terça-feira, 14 de junho de 2011

"Um pouco de Céu"

"Só hoje senti
que o rumo a seguir
levava pra longe
senti que este chão
já não tinha espaço
pra tudo o que foge
não sei o motivo pra ir
só sei que não posso ficar
não sei o que vem a seguir
mas quero procurar
e hoje deixei
de tentar erguer
os planos de sempre
aqueles que são
pra outro amanhã
que há-de ser diferente
não quero levar o que dei
talvez nem sequer o que é meu
é que hoje parece bastar
um pouco de céu
um pouco de céu
só hoje esperei
já sem desespero
que a noite caísse
nenhuma palavra
foi hoje diferente
do que já se disse
e há qualquer coisa a nascer
bem dentro no fundo de mim
e há uma força a vencer
qualquer outro fim
não quero levar o que dei
talvez nem sequer o que é meu
é que hoje parece bastar
um pouco de céu
um pouco de céu".


Um rumo a seguir que me leva mais longe; um caminho a percorrer que me transfigura desejos, horizontes e projectos; um trilho outro que me cabe percorrer com a sabedoria da confiança, a beleza da esperança, a ousadia da caridade...
Na verdade, ergue-se "um amanhã que há-de ser diferente", levanta-se um "depois" que trará as suas novidades. É certo! Porém, sem nunca renegar o tempo que já foi, a história que se escreveu, o amor partilhado, dado e recebido, numa palavra, a vida que se viveu...
E com humildade "canto": "não quero levar o que dei, talvez nem sequer o que é meu"...
Simplesmente porque também a mim me parece bastar, nesta hora, "um pouco de Céu"!
Sim, bastar-me-ia um pouco daquele Céu onde terminam as mentiras e se travam os boatos! Um pouco de Céu onde se destroem as maledicências e se aniquilam os cinismos e as intrigas! Bastar-me-ia um pouco de Céu onde a verdade fosse a "palavra de ordem" e a transparência fossem "cartão de visita" do nosso ser cristão!
Desejo tão simplesmente que o meu coração, nesta hora peculiar, irrepetível, fizesse a experiência da paz que brota da confiança, da amizade pura, do sorriso sincero, da presença amistosa e genuína, da fé profunda e sincera, alicerçada em Jesus Bom Pastor!
De facto, não sei o que vem a seguir; porém, na verdade da fé, quero procurar... e procurar ser, viver, servir, a Igreja que aprendi do Evangelho: serva, humilde, verdadeira, transparente, abandonada, desejosa de ser toda de Deus mesmo que isso implique "combate" com os homens!
Uma prece, um apelo, um desejo: cessem as intrigas nesta hora, terminem os juízos precipitados, abortem  as críticas mesquinhas que em nada falam de Deus e do Seu Reino!
A fim de sermos Igreja, aquela Igreja nascida do Fogo do Pentecostes, que fala eloquentemente o Amor. E que isso lhe baste; e que isso nos baste...

domingo, 12 de junho de 2011

Mandai, Senhor, o Vosso Espírito, 
e renovai a Igreja!

