segunda-feira, 25 de abril de 2011

"Sepulcro vazio e sepulcros cheios"

Na manhã gloriosa e bendita da Páscoa, os discípulos, informados pelas mulheres, correm ao sepulcro e descobrem-no vazio! Aquele que tinham matado, Aquele que haviam intentado calar para sempre, Aquele que incomodava os instalados e adormecidos, a Quem haviam condenado à morte infame de Cruz, tinha Ressuscitado para oferecer a Sua vida e a Sua paz a quantos se haviam decidido a «morrer» com Ele para o «homem-velho» com todos os seus trajes de mentira e opulência, de vaidade e de orgulho, de ciúme e de inveja, de maledicência e apatia, de avareza e auto-suficiência para assumirem as vestes novas da verdade e da reconciliação, da pureza e da disponibilidade, da pobreza e do amor incondicional.
Na manhã gloriosa da Páscoa percebe-se a vitória definitiva da morte nas suas tantas e diversificadas traduções de cada tempo da História; na Páscoa ergue-se, para sempre, a eloquência do Evangelho e morre, para sempre, toda a tentativa de implantação e vitória dos «venenos» cuspidos de dentro de demasiados corações!
Páscoa que será sempre «tarefa inacabada», missão a cumprir, até que todos os corações humanos pulsem ao jeito do Ressuscitado; Páscoa é apelo a que os corações transfigurados em sepulcros ainda cheios de teimosia e «lixo» espiritual, social, existencial, se deixem esvaziar pela força da morte de Cristo e da Sua Ressurreição!
Porque somos livres, podemos ou não, celebrar na verdade a Páscoa de Jesus de Nazaré; podemos sempre optar por entoar «Glórias» e «Aleluias» e permanecer "túmulos caiados de branco por fora e cheios de podridão por dentro"!

Podemos falar, proclamar, pregar, o sepulcro vazio e permenecer sepulcros cheios de ociosidade, de orgulhos vãos, de falsidades e mentiras espiritualizadas!
Podemos rir e sorrir «gritando» a beleza do sepulcro vazio do Senhor e continuar sepulcros cheios de incredulidade da radicalidade e exigência evangélicas, antes predispostos e disponíveis para o fácil, o cómodo, a indiferença, a rotina, a obstinação do coração!

Aos discípulos de Emaús ardia-lhes o coração bem por dentro ao deixarem-se encontrar pelo Divino Peregrino que com eles Se põe a caminho...
A nós urge acontecer esse ardor e esse arder; importa correr, como eles, de regresso a «Jerusalém», à vida verdadeira, à fé consciente, à Páscoa da vida concreta...

De sepulcros cheios de «nada» e de «lixo» é tudo o que o mundo não precisa!
Ousemos «aspirar às coisas do Alto» neste Tempo Pascal que nos é agora dado viver. Seja a fecundidade espiritual própria deste Tempo a ter e revelar os traços da verdade e do empenhamento, da lucidez e da humildade, do bom senso e da gratuidade... para que o mundo creia na força indestrutível do sepulcro vazio do Senhor Jesus...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

"Consolação"

"Senhor, quanta tristeza vejo em Teu olhar
Gostava de Te consolar
Eu sei que sofres tanto sem o meu amor
Senhor eu quero ser melhor

Senhor, às vezes nem me lembro de rezar
Às vezes esqueço-me de Ti
Senhor Tu sofres quando eu não sei amar
Pois Tu sempre pensaste em mim

Amor me dás sempre que venho aqui
Amor que dás sem nunca To pedir
Eu sei que em Ti sempre vou encontrar
Senhor eu quero assim poder amar

E vou tentar e hei-de conseguir
A minha vida vou mudar
Gostava tanto que deixasses de sofrer
Senhor só quero ajudar".

