segunda-feira, 21 de março de 2011

"Até onde te leva o coração"

"Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso"!
Assim começava o trecho do Evangelho deste dia; desta forma sublime advinha sobre nós um desafio único e arrebatador se levado a sério, se escutado com profundidade, se aceite com confiança filial...
Porque quando Jesus desafia à misericordia está a pedir que vivamos do coração, que aceitemos as «consequências» do pulsar desse mesmo coração!

"Hão-de olhar para Aquele que trespassaram..."

Sim, precisávamos reaprender (ou até mesmo aprender) a viver do coração, desse santuário tão belo quanto nobre, donde podem - e devem - brotar os sentimentos que nos fazem ser à imagem e semelhança do próprio Deus.
E, ao mesmo tempo, como tememos o coração! Como aceitamos com muito mais facilidade o mundo da «aparência», da «imagem», da «superficialidade», da «exterioridade»! Como temos medo dos efeitos profundos e bons que o nosso coração é capaz de viver, oferecer, experienciar, sentir!
Ser misericordioso é, de facto, aceitar que se tem coração, que se pode viver do coração, que nos devemos deixar levar pelo coração, mais, imensamente mais, que pela «razão», pelo «parecer bem», de acordo com aquilo que os outros pensam ou possam vir a pensar!
Deixar pulsar o coração que tem gravado em si a força do próprio Espírito de Deus; deixar-se envolver e viver pelos frutos do coração que está enxertado em Deus, mesmo que nos traga alguma dor, ainda que possamos experimentar a dimensão e a carga da Cruz!
Um coração que ama, que ousa a ternura, a compaixão, a delicadeza, a doçura, a simplicidade, a pureza, capaz de combater eficazmente a ira, a inveja, a prepotência, a presunção, frutos venenosos dos corações que têm medo da profundidade do mesmo!
Ser misericordioso é ser alma e coração de Deus.
Escutar, de novo, no preciso dia em que se inicia a Primavera "sede misericordiosos" é ouvir sem medos nem vergonhas o Senhor que caminha para o Calvário dizer-nos: sede coração; vivei do coração; ide até onde o vosso coração vos levar...
Este tempo que é o nosso, esta nossa cultura, o próprio ambiente que nos rodeia, o «ar que respiramos» viciam-nos no medo do amor, do coração, da transparência, da ternura, da afectividade sã e libertadora! Exaltam, ensinam e exploram, como valor supremo e vencedor, a «imagem», o «fingir», o «parecer bem é fundamental»!
Mas, pelos vistos, o Evangelho diz-nos o contrário! A Palavra que acreditamos ser de Deus propõe e promove outra postura na vida, na história, na fé! O coração, como centro e eixo do nosso existir, como caminho de um peregrinar para o Pai...
Havemos de escolher: se seguir rumo a Deus se permanecer às voltas sobre nós mesmos, fechados nas redomas das nossas verdades enganosas, das nossas máscaras que não nos deixam ser nós, das «fachadas» que não deixam que os outros nos vejam e nos encontrem de verdade!

quinta-feira, 17 de março de 2011

"Verdade no Caminho..."

«Não são jejuns como os que fazeis agora que farão ouvir no alto a vossa voz. (…) Será este o jejum que Me agrada no dia em que o homem se mortifica? Curvar a cabeça como um junco, deitar-se sobre saco e cinza: é a isto que chamais jejum e dia agradável ao Senhor? O jejum que Me agrada não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, pôr em liberdade os oprimidos, destruir todos os jugos? Não será repartir o pão com o faminto, dar pousada aos pobres em abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?».

A prática penitencial tão característica neste Tempo da Quaresma corre o risco de ser marcado pela esterilidade! Pela banalidade! Pelo «vazio» e «oco» dos gestos, se não vêem correspondidos com a acção, com o coração, com a alma!
Jejuamos sim, fazemos abstinência, sim, até somos capazes de rezar mais, sim! Mas vivemos mergulhados em tensões e contendas, em discussões e juízos precipitados, em calúnias, mentiras e difamações!
Será o jejum da carne às sextas-feiras da Quaresma aquilo que agrada ao Senhor? Será a abstinência de doces, de tabaco, de vinho, de… de… aquilo que agrada ao Senhor?

