Quando tudo em nós se precipita
Quando a vida nos desgarra os sentidos
E não espera, ai quem dera
Houvesse um canto pra se ficar
Longe da guerra feroz que nos domina
Se o amor fosse um lugar a salvo
Sem medos, sem fragilidade
Tão bom pudesse o tempo parar
E voltar-se a preencher o vazio
É tão duro aprender que na vida
Nada se repete, nada se promete
E é tudo tão fugaz e tão breve
Tão bom pudesse o tempo parar
E encharcar-me de azul e de longe
Acalmar a raiva aflita da vertigem
Sentir o teu braço e poder ficar
É tudo tão fugaz e tão breve
Como os reflexos da lua no rio
Tudo aquilo que se agarra já fugiu
É tudo tão fugaz e tão breve".
Se eu soubesse cantar, por um bem maior, gritaria com todas as minhas forças as palavras desta canção chamada de «fragilidade».
De facto, e de novo, experimento esta sensação de tudo ser «tão fugaz e tão breve»...
Na verdade, «como os reflexos da lua no rio, tudo aquilo que se agarra já fugiu»...
«É tão duro aprender que na vida, nada se repete, nada se promete e é tudo tão fugaz e tão breve»...
Palavras sábias que falam de vida vivida em verdade, em autenticidade, nessa tão simples mas demasiadas vezes esquecida condição e verdade de que somos sempre e tão somente peregrinos.
E quando somos discípulos de Jesus Cristo mais ainda temos de «gravar» bem no fundo da alma que nada nos pertence, nada permanece, nada se segura, nada se amontoa, que se perpetue a não ser a intimidade e a comunhão com o Senhor.
Por um bem maior, o serviço à Igreja, olho, interpreto, sinto e aceito esta mudança de paróquia; por um bem maior, entrego ansiedades, dúvidas, lágrimas, porquês, mentiras, interpretações erróneas; por um bem maior, a Igreja que eu amo, ofereço todos os abraços recebidos, todo o carinho acolhido, todo o amor que me foi entregue, toda a cumplicidade que comigo foi vivida...
"Talvez pudesse o tempo parar
Quando tudo em nós de precipita
Quando a vida nos desgarra os sentidos
E não espera, ai quem dera
Houvesse um canto pra se ficar
Longe da guerra feroz que nos domina
Se o amor fosse um lugar a salvo
Sem medos, sem fragilidade"
Humanamente apetece dizer isso mesmo: «talvez pudesse o tempo parar..."! Para que nada em nós se precipite, nada em nós nos magoe, nada em nós nos acuse... E longe da guerra feroz que me domina interiormente, encontre no amor à Igreja, nesse bem maior, aquele lugar a salvo, sem medos nem fragilidades que me façam duvidar e retroceder num caminho já andado, numa entrega já oferecida, numa vida já vivida.
Por um bem maior, para que eu dininua e Ele cresça na Igreja que tanto amo, parto! Com um coração carregado de gratidão pelo tudo, pelo tanto, que neste Estoril recebi e dei, simplesmente. Parto, cheio de saudades de gente sã e boa que Deus fez cruzar no meu caminho; parto com a certeza que aceito e perdoo as maldades e incompreensões, a mentiras e calúnias, os boatos e maledicências com que alguns me presentearam porque ainda «velhos do Restelo», porque ainda «idólatras de si mesmos», porque ainda buscadores de prestígios, de honras e glórias que acreditam ser a causa das suas vidas! Creio e rezo para que um dia encontrem a paz. Leigos ou padres, cristãos que são todos, creio e rezo para que o mal que lançaram no caminho de quem apenas queria ser de Deus amando a Igreja, se transfigure em semente de conversão e em serenidade dos seus próprios corações.
Por um bem maior, saibamos todos aceitar a incerteza do amanhã e o desconforto de quem não conhece o caminho! Por um bem maior, a Igreja, queiramos todos olhar a obediência de Cristo que nos revela a verdade maior da vida. Por um bem maior, o amor à Igreja, ousemos remar, sempre mais, para que cheguemos todos à outra margem... a da santidade, conseguida unicamente na imitação de Cristo.
Sim, «talvez pudesse o tempo parar»! Mas pararia também esse objectivo de vida que nos há-de guiar sempre: por um bem maior: a Igreja.
E, "encharcado de azul e de longe" teimar num «hino» que me dá sentido há quase vinte anos: "Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade»; eu vou, Senhor, para fazer a vossa vontade...


