sexta-feira, 13 de maio de 2011

"Um caminho de vida..."

"Eu por ti
acertaria o meu passo ao teu caminhar.
Eu por ti
o teu problema arcaria sobre mim
e abraçaria o horizonte
que trazes dentro do teu olhar.

Eu por ti
buscar-te-ia no mar da tua solidão
Eu por ti
te encontraria no grito dos teus porquês,
não pensando às minhas decisões
e aos meus critérios se falas tu...

Eu por ti, palpitaria pelos teus desejos.
Eu por ti, daria voz às tuas mil razões.

Eu por ti, eu por ti,
perder-me-ia no teu pranto,
cantaria o teu próprio canto...

Eu por ti
faria ecoar no meu peito a voz da tua dor
Eu por ti
suportaria a tua fragilidade
e ancorar-te-ia à minha mão
se fosses arrastado na maré

Eu por ti
faria minha a angústia que vive em ti
Eu por ti
entregaria os meus trunfos à tua mão;
e por ti sentiria a saudade
pelo fragor da terra que deixaste...
Eu por ti...".

Estas são palavras cantadas tantas e tantas vezes em Eucaristias celebradas...
Palavras que denotam, anunciam, uma postura na vida bem diferente daquela que o mundo nos ensina e «obriga»!
Palavras que transportam uma saudade interior pois que significam sonho e realidade em incontáveis corações; palavras que hoje quero dedicar a tantos que ousam viver de acordo com o Evangelho, com a loucura da Cruz, com a radicalidade da Boa-Nova.
Saber, ousar, querer, dar a vida, por esse «tu» que é cada outro!
«Combater o bom combate» da fé em Cristo que nos ensina a lavar os pés, a oferecer a outra face, a enxugar as lágrimas, a tocar, por amor, os «leprosos», os «coxos», os «paralíticos» desta hora...
Fechados dentro de nós, amuralhados dentro de espiritualidades alienantes, escondidos em piedades que desembocam em nadas, onde o «tu» não é o mais importante e decisivo, conseguiremos unicamente o definhar dessa fabulosa aventura denominada Igreja!
Cantando, sonhando e vivendo em função do «tu» a peregrinação própria de cada um de nós, seria tão diferente. O mundo e a Igreja sorririam com o rosto de Cristo, teriam os traços do Ressuscitado/Crucificado...
«Eu por ti...»!
Que estrada ousada e fabulosa erguida diante de nós...

domingo, 8 de maio de 2011

"Deus é assim"!

Olhos impedidos de ver, recconhecer, encontrar Jesus Ressuscitado!
Esta é a realidade narrada no Evangelho de hoje; homens que haviam privado com o Mestre, que O tinham ouvido e visto, que se teriam maravilhado com os Seus gestos e palavras, sinais e milagres; homens, afinal, incapazes de acreditar que em Jesus Crucificado se manifestaria a salvação de todos os homens!
«Homens lentos de espírito» porque, afinal, apesar de discípulos, apesar desse privar com o Senhor, apesar dessa aproximação com Deus, não acreditavam verdadeiramente na Sua missão, palavra, vida!...
Na verdade, ao seu jeito, buscavam um Messias que se conformasse aos seus critérios meramente humanos; anseavam um Salvador que se coadunasse às suas formas deformadas e enviusadas de entender o Reino de Deus; procuravam uma glória e um poder religioso alicerçados na força, na opulência, na majestade, na espectacularidade... porém, Jesus havia escolhido o mistério da Paixão, Morte e Crucificação!
«Esperávamos que fosse Ele quem viria restaurar Israel... mas este é já o terceiro dia..."!
Desilusão, frustração, angústia, tristeza, abandono, nostalgia, não-sentido, eis o que experienciam os corações dos discípulos que privam com Deus mas n'Ele não acreditam verdadeira e profundamente!
Na verdade, quando a Igreja, nós mesmos, teimamos num Deus, numa Salvação, numa Igreja, à nossa imagem e semelhança, conseguimos apenas o «frio» do coração e a tristeza da alma! Sempre que os nossos critérios e vontades humanas ousam prevalecer sobre a forma sempre paradoxal - porque com as marcas e os traços da Cruz - havemos de «desaguar» em espiritualidade e piedade, em religião e crença sem Deus!
O drama dos discípulos de Emáus é o nosso drama! A não aceitação da vontade de Deus, da Sua Palavra, dos Seus caminhos, conseguem demasiadas vezes que andemos nas coisas de Deus sem que Ele esteja presente!
Jesus esclarece os discípulos que para entrar na glória havia de passar pelo mistério da Paixão!
Fugir da Cruz, evitar o lava-pés, desviar a vida do serviço e da disponibilidade, menosprezar a caridade e a generosidade, ocultar o Lado aberto do Senhor, esconder-se da «outra face oferecida» do tocar os leprosos e os coxos, etc., será sempre edificar um grupo, uma elite, um clã, mas jamais a Igreja de Cristo e de Cristo Ressuscitado!
Muitos dos nossos fracassos aconetecem precisamente porque pomos a tónica dos nossos esforços e da nossa fé, da enossa entrega e da nossa disponibilidade em caminhos por onde Deus não passa! A evangelização não pode não comportar em si as marcas da Paixão, os sinais dos cravos, o Lado aberto do Redentor!
Ninguém pode ou consegue, com credibilidade, falar de Jesus sem falar, apresentar e oferecer o único tesouro que a Igreja possui: a Cruz! E nela, Deus Crucificado!
Só esse é o caminho. Só esse pode ser o caminho que leva à vida... apenas dessa forma conseguiremos um olhar desimpedido para reconhecer o verdadeiro Deus!
Porque Deus é assim!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

