sexta-feira, 25 de março de 2011

"Fazer a Vossa vontade..."

"Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade"!
Este é o refrão do Salmo da liturgia desta Solenidade da Anunciação do Senhor que hoje mesmo celebramos. Um refrão que, durante o ano litúrgico, é soletrado mais que uma vez; um refrão que faz referência, afinal, ao absoluto e essencial da nossa fé: fazer a vontade de Deus.
Todavia, uma questão havemos de colocar, honestamente, aos nossos corações crentes: vimos mesmo, vivemos a sério, para fazer a vontade de Deus?! Inclusive nas coisas sagradas, espirituais, eclesiais, que já vivemos, nos grupos a que pertencemos, aos movimentos a que damos vida, aos projectos que contam com a nossa entrega, essas realidades espelham, de facto, essa nossa presença e postura de quem procura acima de tudo fazer a vontade de Deus?!

As nossas próprias celebrações eucarísticas, e nelas a nossa presença, o nosso estar, o nosso viver, será que é para fazer a vontade de Deus?!
Quantas vezes a nossa mesquinhez, a nossa fragilidade, o nosso pecado, nos subjuga e nos convence a ser uma Igreja, uma Comunidade, um Cristão, que busca mais a sua vontade, o seu prazer, a sua verdade, a sua forma decidida e imutável de ver as coisas, a fé, o próprio Deus, do que a predispor-se a fazer - contrariando-se a si mesmo tantas vezes - a vontade de Deus?!

Não são raras as vezes em que até vimos à Igreja, até participamos na vida litúrgica, até marcamos presença em determinados projectos comunitários, mas em função de nós mesmos, do nosso endeusamento, da nossa imagem, da nossa personalidade «sublinhada»!
E, no entanto, em plena Quaresma, eis que nos ressurge um programa de santificação, de transfiguração interior; eis que nos é revelado o caminho para a Páscoa verdadeira e autêntica: vir, viver, sentir, falar, desejar, sonhar, trabalhar, servir, em tudo, a vontade de Deus!
Como «ontem», Maria, ousou dizer «Sim» à palavra e vontade que lhe vinha do Alto, bem para lá do seu entendimento, da sua razão, da sua humanidade, «hoje» sou eu, somos nós, os convidados a dar esse «salto na fé» que é a confiança e a entrega sem reservas ao Evangelho que nos fala a apresenta a vontade de Deus a nosso respeito e a respeito do mundo.

Emaranhados nas nossas vontades pessoais, embrulhados nos nossos definitivos pensamentos e decisões, anestesiados em espiritualidades sem vida, sem acção, sem coração, giraremos sobre nós próprios, tonteando o nosso «ego» mas jamais seguindo o caminho da Vida, fruto de quem se predispõe a viver segundo critérios distintos e abissais dos que a moda, a cultura, o tempo, nos apresentam e oferecem!

"Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade"!
Quantos de nós queremos, de verdade, entoar este refrão, este salmo?
Sobre quantos de nós conseguirá Deus hoje encontrar um coração que busca, inquieto e insatisfeito, o cumprimento da Sua vontade?!

Bastava isso.  Apenas isso.  Nada mais do que isso: vir, cada segundo da vida, da nossa pertença à Igreja, vir, viver, para fazer a Sua vontade... e tudo seria tão diferente, tudo seria tão mais belo, tão mais extraordinário, tão mais gratificante.

segunda-feira, 21 de março de 2011

"Até onde te leva o coração"

"Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso"!
Assim começava o trecho do Evangelho deste dia; desta forma sublime advinha sobre nós um desafio único e arrebatador se levado a sério, se escutado com profundidade, se aceite com confiança filial...
Porque quando Jesus desafia à misericordia está a pedir que vivamos do coração, que aceitemos as «consequências» do pulsar desse mesmo coração!

"Hão-de olhar para Aquele que trespassaram..."

