"Nunca por chegar ao fim..."
"Ninguém disse que os dias eram nossos
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que podia arrancar sempre
mais uma madrugada
Ninguém disse que o riso nos pertence
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que podia arrancar sempre
E deixar-me devorar pelos sentidos
E rasgar-me do mais fundo que há em mim
Emaranhar-me no mundo
e morrer por ser preciso
Nunca por chegar ao fim
Ninguém disse que os dias eram nossos
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que sabia arrancar sempre
mais uma gargalhada
E deixar-me devorar pelos sentidos
E rasgar-me do mais fundo que há em mim
Emaranhar-me no mundo
e morrer por ser preciso
Nunca por chegar ao fim".
Porque cada dia é uma aventura de entrega de amor, porque cada momento nos pode desvelar o sentido da eternidade, porque cada acontecimento pode trazer consigo uma «meta» a alcançar, porque cada segundo da existência nos pode segredar a infinitude de Deus, ouso "Rasgar-me do mais fundo que há em mim", para aceitar na paz e no abandono próprio de quem quer ser mais de Deus do que da lógica dos homens os «sinais» que me pedem sejam seguidos como «caminho, verdade e vida» da minha própria vida.
E querer, querer muito, desejar profundamente "morrer por ser preciso (e) nunca por chegar ao fim". Como afirma Jesus categoricamente no Evangelho «ninguém me tira a vida, sou Eu que a dou espontaneamente», creiam que não é por algo ter chegado ao fim, por alguma obra ter terminado, por um objectivo ter sido alcançado... é antes morrer por ser preciso, ou seja, acreditar que é preciso que esta realidade aconteça. É morrer por ser preciso o testemunho do despojamento e da obediência, a referência da disponibilidade e do bem maior, o exemplo da finitude das palavras e das obras... para aceitarmos e acreditarmos que o Céu sabe mais, imensamente mais que cada um de nós e nós todos juntos!
Na verdade, "ninguém prometeu nada"; fui eu, fomos nós, que julgámos que havia mais tempo para "uma gargalhada", para uma nova "madrugada"! Com efeito, "ninguém disse que os dias eram nossos" ou que "o riso nos pertence"... Nós é que julgamos que fazemos o tempo e a história, num juízo bom, sereno, bondoso, pacificador... mas, afinal, nada nos pertence!
Uma dúvida, um boato, uma mágoa, uma tristeza, uma lágrima, a saudade, de tantos segundos, momentos e dias, apenas legitimam, e bem, a verdade do coração de quem caminhou por bem e para o bem...
E porque "os dias não são nossos", há que os entregar e confiar ao Senhor do tempo e da eternidade. E confiar, abandonar-se "desesperadamente" para que em nós permaneça a paz e a esperança.
Se duvido, se me custa, se me dói, se «arde» bem cá por dentro, mentiria descaradamente se afirmasse que «não»!
Mas quero, agora ainda mais, com quem aqui no Estoril me ensinou a ser de Deus, com quantos me ensinaram a amar a Igreja, com todos os que me testemunharam a beleza e a força de nos abandonarmos ao Crucificado, experimentar a paz e a fé de quem se sabe «nada» a não ser que quer teimar em caminhar...
Muitos dias teremos ainda em conjunto, em comunhão, à volta do Altar... momentos únicos que poderão ser irrepetíveis se tiverem a marca do amor e da docilidade ao Alto e ao Espírito que se derrama sobre nós... De mãos dadas, de corações erguidos ao Coração de Deus, sejamos ainda mais esta Igreja, esta Comunidade que se sabe e sente de Deus. Um Deus que espanta, que surpreende, que nos prega partidas, mas que nos ama infinitamente...
E se cada noite adormecer a rezar a agradecer tudo e todos quantos Ele colocou na nossa vida e foram e são presença silenciosa, discreta, mas verdadeiramente do Amor que Ele é? E se já hoje os meus últimos pensamentos forem a agradecer os sorrisos e as gargalhadas, os sonhos e as obras, as esperanças e as cumplicidades que nos foram dadas viver?
Amanhã será diferente. Deus não nos desilude nunca; surpreende, mas para nos elevar até Ele. Emaranhados no mundo, morrendo por ser preciso e não porque algo chegou ao fim! Porque o amor, a verdade, os corações cheios, não chegam nunca a experimentar esse fim!

