somente é discípulo, aquele que o aceita ser na sua completa liberdade. E sabemos todos que ser apóstolo implica o assumir de critérios e de valores, o abraçar de comportamentos e de posturas que, demasiadas vezes, não se adequam à mentalidade vigente, à moda sufocante, às aparências banalizantes, aos facilitismos tão frequentemente acarinhados por nós!
Trata-se de escolhermos se queremos, ou não, ser dignos de Deus, ou seja, se desejamos, ou não, assumir radicalmente a nossa condição de baptizados, de discípulos, de enamorados de Jesus Cristo! E quando se «agenda» o amor a Deus e ao próximo, não se é, portanto, digno de Deus; quando a hipocrisia assume lugar de destaque na nossa conduta quotidiana, não se é, portanto, digno de Deus; quando se vive em função da imagem e da aparência diante do olhar dos outros em vez da verdade e da justiça que Deus vê, não se é, portanto, digno de Deus; cada vez que Cristo e a Igreja são secundarizados por valores que denominamos de nobres e de positivos, de fundamentais e insubstituíveis, não se é, portanto, digno de Deus; sempre que absolutizamos a nossa postura, pensamentos, verdades, e até a própria vida, não se é, portanto, digno de Deus; sempre que fazemos de Deus mais um simples concorrente com as demais realidades que nos podem oferecer a paz e a felicidade almejadas pelos nossos corações, não se é, portanto, digno de Deus!
O caminho é bem claro e está sobejamente traçado diante de nós: Cristo Jesus, servo da humanidade, que lava os pés aos irmãos, e que entrega a Sua vida pela nossa própria vida.
E porque o discípulo não é mais que o seu Senhor, para sermos dignos continuadores desta divina missão, jamais podemos criar evangelhos de conveniência, liturgias de agrado particular, comportamentos legitimados pela nossa inércia e endeusamento pessoais, pregações que minimalizem a Boa Nova do Reino, sermões que obstaculizem a beleza de Cristo e de Cristo Crucificado por Amor!
Evangelhos à nossa medida, espiritualidades de acordo com as nossas vontades, cristianismo reduzido à nossa imagem, fé secundarizada à nossa semelhança, alcança, simplesmente essa Palavra incómoda e escandalosa do texto sagrado hoje proclamado na liturgia de hoje: «não é digno de Mim»!
Importa escolher com ousadia; importa decidir com coragem e determinação: ou por Cristo ou contra Cristo! Jamais haverá meio termo! Para leigos, sacerdotes, bispos! Ou por Ele, ou contra Ele!
Por que ou por quem nos decidimos verdadeiramente?

domingo, 19 de junho de 2011

"Um Deus de Amor e apenas de Amor"
 
Domingo da Santíssima Trindade é, na nossa Diocese de Lisboa, o Dia da Igreja Diocesana. É este apelo e desafio a olharmos a Igreja como rosto belo de um Deus que é Pai, é Filho e é Espírito Santo. Dia para nos sabermos congratular pelo dom e mistério que é a própria Igreja que somos e a que pertencemos; dia para nos sentirmos interpelados a descobrir - e redescobrir - a Igreja como o sinal eloquente do Amor de Deus a esta nossa humanidade peregrina, rumo a destinos tantas vezes incertos, vazios, ocos e tresmalhados!
Escutamos no Evangelho de hoje: "Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho Unigénito".
Que na fé e na adesão à Palavra sabemos que podemos afirmar hoje: «Deus ama de tal modo o mundo que lhe dá a Sua Igreja». Na verdade, quando se fala de Deus é sempre de Amor, de um Amor especial e único, que se fala; quando se pensa em Deus, apenas num Amor singular e gratuito se pode pensar. Porque, de facto, Ele continua, desde o primeiro segundo da Criação, a amar cada tempo, cada homem, que lhe entrega e oferece desmesuradamente a própria salvação, a possibilidade de cada homem chegar ao Céu, à eternidade...
Hoje, neste mundo peculiar em que somos chamados a viver, nesta multiplicidade de sociedades e culturas onde está presente o Homem do século XXI, Deus teima amar o mundo, teima salvar o mundo, oferecendo-lhe a Sua Igreja como caminho de vida que é verdadeira; de verdade que liberta bem por dentro, de caminho que conduz ao seio daquela felicidade almejada por cada coração humano. Deus ama de tal modo o mundo, cada homem e mulher concretos, que lhe dá a Igreja como forma desse mesmo Homem se encontrar com Ele. Porque no Seu sonho, na Sua vontade, é na Igreja, Corpo Místico de Cristo, que se encontra a salvação para cada coração humano.
Porém, cabe-nos a nós meditar, reflectir, sobre que modelo, que rosto, que espelho, de Igreja temos sido capazes de anunciar e oferecer ao mundo que nos rodeia e que somos! Cabe-nos a nós, cristãos, a nós Igreja deste tempo, perceber se a nossa vida e a nossa fé «falam» eloquentemente deste Amor que Deus é, enquanto Igreja que somos!
O mundo olhará para a Igreja e entende que Deus é Amor?! Os homens descrentes, apáticos, indiferentes, ao Evangelho, - e sabemos que são incontáveis - descobrem na vida dos crentes, no peregrinar da Igreja, a ternura, a compaixão, a salvação, que Deus é?!
A nossa vida concreta, as nossas palavras e desejos, as nossas decisões e sonhos, a nossa postura diante da vida, os nossos corações e o seu pulsar, revelam e anunciam o Amor de Deus?!
Na verdade, é na Igreja que somos que o mundo contemporâneo pode reencontrar-se com Deus. Mas quantas e quantas vezes, em lugar de encontro nãos nos transfiguramos em espaços de desencontro, de mal estar, de incoerência, de mentira?! Que tem como única consequência o afastamento do mundo do Amor que Deus é?!
Enquanto não percebermos e acreditarmos que somos a Igreja, que cada um de nós tem no seu seio uma missão insubstituível, que depende da nossa adesão a Cristo a vinda, a presença, o convencimento de tantos outros corações, jamais estaremos a ser e a evidenciar o Amor que Deus tem por esta humanidade!
Enquanto teimarmos em servir-nos da Igreja mais que a servir como ao Deus vivo e verdadeiro, apenas conseguiremos testemunhar aos homens que sabemos cumprir ritos, proclamar normas, vociferar leis, realizar encontros de palavreado, em vez de oferecer a paz própria de quem se sabe de Deus, de quem se sente amado por Deus!
O mundo é descrente do Evangelho por culpa da Igreja que somos! Porque, com mais ou menos facilidade, nos demitimos de santificar a Igreja com a nossa própria santificação! Porque desistimos de dar a vida pela própria Igreja! Porque esquecemos que amar e servir a Igreja é o sinal mais do nosso amor a Deus!
E o mundo não quer discursos, não ambiciona palavras, não deseja sermões... o mundo quer que homens e mulheres concretos falem, com a vida, de amor, de paz, de verdade, de justiça, de tolerância, de transparência, de equidade, de misericórdia, de salvação!
Deus ama de tal modo o mundo que lhe dá a Sua própria Igreja.
Presente maravilhoso de Deus que não raras vezes nós mesmos envenenamos com a nossa vida pecaminosa, adormecida, estagnada, medíocre!
Presente maravilhoso que havemos de oferecer a cada coração na medida da nossa paixão pelo próprio Deus que dizemos acreditar e teimamos celebrar...
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