Sim, precisávamos reaprender (ou até mesmo aprender) a viver do coração, desse santuário tão belo quanto nobre, donde podem - e devem - brotar os sentimentos que nos fazem ser à imagem e semelhança do próprio Deus.
E, ao mesmo tempo, como tememos o coração! Como aceitamos com muito mais facilidade o mundo da «aparência», da «imagem», da «superficialidade», da «exterioridade»! Como temos medo dos efeitos profundos e bons que o nosso coração é capaz de viver, oferecer, experienciar, sentir!
Ser misericordioso é, de facto, aceitar que se tem coração, que se pode viver do coração, que nos devemos deixar levar pelo coração, mais, imensamente mais, que pela «razão», pelo «parecer bem», de acordo com aquilo que os outros pensam ou possam vir a pensar!
Deixar pulsar o coração que tem gravado em si a força do próprio Espírito de Deus; deixar-se envolver e viver pelos frutos do coração que está enxertado em Deus, mesmo que nos traga alguma dor, ainda que possamos experimentar a dimensão e a carga da Cruz!
Um coração que ama, que ousa a ternura, a compaixão, a delicadeza, a doçura, a simplicidade, a pureza, capaz de combater eficazmente a ira, a inveja, a prepotência, a presunção, frutos venenosos dos corações que têm medo da profundidade do mesmo!
Ser misericordioso é ser alma e coração de Deus.
Escutar, de novo, no preciso dia em que se inicia a Primavera "sede misericordiosos" é ouvir sem medos nem vergonhas o Senhor que caminha para o Calvário dizer-nos: sede coração; vivei do coração; ide até onde o vosso coração vos levar...
Este tempo que é o nosso, esta nossa cultura, o próprio ambiente que nos rodeia, o «ar que respiramos» viciam-nos no medo do amor, do coração, da transparência, da ternura, da afectividade sã e libertadora! Exaltam, ensinam e exploram, como valor supremo e vencedor, a «imagem», o «fingir», o «parecer bem é fundamental»!
Mas, pelos vistos, o Evangelho diz-nos o contrário! A Palavra que acreditamos ser de Deus propõe e promove outra postura na vida, na história, na fé! O coração, como centro e eixo do nosso existir, como caminho de um peregrinar para o Pai...
Havemos de escolher: se seguir rumo a Deus se permanecer às voltas sobre nós mesmos, fechados nas redomas das nossas verdades enganosas, das nossas máscaras que não nos deixam ser nós, das «fachadas» que não deixam que os outros nos vejam e nos encontrem de verdade!

quinta-feira, 17 de março de 2011

"Verdade no Caminho..."

«Não são jejuns como os que fazeis agora que farão ouvir no alto a vossa voz. (…) Será este o jejum que Me agrada no dia em que o homem se mortifica? Curvar a cabeça como um junco, deitar-se sobre saco e cinza: é a isto que chamais jejum e dia agradável ao Senhor? O jejum que Me agrada não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, pôr em liberdade os oprimidos, destruir todos os jugos? Não será repartir o pão com o faminto, dar pousada aos pobres em abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?».

A prática penitencial tão característica neste Tempo da Quaresma corre o risco de ser marcado pela esterilidade! Pela banalidade! Pelo «vazio» e «oco» dos gestos, se não vêem correspondidos com a acção, com o coração, com a alma!
Jejuamos sim, fazemos abstinência, sim, até somos capazes de rezar mais, sim! Mas vivemos mergulhados em tensões e contendas, em discussões e juízos precipitados, em calúnias, mentiras e difamações!
Será o jejum da carne às sextas-feiras da Quaresma aquilo que agrada ao Senhor? Será a abstinência de doces, de tabaco, de vinho, de… de… aquilo que agrada ao Senhor?

Escutemos de novo: O jejum que Me agrada não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, pôr em liberdade os oprimidos, destruir todos os jugos? Não será repartir o pão com o faminto, dar pousada aos pobres em abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?».
Nesta Passagem que somos convidados a fazer temos de ter atenção para não nos perdermos em «sinais» e «pistas» que nos habituámos a ver no caminho mas que desaguam em «coisa nenhuma» a não ser numa piedade estéril, num espiritualismo desencarnado da vida, numa mentira embrulhada de misticismo mas vazia de conteúdos de vida verdadeira!

Há «stops» que temos de ter a coragem de abraçar! Há gestos que temos de ter a ousadia de eliminar no caminho que nos leva à Páscoa, pois que são simplesmente obstáculos ao avançar da viagem que tem como meta a manhã gloriosa da Páscoa. E os gestos penitenciais rotineiros, tradicionalistas, efémeros, podem induzir em erros crassos que podem não ter retorno!
Ainda estamos a tempo de escutar a voz de Deus, como aliás, se torna advertência fecunda e regular na Quaresma: «Hoje se escutardes a voz do Senhor, não fecheis os corações, não fecheis os corações»!
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