Pentecostes!
Dia, sinal. certeza, da força, vitalidade e divindade da Igreja!Pentecostes!
Onde os Apóstolos perdem os medos que os aprisionavam e impediam de falar aberta e eloquentemente sobre a fé, sobre Cristo Ressuscitado, sobre o Amor definitivamente revelado numa Cruz!
Fogo divino, Fogo do Céu, que queima amarras e prisões, que destrói medos e vergonhas, que aniquila facilitismos e encenações para, derradeiramente, se apresentarem como Igreja, Povo Santo de Deus, capaz de chegar a cada coração humano, quando utiliza a única linguagem perceptível e aceitável por toda a humanidade: o Amor.
Todos aqueles povos, culturas, raças, nações entendia Pedro (a Igreja) pois que falava o Amor, apresentava o Amor, era o Amor...
Como ontem, se a Igreja que somos deseja ser aceite, entendida, acolhida e amada pela humanidade tem "apenas" e "somente" de usar a mesma linguagem do dia de Pentecostes, a linguagem do Amor, esse Fogo de Deus que é capaz de destruir todas as ameaças à vida e à verdade, à humildade e à caridade.
Olhamos à nossa volta, buscamos entender o pensamento da cultura vigente, intentamos decifrar opções, critérios, posturas, horizontes, de gente como nós mas perfeitamente indiferentes à fé, a Jesus Cristo. Parece que a humanidade se afasta de Deus, numa negação crescente, numa rejeição evidente, numa indiferença galopante...
Que caminhos percorremos como Igreja, como cristãos, diante desta realidade?
Como viver a apregoada "nova evangelização"?
Creio que apenas um caminho, o único caminho, o de sempre: a linguagem do Amor, a verdade do Pentecostes, o Fogo da caridade que é a verdade.
Teimosamente preferimos queixar-nos dos desvarios mundanos, das loucuras terrenas, sublinhando posturas eclesiásticas, rituais, normativas, rotineiras, canónicas!!!!
Que fizemos do Amor?
Onde o escondemos?
Onde o perdemos?
Onde o deixámos?
Não valeria a pena repensar quando e onde vivemos verdadeiramente o Amor e ousar experienciá-lo de novo no coração, no seio da Igreja que somos? Não seria mais evangélico abraçar esse Fogo em vez de sermos apóstolos do desamor, da desunião, da discórdia, da diplomacia, das aparências, das lutas pelos lugares honrosos no mundo e na Igreja, dos cinismos e das invejas ocas e vãs?
O mundo jamais nos entenderá se teimarmos no "contra-evangelho", ou seja, naqueles sentimentos e palavras, atitudes e juízos, desejos e objectivos que pautam demasiadas vidas ditas cristãs!
Intentar falar de Deus e viver contra Ele será sempre o pior contra-testemunho que poderemos oferecer aos homens de cada tempo!
Escrever, pregar, anunciar o Amor e permanecer amarrado no desamor será sempre sinal de não evangelização, de afastamento dos homens do Evangelho, de indiferença perante esse sinal eloquente que é a Cruz!
"Mandai, Senhor, o Vosso Espírito, e renovai a terra" cantaremos nas nossas igrejas neste Domingo de Pentecostes.
Mas poderíamos ser mais ousados, mais simples e mais humildes e rezar com fé: "Mandai, Senhor, o Vosso Espírito, e renovai a Igreja"!
A Igreja não se enche de vidas se não lhes falarmos de Amor. Os corações não deixarão de permanecer indiferentes a Deus se não lhes mostramos, na vida, com vida, o Amor.
Os medos dos primeiros Apóstolos impedia-os de anunciar Jesus Cristo!
O medo dos apóstolos de hoje - cada um de nós - o medo, a vergonha, a preguiça, a falsidade, a inveja e o ciúme, a maledicência e o cinismo piedoso, permanecerão impedimento para os tantos, os incontáveis homens e mulheres que se cruzam connosco na vida e para quem a Cruz e o Crucificado Ressuscitado nada significam!
Ficaremos indiferentes?
Teimaremos na vivência e no testemunho do desamor?!
Façamos exame de consciência e concluamos que caminhos andaremos a trilhar...

terça-feira, 7 de junho de 2011

"Ondas de mares altos"

"À margem
Estarei
Estarei
Bem por sobre as águas
Muito bem
À margem,
Também
Serei


Serei sobre as águas
Sabe bem
Margens, bravas, vagas
Margens, claras, vagas
Ausente, não sou diferente;
- eu ando nas margens da corrente
E o tempo que voa - à toa eu ando,
Nas margens da corrente"
.
O tempo parece agora ser mais breve, mais lento, quase parado...
A aparência pode até ter os traços da ausência, do esquecimento, da desistência ou, pior, do abandono!
Mas, nem ausente nem diferente; simplesmente esta necessidade de preservar um coração que não pode ser impedido de amar; simplesmente este esforço, esta mesma vontade, de forma distinta, de estar, servir, entregar, gastar e desgastar o que tenho e o que sou.
As vagas bravas intentam violentar e, negativamente, desassossegar, esta vida que desejo serena, objectiva, direccionada, tranquila. As vagas bravas, provenientes de muitas "marés" buscam uma desarmonia que intento não permitir, mas que, porque humanos que somos, conseguem fazer marear aquilo que parecia certo, seguro, determinado!
Mas estarei bem por sobre as águas que buscam afogar o que de bom a vida nos ofereceu, a história nos cumulou, Deus nos agraciou.
Estarei bem por sobre as águas que desejem fazer esquecer a beleza que se construiu, as águas que desejam agora (tarde demais) criar contendas ou divisões, quando o essencial está alicerçado na rocha que é Jesus, a Sua Palavra, o Seu Caminho!
"Quem a Deus tem, nada lhe falta", canta a Igreja repetidas vezes; como eu hei-de cantar enquanto nessa verdade de vida acreditar teimosamente; como eu hei-de "gritar" todas as vezes que vozes derrotistas, sonhos mundanos, desejos terrenos, espiritualidades palacianas almejarem sobrepor-se à humildade e à simplicidade do Evangelho.
"No coração da Igreja eu serei o amor" afirmava um coração puro e cheio de Deus. Mesmo que no seio da Igreja demasiadas vezes prevaleça o desamor, o nosso caminho está definido e traçado há mais de dois mil anos: uma Cruz que nos revela que apenas o amor nos fala de Deus. Utilizar, na palavra ou na vida, outra linguagem, será sempre falar de um Deus que não existe! E esse eu não quero! Não quero!
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