"Fazer a Vossa vontade..."
"Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade"!
Este é o refrão do Salmo da liturgia desta Solenidade da Anunciação do Senhor que hoje mesmo celebramos. Um refrão que, durante o ano litúrgico, é soletrado mais que uma vez; um refrão que faz referência, afinal, ao absoluto e essencial da nossa fé: fazer a vontade de Deus.Todavia, uma questão havemos de colocar, honestamente, aos nossos corações crentes: vimos mesmo, vivemos a sério, para fazer a vontade de Deus?! Inclusive nas coisas sagradas, espirituais, eclesiais, que já vivemos, nos grupos a que pertencemos, aos movimentos a que damos vida, aos projectos que contam com a nossa entrega, essas realidades espelham, de facto, essa nossa presença e postura de quem procura acima de tudo fazer a vontade de Deus?!
As nossas próprias celebrações eucarísticas, e nelas a nossa presença, o nosso estar, o nosso viver, será que é para fazer a vontade de Deus?!
Quantas vezes a nossa mesquinhez, a nossa fragilidade, o nosso pecado, nos subjuga e nos convence a ser uma Igreja, uma Comunidade, um Cristão, que busca mais a sua vontade, o seu prazer, a sua verdade, a sua forma decidida e imutável de ver as coisas, a fé, o próprio Deus, do que a predispor-se a fazer - contrariando-se a si mesmo tantas vezes - a vontade de Deus?!
Não são raras as vezes em que até vimos à Igreja, até participamos na vida litúrgica, até marcamos presença em determinados projectos comunitários, mas em função de nós mesmos, do nosso endeusamento, da nossa imagem, da nossa personalidade «sublinhada»!
E, no entanto, em plena Quaresma, eis que nos ressurge um programa de santificação, de transfiguração interior; eis que nos é revelado o caminho para a Páscoa verdadeira e autêntica: vir, viver, sentir, falar, desejar, sonhar, trabalhar, servir, em tudo, a vontade de Deus!
Como «ontem», Maria, ousou dizer «Sim» à palavra e vontade que lhe vinha do Alto, bem para lá do seu entendimento, da sua razão, da sua humanidade, «hoje» sou eu, somos nós, os convidados a dar esse «salto na fé» que é a confiança e a entrega sem reservas ao Evangelho que nos fala a apresenta a vontade de Deus a nosso respeito e a respeito do mundo.
Emaranhados nas nossas vontades pessoais, embrulhados nos nossos definitivos pensamentos e decisões, anestesiados em espiritualidades sem vida, sem acção, sem coração, giraremos sobre nós próprios, tonteando o nosso «ego» mas jamais seguindo o caminho da Vida, fruto de quem se predispõe a viver segundo critérios distintos e abissais dos que a moda, a cultura, o tempo, nos apresentam e oferecem!
"Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade"!
Quantos de nós queremos, de verdade, entoar este refrão, este salmo?
Sobre quantos de nós conseguirá Deus hoje encontrar um coração que busca, inquieto e insatisfeito, o cumprimento da Sua vontade?!
Bastava isso. Apenas isso. Nada mais do que isso: vir, cada segundo da vida, da nossa pertença à Igreja, vir, viver, para fazer a Sua vontade... e tudo seria tão diferente, tudo seria tão mais belo, tão mais extraordinário, tão mais gratificante.