"Cidade Eterna"

Esta é a ùltima noite na Cidade Eterna; de olhos postos na Basilica de S. Pedro, na janela iluminada do Santo Padre, na imensa foto de João Paulo II ainda exposta na colonata, cruzando-me com as gentes que a cada hora aqui se encontram, rezo o Terço pedindo pela unidade da Igreja, a Jornada Mundial da Juventude, a nossa Paróquia do Estoril, a paz nos nossos corações...
De noite a espiritualidade na Praça de S. Pedro tem um outro "colorido", um outro "sentido", uma outra "serenidade"...
Cada vinda a Roma é sempre a "primeira"; tudo é novo, tudo se quer ver e rever, sentir e tornar a sentir. Pelo coração passam acontecimentos, experiências, pessoas, vidas, histórias, almas...
Pelo pensamento vagueiam ideias, desejos, sonhos, cumplicidades, saudades...
E custa sempre regressar!
Porque, de novo, temos que enfrentar combates e desafios, porque outra vez a tentação da rotina, do stress, da habituação, dos embates que jamais conduzirão a lugar algum! Porque, de novo, havemos de nos revestir da roupagem da cultura e da realidade que nos envolve, das batalhas que travaremos pela primeira vez ou repetidamente...

Em Roma, sabemo-nos perto do "centro", do "eixo", da "unidade" vital da Igreja que sonhamos e pela qual deveriamos dar a vida: a da comunhão, a da simplicidade, a da generosidade, a da entrega, a da disponibilidade, a da verdade...
Uma unidade e comunhão que fogem descaradamente da vida da nossa Igreja local, daquela em que somos os primeiros e principais responsáveis e protagonistas! Uma unidade e comunhão que parece ser algo de acesssório ou banal no nosso peregrinar!
Mas em Roma reconquista-se a coragem e a vontade de se ser sempre mais de Deus e da Sua Igreja.
Em Roma percebemos melhor o quanto, por vezes, nos gastamos e desgastamos em banalidades, em superficialidades, em mediocridades mesmo!

Aqui, na Praça de S. Pedro, de Terço na mão, pedi sobretudo ao Céu que me concedesse o dom desta vontade firme de servir e amar a Igreja como Pedro e Paulo, isto é, sem regatear tempo, vontades, ideias, ideais, que não os do Evangelho; aqui rezei por aqueles que "são meus", pelos quais tenho a tarefa e a missão de apontar o caminho do Céu na experiência da fidelidade à radicalidade do Evangelho.
Aqui, idosos, doentes, adultos, crianças, jovens, entreguei a Deus como se da primeira vez se tratasse; um Céu mais enriquecido com a bem-aventurança daquele homem vestido de branco que percorreu quase o mundo inteiro chamado João Paulo II.
Daqui parto daqui a pouco ao encontro dos homens e mulheres meus irmãos. Com uma missão, um destino, uma tarefa, um objectivo: dar a minha vida. E aqui, na noite da Praça de S. Pedro, altero o refrão do Salmo e canto baixinho: "eu vou, Senhor, para fazer a Vossa vontade"...
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