Escutemos de novo: O jejum que Me agrada não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, pôr em liberdade os oprimidos, destruir todos os jugos? Não será repartir o pão com o faminto, dar pousada aos pobres em abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?».
Nesta Passagem que somos convidados a fazer temos de ter atenção para não nos perdermos em «sinais» e «pistas» que nos habituámos a ver no caminho mas que desaguam em «coisa nenhuma» a não ser numa piedade estéril, num espiritualismo desencarnado da vida, numa mentira embrulhada de misticismo mas vazia de conteúdos de vida verdadeira!

Há «stops» que temos de ter a coragem de abraçar! Há gestos que temos de ter a ousadia de eliminar no caminho que nos leva à Páscoa, pois que são simplesmente obstáculos ao avançar da viagem que tem como meta a manhã gloriosa da Páscoa. E os gestos penitenciais rotineiros, tradicionalistas, efémeros, podem induzir em erros crassos que podem não ter retorno!
Ainda estamos a tempo de escutar a voz de Deus, como aliás, se torna advertência fecunda e regular na Quaresma: «Hoje se escutardes a voz do Senhor, não fecheis os corações, não fecheis os corações»!

sábado, 12 de março de 2011

"Nada de desculpas..."!

Nós não temos mais desculpas!
Se os gemidos e lamentos, se os apelos e lágrimas, se os silêncios e os desesperos dos nossos irmãos e irmãs já não são suficientes para nos acordarem, então que sejam escutadas as palavras do próprio Jesus: «Foi a Mim»!!!
E estas mesmas palavras têm de fazer «moça», tem de «mexer» com cada um de nós! Porque este é, necessariamente, um dos textos essenciais do Evangelho (ler Mt 25, 37)! Um texto que responde a todas as especulações e esforços para procurar Deus e dizemos não saber onde!
Esta palavra é, verdadeiramente, desconcertante!
Nós, muitas vezes, demasiadas vezes até, preferimos o Senhor dos nossos cânticos e das nossas orações! É, claro mais cómodo!
Graças a Deus que alguns já conseguiram fazer a passagem; que alguns já tomaram e levaram a sério a palavra de Deus; que alguns sabem e vivem a verdadeira Quaresma, o autêntico jejum, a renúncia generosa e fecunda...
Porém, muitos outros, muitos de nós, cristãos de «todos os dias» havemos de redescobrir a força, a carga e a ousadia dessa palavra de Jesus! Temos mesmo que converter ideias, conceitos e preconceitos, hábitos, «tranquilidades» «consciências serenas» para conseguir a beleza e ousadia do inconformismo, da desinstalação, do Evangelho em nós!
Não temos mais desculpas, de facto!
Jesus identifica-se com cada outro, entra em comunhão e unidade com cada coração e, a escolher, a preferir, a chamar de irmãos e de irmãs, abraça os pobres, os nús, os fracos, os doentes, os famintos, os presos, os rejeitados, do mundo e da Igreja!
Para nos ensinar o caminho; para nos «abrir os olhos» demasiadamente tão fechados para a caridade e o serviço, a generosidade e a partilha, a disponibilidade e a verdade, e tão abertos para espiritualismos sem vida nem coração, para piedades tão amorfas, tão desencarnadas da vida real, tão sem alma verdadeira!
Será o jejum de comida, de bebida, que agrada ao Senhor?!
Não será antes o jejum da indiferença e da apatia, dos egoísmos e das vaidades, das sobrancerias e comodismos?! Não será antes o jejum da opulência, da avareza, da «beatice» descontrolada e sem efeitos?!
«Foi a Mim»! «Foi a Mim» que o fizestes - ou deixastes de fazer!
Não, não temos mais desculpas!
Ele, o nosso Deus, aí está, de mão dada, de coração envolvido com o coração de cada um que chora à beira da vida porque escorraçados da nossa religiosidade cega, porque marginalizados pela nossa pressa «espiritualóide»!
Quaresma é esta oportunidade de reconhecer nos crucificados de hoje O Crucificado de sempre!
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