E porque o tempo não pára, eis já a Semana Santa!
Dias especiais para que possamos ser testemunhas de um Amor Maior, sempre insuficientemente escrito, cantado, vivido, rezado!
Dias especiais onde o meu coração apenas se deveria ocupar e preocupar em consolar este Divino Senhor que, cuspido e rejeitado, coroado de espinhos e sangrado por fora e por dentro, carrega a Cruz que me pertence, a Cruz que eu mesmo Lhe construí com a infâmia do meu pecado teimoso e continuado!
«Gostava tanto que deixasses de sofrer», é verdade!
Mas parece tarefa inacabada, missão impossível, sonho irrealizável, mesmo para nós, discípulos do Crucificado! Porque teimamos em pecar! Porque abraçamos o desamor e afastamos o amor do coração! Porque nos deleitamos mais na maledicência do que na beleza da humildade! Porque nos atrai mais a vaidade e o orgulho que o gozo inaudito do despojamento, da entrega e da simplicidade! Porque nos reduzimos a palavras pregadas de um qualquer ambão em detrimento do assumir das palavras que aos demais pregamos! Porque, resumindo, buscamos acima de tudo o reino dos homens mais que o Reino de Deus!
Senhor, na verdade, quanta tristeza nesse Teu olhar puro, carregado de amor?!
Quanta tristeza ao vislumbrares a Tua Igreja submersa em mundanidades e aberrações terrenas esquecendo-se do Céu, da Cruz, da Vida que nos conquistaste com esse Sangue derramado!
Quanta tristeza ao olhares os que se dizem Teus e, afinal, são mentira, são ilusão, são ganância, são escória, são traição, ao Teu Coração de Amor!
Quanta tristeza não sentirás ao perceber que o nosso coração está seduzido pelas «luzes» do mundo, pelos aplausos do mundo, conseguidos a que preço for, pelas glórias passageiras e vãs e rejeitamos o tesouro da eternidade que se ganha na aventura de Te seguir no esforço quotidiano da fidelidade...
Olha, Senhor, do alto dessa Cruz, e fixa antes o Teu olhar nesses corações simples e discretos, pobres e sangrados, puros e misericordiosos que «vagabundeiam» ainda neste mundo e o tornam mais belo, mais ao jeito do Reino que Tu és.
Olha, Senhor Crucificado, a beleza de mãos generosas, de corações puros, de esforços de fidelidade, de lágrimas choradas por amor ao Evangelho, de sedes de incontáveis homens e mulheres que não sossegam enquanto este mundo e a Tua Igreja não oferecerem o perfume bom e definitivo da Páscoa...
E ajuda-nos, Ó Crucificado, a sermos melhores, a conseguirmos um coração apaixonado pela verdade e pela justiça, pela entrega gratuita e pelo serviço humilde. Ajuda-nos, com o poder dessa Cruz redentora, a sermos melhores, a acreditar no triunfo do amor, na vitória da ternura, na omnipotência do coração...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

"Mais fundo..."
  
"Haverá luz
Sugada no escuro?
Será calor

O murmúrio do frio?
Terá amor
O avesso da vida?
Haverá sonhos
No fundo da dor?
Serão gritos
Os cais do silêncio?
Será coragem
A tremura do medo?
Haverá chuva
Que lave este sangue
E deixe que a terra acalme
Devagar
Esquece o medo
Sai do escuro
Abre comportas
Deixa gritar
Vai mais fundo
Persegue o mar
Persegue o mar
Será só
A vertigem do abismo?
Será mordaça
A leveza do pó?
Haverá negro
Sugado na luz?
Haverá longe
Por dentro de nós?
Ando sobre
Uma aresta de gelo
Na vertigem
De um trapézio de fogo
Mas canta-me um pouco
Na tempestade
E deixa que a terra acalme
Devagar
Esquece o medo
Sai do escuro
Abre comportas
Deixa gritar
Vai mais fundo
Persegue o mar
Persegue o mar".

Letra de uma canção que nos recorda a exortação do episódio de «Lázaro» ontem escutado na liturgia; palavras que nos desafiam a «sair do escuro», a «esquecer o medo», a «abrir as comportas», a «perseguir o mar»...
Como o Evangelho nos pedia: «tirai a pedra», «vem para fora»!
Não pode, de facto, ser outro o nosso caminho  nestes dias quase últimos da Quaresma; não pode ser outra a nossa atitude, precisamente, porque nos dizemos cristãos.
A fim de chegarmos e sermos e encarnarmos a Páscoa de Jesus apenas podemos ser estes homens e mulheres que perdem medos e se entregam ao desconhecido, abraçando a aventura da fé, ou seja, as consequências do Amor.
Sair dos túmulos dos medos e apatias que «congelam» vidas e corações, abrindo as comportas desse mesmo santuário (o coração) para, teimosamente, afirmarmos que vivemos, que acreditamos, que somos, o amor.
Sair dos escuros e das noites em que nos deixámos envolver e enfaixar, sair das sombras que nos impedem de espelhar a sério e de verdade o rosto único e belo de Deus revelado na ignomínia e no escândalo de uma Cruz.
Vem daí; vem daí, tu que dizes acreditar; vem daí perseguir o mar da vida verdadeira, procurar o mar da justiça que se vai desvanecendo na história dos homens; vem daí e, no coração das tempestades próprias de quem quer ser de Deus, ousemos ir mais fundo, num combate determinado à ligeireza e à mediocridade, à hipocrisia e ao comodismo, à mentira e aos velhos e novos farisaísmos!
Olhemos o mundo. Olhemos a Igreja?
"Haverá chuva que lave este sangue?"
Haverá corações que combatam os desamores deste tempo?
Sai do escuro, vem para fora, tira a pedra, e exeprimentarás a liberdade verdadeiramente livre: Deus.
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