"Até onde te leva o coração"
"Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso"!
Assim começava o trecho do Evangelho deste dia; desta forma sublime advinha sobre nós um desafio único e arrebatador se levado a sério, se escutado com profundidade, se aceite com confiança filial...
Porque quando Jesus desafia à misericordia está a pedir que vivamos do coração, que aceitemos as «consequências» do pulsar desse mesmo coração!
| "Hão-de olhar para Aquele que trespassaram..." |
Sim, precisávamos reaprender (ou até mesmo aprender) a viver do coração, desse santuário tão belo quanto nobre, donde podem - e devem - brotar os sentimentos que nos fazem ser à imagem e semelhança do próprio Deus.
E, ao mesmo tempo, como tememos o coração! Como aceitamos com muito mais facilidade o mundo da «aparência», da «imagem», da «superficialidade», da «exterioridade»! Como temos medo dos efeitos profundos e bons que o nosso coração é capaz de viver, oferecer, experienciar, sentir!
Ser misericordioso é, de facto, aceitar que se tem coração, que se pode viver do coração, que nos devemos deixar levar pelo coração, mais, imensamente mais, que pela «razão», pelo «parecer bem», de acordo com aquilo que os outros pensam ou possam vir a pensar!
Deixar pulsar o coração que tem gravado em si a força do próprio Espírito de Deus; deixar-se envolver e viver pelos frutos do coração que está enxertado em Deus, mesmo que nos traga alguma dor, ainda que possamos experimentar a dimensão e a carga da Cruz!
Um coração que ama, que ousa a ternura, a compaixão, a delicadeza, a doçura, a simplicidade, a pureza, capaz de combater eficazmente a ira, a inveja, a prepotência, a presunção, frutos venenosos dos corações que têm medo da profundidade do mesmo!
Ser misericordioso é ser alma e coração de Deus.
Escutar, de novo, no preciso dia em que se inicia a Primavera "sede misericordiosos" é ouvir sem medos nem vergonhas o Senhor que caminha para o Calvário dizer-nos: sede coração; vivei do coração; ide até onde o vosso coração vos levar...
Este tempo que é o nosso, esta nossa cultura, o próprio ambiente que nos rodeia, o «ar que respiramos» viciam-nos no medo do amor, do coração, da transparência, da ternura, da afectividade sã e libertadora! Exaltam, ensinam e exploram, como valor supremo e vencedor, a «imagem», o «fingir», o «parecer bem é fundamental»!
Mas, pelos vistos, o Evangelho diz-nos o contrário! A Palavra que acreditamos ser de Deus propõe e promove outra postura na vida, na história, na fé! O coração, como centro e eixo do nosso existir, como caminho de um peregrinar para o Pai...
Havemos de escolher: se seguir rumo a Deus se permanecer às voltas sobre nós mesmos, fechados nas redomas das nossas verdades enganosas, das nossas máscaras que não nos deixam ser nós, das «fachadas» que não deixam que os outros nos vejam e nos encontrem de verdade!

